[23: 49 Sexta Feira]

A quatro anos atrás, em uma noite como essa, um garoto recebia uma certa mensagem em suas redes sócias, dentro de seu quarto. Hoje, 4 anos depois, o mesmo garoto recebera uma mensagem parecida. Um instantâneo dejá vu invadiu sua mente ao lê-la, sem o seu consenso.

Ichinose Haruka: Já estou aqui. Você está atrasado como sempre! ¬¬’ 23:48

O mesmo garoto se levantou de sua poltrona de frente para o PC, com uma leve expressão de incomodo. Mas após se levantar, ele notou que estava de pé. Essa ultima frase pode ter soado estranha, mas foi exatamente o que aconteceu. Ele havia se levantado... E ao fazer isso, um espelho ao seu lado direito obrigatoriamente refletiu sua própria imagem diante de seus olhos.

Ele estava pronto... Vestido dos pés aos ombros. De seus tênis, seguia mais acima, uma justa sub-bermuda preta que chegava a ultrapassar um palmo de seus joelhos. Prosseguida por sua bermuda roxa com seu rígido tecido, que parava na altura dos joelhos. A mesma bermuda possuía em suas duas laterais, vindas da cintura, duas alças de cintos escuros que rodeavam seus bolsos. E por ultimo, sua favorita camiseta negra, de mangas a dois dedos de seus cotovelos, uma espaçosa agola também negra levantada, e com sua cruz em forma de Y deitado, que cruzava sua camiseta com seu tom avermelhado.

Essa foi a imagem refletida aos seus olhos ali. Esse era ele... Esse era o Fey.

O que o surpreendeu, foi que antes de seu reflexo expressar um birrento olhar de desconforto, o motivo desse olhar veio devido à sua expressão anterior. No momento em que havia se levantado e se olhado no espelho, Fey notou que... O que o reflexo refletia, além de suas características obvias, era um leve, tranqüilo e orgulhoso sorriso.

Quando se é sempre emburrado, resmungão, desanimado, morto... Um Zumbi... Ele já havia se acostumado com a imagem de si que sempre via no espelho. Sempre a mesma imagem. Mas dessa vez, era diferente. Isso chamou sua atenção, mas quando percebeu cortou o contato visual com seu clone no espelho, birrento.

Fey caminhou lentamente para fora de seu quarto, com as mãos enfiadas nos bolsos enquanto ainda fazia bico, orgulhoso de mais para admitir alguma coisa. Orgulho... Não era essa uma das características de seu ultimo sorriso? Se sentir orgulhoso é algo um tanto diferente de agir orgulhosamente. No caso dele, uma coisa levou à outra. Mas... Por que será que ele se sentia orgulhoso primeiramente? Por que será que ele sorria daquele jeito? Provavelmente, ele sorriu ao ver o seu reflexo. Ao ver si mesmo.

Sim. Provavelmente, ele sentiu orgulho do que viu. Orgulho do que era ali... Orgulho do que se tornou, ou estava se tornando.

Provavelmente.

Ao sair de seu quarto, o Green Tempest passou pelo corredor de sua casa, até atravessar a cozinha e posteriormente a sala também. A casa já se encontrava com as luzes apagadas, já que sua tia e a maioria das pessoas comuns geralmente já estão na cama á essa hora.

No profundo silêncio daquela noite, apenas os passos dele podiam ser ouvidos ao se sobreporem ao chão com seus tênis. Passos esses, que foram justamente ouvidos por uma pessoa. Rin. A mulher saiu de seu quarto, curiosa sobre o que o Fey estaria fazendo fora do quarto em uma hora como essas. Como resultado, ela o encontrou prestes a sair de casa.

— Fey...? Aonde vai? Já é meia noite. – Perguntou ainda anestesiada com o sono.

Mas como era de se esperar... Ele nem mesmo se virou para olhar no rosto dela. Apenas abriu a porta enquanto a ignorava, saiu e a fechou ainda olhando para frente. Após o barulho da porta batendo, a casa internamente escura voltou ao seu perpétuo silêncio, apenas com uma mulher em pé dentro dela, expressivamente frustrada.

*

“Hoje está... Frio.” Um projeto de choque-térmico atingiu o corpo do garoto após sair de sua casa e se deparar com a deserta e escura rua à sua frente. Um raso vento o atravessava, balançando suas roupas e seus cabelos, enquanto o mesmo olhava para o céu cujas estrelas eram ofuscadas pelas nuvens. Uma noite melancólica.

Mas O Quato Chefe da Regashi não sentiria medo de algo como isso. Ele apenas começou a caminhar tranquilamente para seu destino. Conforme caminhava com as mãos nos bolsos naquele ambiente mal iluminado e suspeito, sua confiança era continuamente sobreposta por mais confiança. Mesmo não se importando verdadeiramente sobre as possíveis conseqüências de estar se aventurando pelo mundo á essa hora, era inegável que aquilo poderia ser perigoso para uma pessoa que ele considere “normal”. Seu egocentrismo como sempre presente, o fazia rir de tudo isso. E a frase que provavelmente mais foi repetida dentro de sua mente, mais uma vez falava ali, mesmo que sem ele perceber.

“Eu sou forte.”

De todas as vezes em que essa frase fora dita ou pensada, sua expressão de indiferença e tédio esteve impregnada na grande maioria delas. Por um certo motivo, hoje era diferente. Ele afirmava aquilo tranquila e serene-mente, como se estivesse mais leve do que antes. Como se um peso com arame farpado tivesse sido tirado de cima de suas costas. Visto pelos olhos de alguém de fora, qualquer um afirmaria que ele estava feliz.

Ainda caminhando, ele planeava sobre para onde ia. Sobre quem ele estava indo ver. Haruka. Reunidos todos os elementos de seus pensamentos em diferentes camadas de raciocínio que o faziam agir e existir naquele contexto, contrastavam-se todos eles.

Orgulho próprio do que ele era, auto-confiança por se considerar forte, leveza e tranqüilidade por um certo motivo, Haruka. Tudo isso condensado, subconscientemente o levava a uma palavra chave... “Condição”. Ou talvez também sirva como “Responsabilidade”. Uma troca.

Mas tudo isso estava em uma profunda camada de seu pensar. Uma camada interior à camada geral cujas pessoas conseguem entender e admitir o que estão pensando. Eram como as estruturas que formavam a camada geral. Logo, estruturado por todos esses raciocínios subconscientes, o sentimento mais óbvio que ele sentia naquele momento passou a ser “Preocupação”.

Isso o amolava um pouco, já que estando em sua camada geral, era admissível e entendível por ele o que sentia. Isso o fazia expressar sua birra, mas não o fazia deixar de se importar. Ao cogitar que o presente cenário seria perigoso para alguém que ele não considere forte como ele, de imediato ele notou que alguém que ele conhece estaria sozinha na rua, o esperando. Somando ao fato de que ele se lembrava daquele suspeito carro negro de mais cedo, o fazia se sentir um tanto inquieto.

Apressou um pouco seus passos, enquanto bufava ainda por birra.

*

Na frente do portão de sua antiga escola, lá estava Haruka o esperando sozinha. Ela vestia um suave vestido branco com detalhes e laços azuis, que realçavam suas características ao máximo. Seu cabelo era prendido de uma maneira diferente do que o de costume por seu exclusivo laço vermelho de sempre. Um penteado diferente era formado por isso, lhe dando um toque mais sutil e delicado. Ela estava bem vestida e arrumada... Como se tivesse se preparado para esse momento com todo o seu esforço. Como se estivesse indo a um encontro.

“Como daquela vez... Eu cheguei primeiro que você.” Pensava com um sorriso no rosto. Ela também segurava uma bolsa pela alça com suas duas mãos, de onde ao abri-la tirou um espelho de dentro. Então, ao olhar para os lados e se certificar que não tinha ninguém por perto, ela se olhou no espelho expressando preocupação. Começou a fazer pequenos ajustes nas franjas de seu penteado e a mexer nos laços de suas roupas, um pouco insegura, até respirar fundo e abaixar o objeto. “Preciso me acalmar... Eu já fiz o possível. O importante agora é aproveitar esse momento com ele, e na hora certa, dizer o que sinto.” Concluiu determinada, batendo duas vezes as mãos sobe o rosto, se forçando a mudar de postura.

Não demorou muito para que o Fey chegasse e de longe avistasse ela sozinha ali. A preocupação que o irritava por sentir, se foi quando ele a viu. Mas enquanto algo se ia, outra coisa vinha... O que veio foi um forte dejá vu, como a quatro anos atrás ele havia avistado ela naquele mesmo local. Era quase como se ele a visse como a criança que era, em algum tipo de alucinação passageira. O Green cogitou a hipótese de dar um susto nela, já que ela ainda não o tinha visto, mas nessa mesma hora a garota se virou para o lado em que ele estava e descobriu seu paradeiro. Ao vê-lo, ela abriu um largo sorriso.

Fey se aproximava dela caminhando calmamente, mas por um segundo, quem ela vira se aproximando fora uma imagem familiar... Assim como o Fey, ela também visualizou um dejá vu... Porque por um segundo ela o viu como a criança que ele era.

Os dois enfim haviam se encontrado, um de frente para o outro. E foi nessa hora que o Fey notou o quão diferente ela estava. Aquilo realmente o surpreendeu um pouco, mas ele não sabia como reagir direito. Apenas fingiria não ter notado nada com sua indiferença de sempre, mas ele não esperava pela pergunta que viria.

— Olá! – Saudou ela contente-mente

— Yo. – Ele respondeu modestamente contente também.

— Ehh... Como você acha que estou hoje...? – Perguntou um pouco nervosa, mas sendo absurdamente direta.

“O que?! Que tipo de pergunta foi essa?!” Fey adquiriu uma legitima poker face, sem jeito para responder.

— Como assim...? Do que você está falando...? – Se fazia de bobo, tentando se esquivar da situação. Mas ele não tinha chances contra o quão direta ela podia ser

— Rum... – Ela inchou as bochechas como sempre. – Você acha que... Eu estou bonita?

“... O que diabos... Está acontecendo aqui...?” Se perguntava totalmente bugado, enquanto encarava os nervosos olhos azuis dela, que parecia estar dando muita importância para aquilo.

— ... – Ele olhou para o canto esquerdo cortando o contato com visual, desconfortável. Mas não conseguiu se livrar do olhar dela por muito tempo, porque logo depois deu de cara com seu rosto, que curvou seu corpo até sua cabeça entrar no campo de visão dele, obcecada pela resposta.

— Rum... – Bufava com as bochechas expandidas, ainda esperando a resposta.

— ... – Ele virou seu rosto para o outro lado na mesma hora. Até parecia que tinha se assustado ao ver o rosto dela do nada. Mas a mesma cena se repetiu, dessa vez do outro lado. Ela mais uma vez o encarava com o corpo curvado e estendido para a direita.

— Rum...

“Eu não consigo me livrar dela... Me pagará por isso...”

— Tch... – Ele aceitou que não tinha para onde correr. Só lhe restava responder. – Você... – Iniciou a resposta, um pouco constrangido. Nessa hora os olhos da Haruka ficaram mais profundos ainda. Ela sem dizer nada apenas esperou ansiosa pelo resto da frase. – N-Não está feia... – Assumiu emburrado.

“Está feliz agora...?”

— ... – Nada foi dito da parte dela. Apenas um satisfatório e alegre sorriso se desenhou em seu rosto. “Esse é o seu jeito de dizer que algo está bonito.” – Vamos, Fey. Vamos entrar! – Estimulou mudando de assunto, enquanto o puxava pelo braço para dentro da escola.

— Ta, ta... Não precisa me arrastar...

*

Ambos entraram dentro de sua antiga escola, mas dessa vez tiveram que pular o muro já que a passagem secreta não servia mais para eles... Estavam grandes de mais para passarem por lá.

Ao entrarem no local escuro e deserto, um rápido flashback invadiu a mente dos dois, sobre a primeira vez que entraram ali juntos. A escola não havia mudado quase nada, e isso causou uma imersão muito boa para eles. Os dois não deixaram de sorrir entre si mesmos, pois sabiam que o que sentiam era o mesmo bom sentimento para os dois. Nostalgia.

“Ele está feliz! Eu sabia que trazê-lo aqui o faria bem!” Pensava a garota contemplando o discreto sorriso do zumbi, e o respondendo com um sorriso maior ainda. “Fazê-lo feliz”... Essa sempre foi a prioridade dela.

— Esse lugar me trás boas lembranças. – Comentou ela.

— Sim... Foi aqui onde nos conhecemos.

Quando ouviu isso, Haruka corou avermelhadamente. Isso significava que para ele, o tempo que passaram juntos tinham se tornado boas lembranças. Ela ficou muito alegre ao saber disso.

— Fey... Me siga! – A garota saiu correndo na medida do possível, já que seu vestido a atrapalhava um pouco.

— O que...? Aonde vai...? – Ele não podia fazer outra coisa, que não segui-la.

Os dois atravessavam a escola, aproveitando para observarem cada canto que cruzava com seus olhos. Uma gama de memórias era lançada em suas mentes, causando um pouco de emoção em cada um... A discreta correria continuou até chegarem no fundo do pátio. Foi então que na mesma hora, ao bater o olho, Fey logo de cara entendeu o que ela queria lhe mostrar.

— Aqui era...

— Uhum... Foi aqui onde eu te encontrei. – Confirmou a amiga, orgulhosamente. – Onde nós nos falamos pela primeira vez.

— Eu me lembro... Você não saia do meu pé... – Alfinetou um pouco emburrado.

A Azure Princess riu quando o viu dizer isso. – Eu me lembro de ter dito que ficaria com você, mesmo que não quisesse. – Comentou.

— Tch... Você não mudou nada desde que nos conhecemos. – Resmungou.

— Rum! E você continua resmungão, preguiçoso, briguento, inconsequente, eticetera e eticetera! – Retrucou convencida.

Os dois ficaram calados por um tempo, se encarando como duas crianças birrentas. Mas eles claramente não levaram isso para o pessoal, porque logo depois caíram em risos um da cara do outro. Isso já era algo padrão entre eles... Uma relação realmente tóxica, mas que no fundo os divertia. Uma relação de 5 anos... Eles já conheciam um ao outro, melhor do que qualquer pessoa de fora. Talvez essa fosse a maior definição de “melhor amigo”.

Olhando mais uma vez para o canto isolado onde Fey sempre ficava, eles novamente, por um segundo visualizaram si mesmos ali, como as crianças que eram. Visualizaram o encontro deles mais uma vez...

“Talvez eu realmente não tenha mudado tanto... Mas... Existe algo em que eu realmente mudei. E se eu mudei nesse algo... Foi graças a você. Graças a você me seguindo, mesmo que eu não quisesse.” Imaginava o Green, sorrindo conformadamente ao término daquela alucinação coletiva.

— Vamos entrar? Está frio aqui. – Sugeriu ela.

— Certo.

Eles então começaram a fazer o caminho de volta, cruzando o pátio de fora novamente. Ali eles puderam ver brinquedos como escorregadores, balanços e outras coisas. Ao passar por eles, os dois amigos se lembravam do tempo que brincavam juntos ali junto com Reiko e Seiji. Mais uma alucinação coletiva acontecia, possibilitando-os de ver as quatro crianças interagindo juntas sobe os brinquedos, mesmo que a criança que o Fey era, pra variar não estivesse de bom humor.

*

— Que horas são? – Se perguntava Fey. Os dois já estavam na parte interna da escola.

Haruka abriu sua bolsa e pegou seu celular para ver.

— São 00:30

— A chuva... Geralmente acontece lá pras três da manhã. O que vamos fazer até lá?

— Hihi! Eu já previ que isso aconteceria, então trousse algo para matarmos no tempo. – Anunciou.

— E o que seria? – Perguntou o zumbi, mesmo já sabendo a resposta.

— Quebra-Cabeças! – Foi o que ela respondeu, espontânea.

— Buff! – Ele se segurou para não rir.

— Rum... O que você tem contra meus quebra-cabeças? – Questionou revoltada.

— Nada não... Eles salvaram a noite. – Disse com ironia.

E logo após essa frase ser dita, os dois receberam mais um dejá vu. Tinham sido as mesmas falas de 4 anos atrás. Nessa hora, ao verem as expressões um do outro, os dois sorriram entre si, por entenderem o que estava se passando ali. Ambos sabiam o quão mágico estava sendo aquela noite.

Duas crianças, no meio da escura escola, montavam quebra-cabeças sentados no chão. Não eram tão crianças assim... Mas era como eles se viam, vivenciavam o passado por via de miragens logicamente inválidas. Talvez seja por isso que aquela noite estava sendo mágica... Seus subconscientes estavam fora de controle. Eles não entendiam o que estava acontecendo, mas aquilo os fazia bem.

Sem dizerem nada, os dois continuavam trabalhando juntos para finalizarem aquilo. Mas se suas bocas não produziam sons, suas mentes tomaram essa responsabilidade.

“Quebra cabeças... Quantas vezes já montamos eles juntos? Ou melhor... Quantas vezes você já me obrigou a montar...?” Refletia o garoto, um pouco emburrado por esse ultimo raciocínio. “Muitas vezes... Em 5 anos de amizade, nós montamos quebra-cabeças muitas vezes.” Ele soltou um tranqüilo sorriso após esse, enquanto encaixava uma peça.

“Eu me lembro da primeira vez que fizemos isso aqui... Por ficarmos muito tempo calados, você acabava tendo tempo para pensar sobre você.” Eram os pensamentos da Haruka. “E após tanto te observar, eu notei que sempre que você ficava quieto, sem precisar dar atenção para ninguém ou interagir, você ficava triste... Sua expressão mudava sempre que tinha tempo para pensar sobre você ou sobre sua vida. E por esse motivo, eu não podia te deixar em paz nunca. Mas hoje eu percebo...” Ela olhou bem para o concentrado rosto do Green, que olhava para o tabuleiro enquanto viajava em seus pensamentos, com uma feliz expressão. “Você não precisa mais que eu te impeça de pensar... Seja quais forem os seus pensamentos, eles não te fazem mais tão mal assim. Você está se tornando alguém feliz.” Entendeu, sorrindo orgulhosamente. Era isso o que ela mais queria... Mudá-lo e fazê-lo alguém feliz. Ela nunca se sentiu tão feliz como estava se sentindo nesse momento.

“Ainda me lembro de quando fizemos isso a quatro anos atrás, aqui dentro. Eu te perguntei o motivo de você gostar tanto de quebra-cabeças, e você me respondeu que... ‘Era como se você organizasse os seus sentimentos’.” Ele tentara colocar uma peça em um espaço, mas não obteve sucesso. “...O que eu estou fazendo...? Isto está certo...? Por que eu me sinto tão bem fazendo isso...? O que foi que mudou de lá pra cá...?” Ao se perguntar, a resposta lhe veio imediatamente, por meio de uma imagem. Uma mesa. Uma mensagem. “ ‘Mesmo que se importe apenas com seu próprio mundo... Acho que deveria tentar adicionar pessoas nele...’ Foi isso o que mudou... Adicionar pessoas ao meu mundo... Ao fazer isso, os pensamentos que me torturavam se foram em um instante. Na verdade, foi mais do que isso... Eu não só deixei de pensar neles, como também passei a me sentir mais orgulhoso. No entanto, eu sei que... Isso não é de graça. Existe uma condição.”

— Finish! – Proferiu ela ao terminarem o quebra-cabeças, interrompendo um pouco os pensamentos dele, que olhou para ela pensativo.

“Sendo por você... Será que vale a pena?” Concluiu com um conformado sorriso, após organizar seus sentimentos.

— Horas? – Perguntou pela segunda vez.

— Hum. São 00:40.

— Faltam duas horas... Nós fizemos isso rápido demais.

— Hihi! Já somos mestres nisso.

— Bom, eu acho que sei o que você quer fazer agora... – Deduziu preguiçosamente.

— É claro que sabe. O que estamos esperando? Vamos logo! – Ela se levantou e ele fez o mesmo. Então, os dois caminharam juntos em direção à quadra.

*

Simultaneamente em um local não tão distante, os dois mais poderosos da Regashi caminhavam juntos pelas ruas escuras, de mãos dadas. Issa e Kaori, vestindo roupas próprias, entraram em uma pequena loja para comprarem algo. Dentro da loja não tinham muitas pessoas, apenas o balconista e um indivíduo em uma das quatro prateleiras, pegando algo para comprar. Este possuía características, como excesso de massa e pigmentação escura. Sua face injuriada e aborrecida falava juntamente com seu corpo grande e mal vestido, não causando uma boa primeira impressão a ninguém. Os dois foram até a prateleira do fundo direito, onde do outro lado dela se encontrava o homem.

— Hmmm, vejamos... Vamos pegar isso, isso, e acho que também quero isso. – Dizia distraído, escolhendo vários tipos de sacos de salgados, doces e mais atrás dele em um freezer bebidas também.

— Ei, se segure um pouco. Eu não vou consumir tudo isso. – Entoou a garota, incomodada com o exagero dele.

— Relaxa, eu dou conta de tudo se você não quiser. – Respondeu um pouco risonho, tranqüilo como sempre.

Tanto eles quanto o homem do outro lado da prateleira, não sabiam quem era um ao outro. Ou melhor, apenas Kaori e issa não sabiam... O homem sabia quem era o Kaori, mas não que o Kaori era o rapaz que se encontrava do outro lado. Sem poder visualizar a imagem dele, nem passou pela cabeça do homem que aquela voz era a do Kaori. Entretanto, o homem travou seus ossos em pé quando ouviu o próximo comentário da Issa.

— Bem que a Haruka disse... Você é mesmo um inconscequente. – Comentou desapontada. – Já parou pra pensar que isso tudo pode te fazer mal?

“Haruka...? Não pode ser...” Pensou o indivíduo, arrombando os ouvidos para ouvir bem tudo o que vinha do outro lado.

Kaori soltou alguns risos desafiadores. – Se acha que vai me fazer mal, então me ajude a consumir tudo, e fim do problema. – Refutou bem humoradamente. Issa contorceu as sobrancelhas de insatisfação sobre a resposta dele. – Sobre a Haruka... Ela não pode me chamar de inconseqüente, ficando dentro de uma escola vazia e escura a uma hora dessas.

— Escola...? Fala da Regashi? – Questionava confusa, até se lembrar de algo a 4 anos atrás. – Ah, espera... Ela está fazendo aquilo de novo? – Perguntou um pouco surpresa e animada.

— Sim... Está em sua antiga escola. Aquele presinho perto da nossa casa. – Repontou bufando ressentido.

— A julgar pela sua expressão, você ainda não se esqueceu do pânico que foi quando ela sumiu a 4 anos atrás para fazer isso. – Disse zombando de sua injuria. – Você e seus pais ficaram loucos atrás dela.

— Rum... Mas eu me lembro que você também ficou, e não parou de procurar sem descansar nem um pouco até nós acharmos ela na manhã do outro dia. – Alfinetou também.

— E-Eu fiquei tão preocupada assim? – Ela ficou um pouco sem jeito ao ouvir isso.

— Sim, sim. Ficou quase tanto quanto nós.

...

Issa após esse pequeno diálogo, sorriu placidamente olhando para o chão, como se estivesse pensando em algo.

— Ela é uma boa garota... – Declarou um pouco orgulhosa. – Cuide bem dela, ouviu?

— Você quem manda... My Queen. – Brincou sentindo o mesmo orgulho que sua colega.

*

Na quadra da escola, duas crianças outra vez brincavam. A brincadeira da vez era “Chute ao Gol”, onde eles disputavam para ver quem seria o primeiro a chutar.

— Jo!²

— Ken!²

— Po!²

Pelas regras do jogo, papel embrulha pedra. Isso significava que o Fey pela segunda vez tinha vencido ela nisso. Ele não deixou de rir um tanto arrogantemente. Quando se trata de competição, seja qual for, ele se torna um temível oponente.

— Rum... Você previu que eu colocaria pedra? – Perguntou obstinada.

— Não pensei que isso funcionaria, mas funcionou... – Dizia com confiança. – Me lembrei que na primeira vez que jogamos isso aqui, eu te venci com tesoura. Então, achei que se você se lembrasse disso colocaria pedra.

— Ah! Foi exatamente o que eu pensei!

— Eu já disse... Eu sou forte. O melhor em tudo o que me interessa. – Continuou falando esnobemente, egocêntrico como sempre.

— Rum! Isso não significa nada. O jogo apenas começou! – Retrucou empolgada. Ela não se oprimia por esse jeito dele... Isso porque pra ela, vencendo ou perdendo, tudo isso a divertia.

[5 minutos depois]

— Como eu disse... – Dizia o zumbi, expressando estar contente.

— Ok, ok, você venceu. – Murmurava a garota. Ela havia como da outra vez, perdido de 5 a 0! Sobretudo, como o de costume, ela estava feliz ao ver aquele leve sorriso escapando da boca de seu amigo.

— Bom... Aposto que ainda está cedo demais para voltarmos lá pra dentro. – Comentou.

— É claro que está. Ainda temos que brincar nas outras coisas.

— Quer perder mais? – Ele a provocou com um sorriso desafiador.

— Prepare-se, porque agora eu estou séria! – Ela aceitou o desafio com uma empolgação a altura da confiança dele.

Isso acabou o animando mais ainda. A empolgação dela o contagiou, fazendo com que seu instinto competitivo se libertasse uma vez. Um sorriso assustador, acompanhado de uma verde aura imaginária que transbordava de seu corpo se manifestara ali, assustando Haruka e a fazendo se arrepender de ter despertado toda a animação dele.

— Venha... – Proferiu com presença. Era como um monstro... Um monstro competitivo. Mas ela não se renderia. Não seria divertido se fizesse isso.

Então, as duas crianças começaram a jogar todo tipo de jogo, enquanto se viam como a quatro anos atrás... Pula-Corda, Amarelinha, Vivo-Morto, Pega-Pega, Queimada, Bolinha de Gude, Baralho, Corrida, Basquete, entre muitos outros. Eles jogavam com entusiasmo, sorrindo entre si a cada momento... A cada movimento, a cada ofegada, a cada batimento cardíaco... Algo dentro deles esquentava. Aquela noite sem dúvidas estava sendo a mais especial de todas... Uma noite realmente divertida e mágica, como eles a muito tempo não viviam. E tudo isso, só tinha sido possível por terem um ao outro, ali. Não, era mais do que isso... Não se tratava apenas daquela noite... Naquele momento, eles começaram a entender, a real importância que o outro tivera em suas vidas. Isso porque ao cogitarem nunca terem se conhecido... A maior certeza de seus corações, era a de que eles não seriam nem metade do que foram felizes juntos durante todos esses anos... E tudo isso mexia com seus interiores.

“Você...” Pensou ele, surpreso e um tanto desconfortável com o que sentia.

“Eu... Te amo... Te amo...” Pensou ela toda vermelha, ainda competindo com ele enquanto sorria.

As duas crianças continuaram jogando juntas, até não poderem mais.

*

“Hoje foi... Uma noite diferente” Pensava o garoto, voltando para dentro da escola junto da outra. Ambos estavam cansados de tanto terem jogado. Um cansaço gratificante... “Será que... Isso está mesmo certo? Será que... Tudo bem isso continuar?”

A especial noite deles estava inevitavelmente, se aproximando do fim... Mas dela eles estavam a ponto de tirarem algo muito importante. Algo para a vida toda...

“É agora... Hora de te dizer o que eu sinto. O que eu passei a sentir, desde que nos encontramos aqui a primeira vez.” Planejava a garota, enquanto caminhava ansiosa e nervosa. Seu rosto avermelhado nem mesmo se virava mais, ela olhava travadamente para frente, sem forças para encarar ele até então.

Chegando no pátio interno, os dois mais uma vez arrastavam os enormes puffs para se sentarem enquanto esperariam a chuva de meteoritos pela abertura retangular no teto que tinha bem em cima deles. Nenhum deles dizia nada... Isso porque seus pensamentos exigiam 100% de suas atenções. Pensamentos esses, que definiriam seus destinos...

“Vamos... Decida-se de uma vez... Você aceitará esse fardo? Tudo bem em fazer isso...? Decida-se, decida-se, decida-se.” Fey se perguntava a mesma coisa seguidamente, um pouco irritado com a situação.

“Vamos... Diga logo a ele... Você vai deixar a chance passar? Você esperou esse dia por muito tempo... Apenas diga, diga, diga!” Ela se forçava a abrir a boca, torcendo para que seus batimentos não fossem ouvidos por ele.

Ao meditarem sobre a significância um do outro como parâmetro para largarem suas indecisões, literalmente toda a vida que eles tiveram juntos foi lembrada por eles, cena após cena, todas passando pelas suas cabeças, emocionando Haruka e fazendo o Fey cortar o contato visual, expressivamente birrento. Teriam sido todas essas memórias, todos esses sentimentos, toda essa história, a peça final para que deixassem as inseguranças de uma vez...? De qualquer forma, sejam quais forem as respostas, seriam reveladas por seus próximos atos.

Haruka freou seus passos, em silêncio. Ao fazer isso, Fey também parou de andar, confuso.

...

— E-Ei Fey... Preciso te dizer algo. – Essa tinha sido sua resposta... Ela largou sua indecisão...

Entretanto... Sua frase foi interrompida, por contínuos e ecoante-mente leves, sons. Eram sons de passos... Uma interferência vinda de fora. Um intruso... Os dois olharam confusos na direção de onde vinham os sons, até que do escuro, uma figura pôde ser vista. Era um homem, mal vestido, gordo e de etnia negra.

Ao mesmo tempo, alguém ainda precisava se decidir.

Uma das injustiças da vida, talvez seja o fato de que sempre que acordamos, não sabemos o que o dia nos guarda. Não sabemos o destino que nos espera... As pessoas apenas vivem, e essa ação de viver, gera reações que afetam tudo a sua volta. E assim elas vão... Até que um dia, se chocam contra o destino... Se chocam contra uma reação da realidade. Afinal, nós não somos os únicos que vivem nesse mundo. Se a ação de viver causa reações, causa mudanças e influencia em tudo a sua volta, inclusive na vida dos outros, nós não estamos imunes de termos o destino de nossas vidas influenciadas pelas ações de outra pessoa. Basicamente, é um conflito... Uma luta. Todos querem ser felizes, é pra isso que vivem... Logo, agindo e reagindo, nós tentamos mudar a realidade para que nos favoreça, não se importando se essas mudanças influenciam na vida dos outros. Dito isso e entendido que a definição para isso é “Conflito”, é seguro afirmar que em um conflito, o lado mais sólido e consistente é aquele que se prevalece. Em outras palavras... O mais forte. Os mais fortes são aqueles que mais causam mudanças a seu favor, e que menos sofrem pelas mudanças impostas por outros indivíduos. Seria isso o mundo...?

Ao mesmo tempo, alguém ainda precisava se decidir.

E foi ao ver a arma de fogo apontada para Haruka nas mãos daquele enfurecido indivíduo, que em uma fração de segundo, nada mais importava. O barulho do tiro ecoou pela vazia escola, perturbando o admirável silêncio daquela que estava sendo uma noite especial.

...

Sangue escorria no solo, diretamente do corpo de Fey. Haruka caída no chão, não tinha reação... Tudo tinha sido tão repentino que ela ainda não havia processado. Fey havia abusado de seus limites corporais ao máximo, se movendo na direção dela e a empurrando para protegê-la da bala.

Quando a ficha caiu para ela, seus olhos se arregalaram e seu coração apertou... Ela instintivamente abriu a boca para falar, em pânico, mas foi interrompida pelo também instintivo ato dele, com todas as forças.

— FUJA DAQUI! – Ordenou se segurando para ficar de pé. O tiro havia atingido sua cintura, onde ele prensava as duas mãos.

Apenas três segundos haviam se passado desde o tiro... Esse foi o tempo que o intruso levou para também cogitar o que havia acontecido. E isso o deixou duas vezes mais furioso... Ele sem hesitar mirou o revolver novamente para Haruka, e disparou com vontade.

...

Mais sangue escorria, dessa vez do joelho do Green. E Haruka ainda no chão, um pouco mais distante. Fey havia se movido mais uma vez, chutando ela para longe para salvá-la do tiro. Sem esperar mais nenhum milésimo ele instintivamente gritou de novo...

— SUMA LOGO DAQUI!!! IDIOTA!!! ELE QUER TE MATAR!!! – Berrou cambaleando com a dor que sentia em seu joelho...

Essas palavras adentraram dentro do sub-consciente dela, como as balas que ela por pouco não havia recebido. Algo ficou mais do que claro para seu extremo instinto de ser humano... A vida dela estava sendo ameaçada. Isso somado ao fato do trauma e medo, e pela pressão dos gritos dele, ela sem pensar se levantou, e saiu correndo com todas as suas forças, enquanto gritava e chorava aos prantos...

Com os dentes serrados a ponto de quase se quebrarem, o agressor mais uma vez mirou para ela e atirou... Seu primeiro tiro atingiu o braço dela enquanto ainda corria, dando para ver de longe o sangue sendo espirrado, junto com seu grito de dor. Mas ela não parou de correr... Seu sangue estava quente, seus limites como ser humano estavam quebrados.

Mais tiros foram disparados... Mas dessa vez, e mais uma vez, ele interceptou usando seu corpo como escudo. Os dois tiros atingiram seus ombros e braços, o fazendo cair de costas no chão. Entretanto, ele havia conseguido... Isso tinha sido tempo o suficiente para que Haruka sumisse do campo de visão deles, provavelmente já estando no portão da escola. Nessa hora, o indivíduo saiu correndo enquanto expressava completa fúria, com a intenção de alcançá-la. Mas ele se surpreendeu quando por algum motivo não conseguia mais se mover... Foi quando olhou para baixo que ele pôde ver, segurando seu pé esquerdo, estava Fey jogado no chão. Com um enraivecido chute em seu corpo, o homem o fez rolar um pouco para longe, mas já era tarde de mais... Haruka já havia saído da escola.

...

— G-GrrRh!! – O adulto rosnava como um animal descontrolado.

“Preciso me livrar desse cara...” Do outro lado, Fey ainda no chão começava a pensar sobre o que fazer. Agira sem pensar para proteger Haruka a todo custo, então só agora começou a pensar sobre si mesmo. Para ele, não era impossível sair daquela situação... Ele nem sequer cogitava a hipótese de não conseguir sair dela. Não fazia idéia de seu real estado... E foi ao tentar se levantar, que ele percebeu que sair daquela situação não seria assim tão fácil. Seu corpo doía como nunca doeu antes... O ferimento em sua cintura e ombro o desequilibrava, e o de seu joelho não o deixava mais usá-lo como apoio para se levantar. Seu braço direito não se movia pelo tiro que também havia recebido, e pra piorar, o sangue não parava de ser derramado de seu corpo... Ele estava agachado no chão... Se esforçando para ficar de pé.

“Ei, ei...O que está acontecendo aqui...?” Se perguntava ele, sem acreditar que se encontrava tão debilitado.

Assim como todos os seres possuem seus próprios mundos, eles também possuem suas próprias histórias. E em uma dessas histórias, é contada a vida de um indivíduo frustrado, que havia perdido tudo o que tinha. Viveu sendo rebaixado por suas características a vida inteira, e quando cresceu, foi vitima das reações à sua volta. Como tentativa de recuperar sua auto-estima, esse indivíduo fez más escolhas e se envolveu com pessoas erradas... Pessoas essas que ficaram contra ele mais tarde, o cobrando uma dívida alta de mais, cuja se não fosse paga, ele pagaria com a própria vida. Essa é a história de um dos considerados “fracos”, que não conseguiram reagir a altura das influencias causadas pelos outros indivíduos ao seu redor. Como conseqüência, ele obviamente se tornou um ser infeliz. Sua vida estava com os dias contados... Até que ele encontrou uma oportunidade. Um trabalho... Um assassinato. O pagariam o que sua vida devia, se ele matasse uma garota. Sem hesitar ele aceitou... E não demorou muito para que ele a encontrasse, e esperasse pela hora certa de fazer o que lhe foi pedido. Ou será que não? Também é contado nessa história, algo sobre a personalidade desse indivíduo. Ele era um covarde. Esperar a hora certa era só uma desculpa para que ele adiasse de fazer aquilo que ele chegava a tremer sempre que se aproximava da garota com o garro que lhe foi emprestado. É cabível entender que alguém covarde, não tentaria algo tão arriscado quando seu alvo estivesse acompanhado de outras pessoas, principalmente pessoas cujas informações foram dadas a ele pela pessoa que lhe contratou. Fey e Kaori... Ele sabia que eles eram fortes. Sabia que algo daria errado se tentasse matá-la com eles por perto. E isso o tirava do sério, ele não conseguia realizar o trabalho por culpa desses dois que sempre estavam presentes. Entretanto essa noite, ele ouviu algo interessante quando estava dentro de uma loja. Era o Kaori... Ele não estava perto da Haruka, e ainda por cima, havia revelado a localização dela, em um local perfeito para que ele a executasse. Ele não podia deixar passar essa chance. Mas assim que entrou no local, se deparou com ninguém menos que o Fey. A partir desse momento, era tarde demais... Ele não podia mais voltar atrás. Descontrolado, o homem tentou matá-la com todas as forças... Mas não conseguiu. Como temia, algo deu errado. E isso era tudo culpa do Fey.

Simplesmente, ele havia fracassado. Haruka já havia fugido e com toda a certeza informaria isso ao Kaori. Ele não conseguiria mais matá-la... Perdeu a única chance que tinha. Mas era mais do que isso. Fracassar nunca foi uma opção... Fracassar era o mesmo que morrer. Sim, ele agora já sabia... Ele iria morrer por não poder pagar a dívida. Esse era o motivo de toda a sua fúria desde o começo e até agora. Ele sentia extremo ódio de seu azar, do mundo, do Fey... Então, sozinho com o garoto naquele local escuro, nada mais importava. Ele o mataria... Descontaria toda a frustração de sua vida inteira na pessoa que estava a sua frente.

— VOCÊ...! – Dizia com todo o seu desprezo. – MORRA!! – E ele atirou mais uma vez, contra o debilitado corpo do garoto...

O tiro atingiu a coxa de sua outra perna boa, o derrubando novamente. Ao gritar de dor, Fey não tinha mais nenhum problema para enxergar sua real situação... Mais feliz ele seria se fosse mais ignorante do que realista. Mas ele não queria acreditar nisso... Isso não era sequer cogitado. Seu egocentrismo não o deixava aceitar... E isso o irritava muito.

“Isso é sério...? Até parece... Conta outra! Eu não vou morrer! Não aqui!” Pensava completamente irritado, forçando para si mesmo que aquilo não era nada, e que ele sairia daquela situação. Mas ao tentar se levantar... Ele não conseguia... Isso desequilibrou sua já escassa estabilidade mental. Sua morte parecia cada vez mais certa... A cada tiro que recebia.

— MORRA!! – Mais um foi dado, dessa vez em seu peito...

“O que...? Ei... Ei... Ei...! Como assim?! O que está acontecendo?! Isso é sério?!” Tentava entender, mas não conseguia. Ele não queria entender... Só queria sair dali. Mas tudo piorou com o próximo tiro...

— MORRA!!!

“Eu não vou morrer pra esse cara!! Esse fracassado desconhecido não vai me matar!! Gordo nojento!! Negro de merda!!” Ele se sentia extremamente frustrado e humilhado por estar passando por aquilo por causa de alguém que ele considerava tão inferior. “Eu sou mais forte do que isso!!! Eu sou forte!!! Eu sou forte!!! Eu sou forte!!! Eu sou forte!!!” Lagrimas começaram a escorrer de seus olhos... Até que...

— MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! – Eram os tiros que ele recebia, jogado no chão... Isso esmigalhou totalmente as suas esperanças, junto com todo o seu egocentrismo. Ele enfim entendeu e aceitou... Iria morrer.

...

“É isso...? Eu vou morrer...?” Refletindo em milésimos de segundos, Fey visualizou... Provavelmente sua ultima alucinação. E nela ele pôde ver... Toda a sua vida. Todos os acontecimentos, desde sua traumática infância, todas as pessoas que conheceu, até o atual momento... E desse filme ele tirou uma moral. Ao re-assistir sua trágica vida, Fey não tinha dúvidas... Ele foi infeliz. Foi sempre a mesma coisa... Todas as vezes... Sempre que ele sentiu que estava no caminho certo, o mundo destruiu totalmente tudo em que ele acreditava. O único ideal que não foi refutado foi aquele que ele seguiu por tantos anos... Todos se importam com seus próprios mundos. Vendo o seu atual fim, ele não tinha dúvidas de que esse era o caminho certo, e se arrependia com todas as forças por deixar de segui-lo... Entretanto, até mesmo isso o irritava. Um mundo onde ele era obrigado a ser assim, mesmo que pra ele fosse a única forma de ser feliz, não o fazia deixar de odiá-lo. Em seus últimos pensamentos, enquanto era cruelmente assassinado por um ser que ele considerava desprezível, não tinha nada mais satisfatório do que o mais individualista egoísmo já expressado por seu ser.

“Eu odeio esse mundo!! Eu odeio todos vocês!! Seus vermes insignificantes!! Eu os amaldiçoou!! Desejo que sofram até o fim de suas medíocres vidas!! Desejos que todos morram!!”

— MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! — MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! MORRA!!!! – Continuava berrando descontroladamente, insanguentando o corpo do garoto totalmente, também usufruindo do mais deleitoso egoísmo.

— morra você também... – Sussurrou em voz baixa... Com seu ultimo fôlego.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.