Fetiche
3 Lauren Nascimento
Notas iniciais
Ela olhou o mar a sua frente e sentiu a brisa passar pelo seu corpo. Era realmente gostoso passar um tempo assim. Acalmava a mente, fazia aquele turbilhão de pensamentos diminuir.
Realmente relaxava.
Ela estava numa cidade pequena, pouco visitada turisticamente, na verdade, pouco visitada de qualquer forma. Ali só tinha os locais e a paz do mar. Era um vilarejo realmente muito agradável.
Sentiu uma pessoa atrás si. Não olhou pra ver quem era. Apenas continuou olhando o mar calmo que acalmava seus pensamentos.
— Não podemos ficar aqui pra sempre? – ela perguntou monotonamente
—Quer fugir de novo? – o outro respondeu no mesmo tom
A vontade de fugir sempre estava lá. Ela nunca soube o porquê: tinha a vida dos sonhos de muita gente, tinha a vida que ela mesmo queria. Só que a vontade de fugir daquela vida ainda estava lá. A vontade de não precisar encarar todos os seus afazeres, a vontade de sair de si mesmo e se libertar.
Duvidava que as outras garotas do ensino médio se sentiam dessa forma. Mas também duvidava que as outras garotas do ensino médio carregassem o peso que ela mesmo carregava.
—Temos que voltar a rotina quando? – ela perguntou novamente
—Assim que voltarmos dessa viagem. – ela suspirou e o outro continuou – Aparentemente essas são nossas férias relaxantes.
E realmente era relaxante. Ela olhou o mar a sua frente e novamente sentiu a brisa bater em seu corpo. Aquilo realmente era relaxante. Mas não o suficiente, não o suficiente para enfrentar o que precisava assim que voltassem.
— É relaxante, mas estou entediada.
—Teve um dia na sua vida que você não esteve?
Não, não tinha um dia em sua vida que ela não esteve entediada. Sua rotina comum começava muito cedo e terminava muito tarde, quase nunca tinha um descanso. Mas vivia entediada, nada fazia seu coração acelerar.
A não ser mangás e animes. Ela não conseguia cansar de ficar assistindo mangás e animes. Ela torcia pelos personagens, ela vibrava a cada beijo, a cada abraço, a cada soco ou susto. Ela realmente amava esse mundo 2D cheio de fantasia.
Mesmo assim, ela não conseguia viver aquilo. E a falta de algo que fizesse seu coração vibrar na vida real a entediava. Suspirou. Relaxar era legal, mas ela precisava aprender a se divertir. Aprender a se divertir... Divertir... Quando ela tinha se divertido na vida?
—Caio foi buscar algo pra gente comer e me pediu pra te chamar.
—Hum... coxinha? – ela perguntou entediada
—Duvido muito. Talvez um prato de frutos do mar porque estamos na praia – ela fez uma careta, mesmo sabendo que o outro não a veria. – Ele está fazendo o melhor que pode, você sabe.
—Eu sei. – suspirou – Eu sei. – se levantou ainda olhando para o mar – Vamos?
— Ah, seu professor está aqui – Ela virou-se e viu o irmão atrás de si. Atrás dele, na beira da praia, sentado em uma das mesas, estava o professor de física rindo de algo que uma mulher gostosa ao seu lado falava.
Seu professor era até bonitinho, mas ela não gostava dele desde que ouvira sem querer os pais dele mandando ele arranjar uma namorada milionária. Ela nem ligaria pra isso se ele falasse algo refutando a ideia, mas ele ficou calado no fim das contas. Desde então ela apenas o via como um caçador... uma espécie reversa de “Maria milionário”
— Hum... Quer ir lá dar oi pra ele?
—Não, mas achei que você quisesse.
— Porque eu iria querer? – ela perguntou desinteressada
—Para parecer uma menina normal, talvez. – ela levantou uma sobrancelha – Sim, eu sei que você não é normal, mas é meu dever de irmão tentar que você ao menos tente parecer uma.
—Dever de irmão cumprido. E falhado. Agora vamos sentar porque eu quero minhas coxinhas. – ela pegou o braço do irmão e levantou-os – Vamos, Bryan, repete: Coxinha! coxinha! – ela disse no seu tom de voz monótono.
Ele revirou os olhos em resposta e começou a caminhar em direção à mesa.
Bryan era um menino de treze anos, cabelos encaracolados razoavelmente curtos, rosto fino, nariz um pouco mais protuberante que o harmonioso. Mas era um menino lindo na opinião sincera da irmã e de algumas menininhas da sua série. Ele fazia o autêntico badboy, pela forma que se vestia e o jeito indiferente que agia. Só que ele não a enganava, ele era nerd até o talo.
Quando sentaram-se, a primeira coisa que Bryan fez foi ligar o tablete e começar a ignorar o mundo.
—Fala de mim, mas você está com um tablete na praia. Você não é normal também, maninho. – acusou calmamente
—Nunca falei que era – ele disse olhando para a tela.
A praia que eles estavam desde de manhã estava completamente vazia se não contasse um ou outro casal no restaurante a beira mar que estavam. Definitivamente era um lugar sossegado e relaxante.
—Além do mais, eu não lembro de ter movido um dedo pra vir, muito pelo contrário: eu fui bem contra. – ele rabiscou algo em seu tablet
—Pare de reclamar, branquelo. Você tem que pegar um sol às vezes. Faz bem, produz serotonina... – o irmão a olhou com sobrancelha arqueada – Você entendeu...
—Você precisa ser mais técnica, maninha. É por isso que eu ganho sempre. — Ela sorriu para o irmão quietamente, o menino olhou para os lados como se procurasse algo – Cadê o lacaio com nossa comida?
— Para de chamar ele assim, ele odeia – ralhou indiferente, ainda olhando para o mar.
—Se você diz – uma barulho alto foi ouvido – isso foi meu estômago xingando o lacaio.
Ela riu da piada, mas logo eles ficaram em silêncio. O mar continuava indo e vindo de forma calma.
—Está um tanto melancólico, hoje, não acha?
—Está um tanto poética hoje. – ela o olhou – Deveria aproveitar para escrever outro romance, grande NANA. Tenho até a história principal: a princesa se apaixona pelo seu próprio lacaio, mas ele a larga por um prato de frutos do mar e não volta mais. – ela revirou os olhos – E sim, eu sei que você escreve romances. Eu li aquele lá daquele grupo de kpop: — ele pigarreou e começou a recitar– “E então, como um príncipe descendo de seu cavalo, o rapper desceu do palco. Ela colocou as mãos sobre o peito. Era como se não tivesse mais nada além dos dois naquele momento. Ele pegou-a pela mão e aproximou-se do seu ouvido e disse-lhe em um arrepio: Isso é amar.”
—O que é amar? – uma voz atrás de ela fez ambos deram um pulo em suas cadeiras – Que foi gente?
— Trouxe algo pra gente comer?
—Eu, serve? — ele brincou sentando-se em outra cadeira embaixo do guarda-sol – Ia demorar demais se eu ficasse lá esperando, então eu pedi para trazerem aqui. – houve uma pausa — Lauren, você viu que seu professor gato tá aí? Porque você não vai lá olhar ele de calção como uma garota normal?
Ela revirou os olhos cansada desse assunto.
Caio tinha 20 anos, cara de militar com um rosto másculo e quadrado, ele era moreno e quase careca. Tinha um sorriso divertido no rosto sempre. Ele era uma espécie de babá para os dois. Bryan odiava, mas Lauren pouco se importava. Ela também não se importava dele estar só de calção e óculos em sua frente.
— E a comida? – ela desviou o assunto – Cadê minha coxinha? Podia ter trazido uma pra gente ir comendo... – Caio bateu um pouco acima de seu joelho direito.
—Já tem uma aqui. – ele riu de sua piada fazendo Lauren revirar os olhos.
—Sério, eu queria comer alguma fritura... faz tempo que não como. –o mais velho abaixou os óculos e a olhou de cima a baixo analisando o corpo dela. Lauren se encolheu querendo esconder seu corpo dos olhos dele – Que foi?
—Faz bem em não comer fritura... – ele sorriu
—Arranjem um quarto, pelo amor... – reclamou Bryan fazendo um sinal de “xô” para ambos olhando ainda para a tela, mas logo levantou o rosto com um sorriso maldoso nos lábios – Ah, verdade, não dá... Essa BV aí, não faz esse tipo de coisa... – Lauren levantou a sobrancelha e Caio gargalhou frio – Alías, Caio, você está fazendo um ótimo trabalho mantendo todos os rapazes longe da minha irmã. – Me pergunto quando ela vai perder o BV desse jeito.
—De acordo com minhas ordens, quando ela fizer uns 30 anos. – ambos gargalharam de escárnio da menina.
Lauren voltou a olhar o mar irritada.
Se aquelas eram pra ser suas férias relaxantes, ela deveria ter vindo sozinha.
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