O lampião, um senhor na casa dos 82 anos, era um dos poucos ainda vivos que presenciou a queda da humanidade e o surgimento da penumbra. Conhecido pelos moradores da estação ZNP-16A como "Sr. Oswaldo", ele seguia sua rotina noturna com disciplina. Todas as noites, fazia a manutenção das velas da estação, afinal, aquela era uma das mais distantes da Cidade Estacionária, e nos últimos meses, o trem de energia não chegava nos horários certos para manter a luz durante a noite.

Sr. Oswaldo sabia que não podia deixar nenhuma vela se apagar; do contrário, a escuridão que cercava a estação invadiria as casas improvisadas, selando o destino de todos ali. Cada passo era acompanhado por uma pontada aguda no quadril e na lombar. Já havia desejado se aposentar há tempos, mas suas súplicas jamais alcançaram a Cidade Estacionária. Diziam que não podiam ceder um novo lampião para uma estação que gerava tão poucos recursos para a humanidade.

Bobagem, — resmungou em pensamento. — Nossa pequena estação produz os melhores morangos. Os comerciantes da zona norte sempre vêm na época da colheita.

Era assim que os moradores conseguiam dinheiro para comprar comida e sobreviver.

Enquanto ajustava a iluminação do castiçal mais afastado, Sr. Oswaldo se questionou se havia tomado a decisão correta ao mandar o filho estudar na Cidade Estacionária. Estava velho, e a qualquer noite poderia sofrer um ataque cardíaco, deixando os moradores à mercê da escuridão. Poucos tinham resistência às vozes e tentações vindas daquele negrume devorador, algo que parecia passar de geração em geração — não que houvesse muitos cientistas vivos para estudar o motivo.

Após a última ronda, certificando-se de que tudo estava em ordem, um vento frio roçou sua orelha. Ele ficou imóvel, sem perder o decoro, mas aquela sensação... aquela sensação ele só havia experimentado uma vez, quando criança, no início de tudo, setenta e cinco anos atrás.

Seu corpo congelou. A presença atrás dele era real, quase palpável, mas ele não conseguia se virar. Suas mãos tremiam. Na cintura, ele carregava uma velha lanterna, cuja bateria, quase no fim, deveria ser usada apenas em emergências. Naquele mundo de ferro e madeira, tal recurso era raríssimo.

Com dedos trêmulos, Sr. Oswaldo acendeu a lanterna e girou o corpo, erguendo-a à altura do peito, pronto para iluminar o que quer que estivesse atrás dele.

Para sua surpresa — e alívio —, não havia nada ali. Demorou alguns segundos para a adrenalina dissipar-se. Então, ele começou a gargalhar. Levou a mão à testa, tentando acalmar-se.

Estou mesmo ficando velho... a ponto de imaginar coisas... — murmurou, mas a frase morreu em seus lábios.

De repente, sentiu o corpo leve. Leve demais. Parecia ter caído no chão, mas algo estava errado. Por que conseguia ver seus próprios pés?

Lágrimas escorreram pelo rosto quando percebeu a cruel realidade. Sua cabeça já não estava mais conectada ao corpo, e sua vida escapava lentamente. Em quatro segundos, tudo acabou. Mas para Sr. Oswaldo, aqueles quatro segundos se arrastaram como uma noite inteira de arrependimentos.

←→


Já era dia na estação ZNP-16A. Os moradores acordaram aos gritos e prantos, testemunhando uma cena horrível: o homem responsável pela manutenção das luzes noturnas estava decepado no meio da estação. O prefeito, num gesto solene, cobriu o corpo de Sr. Oswaldo, cerrando os punhos diante do peito em sinal de respeito. Ordenou que mulheres e crianças permanecessem dentro das casas, apesar de seu coração se apertar ao pensar que, devido ao toque de recolher das 17h, já estavam confinadas por tempo demais.

Senhor prefeito, a locomotiva com a polícia de ferro está para chegar, — informou Jacob, o secretário.

Certo, obrigado, Jacob. Volte para sua esposa, sei que isso não faz bem para… bem, você entende.

Jacob assentiu e afastou-se, despedindo-se com o mesmo gesto de respeito que o prefeito fizera para o corpo de Sr. Oswaldo.

A locomotiva da polícia de ferro chegou. O som metálico dos trilhos ecoou na estação, mas os rostos dos moradores se encheram de decepção ao perceberem que não era o expresso de energia. Os olhares vazios refletiam o sentimento de abandono. Já não se lembravam da última vez que tomaram um banho quente ou acenderam uma lâmpada à noite.

A locomotiva não era grande, cerca de 16 metros, indicando que oficiais de baixa patente haviam sido enviados para resolver o caso. As janelas de vidro duplo não permitiam ver o interior do veículo; apenas aqueles dentro podiam observar o lado de fora.

Após alguns minutos de suspense, a porta se abriu com um som de vapor quente escapando. Um homem saiu com um quepe inclinado, um cigarro pendendo nos lábios, olhos semiabertos como se tivesse acabado de acordar. Cabelos prateados emolduravam um rosto bonito, aparentando ter cerca de 30 anos. O uniforme negro da polícia de ferro, combinado com uma capa longa, conferia-lhe uma elegância intimidadora.

Atrás dele, uma jovem cadete o acompanhava. Também usava um quepe, mas sua estatura de 1,52 metros a destacava pela baixa estatura. Os cabelos negros, presos em um coque firme, contrastavam fortemente com a figura do homem à frente. O contraste entre os dois era quase cômico.

Bom dia, oficiais. Sou Allan, prefeito desta humilde estação. — apresentou-se o prefeito, esforçando-se para disfarçar o desgosto pela aparente falta de profissionalismo do homem.

Bom dia… como você se chamava mesmo? — perguntou o oficial, coçando a cabeça despreocupadamente.

Os olhos do prefeito tremeram de indignação. Ele havia acabado de se apresentar, e o homem já esquecera seu nome? Que tipo de policial é esse?

De qualquer forma, André… Nos mandaram para cá porque o lampião de vocês morreu, certo?

É Allan, — corrigiu o prefeito, mantendo um tom amigável à força. — E sim, como informei pelo telégrafo, não temos nenhum Flicker. Somos uma pequena estação com apenas 30 habitantes... quero dizer, agora 29.

Flicker. Era assim que chamavam aqueles que possuíam resistência aos sussurros da penumbra. Para se tornar um policial de ferro, essa habilidade inata era um requisito indispensável.

Certo, Álvaro, — continuou o homem sem pestanejar, — sou o Tenente-Coronel Wayman, e esta é a Cabo Teresa Pitman.

O prefeito inclinou a cabeça em perplexidade, ignorando o fato de que fora chamado por outro nome, outra vez. Wayman jogou o cigarro nos trilhos com um peteleco ágil.

Algum problema? — perguntou o tenente-coronel.

N-Não. — gaguejou o prefeito. — É que... não esperava que a Cidade Estacionária mandasse alguém de patente tão alta para um caso simples.

Caso simples? — Wayman caminhou até o cadáver coberto, sem hesitar em pisar na poça de sangue que o rodeava. Com um movimento brusco, retirou o tecido que ocultava o corpo. — Diga-me, o que você acha que aconteceu aqui?

Bem, não é óbvio? A escuridão o pegou. — respondeu o prefeito, tentando soar confiante.

Teresa, o que você vê aqui? — ignorando a resposta, Wayman voltou-se para a cadete.

Teresa olhou de soslaio para o corpo, evitando encará-lo diretamente. Ainda assim, sua análise foi precisa:

Eu sei o que não vejo, senhor. Não há rastros de miasma.

Muito bem, nem parece que te achei no lixo, — brincou Wayman, sabendo que Teresa odiava tal comentário. — Se nem você consegue ver traços de miasma...

Wayman interrompeu seu pensamento. ZNP indicava uma estação de pequeno porte, com capacidade máxima de 25 habitantes, mas havia 30 pessoas ali — 5 a mais do que o permitido. Estavam pagando multas por cada pessoa excedente.

Como uma estação dessas consegue tanto dinheiro? — perguntou-se. Já vira outras estações sacrificarem crianças para economizar comida.

Deixa pra lá. — decretou Wayman. — Ficaremos aqui nas próximas noites, cuidando da manutenção das luzes enquanto a Cidade Estacionária não envia um novo lampião.

Wayman e Teresa despediram-se do maquinista da locomotiva que os trouxera, entregando o corpo do velho lampião para ser cremado. Durante o resto do dia, conheceram os moradores e fizeram perguntas, tentando juntar as peças do mistério.

Wayman observava homens e mulheres carregando peso de um lado para o outro, reforçando as barricadas. Mas algo peculiar chamou sua atenção: toda vez que uma mulher específica tentava levantar alguma carga, seu marido prontamente se oferecia para fazer o trabalho por ela. Ela aceitava a ajuda com um sorriso constrangido, claramente incomodada com a situação.

Intrigado, Wayman olhou de soslaio para Teresa, que apenas acenou com a cabeça, confirmando que também notara o comportamento incomum.

Teresa já estava sob o comando de Wayman há quase um ano, tempo suficiente para entender o que aquilo significava. Sem dizer uma palavra, puxou a capa para o lado, revelando sua lanterna nova e reluzente — um item valioso em tempos onde a luz era escassa e disputada.

A noite finalmente caiu. O prefeito se despediu dos policiais de ferro, deixando um lanche no balcão e posicionando travesseiros nas cadeiras velhas da estação para tornar a estadia um pouco mais confortável.

Wayman se preparou para dormir. Ainda não eram 18 horas e ele já bocejava de cansaço.

Não vamos fazer a ronda para verificar se todas as velas estão acesas? — perguntou Teresa, cautelosa.

Você realmente acha que um lampião com mais de 40 anos de carreira deixaria para trocar as velas no último momento possível? — respondeu sem sequer abrir os olhos, sua voz carregada de confiança. — Pelas vestimentas e pelo bigode bem aparado, dava para ver o quanto ele era metódico.

Teresa permaneceu em silêncio por um momento, ponderando a resposta do superior. Mas havia outra coisa que a incomodava.

E por que o expresso de energia não passa mais por aqui? Temos recebido relatos sobre estações sendo consumidas pela penumbra por falta repentina de luz.

A pergunta pairou no ar como um trovão distante. Wayman ficou em silêncio, os músculos do rosto se contraindo levemente. Sempre que Teresa tocava no assunto do expresso de energia — a locomotiva responsável por levar energia a todas as estações — ele evitava responder. Parecia estar escondendo algo.

Me acorde quando “eles” chegarem. — ordenou, virando-se na cadeira improvisada e encerrando a conversa.

Teresa não respondeu. Apenas continuou de pé, observando as sombras que dançavam ao redor das velas. Por mais que ela fosse resistente aos chamados das trevas, algo naquela escuridão a fascinava.

←→

De pouco a pouco, os rangidos da velha madeira da estação ZNP-16A ecoaram pela escuridão. Homens, mulheres e até crianças cercaram o banco onde Wayman dormia e Teresa permanecia sentada, vigilante. Na linha de frente, o prefeito segurava uma foice marcada com traços de miasma, uma arma forjada nas trevas da penumbra.

Acorde, senhor. Eles estão aqui. — murmurou Teresa, sua voz fria como a própria noite.

Wayman não se moveu. Continuou deitado, sereno, como se nada pudesse perturbá-lo.

Desculpem, mas vocês vão ter que entregar essas lanternas brilhantes pra gente. Não queremos confusão. — declarou o prefeito, apertando a foice com firmeza.

Sim! Com uma dessas, dá pra pagar meses de comida! — gritou uma criança, segurando uma faca de cozinha, seus olhos brilhando com uma inocência distorcida.

Teresa permaneceu impassível.

E foi com essa foice que mataram o pobre do lampião que zelava por vocês todas as noites?

N-Não tivemos escolha, — gaguejou Jacob, o secretário. — Vocês da Cidade Estacionária nos abandonaram. Não tínhamos como pagar a multa do mês e sabíamos que mandariam poucos policiais pra cá.

Então vocês resolveram dois problemas de uma vez. — constatou Teresa. — Reduziram a população pra evitar a multa e mataram o único que faria a cidade mandar reforços.

O prefeito rangeu os dentes, seus olhos flamejando de raiva.

Vocês Flickers têm essa habilidade estranha de ver vestígios da escuridão, não é? Dessa vez eu terei certeza de passar a lâmina mais vezes. Afinal, essa foice carrega miasma.

Teresa sorriu, um sorriso frio.

Tinha miasma sim. Mentimos porque o corte era limpo demais. A escuridão nunca faria algo tão preciso e... indolor.

Os habitantes ficaram boquiabertos. Uma mulher sussurrou que devia ter feito cortes extras. Outra criança riu, apontando para Teresa:

Mentira! Você só quer bancar a esperta antes de morrer!

Antes de prosseguirmos... — A voz ecoou, mas Wayman não estava mais no banco.

Ele estava atrás da multidão. Seu movimento foi tão rápido que ninguém percebeu como foi parar lá. Um arrepio percorreu a espinha de todos.

Vocês vão matar o neném também? — perguntou Wayman, acendendo um cigarro com calma.

Neném? Do que você tá falando? — questionou um homem, o mesmo que Wayman observara mais cedo.

Olha só, o culpado sempre fala primeiro. Sua esposa tá grávida, de uns três meses, eu diria. Na cidade, a gente vê isso o tempo todo.

O grupo virou o olhar para a mulher. Instintivamente, ela levou as mãos à barriga, traindo sua tentativa de negar.

Vagabunda! Não podia ter ficado de pernas fechadas até termos dinheiro pra preservativos?! — gritou uma senhora, avançando e puxando o cabelo da grávida com ódio.

O marido tentou defender a esposa, mas foi derrubado por dois homens mais fortes, que começaram a chutá-lo. As mulheres rasgaram as roupas da grávida, enquanto crianças atiravam pedras nela, rindo e zombando como demônios.

Vejo que o único homem honesto nesta estação era o velho lampião. — comentou Wayman, soltando uma nuvem de fumaça enquanto observava a cena grotesca.

Cala a boca! Você não sabe o que a gente passa pra sobreviver! — gritou um homem, avançando com uma adaga em punho.

Wayman simplesmente desviou o ombro. O homem passou reto por ele... até perceber que não tinha mais um braço.

Aqui, você deixou cair isso. — zombou Wayman, jogando o braço decepado aos pés do agressor.

O homem começou a gritar, torcendo-se de dor. O sangue jorrava como um rio escarlate. Como isso foi possível? Os habitantes sabiam que Flickers tinham habilidades especiais, mas nada assim. Eles pensavam que era só visão aprimorada ou agilidade. Sr. Oswaldo nunca mencionou nada sobre... isso.

Teresa, mate todos. — ordenou Wayman, sua voz fria como gelo.

A multidão virou para Teresa e, por um momento, riu. Como aquela garota tão pequena poderia fazer mal a alguém? Ela hesitou, olhando para as crianças armadas e vendo seu reflexo nelas. Quando criança, fizera coisas terríveis para sobreviver.

Cabo, é uma ordem. — repetiu Wayman, sem emoção.

Teresa fechou os olhos e mudou. Seus traços doces tornaram-se sombrios. Ela caminhou até um homem, caindo suavemente em seu peito. O homem corou, abraçando-a por reflexo.

Q-Que foi, pequena? Se apaixonou? Você é bonitinh...

Ele não terminou a frase. Seu corpo explodiu da cintura para cima, espalhando sangue e vísceras.

O prefeito gritou em pânico, brandindo a foice contra Teresa, mas ela a segurou... com os dentes. Um sorriso sádico dançou em seus lábios, seus olhos brilhando com um terror primordial.

O-O que... o que são vocês?! — balbuciou o prefeito.

Antes que pudesse obter uma resposta, suas pernas implodiram. Teresa não havia se movido, mas a foice agora estava em sua mão. Ela girou a arma e iniciou o verdadeiro massacre.

Em menos de sete segundos, os 29 habitantes foram reduzidos a pedaços ensanguentados. Tripas enfeitavam o chão como enfeites macabros, enquanto Wayman caminhava por eles com a indiferença de quem pisa em folhas secas.

Me diga, você, nascida da escuridão, ainda acha que ela é a verdadeira penumbra? — perguntou Wayman, soprando a fumaça do cigarro enquanto observava Teresa ensopada de sangue. — Porque eu já decidi faz tempo... o mundo humano é a verdadeira escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.