Ferida Fina
1 Capítulo Único
Phinks e Nobunaga estavam tagarelando sobre alguma coisa. Hora parecia uma discussão, Shalnark, Franklin e Machi opinando vez ou outra, hora as vozes se elevavam parecendo uma briga. Feitan estava alheio, desinteressado na conversa sem sentido. Afinal, toda aquela situação não fazia o menor sentido. Uvogin tinha sido abatido, Pakunoda sacrificada e Danchou estava longe. Ah, claro, Hisoka tinha colocado as cartas na mesa e, não sem alivio, estavam livres para matar o maldito.
Um grito mais agudo de Nobunaga fez com que o baixinho encolhesse o ombro tentando proteger o ouvido direito; estava entre os dois brigões. Afastou-se discretamente pela tangente rolando os olhos entediados pelo grupo. Eles pararam na figura pouco conhecida que tinha entrado para a Trupe há pouco tempo, Kalluto. Uma Zoldyeck. Uma criança. Ela observava com atenção e uma nota de assombro a discussão tentando entender do que falavam, tentando entender a hierarquia deles, talvez.
Ela tinha quase a sua altura (ele vencia por dois centímetros e meio; tinham medido, os bastardos), mas era ainda uma criança, quatro anos, e era considerada alta para sua idade... Tinha a aparência de uma garota, embora biologicamente fosse um garoto. Melhor não tentar entender, concluiu.
Antes que pudesse desviar o olhar, ela o flagrou, as bochechas pálidas ganhando um leve corado. Franziu o cenho quando ela veio para andar ao seu lado.
— Eles sempre brigam assim?
— Eles não estão brigando ainda.
— Vocês parecem muito unidos.
— Quando há interesse.
Andaram em silêncio por um tempo.
— Foi legal o que você fez lá atrás. No covil.
— Hn. — Ela ergueu o olhar para ele, mas ele se mantinha focado a frente. — O que você quer?
A garota se remexeu no quimono como se tivesse sido espetada. Ele estava querendo enxotá-la?
— Queria entender melhor a dinâmica de vocês. É a primeira vez que eu saio de casa...
— Não me refiro a isso. Por que você decidiu fazer parte da Trupe? Não é como se você não tivesse para onde ir...
— Quero trazer meu irmão de volta para casa para fazer mamãe parar de chorar. Preciso ser mais forte.
— Tch — ele deu uma risada silenciosa e sem humor. — Que ridículo.
Ela virou para ele ofendida e boquiaberta pelo deboche para com alguém que ele nem conhecia ainda.
— Não é ridículo. — defendeu controlando a voz.
— Claro que é. Pobre mamãe... — zombou.
Ela cerrou os olhos delicados.
— E o que você quer? — retrucou raivosa.
Ele parou de andar deixando o grupo passar por eles e se afastar alguns metros. Ela ficou alerta.
— Quero me sentir vivo. — Os olhos miúdos perfuravam os seus e ele se aproximou até estar com o rosto a alguns centímetros — Sabe o que me faz sentir vivo?
Ela balançou a cabeça de forma infantil fazendo os cabelos sedosos se moverem junto. O movimento trouxe a ele o cheiro artificial de morango do batom que ela usava nos lábios.
Feitan hesitou antes de continuar.
Com uma rapidez ainda mais difícil de acompanhar do que na sua luta com Zazan, ele sacou a lâmina e a deixou resvalar na pele alva do braço dela cortando na diagonal a manga do quimono e causando uma linha fina que não demorou a se preencher com sangue. Ela saltou para trás soltando um pequeno guincho pelo susto.
Ela ergueu o leque aberto para ele quando o viu se aproximar. Ele ergueu as mãos limpas em rendição. Desconfiada, permitiu que o baixinho segurasse sua mão e lambesse a pequena ferida aberta fazendo-a arder e seus olhos lacrimejarem.
— A única coisa que me faz acreditar que eu estou vivo é a dor — sussurrou.
Um instante depois ele estava de costas, caminhando num passo arrastado atrás do grupo. Kalluto sentia o coração acelerado pulsar em sua cabeça e aquecer o rosto, a ferida fina não sangrava muito, mas a sentia arder com intensidade ao vento. Correu para alcançá-los.
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