Femme Fatale

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem!

"They tried to bury us.

They didn't realise we were seeds."

O som do piano é doce. Divirto-me enquanto dedilho pelas teclas pesadas. É Lua Cheia de novo. As crianças me olham como se eu fosse sua musa. Mesmo com seus 5 anos de vida, eu continuo sem saber lidar muito bem com seus olhos grandes e curiosos, diferentes daqueles que me assombraram por 3 anos torturantes; pequenos e sérios, analisando-me como um objeto.

Canto baixinho uma melodia íntima, mas minha filha já a conhece. Não se preocupe com isso agora, Úrsula, digo a mim mesma. Os olho e sorrio. A babá pisca e direciona a cabeça para a enorme varanda do salão. Lá está a Lua, subindo no horizonte, brilhando em tons de amarelo, enorme. Dizem que outras cidades não conseguem vê-la tão bem quanto Kylloan, meu reino.

A porta abre, um movimento brusco que os assusta. Os nervos de todos no ambiente estão a flor da pele.

— Vossa Majestade — Patryon, meu mago, entra. Sua feição me diz o que já sei, pois sinto tudo do lado de fora me chamar. O silêncio das ruas, o cheiro de álcool dos bares que arriscam ficar abertos, o medo das mulheres que trabalham em bordéis.

— Crianças. Fechem as janelas. Coloquem sua música favorita — digo séria. Encaro mais o menino do que a menina. Nossas vozes poderiam levá-lo até as águas com facilidade impressionante. A essência masculina me assustava. — A Helenia vai contar uma história para vocês. A mamãe que escolheu.

— Mãe — choraminga a linda garotinha de olhos roxos brilhantes. Um de seus dedinhos gordinhos enrola seus cachinhos, nervosa. — Posso ir com você?

Engulo em seco. Um dia ela irá, o pensamento escapa. Patryon pigarreia, preciso ir.

— Ellión, Ámedra, preciso de vocês aqui. Acham que podem fazer isso pela mamãe? Cuidar do Palácio?

Os olhos confirmam sacudindo as cabeças e levantam do divã, correndo para abraçar minhas pernas. Me permito sorrir e acariciar seus cabelos. Helenia os afasta de mim e os leva para fora do salão. Certa angústia me pesa no peito, mas ignoro.

Patryon me olha, preocupado.

— Senhora, tem certeza dessa vez?

— Feche as janelas, Patryon. Proteja meus filhos. Se eu não voltar, confie na menina. Ela saberá o que fazer — falo, incisiva. — É hora de dar as boas vindas aos nossos... convidados.

Um sorriso malicioso se abre em meu rosto e deixo o roupão cair no chão.

Caminho até a varanda e encaro a paisagem. A cidade parece vazia, sem vida. A Lua a única fonte de luz para as ruas e becos. Flashes despontam em minha visão. Lembranças dolorosas de meu primeiro momento aqui. Seguro-as com força.

— Os navios estão entrando na baia — meu mago anuncia e assinto, silenciosamente.

— Apague todo o castelo. Reforce os guardas. Volto em breve.

E, então, eu me jogo da varanda.

Os navios são enormes. Despreparados para qualquer ataque possível. A vontade de fazê-los conhecer minha popularidade pelos reinos me consome, mas não deixo a raiva me dominar. Construções e decorações valiosas da cidade são colocadas sem muito cuidado dentro de suas embarcações. Babacas.

O plano dessa noite é diferente de qualquer outra Lua Cheia que passei em Kylloan. Mais arriscado. Checo meu vestido vermelho sangue contrastando com minha pele morena, longo e leve, me dando a mobilidade necessária. Uma fenda que se abre em minha coxa dá espaço para um coldre. Meus pés sentem-se confortáveis no chão de pedras, gelado, livres da obrigação de usar saltos altíssimos por pelo menos uma noite. De relembrar os velhos tempos.

Coloco a capa preta deixada sobre a pedra para esconder-me e disfarçar minha pele ainda molhada. Meus cabelos negros estão soltos, posso sentir o meu cheiro. Os efeitos da Lua Cheia em meu corpo, potencializando minhas curvas, quase me faziam brilhar como ela. O sorriso não sai de meu rosto. De trás das pedras posso ver as mulheres caminhando pela rua, outras nos bordéis com o pouco tecido que vestem em farrapos e nas mãos grandes garrafas de cerveja. Ótimo, os bêbados não saberiam o que aconteceu no dia seguinte.

Saio do meu esconderijo, caminhando devagar. Vulnerável. Piratas estúpidos arrastam uma prostituta consigo. Ela grita e cada grito dela me lembram os meus.

— Me solta! Deixe-me ir, por favor, senhor. Eu não sou boa o suficiente para Vossa Majestade! — gritei, na esperança daquelas mãos grandes largarem meus braços magros.

— Não seja tola, mulher! Você é propriedade do rei de Kylloan agora — meu sangue gelou. Era isso, eu não tinha saída, estava com um rei e não com um pirata qualquer.

— Por favor... eu...

— Cale-se. Ou será tratada como as outras que estão com meus marujos. Ou não consegue ouvir seus gritos?

Arrepiei. É claro que podia escutar o grito das mulheres ecoando nos corredores da embarcação. Até que alguns paravam. Até que outras eram atiradas ao mar. Agradeci por não ser eu. Egoísta.

Meu rei gostava de outras brincadeiras. Naquela noite, em que fui amarrada a cama de sua cabine pensei em tudo que poderia me acontecer. Dois dias sem água e comida. E então... um chicote.

— Ei. Olhem camaradas. O que temos aqui? — cinco homens se distribuem ao meu redor, um círculo cada vez mais próximo. Baixo os olhos e finjo fungar. Em minha mão, uma faca está pronta para ser usada. Em casos extremos.

— Por... favor... — choramingo.

— Ah, rapazes. Ela está pedindo por favor! — um deles diz, ironizando. Todos riem e começam o seu jogo. Empurram-me de mão em mão e meu sorriso aumenta.

Mesmo aqui, sinto o cheiro de sangue e minha boca saliva. Nas ruas escuras, eu sei que minhas mulheres já atacaram cautelosamente. Certeiras. Isso já vale a pena.

— Chega! — ouço uma outra voz masculina e me arrepio. O capitão de um dos navios. Mordo os lábios. As coisas ficariam interessantes.

— Perdão, capitão — alguns dizem juntos e eu rio baixinho.

O silêncio na cidade faz com que me ouçam. E eu não me sinto abalada quando o capitão abaixa o capuz e descobre minha identidade. O homem branco fica ainda mais pálido. Os olhos azuis tentam parecer calmos, mas eu consigo ouvir seu coração acelerado. Os marujos parecem tranquilos e não duvido que estejam; não sabem quem eu sou.

— Seus idiotas! Essa é a rainha!

Tenho vontade de gargalhar, mas continuo em meu papel. Sei que dentro de sues navios, há cabines onde escondem mulheres que me pertencem. Faço uma cara de medo.

— Por favor, eu deixo levarem todo o ouro que quiserem. Deixem-me ir.

O capitão faz um gesto e seus homens prendem minhas mãos atrás do corpo, deixando minha faca cair no processo. Merda.

— Onde Vossa Alteza estava indo dessa forma? Os costumes de Kylloan permitem damas com armas?

— Não tente nada, garota. Existem coisas piores do que a morte — Abyron falou. À essa altura eu já era sua rainha, apesar de não aparecer em público. Seu medo de que eu pedisse ajuda me mantinham reclusa naquele Palácio.

— Não tem nada pior do que ser sua rainha, Abyron.

— Estava indo visitar um amante — respondo rápido. Eles riem e eu sei que foi a resposta correta.

— Ótimo. Encontrou seis — o Capitão declara e sai, fazendo um movimento com a mão. Os homens me empurram em direção ao porto e começo a me debater.

Lembro das vezes em que isso fora verdade. Em quantas mulheres assisti na mesma situação. Vejo algumas a minha frente sendo colocadas dentro do navio. Sinto o cheiro de seu medo misturado a maresia, a magia da noite de hoje e a satisfação daqueles homens nojentos.

Atiram-me dentro do navio quando subimos a ponte e caio de quatro, mais um motivo para risadas. Choramingos podem ser ouvidos e meu coração aperta. A raiva começa a fervilhar meu sangue quando sinto um chute em minha barriga. O capitão gargalha e eu o encaro, jogada no chão. A realidade que estampo é completamente diferente da verdade: uma feição de dor, sofrimento e lágrimas nos olhos.

— Então as lendas são uma grande mentira. Devo parabenizá-la pela sua engenhosidade, Úrsula. Manter sua popularidade negativa em outros reinos é sensacional! — ele bate palminhas. Os marujos se apressam no convés para se retirarem. Para irem embora com o meu ouro e minhas mulheres. — Ainda se aproveitou de alguma doença do rei para deixar que dissessem que o matou... Como o rei Abyron não conseguiu domar uma mulher tola dessas?

A palavra tola me faz grunhir, sem querer. A vontade de atacá-los antes do plano crescia, mas não colocaria a vida de todos em risco. Então quando ele se aproxima devagar de mim, eu sei o que irá acontecer em seguida. Homens eram tão previsíveis.

— Chefe, nós que achamos a rainha — um idiota se arrisca a falar, a me reinvindicar.

— Terá Úrsula para todos que assim desejarem, seu estúpido. O navio está sob o meu comando.

O comentário deixa o velho homem mais irritado. Ele me puxa pelos pés e em um movimento ele abre minhas pernas. E chega a hora do plano. Encaro as mulheres indefesas e amedrontadas. Algumas delas se levantam e eu sorrio.

Abro a boca e deixo meu grito acordar as lendas de Kylloan. Uma figura pula para dentro do navio e o velho se assusta, ainda sem me largar. Aproveito o desespero dos marujos para puxar a arma de pólvora em meu coldre. Atiro para cima e antes que o sinalizador atinja o céu, ele bate em uma das velas que começa a pegar fogo.

— Larga ela — a mulher nua falou. Seu tom de voz alto e afiado assustou os homens. Sorri abertamente e chutei aquele que me segurava.

Corro até ela, enquanto algumas das mulheres-lobas já transformadas se empenham em sua refeição. Fryan sorri e seus lábios estão vermelho sangue. Consigo observar os outros navios que já perderam o controle. A mulher de cabelos curtos e castanhos arranca minha capa e se decepciona ao ver que estou com um vestido vermelho sangue, me tirando um riso.

— Vamos — digo. — Temos muito tempo, mas agora vamos salvá-las.

— Sim — a voz doce me responde e eu lhe dou um beijo rápido, sentindo o gosto de ferro do sangue. — Jogue-as no mar. Eu vou tirar essa coisa daqui — aponta para o navio e então se joga nas águas novamente, transformando-se com um grito de dor.

Sua cauda aparece e eu me impressiono como sempre. Eu as tiraria dali assim como tirei Fryan do Palácio quando ainda era prisioneira de Abyron. Mas antes...

Corro em direção a cabine do piloto. Posso ouvir o coração acelerado. O medo em suas veias. Rio sozinha.

Estava no chão do banheiro do rei. Havia sangue por todo o lado. Ele torturava muitas outras mulheres além de mim. As invadia, como se fossem um reino a ser saqueado. A culpa tinha que ir embora! Eu soluçava e chorava como nunca antes. Mas eu não precisava daquilo. Ele estava morto! Tinha acabado. Eu matara o rei de Kylloan para salvar as mulheres que ele matava aos poucos, que destruía. As mulheres como eu. E as diferentes de mim, sem aquele poder esquisito.

Minhas pernas estavam de volta. A ponta da cauda, que eu havia utilizado para matá-lo, tinha sumido. A única outra prova era meus dentes, sujos de sangue. O gosto do sangue dele na minha boca. Eu queria lavá-lo. Eu queria um banho. Eu queria correr dali. E, então, Fryan entrou com Patryon.

— Fique calma, Vossa Majestade.

— Ei. Venha cá — ela ordenou e a escutei. Ela ignorou minha nudez, porém sua mão foi para a minha barriga e eu soube.

Chuto a porta da cabine, já destruída e ela se lança em uma das paredes. Debaixo do painel, posso ver o covarde.

— Oi, Capitão — sorrio. — Quis agradecê-lo pessoalmente pela generosidade de seu convite a mim e a minhas meninas. Seu navio é uma graça. Mas devo confessar que meu ouro deixou esse espaço muito mais... gracioso. Acho que meu ex marido gostaria, ele era um grande fã de navios de roubo... e de mulheres inocentes. Assim. como. você — me aproximo e vejo que seu braço está ferido, arranhado por uma das mulheres-loba.

— Por favor... eu...

— Pare. Não gosto quando pedem por favor. Nós pedimos. Muitas vezes. Eu pedia todas as vezes. E vocês riem.

O pobre homem treme tanto que mal consegue permanecer sentado no chão. O puxo pelo braço machucado e ele segura um gemido. Aperto mais forte e ele choraminga. Arrasto-o com força para fora da cabine, com uma mão e deixo que lute em vão. Que se assuste com minha força sobrenatural.

E antes de jogá-lo na água, sussurro em seu ouvido.

— Eu matei o rei. Da mesma forma que vou matar você.

Atiro-me com o homem em meus braços, no exato momento em que as mulheres se lançam do único navio que ainda não entrou em combustão. O único que voltaria para seu local de partida, como um aviso. Como um lembrete.

Na água, antes de perder a consciência, o vejo lutar para nadar e deixo que pense que pode se livrar de mim. As águas azuis já assumem um tom vermelho sangue. Sangue de piratas, de saqueadores, de estupradores. E então, a dor vem no meu corpo todo e antes que eu veja minha cauda roxa e seu ferrão, eu perco a consciência, atacando-o.

Abro os olhos. Eu estou na minha cama, no meu quarto. Sorrio. Estou viva.

— Você fica linda sorrindo assim — me assusto quando encaro Fryan sentada na minha penteadeira. — Fique calma. Eu sei o que vai dizer e...

— Eu amo você — murmuro e ela se cala. Sento na cama e percebo que ela me vestiu. Uma camisola de seda azul clara. — Mas... você não deve se esforçar tanto na forma humana.

— Eu quero estar aqui — ela rebate e se levanta, caminhando em minha direção. Uma camisola minha a veste perfeitamente e isso me faz sorrir. — Porque em breve não estarei mais — confessa.

Meu coração se aperta no peito e fico de pé, a mão passando pelo corpo dela em busca de algum ferimento ou sinal de envenenamento, porém Fryan me segura e sorri.

— Eu vou em busca de uma sacerdotisa. Andei pesquisando e ela pode ter o que preciso para ficar ao seu lado.

— Fryan é muito arriscado e...

A porta do meu quarto se abre, sem batidas nem anúncios e quando estou prestes a me irritar, vejo meus dois filhos correrem para mim. Minha namorada sai da frente e os deixa passar, mas eles param e nos olham. Droga. Fico sem saber o que fazer. Ela ri.

— Úrsula, rainha de Kylloan, sem saber o que fazer... interessante — murmura e eu a encaro semicerrando meus olhos. Me deixo rir. — Prazer, Ellión, Ámedra. Sou Fryan. — ela se abaixa e estende as duas mãos.

Os dois se entreolham, mas sorriem calmos e apertam a mão da sereia. Ámedra não solta a mão e Éllion solta rápido demais. Gargalho prevendo o futuro que terei com a minha família, no mínimo esquisita.

— Filhos, essa é a namorada da mamãe.

— Ela é bonita — Éllion fala baixinho e Fryan o agradece.

— Mamãe, a Helenia não sabe contar histórias — Ámedra solta, de repente e a babá aparece na porta, vermelha e ofegante.

— Vossa Majestade — faz uma breve reverência. — Desculpe eles...

— Está tudo bem. Pode ir — sorrio. Viro-me para Fryan e para as crianças.

— Bem... quem quer almoçar e depois ir ver os peixinhos nadando na praia?

— Úrsula — Fryan fala e eu já sei o que dirá; tenho que resolver os assuntos de ontem a noite, de forma política e diplomática.

Dou de ombros.

— Patryon vai resolver pra mim. Hoje eu quero passar o dia com a minha família — declaro e ela estende a mão para mim, apertando.

A felicidade que me atinge é genuína. Nunca pensei que fosse capaz de senti-la. E, de repente, tudo o que fiz na noite anterior e nas últimas Luas Cheias é justificado. Cada sangue derramado. Cada homem morto. Cada sereia sacrificada no processo.

— Não existem limites para o que um rei faz pelo seu povo, Úrsula — ouvi a voz de Abyron em minha memória.

Não existem limites para o que uma rainha faz pelo seu povo, pelas suas mulheres. Nunca existiria um limite para mim. Ou para Fryan. Ou para minha filha, quando sua idade chegar.

Que os homens levem o ouro. Nós ficaremos com o poder.

Notas finais
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