Femismo
1 Criança
Notas iniciais
Era domingo.
“William, vem brincar!” – meus amigos gritavam pela janela. Eu morava no terceiro andar em um condomínio residencial. Tinha interfone, mas as crianças achavam mais convencional gritar. As tardes eram barulhentas porque era quando as crianças brincavam de tudo. Iam de casa em casa para chamar todos os parceiros de brincadeiras.
No condomínio havia um pequeno parque – dois balanços duplos, um escorrego e um carrossel gira-gira – e uma quadra de futebol. Claro, além do espaço do condomínio em si – a pista para os carros, os estacionamentos e um salão de festas. Havia prédios brancos com laranja de cinco andares e às vezes crescia muita grama no parque. Era um lugar grande, perfeito para crianças brincarem, e popular no bairro – muitas vezes crianças que moravam em casas vizinhas entravam no condomínio para brincar nesse espaço; às vezes elas pulavam o muro baixo e às vezes entravam com crianças que moravam lá. Eram ótimas tardes, uma época que eu amava ser criança.
Olhei pela janela e vi um grupo com cerca de quinze crianças – meninos e meninas. Eles... Ou melhor, elas, já que mulheres são dominantes, se reuniram para me convencer a descer.
“’Tô indo!” – gritei de volta.
Coloquei roupas leves: um short e uma camisa sem mangas. Era verão e estava quente. Desci com pressa e vi alguns amigos que moravam no condomínio e algumas meninas que moravam em casas vizinhas.
“Gostei da roupa, William.” – Débora sorriu para mim.
Dei uma risada. Era muito novo, mas já estava me acostumando com elogios de meninas. Seja do meu rosto, da minha pele ou do meu corpo que nem tinha se desenvolvido. Eu sempre sorria e às vezes agradecia, mas isso era tudo. Gostava de ser elogiado, apenas.
“Certo, já que ‘tá todo mundo aqui...” – Jane, uma menina do Bloco A, começou – “Vamos brincar de esconde-esconde!”
“Quem vai contar?”
“A gente tira no zerinho ou um.”
“Eu também?” – o menino mais novo perguntou.
“Tu não. Tu é café com leite.”
Meu melhor amigo, Emílio, foi quem sobrou no zerinho ou um. Ele tinha que contar até dez para nos dar espaço para se esconder, e depois nos procurar.
Como estávamos dentro do condomínio havia muitos lugares para se esconder, mas as crianças que moravam lá conheciam a maioria dos esconderijos. Minha estratégia foi correr para um lugar distante, onde provavelmente seria o último a ser encontrado. Um dos meus amigos, João, teve a mesma ideia que eu. Fomos para um estacionamento e ficamos atrás de uma caminhonete.
“Acho que aqui vão demorar pra nos achar.” – falei. Estávamos agachados entre a caminhonete e o muro.
“William.” – João me chamou – “Débora quer ficar contigo. Ela tava me dizendo antes da gente te chamar.”
“Não, valeu. Eu não gosto dela não.”
“Tu não gosta de menina? Nunca te vi ficando com uma.”
“Eu não tenho tanta vontade.” – sinceridade era o meu forte naqueles tempos – “Eu prefiro brincar mesmo.”
Naquela época eu não tinha consciência, mas eu mesmo estava preservando minha infância e inocência. No meu bairro – ou eu deveria dizer no meu país? – as crianças desenvolviam a sexualidade rápido. Beijavam cedo, entravam cedo na vida sexual, muitos tinham filhos na adolescência. Nessa época eu ainda era uma criança e várias meninas pediam para ficar comigo. Eu sempre recusava porque não tinha interesse, mas infelizmente isso só reforçava a vontade delas. Porque eu era William, O Difícil; isso quer dizer que quem conseguisse me beijar era diferente de alguma forma. Para as meninas era uma espécie de jogo e quem me ganhasse era vitoriosa. Eu só não sabia disso, ainda.
“Já beijasse alguém?” – João perguntou.
“Não. E tu?”
“Já.” – respondeu com orgulho. – “É meio estranho.”
“Sério? Quando? Eu nunca soube disso.”
“Foi sexta, na escola...” – ele continuou me contando do seu primeiro beijo até Emílio aparecer no nosso campo de visão.
Caminhamos agachados do lado contrário em que ele se aproximava. Era tenso. Como em um filme de terror, onde os personagens não podem ser encontrados pelo monstro ou serão mortos. Nós caminhávamos lentamente, com medo de fazer qualquer barulho. João respirava pela boca porque tinha medo de assoar seu nariz que escorria. Eu queria correr para outro carro, mas tinha medo dele me ver ou ouvir. Podia ouvir meu coração tão alto que acreditava que João ia me pedir para fazer mais silêncio.
Emílio caminhava calmamente sem olhar os carros. E quando ele ficou de costas para a gente, segurei a mão de João e corremos silenciosamente para um carro mais distante. Dessa vez ficamos ao lado do carro e observando Emílio pelo vidro.
Infelizmente não foi tão silenciosamente quanto pensamos. Emílio olhou para trás e começou a procurar nos carros. Eu e João nos olhamos, sabendo que não tinha escapatória. Corremos sabendo que ele nos viu. Nosso objetivo era chegar ao parque e bater na parede onde ele contou antes de nos escondermos. Batendo três vezes nós estaríamos salvos. O monstro não podia nos matar.
Brincamos por horas. Brincamos de tudo. Corremos, suamos, descansamos, conversamos. Essa era mais uma tarde normal, uma tarde cansativa e divertida. Eu gostava quando corríamos com adrenalina e quando ficávamos sentados conversando bobagens. Lembro-me que naquela época nós fazíamos perguntas uns aos outros, dúvidas que tínhamos e muitas vezes tínhamos vergonha de perguntar para os nossos pais. Naquela tarde nossa dúvida eram relacionamentos homoafetivos. “Como duas mulheres (ou dois homens) faziam sexo?” era a dúvida. Com parte da inocência que tínhamos, discutimos e não chegamos a uma resposta – mesmo que alguns já tivessem tido sua primeira experiência sexual.
“Acho que é mais difícil para os homens.” – disse Débora – “Mulher não precisa de homem pra sentir prazer.”
“Como tu sabe disso?” – João perguntou.
“Porque eu já fiz coisas sozinha.” – disse com orgulho – “E é bom.”
Fiquei quase surpreso em ouvir o que ela disse, e mais ainda por ver outras meninas concordarem. Mulheres conseguiam falar sobre masturbação sem pudor, na verdade era um orgulho ter clitóris – um órgão feito exclusivamente para o prazer. Homens, pelo contrário, não podiam falar sobre sexo com tanta liberdade. Era feio. Um tabu. Por isso agradeci quando meu pai me chamou para voltar para casa. Me despedi com timidez. Não queria lembrar o que aconteceu há alguns dias, quando acordei com o lençol sujo. Não queria mesmo lembrar isso!
“Nós vamos visitar minha irmã. Tome um banho rápido!” – papai pediu. Fiquei feliz porque gostava da minha prima, Fabiana.
Fomos de carro. Mamãe dirigia e papai falava. Minha irmã caçula estava brincando sozinha ao meu lado, conversando com seus carrinhos. Eu estava animado para conversar com Fabiana sobre um novo episódio de um anime que assistíamos na televisão, e foi isso que fiz assim que cheguei. Ela estava lanchando e eu a acompanhei; conversamos enquanto comíamos sanduíche e biscoitos. Até Raquel, minha irmã, nos atrapalhar.
“Raquel, a gente na conversando.” – falei irritado.
“Olha o novo carrinho que mamãe comprou!”
“Sai daqui!”
“Não!!”
Sinto dizer que a minha infantilidade causou um acidente. Num acesso de raiva (porque eu não via Fabiana há semanas e queria muito conversar com ela), eu empurrei Raquel da cadeira e ela caiu de cara no chão. Cortou o supercílio. A culpa veio no mesmo segundo. Na minha mente a minha irmã ia morrer sangrando e a culpa era toda minha. Além de que minha mãe ia me espancar até a morte por ter matado sua filha preferida. Gritei por papai, assustado.
Meus pais se agitaram e me pediram para ficar ali porque iam levar Raquel ao hospital. Foi rápido. Foram correndo e eu fiquei sozinho com Fabiana e Luiza, minha tia. Mais rápido foi quando Fabiana foi tomar banho, pois Raquel derramou achocolatado na roupa dela.
“Eu coloco desenho para tu assistir, Will.” – Luiza trocou o canal e me deu espaço para sentar no sofá.
Esse foi meu efeito borboleta. O efeito borboleta é uma expressão que faz referência às grandes consequências de pequenas ações. “O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas”. Qualquer coisa que qualquer pessoa fizer vai trazer consequências. Por exemplo, uma pessoa pode salvar uma criança das ruas (ato) e essa criança se tornar o maior ditador que o mundo já viu (consequência). O meu ato foi derrubar minha irmã. A consequência foi quando eu estava empurrando a mão da minha tia que estava entre minhas pernas. Eu não sei se as coisas acontecem porque têm que acontecer. Não sei se existe destino. Não sei se não importava se eu derrubasse minha irmã ou não porque, afinal, eu sempre fui considerado bonito, e eu era homem.
Falando da minha aparência, eu tenho a pele parda e olhos pretos. Meu cabelo é curto e cacheado; orelhas pequenas, nariz fino e lábios grossos. Nessa época isso era tudo. Eu não era alto nem tinha músculos nem pernas grossas, nada. Era só uma criança com um rosto bonito. Nunca tive problemas com minha aparência porque sempre ouvi isso. Fui elogiado tantas vezes que nunca acreditei ser feio.
Sempre ouvi que mulheres não têm controle quando vêem um homem bonito. Eu ainda não era homem, mas era bonito. Por isso penso que se não acontecesse com minha tia poderia acontecer com outra adulta. Na época eu me culpei por estar usando um short, não uma calça. Essa era minha punição por ter nascido homem.
Minha tia, irmã do meu pai, queria me tocar em um lugar íntimo. Mesmo tentando empurrá-la, eu não era mais forte que uma adulta. Pedi para ela parar, porém ela continuava em silêncio ao meu lado. Meu fragmento de sorte foi quando Fabiana abriu a porta do banheiro. Um banho rápido. (Ela nunca foi uma pessoa muito higiênica). Luiza se distraiu com o barulho e eu consegui sair. Saí da casa, também. Do lado de fora havia vizinhos, ela não iria atrás de mim. Fiquei sentado na calçada com o coração acelerado até Fabiana vir me procurar.
“Não quer entrar?”
“N-Não.” – estava envergonhado demais para falar. Não tinha coragem nem de olhar para minha prima. Estava assustado e envergonhado.
“O que aconteceu? Notei que tu corresse quando saí do banheiro. E mamãe ‘tava meio estranha...”
Eu não queria ficar em silêncio. Não queria deixar algo assim de lado. Então, sem olhá-la, eu falei resumidamente o que houve.
“Ah...” – foi a primeira reação de Fabiana. – “Will, Luiza é tua tia de sangue, vocês não podem fazer essas coisas. E meu pai vai ficar muito magoado se descobrir. Ele já sabe que mamãe trai ele, imagine se ele souber que também é com gente da família.”
“Mas eu não queria isso. Ela me forçou, foi horrível.”
“Como assim?”
“Eu não esperava isso, nem gosto dessas coisas. Eu só tava assistindo desenho e ela veio... Eu não queria, entendeu?”
“Nossa.” – ela finalmente entendeu – “Não fica sozinho com ela, ta bom? Pode acontecer coisas piores. Caramba...”
Ficamos em silêncio até meus pais chegarem. Continuei em silêncio quando minha mãe reclamou comigo. Raquel tinha levado três pontos e estava dormindo com o rosto inchado. Eu só abri a boca para falar quando chegamos em casa e vi meus amigos ainda brincando. Pedi para ficar com eles porque não queria continuar ouvindo reclamações após ter sido abusado.
“Tudo bem, mas não demore. Seu pai vai fazer o jantar.”
Havia metade de criança do que tinha mais cedo. Vi Débora cochichar algo para Emílio. Eu queria conversar com meu melhor amigo. Precisava falar com ele.
“Will, fica com Débora” – foi a primeira coisa que ele disse – “É sério, só dá um beijo. Ela vai me dar cinco reais se eu fizer tu ficar com ela. Só um beijinho!”
“O quê? Não. Eu não quero. Escuta, Débora, eu realmente não quero te beijar.”
Estávamos sentados em bancos perto do parque. Dois meninos, os mais novos, brincavam no balanço. Nos bancos havia eu, Emílio e mais três garotas – Débora, Jane e Eduarda; apenas Débora não morava no condomínio. À noite tinha um frio gostoso, e era o horário em que os adolescentes saíam para fumar ou só conversar.
“Tá bom, eu dou dez reais para os dois. Vou te esperar nas escadas.”
As outras meninas a acompanharam. Elas ficaram nas escadas do meu prédio por um bom tempo. Eu não quis subir com três meninas me esperando, preferi esperá-las para recusar outra vez. Algumas meninas eram assim, não aceitavam um não.
“Tu também vai ganhar cinco reais. Vai, pô! É só um beijo, não mata.”
“Eu não vou me prostituir.”
“Haha! É verdade, estão te chamando de prostituto.”
“Eu não quero, por que ela não entende isso?”
“É o seu crime por ser bonito.”
Eu queria dizer a ele, mas não conseguia. (Não tinha certeza do por que na época, mas hoje em dia eu sei: eu havia contado para minha prima, parente de sangue, logo após o acontecido e ela não se importou. Fabiana só pediu para eu não ficar sozinho com Luiza, e aquela foi a última vez que falamos sobre aquilo. Ela não quis saber se eu estava bem, não me aconselhou a falar para algum adulto, não me abraçou, não me defendeu. Assustado e envergonhado, quis me abrir com um amigo próximo. Mas lá estava Emílio me pedindo para fazer algo que eu não queria. Por isso não quis contar. Imaginei que ele ia dar tanta importância quanto Fabiana. Fiquei com medo de ouvir um “é o seu crime por ser bonito” outra vez).
E ali eu me senti culpado. Pensei que não devia ter ficado sozinho com minha tia, ainda por cima usando short. E não podia contar para ninguém porque era culpa minha.
“Que demora, William.” – as meninas voltaram – “Se tu não vai me dar um beijo por vontade própria, então tenho que roubar!” – Débora correu atrás de mim querendo me dar um beijo forçado.
As outras crianças riram. Acharam engraçado ela correr atrás de mim para fazer algo que eu não queria. Até mesmo eu, na época, achei engraçada a correria. Rimos daquele ato. Rimos... Rimos. Até minha mãe me chamar e eu ir embora.
Jantei e tomei um banho. Esfreguei o sabão com nojo de mim mesmo. Havia uma sujeira que eu não conseguia limpar, e estava entre as minhas pernas. Desisti de limpar uma sujeira invisível e encarei meu rosto no espelho.
“É o meu crime por ser bonito!” — falei para o reflexo. Ali, no banheiro, tomei minha decisão de nunca mais ficar sozinho com uma mulher adulta outra vez – exceto minha mãe. Nunca mais!
Aceitei aquela culpa e fui dormir porque estava cansado.
Essa foi a consequência do ato da minha tia – o tal efeito borboleta –, o meu medo de mulheres adultas. Enquanto eu era uma criança fiz o possível para não ficar sozinho com uma adulta. Vivia desconfiado de todas. Não queria passar pela mesma humilhação outra vez.
(Eu me afastei da minha tia depois daquele dia. E nunca mais aconteceu algo do tipo novamente. Tive tanto medo que nunca mais deixei ela me tocar em nenhuma parte do meu corpo. Ainda falava com ela na frente dos meus pais, entretanto).
Esse foi um dia inesquecível. O início do meu medo.
Quando eu ainda era uma criança.
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