Felizmente Infeliz, Artista
1 Felizmente Infeliz, Artista
“Quando paramos para pensar, nos damos conta de que tudo é possível. E se investirmos em alguma coisa, qualquer coisa, ela pode acontecer. Mas parando para pensar mais m pouco, isso tudo é assustador. São tantas as possibilidades que nos vemos parados por anos diante da bifurcação, incapazes de escolher, impotentes diante da potência. Afinal, o grande problema é pensar demais antes de se jogar de cabeça?”
– Mas que merda! – mais um artista amassa uma folha de papel e a arremessa no lixo. Não foi um parágrafo de todo o ruim, mas agradar a si mesmo é sempre mais difícil do que agradar os outros. Talvez porque não é difícil convencer alguém de que certa criação é boa, mesmo que não o seja. Mas essa autocrítica é boa, pois os artistas exigem mais de si mesmos.
“Corre, pula, cambalhota, cambalhota, cambalhota, mortal, aterrissa, levanta as mãos.” No ginásio, sozinho, um artista pega a filmadora e assiste ao seu salto.
– Será que ficou bom? Melhor fazer de novo. – Esse ginasta fará o seu melhor, mesmo que não tenha o apoio de sua família ou da sociedade. Ele continuará tentando, mesmo sabendo que não será rico, talvez não reconhecido, mas feliz, pois nada o dá tanta alegria de espírito quanto a ginástica.
– Olha – diz a artista, com uma câmera na mão, mostrando-a para a mulher ao seu lado.
Essa sou eu? – a segunda mal acreditava que aquele semblante adormecido, iluminado pelo sol da manhã, indubitavelmente lindo, lhe pertencia. Ela, que nunca gostou do seu corpo, observava extasiada os piercings refletindo a intensa luz matinal. A arte da sua namorada tinha esse poder de mostrar o melhor de tudo, transformar mármore cru em um Davi com seios.
– Quem mais valeria o trabalho de levantar cedo e andar na ponta dos pés para pegar a câmera, tudo isso sem fazer barulho?
Às vezes o reconhecimento para um artista é um simples sorriso, ou até o brilhar dos olhos daquelas poucas pessoas cuja opinião nos importa.
– Mano, vai logo! – Um artista fala para o outro.
– Pera aí! – responde o segundo. Ele pega mais uma lata de spray de sua bolsa e assina o nome de seu grupo, que para esse relato é irrelevante. Os dois correm dali e, à distância, assobiaram como sinal de aprovação do muro que tinha acabado de renascer, belo, com caricaturas de políticos corruptos ou de pastores que os chamava de pecadores só por terem nascido diferentes.
E é essa a apreciação de sua própria obra, a crença de que tudo em que o artista coloca sua alma é intrinsecamente belo, que garante a felicidade de tais almas atormentadas pela capacidade de ver ale.
“E talvez as estrelas sejam na verdade furos feitos no céu escuro, mostrando que há um lugar iluminado para onde todos os livres de espírito descansarão após a morte, nos braços do ser que os deu a bênção de serem diferentes da massa, perfeitamente imperfeitos, felizmente infelizes.”
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