Felizes... para sempre?
8 - O que veio fazer aqui?
Notas iniciais
Já mencionei que os corredores desse palácio são infinitos? Meu plano era simplesmente andar de cabeça erguida e mostrar para todos que mesmo que tentem me derrubar, eu ainda consigo me levantar. Meu plano incluía sair com dignidade e provar que erraram ao me expulsar. A falha nele é que eu não contava com os olhares de piedade de cada guarda, criada e mordomo do palácio, que parecem ter combinado de me cumprimentarem pelos corredores. Estou saindo com dignidade, não quero piedade, é tão difícil de entender esse simples conceito?
Depois de algum tempo – mais tempo do que eu gostaria – me tranquei em meu escritório. Tenho que parar de pensar nele como meu. Nada aqui é meu. Não mais.
Não poderia ir para a suíte, porque ela agora é exclusivamente do rei Maxon e seria impossível me trancar lá.
– Você precisa se acalmar, America. Precisa se acalmar. Pensa no seu filho. Pensa no seu filho.
Praticamente me joguei em uma das cadeiras, psicologicamente esgotada. É um consolo pensar que não fui a única a sair perdendo nessa história. Eles podem ter até me machucado me arrancando da vida que eu construí e da família que eu pensei fazer parte, mas que nunca fiz de fato. Só que junto comigo, eles perderam o tão ansiado herdeiro de Illéa. Como será que Clarkson reagirá a isso?
– America, sua idiota. Ele não vai aceitar! – Exclamei. Pronto, agora eu falo sozinha. Que maravilha!
Mas uma coisa é certa: se eu permanecer em Illéa, Clarkson e mesmo Maxon não hesitarão em arrancar meu filho dos meus braços assim que nascer. Maxon tem o direito de pai e, além disso, tem o direito de rei. Mas se ele pensa que vai tirar meu filho de mim, está muito enganado.
Meu telefone – pare de falar “meu”, America – começou a tocar, em sinal claro de desrespeito ao meu momento de rancor. Pensei em não atender, mas quem quer seja, sabe que não é um bom momento e ainda assim resolveu ligar. Presumo que seja importante.
– Alô.
– Meri? É a Nicolleta.
– Nick? Aconteceu alguma coisa?
– Como assim aconteceu alguma coisa? É claro que aconteceu. Você foi deposta. O que mais espera que pode ter acontecido?
– Desculpe, é que eu não fazia ideia de que a notícia da minha deposição já teria atravessado o oceano.
– Não importa como e quando a notícia chegou. O que interessa é como você está.
– Fisicamente, estou bem. Psicologicamente, estou apavorada. Acho que vão tentar tirar meu filho, Nick.
– Você acha e eu tenho certeza. Precisa sair daí, Meri.
– Não acho que eu vá conseguir me esconder. Pelos céus, eu fui rainha. Serei reconhecida onde quer que eu vá.
– Quem foi que falou em se esconder? Quero que venha para a Itália. Não posso fazer nada com você aí nesse ninho de cobras, mas posso protegê-la no meu palácio. Você vem?
– Eu não sei, Nick. Por mais que eu esteja assustada, não quero tomar nenhuma decisão precipitada.
– Preste atenção, Meri. Seu filho é um problema para todos os que te querem longe da coroa. Não importa se Maxon tiver mais vinte mulheres e vinte filhos com cada uma. Como herdeiro legítimo de Illéa, ele deverá ser o rei e você terá que voltar ao palácio. Temo que não queiram apenas te tirar seu filho, mas que queiram mata-lo. Você tem que sair daí, entendeu?
– Por Deus. Eu não tinha pensado nisso.
– Arrume suas malas imediatamente. Não coma ou beba nada suspeito e pegue o primeiro voo para a Itália. Depois que estiver aqui, pensaremos melhor no que fazer.
– Farei isso. Nem sei como agradecê-la.
– Agradeça se apressando.
– Tudo bem. Vou desligar. Até breve.
– Até.
Com esses pensamentos saí do escritório em direção à suíte do rei. Anne, Mary, Lucy estavam a minha espera e vieram me abraçar tão logo quanto entrei, quase me sufocando.
– Meninas, eu preciso respirar.
– Desculpe – Mary falou.
– Não posso acreditar que a senhora vai embora – Anne continuou.
– Espere. Tem mais gente querendo te ver. – Lucy falou indo em direção ao meu closet e saindo de lá com Marlee, Carter e Aspen, que vieram me abraçar também. Aspen foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– O que vai fazer agora, Meri?
– Vou para a Itália. – Disse simplesmente.
– Itália? Por que para tão longe? – Marlee perguntou.
– Temo que possam tentar alguma coisa contra meu filho. Nicolleta insiste que eu vá para lá e depois de ouvir o que me disse, receio que ela esteja certa.
– Vamos sentir sua falta – Carter completou. Nos aproximamos depois do meu casamento devido a minha amizade com Marlee e a amizade que ele pareceu desenvolver com Maxon.
– Escutem. Não podem dizer nada sobre minha ida até eu estar no avião cruzando o oceano. Prometem?
Depois que todos prometeram, tranquei a porta e pedi ajuda para arrumar minhas malas – ou o que faltava, porque eu nem desarrumei as malas quando cheguei hoje – até que ouvi uma batida na porta.
– Quem é?
– Sou eu, filha. Estou sozinha, não se preocupe.
Corri até a porta para destrancá-la. Amberly pareceu surpresa com tanta gente.
– O que está acontecendo aqui?
– Estamos arrumando minhas malas. Eu juro que explico tudo por telefone depois, mas eu realmente preciso ir.
– Eu já imaginava que você não iria querer demorar, por isso eu vim. Preciso saber sobre o que você quer que eu diga a Maxon. Nós duas sabemos que ele virá assim que o choque passar.
– Leve-o ao jardim. E conte a história. Responda as perguntas dele sem reservas. Não tenho mais razão para não querer desapontá-lo.
– Ah, filha. Eu sinto tanto por tudo o que está acontecendo. Queria que as coisas fossem diferentes.
– Eu também. – Suspirei – Mãe, preciso que guarde mais um segredo meu. Apenas por algumas horas.
– Pode me contar o que quiser.
– Estou indo para a Itália. Quero levá-los comigo – digo apontando para meus amigos – se eles desejarem, é claro.
Todos concordaram, e Amberly disse que tentaria convencer Maxon a me deixar levar minhas criadas e dois guardas para minha proteção. Lucy era uma ex-criada, já que virou uma Dois, Marlee não era minha criada e Carter não era guarda, mas Maxon não precisa de tantos detalhes. Eu posso ter sido deposta, mas ainda sou nobre. Ainda sou uma Um. E levo comigo quantos me aprouver.
Amberly voltou momentos depois com uma resposta favorável de Maxon e meus amigos foram arrumar suas malas — Ao que me parece, ele só sabe que eu vou embora. Não é da conta dele para onde estou indo -. Liguei para Nicolleta para avisar que os estava levando comigo e ela disse que eu poderia levar quantos quisesse. Aspen ficou um pouco relutante quanto à família dele, mas agora que estava casado com Lucy, não poderia sequer imaginar ficar longe dela. Ficou mais tranquilo com a notícia de que poderíamos enviar cartas à Illéa, assim poderia continuar mandando dinheiro para a família.
Minutos depois já estávamos saindo do palácio. Uma lágrima teimosa ousou cair, mas enxuguei-a prontamente e me esforcei para não lamentar por tudo o que tiraram de mim.
Mas o que encontrei ao atravessar os muros do palácio ficaria para sempre em minha memória. Uma verdadeira multidão se reuniu para me ver sair. Como o carro não conseguiria passar com toda aquela gente, saí.
– Rainha America! É ela! É a rainha! – O povo vibrou e começou a apontar para mim. E o mais incrível: um por um, todos se ajoelharam.
– Parece que toda a província de Angeles está aqui, Meri – Marlee observou.
– Podem ter tirado sua coroa, mas para essa gente a senhora ainda é a rainha. Eles te amam. – Anne acrescentou.
Caminhei até eles enquanto muitas câmeras me acompanhavam. Me abraçaram, me beijaram, me deram presentes, choraram por mim, me abençoaram e abençoaram meu filho. Senti um aperto no peito por estar deixando Illéa e todo esse povo – meu povo – para trás, mas era preciso. Por enquanto, eu os levarei em meu coração e permanecerei no deles. Vai ter que ser suficiente.
Cheguei ao aeroporto horas depois do previsto. Quando desembarquei, Nicolleta, Naomi e Orabella estavam a minha espera. Começou uma nova fase na minha vida. E vou vivê-la da melhor forma que eu puder. Vou ensinar meu filho – ou minha filha – a ser um príncipe – ou uma princesa – de verdade. Alguém instruído na política de Illéa, sim. Mas que também conheça outras culturas e saiba extrair apenas o melhor de cada uma. Alguém que domine todos os tipos de arte, inclusive a arte da guerra. Alguém que saiba governar como soberano, mas que também saiba oferecer ajuda aos necessitados. Alguém com valores. Alguém que saiba amar. Minha missão é ensinar meu filho a ser um líder, um guia, um amigo, um mestre, um ser humano.
E não vou falhar.
– America? Finalmente! – Nicolleta veio em minha direção, acompanhada de perto por suas primas.
– Desculpe o atraso. Estava me despedindo do meu povo.
– Eu soube. Aliás, que confusão você deixou para trás! Confesso que até eu me surpreendi.
– Do que você está falando?
– Não soube? Meri, o caos em que Illéa está deixaria os ataques rebeldes parecerem brincadeira de criança. Com manifestações nas províncias, com toda a população de Angeles às portas do palácio e com o ódio que o povo está sentindo da Monarquia, Maxon deve estar amargamente arrependido de ter ousado mexer com você.
– Eu não quero que ninguém morra por minha causa, Nicolleta.
– Não vão morrer. Não estão atacando ainda. Estão assegurando o reino para seu filho.
– O que? Como assim?
– Simples. Não vão atacar enquanto Maxon não escolher outra rainha. Não querem ninguém no seu lugar. Ou é você, Meri, ou ninguém mais. E Maxon não é burro o suficiente para desacatá-los. Clarkson talvez o aconselhe a lançar o exército contra o povo, mas Maxon sabe que jamais poderia fazer isso. Todo o povo está em seu favor. Lançar os guardas contra o povo é lança-los contra seus próprios amigos, contra suas próprias famílias. Provavelmente, desertariam ou, na pior das hipóteses, se voltariam contra a Coroa. Maxon ficaria sem exército.
– Não posso acreditar que tudo isso seja por minha causa. Mas sei que o povo cansou de sofrer. Agora que Maxon me expulsou, todos devem estar pensando horrores dele.
– E com toda razão. O que ele fez foi inadmissível. Mas teremos tempo para conversarmos no palácio. Você deve estar cansada da viagem. Vamos?
– Sim. Vamos.
...
Meses se passaram e meu filho ou minha filha reinará em Illéa. Não demorou muito tempo para que Clarkson se lembrasse de que eu poderia ter uma menina e sendo assim, o nascimento de um menino tornaria minha filha inapta para o trono. Quando expôs essa possibilidade ao povo, garantiu que as manifestações recomeçassem. Me defendiam a todo custo. “Preferimos uma menina parecida com a Rainha do que um menino parecido com o Rei!” – protestaram.
Enfim, tenho mais um problema agora: Segundo a lei, apenas um genuíno filho de Illéa poderia reinar. Ou seja, tenho que voltar para ter meu filho em solo Illeano.
As italianas e os ingleses – é claro que May iria querer tomar partido – me ajudaram a planejar todo o tempo que eu permaneceria em Illéa, o que incluía:
Entrar escondida enquanto Nicolleta fosse negociar a aliança com Maxon;
Ter meu filho numa casa que meus pais alugaram, abastecida pelos equipamentos médicos ultramodernos da Inglaterra (logicamente, entraram clandestinamente com uma pequena participação de Amberly, que estava ciente de todo o plano e nos dando cobertura), com médicos italianos;
Fazer uma sessão fotográfica desde a minha chegada em até a minha saída (evidente que com fotógrafos também italianos);
Voltar para a Itália com Nicolleta;
Segura com o meu bebê, enviar as fotos para Maxon e para cada editora de jornal ou revista em Illéa.
O conceito é bem simples de se entender. Resta saber apenas se a execução não será ilusória.
Com trinta e nove semanas de gravidez e uma barriga assustadoramente grande, entro no avião, me preparando para o que vier a seguir.
Horas depois, a primeira e a segunda partes do plano foram realizadas com sucesso. Entrei em Illéa sem ninguém perceber e fiquei instalada no meu hospital improvisado particular. Nicolleta e suas primas foram para o palácio e eu fiquei apenas com os médicos e fotógrafos. Não dava para arriscar que seguissem minha família até mim.
O doutor Rizzo, que acompanhou minha gravidez na Itália, me explicou que um parto normal seria melhor para meu bebê e para mim, mas que devido à minha gravidez de risco, manteria a equipe médica atenta para o caso da cesariana ser necessária. Sinceramente, essa história de gravidez de risco já me tirou a paciência. Eu pareço uma inválida sem fazer nada. É claro que eu fico quieta no meu canto para não prejudicar meu filho, mas que essa situação é entediante, isso é.
Agora só tenho que esperar a hora que meu bebê quiser vir ao mundo. Optei por não saber o sexo e quase levei May à histeria. Ela descobriu que terá um menino e Alexander está todo bobo. Insistiu tanto para eu ver o sexo do meu filho que quase consenti, mas no final acabei negando.
Três dias mais tarde e Nicolleta volta do palácio.
– America, tem alguém aqui querendo ver você.
– Nicolleta, o plano era que ninguém soubesse que eu estou aqui.
– Vai precisar confiar em mim, tá?
– É o mínimo que posso fazer depois de tudo o que está fazendo por mim.
– Ótimo. Preciso que fique calma. – Assenti – Pode entrar.
– Maxon? O que veio fazer aqui? Nicolleta, o que significa isso?
FLASHBACK’S MAXON ON:
– Rei Maxon, creio que eu tenha ainda um último assunto a tratar a respeito de nossa aliança. – Estava em reunião com a rainha da Itália há horas e a única coisa que conseguia pensar era se ela me traria notícias de America.
– E que assunto seria esse? – Perguntei.
– Seu filho, majestade. – Confesso que minha reação foi “É um menino!”, mas me recompus e perguntei o que um rei deveria perguntar.
– Me pergunto como meu filho e nossa aliança podem estar relacionados.
– É muito simples, na verdade. Quero estender nossa aliança até a próxima geração...
– Isso seria excelente...
– Por favor, majestade. Permita que eu termine. – Assenti – Receio que seu filho esteja correndo risco de vida em Illéa. – O QUE?!
– O que quer dizer?
– Temo que as pessoas que discordam de America tentarão prejudicá-lo para que não tenha outra alternativa a não ser escolher outra rainha.
– Seu temor é infundado, majestade. Todos em Illéa concordam com America. Até eu concordo com America.
– Mas seu pai não.
– Meu pai não tentaria nada contra meu filho.
– Nós dois sabemos que ele tentaria, não se engane. – Me calei. Meu pai é o homem que me chicoteou e tramou contra America, mas seria capaz de matar meu filho?
– Onde está querendo chegar?
– Nossa aliança será impossível se seu filho estiver morto. America está sob minha proteção e seu filho será meu protegido.
– E o que você quer em troca?
– Que você fique longe. America não confia em você e sinceramente eu também não.
– Acha que eu mataria meu próprio filho?
– Renegou sua própria esposa. Por que eu deveria confiar em você com seu filho?
– É diferente.
– A questão é que você não pode chegar perto desta criança.
– E se eu me negar?
– América está sob minha proteção, eu já disse. Não darei permissão para que você pise na Itália e se ousar tentar, eu vou considerar como uma declaração de guerra. Nós dois sabemos que o que restou do seu exército é uma piada comparado ao meu. Se mesmo assim quiser entrar no meu país, seu filho deixará de ser meu protegido e passará a ser meu refém.
– Você não está me dando opções.
– Essa nunca foi a intenção.
Enterrei a cabeça em minhas mãos, refletindo. Os termos dela são severos demais. Serei um desconhecido do meu filho. Mas ele e America estarão seguros. Tenho que me redimir com minha família e deixar de ser egoísta.
– Nicolleta, sei que America está em Illéa. Só não sei onde.
– Como...?
– Ninguém me contou nada. E seja lá o plano que vocês tenham deve ser muito bom, porque não pude rastreá-los. Mas America sabe que o reinado do nosso filho depende de que ele nasça em Illéa e eu sei fazer as contas. Ela já está com quase nove meses de gravidez. Sua visita só provou que ela está aqui escondida em algum lugar.
– Você está certo, mas se espera que eu...
– Por favor. Eu imploro. Não poderei ver meu filho outra vez por anos. Preciso estar lá quando ele nascer. Eu sou o pai dessa criança, Nicolleta. E a amo, mesmo que você não acredite. Por favor, me permita estar lá.
– Como vou ter certeza de que você não quer se aproveitar para tomá-lo?
– Vou sozinho. Qualquer um me impediria de sair com uma criança no colo se eu tentasse. Por favor.
FLASHBACK’S MAXON OFF
– Será que dá pra alguém me explicar o que é que está acontecendo aqui?
Maxon e Nicolleta se entreolharam, mas foi Maxon quem me respondeu.
– America, eu sei que você deve me odiar e que a última coisa que deve passar pela sua cabeça é me perdoar, mas se vai levar nosso filho para o outro lado do mundo, por favor, me permita estar aqui hoje. Eu prometo que não vou tentar tomá-lo dos seus braços e que não vou fazer nada que você não queira.
– Eu não odeio você, Maxon. Só quero o que é melhor para o meu filho, mas aprendi da pior forma que chorar pelo passado não faz com que ele mude. Se Nicolleta confiou de te trazer aqui e se você realmente promete não nos fazer mal, você pode ficar.
Como que cronometrado, senti uma dor forte na base da minha barriga. Parece que meu filho só estava esperando pelo pai. Gritei. Os médicos começaram a me cercar. Maxon foi vestir o roupão e a touca e Nicolleta saiu do quarto.
Não vou descrever minha dor ou minha agonia. Não teria palavras para isso. Acho que a única que resume relativamente bem é: AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!
Em algum momento, pedi a Maxon que segurasse minha mão, o que parece tê-lo emocionado.
De repente, a dor cessou e o médico segurava um pequenino ser nas mãos.
– Parabéns aos dois. Sua filha é perfeita.
Continua...
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