Felizes... para sempre?
4 - Eu?
Notas iniciais
Tive um sonho tão bom. Sonhei que tinha me casado com Maxon e que finalmente estávamos juntos. Sonhei com nossa noite de núpcias também. Agora não sei como faço para encará-lo no café da manhã com esses pensamentos obscenos que ando tendo.
Sinto algo no meu nariz, depois na minha testa, na minha bochecha, no meu queixo, no canto da minha boca... São beijos? Abro os olhos e sorrio com a visão de Maxon ao meu lado. Dormimos juntos... Dormimos juntos?
– AH! DORMIMOS JUNTOS! EU ESTOU NO SEU QUARTO! – Gritei, histérica, e Maxon me olhou confuso, mas com um olhar divertido.
– Não foi só isso que aconteceu, mas sim, dormimos juntos. E você está no nosso quarto, senhora Schreave. – Maxon disse pausadamente, mas... Como?
– Não foi um sonho? – Perguntei mais para mim mesma do que para ele, mas isso não o impediu de responder, sorrindo.
– Não. Queria que fosse?
– Nem um pouco – Sorri, maliciosa. -, então, deixa eu ver se entendi direito... Você é meu esposo, certo?
– Certo.
– Esse é nosso quarto, certo?
– Certo.
– E ninguém pode entrar aqui sem nossa autorização, certo?
– Certo. – Maxon entendeu aonde eu queria chegar.
– E estamos em lua de mel, certo?
– Certíssimo.
– Então o que você está esperando para...?
Maxon não esperou eu terminar. Em um momento estávamos conversando, em outro estávamos nos beijando e em outro... Bem, já deu pra entender aonde chegamos.
Sorríamos, comigo deitada sobre o peito dele.
– Maxon?
– O que?
– Estou com fome. A gente tem que descer para o café da manhã hoje ou podemos pedir o café no quarto?
– Temos que descer, querida. – Sorri – Alguns diplomatas vão embora hoje. Temos que nos despedir.
– Pois bem... Vou me arrumar no meu quarto. – Digo, me levantando e me enrolando nas cobertas.
– Já vai? Ainda temos algum tempo. – Maxon, agora sem as cobertas, coloca os braços atrás da cabeça. Poderia dizer que ele é lindo, mas seria eufemismo. Pelos céus, assim eu não me aguento, amor!
– Acontece que eu não quero chegar atrasada. Se você não se lembra, agora eu sou uma princesa. Devo ser alguém exemplar. – Maxon gargalhou.
– Quem é você e o que fez com minha América?
– Engraçadinho! Por mais que eu ame vê-lo assim é melhor você ir se arrumar – disse, virando as costas e atravessando a porta que conectava nossos quartos.
Chamei minhas criadas. Poderia ter me arrumado sozinha, mas queria impressionar os diplomatas e os conselheiros – e Maxon –; o rei não se impressionaria com nada que eu fizesse, mas não custa tentar. Além disso, sei que elas estão ansiosas. Tornaram-se as criadas da princesa e, um dia, seriam criadas da rainha.
Acho que elas nunca vieram tão rápidas. Em um momento toquei o botão, no outro elas já estavam entrando. Até ontem foram elas que me acordaram, mas Maxon fez questão de assumir essa função. Estavam com um uniforme novo, mais elegante. Entraram meio constrangidas e começaram a me arrumar em silêncio.
– Tudo bem, podem falar. O que querem saber?
– Como foi?
–LUCY! – Anne a repreendeu, mas eu apenas gargalhei.
– Tudo bem, Anne. Somos amigas, não precisa ter receio de falar comigo, seja o que for. E respondendo sua pergunta Lucy, foi incrível. A pessoa que disse que ninguém é perfeito, não conheceu o Maxon. – As três soltaram risadinhas, mas mudaram de assunto. Começamos a falar da festa e elas me contaram umas fofocas dos convidados. Foi divertido. Ríamos histericamente, até que Maxon entrou no quarto. Minhas criadas tentaram se conter, mas Mary não conseguiu. Voltamos a gargalhar e Maxon me abraçou por trás, apoiando a cabeça em meu ombro.
– Bem, aproveitando o momento que estamos todos aqui, eu queria convidá-los oficialmente para meu casamento com Aspen. Depois de ontem, resolvemos marcar a data de uma vez. – Lucy comentou, sorrindo.
– Finalmente! – Maxon exclamou – Se ele ficasse te enrolando mais, eu mesmo iria falar com ele. Quero ser padrinho, Lucy.
Contei que Maxon se dá super bem com as minhas criadas? Quando ficamos noivos, ele passava todo o tempo livre – que não era tanto assim – comigo e minhas criadas acabaram se acostumando à presença dele.
– Se aceitarem. Faço questão que sejam meus padrinhos – Lucy afirmou – Anne, Mary, vocês também. É melhor pararem de afastar o soldado Dales e o soldado Thompson para terem com quem fazer par, entenderam?
– Soldado Thompson? Não foi ele que dançou com você no natal, América? – Maxon perguntou descontente.
– Sim e não me venha com esses ciúmes, sabe que eu sou só sua. E agora sabe que ele está a fim da Anne.
– Tudo bem. Se nos dão licença, temos que descer para o café.
Já tinham algumas pessoas na Sala de Jantar, mas ainda faltava bastante gente. Orabella e Naomi já estavam à mesa e me lançaram olhares sugestivos quando entrei ao lado de Maxon. Me controlei para não rir dessa “animação” delas. May também estava lá. Aquela ali não brinca quando se trata da comida do palácio. Maxon e eu nos sentamos em nossos respectivos lugares: Maxon ao lado do pai, que ocupava a cabeceira, e em frente à mãe e eu ao seu lado. Os convidados que permaneceram no palácio foram chegando aos poucos. Minha família voltou para casa ontem mesmo. Não em Carolina. Agora todos moram em Angeles, em uma mansão há alguns quilômetros do palácio. Só May ficou e, pensando bem, acho que não sou a única razão pra ela querer ficar.
A realeza da Inglaterra entrou para o café.
A situação é a seguinte: Illéa e Inglaterra não tem uma relação muito boa por causa da França. A realeza da Inglaterra e a realeza da França não é o que pode se chamar de melhores amigos. Quando Illéa fez acordos com a França, afastou a Inglaterra e minha mãe – Amberly – sugeriu que os convidássemos para o casamento, para não afastá-los de vez. Digamos apenas, que o problema todo é com os reis. Os príncipes e princesas – Maxon, Alexander, Daphne e eu – nos damos muito bem. Os ingleses chegaram um dia antes do casamento e ficaram hospedados no palácio e aproveitamos para tentar estabelecer um pacto de aliança futura, para quando fôssemos reis. Afinal, não dá pra perder tempo. O problema é que Alexander é apressado até demais.
– Rei Clarkson? – O Rei Philip III chamou.
– Pois não. – Rei Clarckson parecia curioso, mas não tanto. Se ele não fosse rei, seria um ator brilhante.
– Conversei muito com meu filho noite passada e ele provou-me a sensatez de reforçarmos nossos vínculos de aliança.
– Seria excelente. Certamente podemos entrar num acordo.
– Mas para selar um acordo, precisamos de um casamento. Meu filho está disposto a desposar uma moça nobre dentre as filhas de Illéa.
– De minha parte não há moças disponíveis, Rei Philip, mas minha esposa tem irmãs. Se seu filho concordar em esperar para o matrimônio, então posso mandar preparar uma de minhas sobrinhas.
– Ficaria lisonjeado, mas já tenho em mente uma moça em idade apta para ser apresentada como noiva de meu filho.
– Estou curioso. Quem seria esta jovem?
– A senhorita May Singer, irmã da princesa. – Arregalei meus olhos e o rei soltou faíscas pelos dele.
– Eu? – May quase se engasgou com o suco.
– A senhorita May tem nascimento humilde e, diferente das minhas sobrinhas, não está acostumada à vida na realeza ainda.
– Exatamente por isso. Meu filho acredita que seria mais adequado ensiná-la aos costumes da nossa realeza, pois aprenderá mais rapidamente do que uma de suas sobrinhas, já que estas estão acostumadas às tradições da vossa realeza desde o berço.
– Ainda acho que uma de minhas sobrinhas seria mais apropriada, vossa alteza tem certeza...?
– Eu tenho. – Alexander se expressou pela primeira vez. E da forma como olhava para minha irmã, soube que o rei não o faria mudar de ideia.
– Pois bem, então trataremos do acordo à tarde. Por enquanto, vamos aproveitar nosso café da manhã.
Alexander era uma versão masculina da personalidade de Nicolleta. Ficarei tranquila se minha irmã aceitar se casar com ele, mas ao mesmo tempo, triste com a distância; Alexander é alto, com a pele clara, típica dos europeus, cabelos e olhos castanhos; muito bonito, por sinal, e era só um ano mais velho que May. Alegre, espontâneo e, ao que parece, apaixonado. Me pergunto quando foi que isso aconteceu? May vai ter que me esclarecer umas coisinhas depois.
– Com licença, majestades – May se dirigiu aos dois reis – Quando foi que virei uma moeda de troca? Não serei ao menos consultada se minha vontade é me casar com o príncipe? Não aceitarei ser tratada como um objeto por nenhum dos dois reinos. Se o príncipe quiser minha mão, terá ele mesmo que vir se arriscar a pedir. Agora, se me dão licença, acho que perdi a fome.
May perder a fome? Conheço minha irmã. Ela é muito romântica e não suporta que mandem nela. Ver um momento tão especial e decisivo ser tratado como um acordo político deve ter sido horrível para ela. Mas se ela gostar mesmo desse príncipe, eu darei toda a força para ela ir morar na Inglaterra. Minha irmã desafiou o rei na presença de líderes mundiais. Não posso permitir que ele tente prejudica-la. Preciso resolver logo isso.
– Maxon, vou atrás de May, tudo bem? – Pergunto.
– Sim, claro, eu iria sugerir que fizesse isso. — Respondeu
– Tudo bem. Com licença, senhores.
Levantei-me e procurei minha irmã. Achei-a parada no jardim.
– May?
– O que foi aquilo, Ames?
– Os reis sendo reis.
– Ames, se tiver filhas, deixará que ele faça isso?
Não tinha pensado nisso. Mas agora que pensei, fiquei revoltada. É claro que não deixaria ninguém tratar minhas filhas deste modo. Vou ter uma conversa com Maxon sobre isso, mais tarde.
– É claro que não, May. Quando Maxon for rei, seremos diferentes.
– Sei que sim. Mas não entendo, Ames. Eu sou da realeza há um dia e já estão me negociando?
– Eu sei que é horrível, May, mas não será tão horrível se você gostar de Alexander. Gosta dele?
May ficou envergonhada. Ela nunca ficava envergonhada. Então isso é um sim?
– Não sei. Foi tudo tão rápido.
– O que foi tão rápido? – May suspirou e começou a me contar a história.
– Nos conhecemos há alguns meses, quando vim ajudá-la a escolher seu vestido de casamento. Eu costumo visitar minhas criadas no dormitório delas. Elas têm medo de brigarem com elas, mas eu gosto. Nesse dia, estava descendo as escadas do terceiro andar e Alexander estava subindo. Não dei muita atenção a ele, apenas disse bom dia, mas como sou desastrada, eu tinha que tropeçar. Só que cai em cima dele, e ele caiu junto comigo. Começamos a rir e marcamos de conversar no jardim depois que a reunião dele acabasse. Conversamos muito sobre nós dois, nossas famílias, enfim... Quando deu a hora de nos arrumarmos para o jantar, ele me acompanhou até a porta. E então... Nós... É... Você sabe... Nos beijamos.
May ficou vermelha. Ela é toda doidinha, mas foi o primeiro beijo dela. Sorri com o pensamento. Parece que nós duas seríamos princesas, afinal.
– Anteontem, ele me chamou de novo para passearmos pelo palácio. Disse que tinha pensado bastante em mim, nos meses depois de sua visita. Eu disse que tinha pensado nele também. Como não iria? Foi meu primeiro beijo, Ames. Ontem, no seu casamento, dançamos várias músicas juntos. Os fotógrafos ingleses tiveram uma noite daquelas. Devo ter aparecido em todos os jornais da Inglaterra hoje. Quando você disse que iria jogar o buquê ele estava prestes a me dizer alguma coisa. Disse que era importante. Agora sei o que é.
– Você não respondeu minha pergunta, May. Gosta dele?
– Conversamos por três dias, Ames. Três dias! E ele me pede em casamento?
– May, ele é um príncipe. Provavelmente cresceu com a ideia de que sequer conheceria a sua pretendente antes do noivado. Deve gostar mesmo de você. Mas não perguntei quantos dias conversaram. Perguntei se gosta dele.
– Acho... Acho que sim – Ela sussurrou o final. Mas foi o suficiente pra mim.
– Bem, continue inflexível do jeito que está agora – Ela me olhou nervosa; ansiosa pelo meu conselho –, mas não desafie os reis de novo. Alexander vai te pedir em casamento, logo. E então você faz uma cara de pensativa para torturá-lo um pouco, e depois diz que sim.
May riu e me abraçou.
– Vou sentir sua falta, baixinha.
– E eu a sua, Ames.
Se o rei concordou com o casamento no café da manhã, o pedido de casamento veio no almoço. Eu disse que esse Alexander é muito apressado. May fez exatamente o que eu disse pra ela fazer e no final, Alexander a puxou pra um beijo, quase engolindo minha irmã. Vou ter que ter uma conversa séria sobre castidade até o casamento com esse principezinho.
– E você querendo pedir o café no quarto. — Maxon sussurrou e nós rimos.
– Ainda bem que não me deixou fazer isso.
– Você que não insistiu. Eu teria adorado ficar no quarto, se é que me entende. — Maxon piscou pra mim e eu corei. Não provoca, amor!
Os diplomatas foram embora logo depois do almoço. A realeza da Inglaterra também, mas Alexander vai passar mais uma semana em Illéa e depois May vai embora com ele.
Maxon foi resolver alguma coisa da nossa viagem com o pai. Que viagem? Surpresa de Maxon. Um presente de lua de mel foi o que me disse. E segundo ele, só estamos começando. Tenho que concordar com isso.
Eu voltei para o meu quarto para me arrumar, me despedir das minhas criadas e pegar minhas malas. Quero dizer, pedir para algum soldado pegar minhas malas. Parte legal de ser princesa: não pego peso; parte chata: pareço uma inútil.
Quando desci procurando Maxon para irmos, acabei me deparando com o rei vindo em minha direção.
– América, eu posso falar com você um instante? – Para que ele pergunta? Iria adiantar eu dizer que não?
– É claro, senhor. O que deseja?
– Que você diga a sua irmã como tudo funciona por aqui. Não é porque ela é a prometida do príncipe da Inglaterra, que permitirei ser afrontado. Se ela fizer aquilo de novo, será você que sofrerá as consequências.
– Não se preocupe, majestade. May já foi avisada a não desacatá-lo. Ela fez sem perceber. Sinto muito. – Tive que conter a vontade de falar que foi muito bem feito e que eu no lugar dela faria a mesma coisa.
– É bom mesmo. Faça boa viagem, princesa.
– Obrigada, rei Clarkson.
– América? – Virei-me para ver Amberly se aproximando.
– Sim, mãe. – Amberly sorriu.
– Maxon está esperando lá fora. Tomem cuidado vocês dois e tentem não chamar atenção. Aproveite a viagem, filha.
– Farei isso. Obrigada.
Abracei-a e fui em direção aos portões do palácio, onde meu esposo estava a minha espera. Quando voltarmos, Maxon reassumirá suas funções e eu assumirei as minhas. Quando voltarmos, enfrentarei novas ameaças do rei. Quando voltarmos, nos esconderíamos de novos ataques de rebeldes. Mas enquanto isso não acontece, seremos apenas eu e Maxon, aproveitando nossa vida a dois. O resto pode esperar.
Continua...
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