Feliz Navidad

1 Capítulo único


Notas iniciais
Eu nem sei como tive essa ideia, mas adorei escrever isso aqui >w< Espero que alguém tenha paciência de ler até o fim e perdoe o meu italiano de Google Tradutor.
Dicionário:
Sorella: Irmã
Fratello: Irmão
Buongiorno: Bom dia
Feliz navidad: Feliz natal

Quando eu tinha nove anos, papai me levou para conhecer um grande amigo seu. No geral, eu não gostava de ir conhecer os amigos do papai. Todos eles apertavam as minhas bochechas e depois ficavam apenas lá, falando sobre política ou futebol. Nunca era divertido. Mesmo quando minha irmã mais nova, Feliciana, ia conosco, não tinha oportunidade de brincar com ela, pois eles nunca cansavam de mimá-la. Eu sempre fui tímida e sem graça, então as pessoas não me mimavam. Feliciana, por outro lado, era bonitinha desde cedo e sempre sabia quando sorrir e agradecer, mesmo tendo suas bochechas apertadas por velhos babões. Eu apenas corava e me afastava, então eles não viam muita graça em mim.

Naquele dia, contudo, foi diferente. Pois Feliciana não foi. E o amigo de papai não era o único a quem fui apresentada. Tinha o filho dele.

Eu tinha nove anos, maldição, ninguém pode me culpar por ficar abobalhada. Ele simplesmente entrou na sala sorrindo, erradiando felicidade para todos os lados. Ele tinha olhos verdes tão brilhantes que pareciam roubar toda a luz do cômodo, de um jeito completamente único. E então ele sorriu para mim. Apenas para mim. Quando se aproximou, não apertou as minhas bochechas, mas abaixou-se de modo que eu pude olhar diretamente em seus olhos e perguntou o meu nome. Senti meu rosto ficar vermelho e demorei a conseguir responder. Ele riu, mas não senti como se estivesse zombando de mim. Ele estava sendo apenas simpático.

Ele tinha apenas dezessete anos, mas conversou sem problemas tanto com nossos pais quanto comigo. Ao contrário de todos os outros homens que eu havia conhecido, ele não me excluiu da conversa e, sempre que sentia que o assunto não era do interesse de uma criança, virava-se exclusivamente para mim e me dava toda a sua atenção. Era a primeira vez que alguém ouvia o que eu tinha a dizer.

– Você é mesmo uma gracinha, Lovina! — ele exclamou com aquele sorriso alegre.

Uma gracinha. Ele disse que eu era uma gracinha. Ninguém no mundo havia me dito aquilo, mesmo quando Feliciana não estava por perto.

– Então... Quando você crescer, você vai casar comigo, certo?

Eu senti meu rosto tingir-se de vermelho tomate e a próxima coisa que percebi foi que estava atirando a almofada nele. Mais uma vez, ele riu apenas. Eu pensei que finalmente tinha encontrado alguém que me entendia, alguém que não tinha problemas com a minha timidez e compreendia que eu não era uma garota pouco feminina de propósito. Afinal, ele tinha sido gentil comigo. Ele sorrira para mim. Conversara comigo. Afagara a minha cabeça do jeito mais carinhoso possível quando nos despedimos. Então eu me peguei apressada em crescer logo para poder virar a esposa dele.

Antonio.

Eu cresci. Não era mais a garotinha de nove anos daquele dia. E percebi que ele não estava falando sério. Não por ter ficado mais velha e descoberto que garotos de dezessete anos não ficam noivos de garotas de nove. Mas por vê-lo interagindo com as outras pessoas. Antonio estava sempre sorrindo, sempre sendo gentil. Eu não era especial, afinal. Ele não me compreendia. Ele estava apenas sendo legal comigo, porque ele era um cara legal. Como sempre, eu tinha me superestimado.

Hoje, aos 23 anos, eu não acredito que um dia fui ingênua o suficiente para acreditar naquilo. Tampouco que Antonio foi meu primeiro amor. Que maneira tola de desperdiçar algo que devia ser especial! O primeiro amor devia ser especial, certo? O meu foi um idiota. Que vai ser um idiota até o dia da morte. Pois aos 31 anos Antonio ainda sorri o tempo todo e ainda tem olhos verdes tão brilhantes que parecem os olhos de uma criança. Ele não mudou. Ao contrário de mim, que fiquei mais cínica e rígida que antes, ele não mudou em nada. Aquele idiota.


24 de Novembro de 2011, apartamento de Lovina Vargas.


Estava entediada, mas não era capaz de fazer nada para mudar este fato: Na mesa da minha cozinha estavam empilhadas várias revistas e livros que eu tentara ler, mas perdera o interesse. Alguns dvds e suas respectivas capaz estavam largados em frente a TV. Não tinha nada de interessante para comer e eu não sentia vontade de cozinhar. Sabia que ia acabar pedindo pizza para o jantar — e assim que esse pensamento me ocorreu, imaginei minha amiga Emily Jones reclamando comigo e Feliciana sobre o fato de nós duas estarmos sempre comendo pasta e não engordarmos nada, ao contrário dela que se entupia de fast food e depois tinha que se matar de fazer exercícios no dia seguinte.

Rolei na cama abraçando um travesseiro. Queria ligar para Feliciana, mas ela provavelmente ainda estava ocupada com o amigo de infância alemão que havia reencontrado algumas smenas atrás. Eu tentava não ficar muito irritada com ela e seu amigo que mais parecia uma batata gigante de cara feia na qual alguém havia posto um par de olhos azuis, mas era mais forte que eu, afinal o cara estava roubando a minha irmã. Eu não sabia o que deveria fazer se eles dois começassem a namorar. Eca.

Considerei por um instante ligar para o Antonio, mas esse instante passou muito rápido, pois lembrei que estávamos brigados. Ou melhor, eu estava brigada com ele. Lembrei da minha ultima desastrosa visita à casa dele, na qual eu tinha perdido a paciência com a lerdeza dele e ido embora intempestivamente anunciando que não tornaria a falar com ele enquanto ele não deixasse de ser idiota. Eu estava esperando um pedido de desculpas para voltar a falar com ele. Ele não tinha me ligado nenhuma vez desde que saí de sua casa.

E eu não posso ser boazinha com o Antonio. Não posso ser gentil com ele, porque se eu for legal com ele... Bem... Eu vou acabar me apaixonando.

Suspirei. Talvez — apenas talvez! — eu tenha sido dura demais dessa vez. Eu não quero me apaixonar por ele, mas também não quero deixar de ser amiga dele. Talvez eu deva ir atrás dele e... Voltar a falar com ele. Como se nada tivesse acontecido. É, essa é uma boa ideia.
Enchi as bochechas de ar, prestes a engolir o orgulho e ir pegar o telefone no criado mudo quando um ruído estrindente me fez cair da cama com o susto. Era a campainha. Levantei resmungando todos os palavrões que eu conhecia e fui atender a porta do jeito que estava, usando apenas uma camiseta larga — que servia como um vestido — com os dizers "Buonno Tomato" e meias 3/4. Graças a Deus era apenas a Feliciana — eu morreria se fosse vista por outra pessoa que não fosse ela enquanto estava vestida daquele jeito.

Infelizmente, o namorado de Feliciana estava logo atrás dela.

– Sorella! — berrou Feliciana, atirando-se sobre mim assim que abri a porta. — Eu acabei de saber e vim correndo para cá saber se você estava bem. O fratello Antonio... Waa, mal acreditei quando o fratello Francis ligou.

– Um minuto! — interrompi — Está doida, Feliciana? O que tem o Antonio?

– Ah! — Feliciana afastou-se, cobrindo a boca com as mãos.

– Parece que ela ainda não soube... — comentou o super Batatão.

Olhei de um para o outro, meu cérebro processando lentamente o que aquilo significava. Feliciana chorando tanto que seu rosto estava inchado. O Batatão mais sério que o normal. Antonio. Senti que estava ficando tonta. Agarrei a frente da camisa engomada do Batatão para me equilibrar.

– Do que vocês estão falando? Cadê o Antonio?

– Fique calma, Lovina. — pediu Feliciana.

– Fique calma um inferno! — gritei — Não falo com Antonio há dois dias, onde ele está? O que tem ele?

– Ouça, ele está... Bom, não tão ruim quanto poderia. — disse o Batatão. — Acontece que ontem ele saiu de casa de carro, na chuva. Bom... Ele sofreu um acidente. O carro dele capotou.

Lentamente larguei a blusa do batatão, porque não podia mais sentir os dedos. Meus joelhos fraquejaram e eu simplesmente saí de órbita. Sobre desmaiar: Não é uma experiência legal.


23 de dezembro de 2011, quarto 411 de um hospital particular.


Um mês. Quase um mês desde que Antonio sofreu um acidente. Desde então, todos os dias venho ao hospital visitá-lo. É isso que chamam de coma persistente? Os médicos não sabem explicar porque ele não acordou ainda. Todos os dias eu ia para o hospital, entrava no quarto dele. As vezes trocava a água das flores. As vezes ajeitava alguma coisa que estava fora do lugar. E então sentava ao lado da cama dele, cruzava os braços na beira do colchão e apoiava o rosto ali. Ficava lá por vários minutos, as vezes uma hora inteira. Eu sabia que as enfermeiras comentavam a meu respeito, mas eu não ligava. Pela primeira vez, não me importava com o que poderiam estava falando de mim.

No dia 23 entrei no quarto como sempre. Haviam novas flores no vaso: Rosas. Sinal de que alguém o havia visitado, provavelmente seu grande amigo Francis. Haviam vários cartões de melhoras no criado mudo, mas ele não podia lê-los. Ocupei minha cadeira de sempre do jeito de sempre e examinei Antonio. Sua pele, normalmente morena, estava pálida. Seu cabelo um pouco mais comprido, mas alguém do hospital cuidara em não deixar a barba dele crescer. Antonio, que sempre era cheio de vida, parecia pálido e triste. De repente, notei que havia falhando miseravelmente em não me apaixonar por Antonio, pois naquele momento tudo o que eu conseguia era rezar desesperadamente em pensamento: Tudo... Tudo menos o Antonio. Eu não posso ficar sem o meu Antonio.

Lembrava que a ultima coisa que falei pra ele foi "Estou indo para casa, idiota, não me incomode mais". Se eu pudesse voltar no tempo... Eu diria. Diria a ele que eu gostava dele. Não apenas como amigo. Que eu o amava desde os nove anos. Senti meus olhos encherem-se de lágrimas e escondi automaticamente o rosto nos braços.

– Aah, não chore, Lovinita... Droga...

Ergui a cabeça num sobressalto e olhei diretamente para o rosto do inconsciente Antonio. Eu tinha... Podia jutar que tinha ouvido a voz dele. Ouvido-o falar comigo e me chamar pelo apelido bobo que ele pusera em mim anos antes. Contudo, ele continuava lá, dormindo placidamente, sem ter consciencia de que tinha visitas ou qualquer coisa parecida. Suspirei. Feliciana tinha razão... Ela estava preocupada com a minha sanidade por passar tanto tempo naquele hospital. Se eu estava começando a ouvir coisas, talvez fosse hora de começar a me preocupar também.

– Antonio... Seu idiota! — murmurei, irritada — Acorde logo, droga. Acorde logo e cumpra sua promessa, maldição.

– O que eu prometi a você?

Virei o rosto ao ouvir novamente a voz, mas desta vez ela não vinha do Antonio que estava deitado na minha frente. Vinha da janela. Ali, sentado no parapeito, estava... Antonio. Outro Antonio, consciente, mas meio translúcido. Olhei para ele de olhos arregalados, sem palavras.

Gritei. Tentei levantar rapidamente, mas tudo o que consegui foi virar a cadeira e cair com as pernas para cima. Levantei quase imediatamente com as pernas trêmulas e massageando a minha cabeça onde bateu no chão. Pisquei várias vezes tentando me livrar da visão, mas ele continuou lá. Uma projeção translúcida do homem que estava em coma logo ao meu lado.

– O que está havendo? — perguntou uma voz mal humorada na entrada.

– Ah! — Virei-me para a porta assustada, mas não havia nenhuma imagem translúcida lá, apenas uma enfermeira de cabelos compridos. — D-desculpe. Eu acho que cochilei e... P-pesadelo.

– Ah sim... — A expressão da enfermeira suavizou-se ao me reconhecer — Você é irmã da Feli, não é? Meu nome é Elizaveta. Sinto muito pelo seu namorado.

– Ele não é meu namorado! — Meu rosto, que já estava muito vermelho, corou mais ainda — Ele é meu melhor amigo.

– Está tudo bem? Você caiu, não foi? Bateu a cabeça?

– Estou bem. — agarrei minha bolsa no criado mudo. — Acho que vou para casa agora. Tenha um bom dia.

Saí andando. A enfermeira me lançou um olhar de preocupação que eu ignorei. O que foi aquilo justo agora? Eu podia jurar ter visto... O fantasma do Antonio. Mas isso não é possível porque: a) Antonio não está morto e b) Fantasmas não existem.

– Lovina? — eu continuava ouvindo a voz dele. — Lovina! Você.. Você pode me ver, não pode? Agora você se assustou porque me viu, não foi?

Continuei a andar, meus sapatos fazendo mais e mais barulho a medida que eu acelerava o passo. Era tudo fruto da minha imaginação. Tudo fruto da minha imaginação. Eu repetia palavras sem sentido para mim mesma enquanto ouvia a voz de Antonio claramente atrás de mim e não dentro da minha cabeça. As lágrimas nos meus olhos tornaram a se acumular e eu atraí alguns olhares enquanto saía do hospital. Uma mulher chorosa andando apressadamente como se tivesse cometido um crime. Não bastava a fama de garota-stalker-maluca-que-visita-todos-os-dias-um-cara-que-está-em-coma.

– Lovina!

A imagem translúcida de Antonio correu na minha frente. Parei de andar para não trombar com ele — era possível trombar com uma alucinação? Eu não queria testar. — mas logo desviei meu caminho para evitá-lo. Respirei fundo e repeti na minha mente os ultimos dias. O meu trabalho instável no restaurante que tinha herdado do meu pai tinha tomado muito do meu tempo. Com as noites que eu ficava como gerente porque Feliciana estava ocupada, eu não tinha dormido muito nas ultimas semanas. Somando isso ao estresse do acidente do Antonio, o namoro da Feliciana com o Batatão e a minha alimentação nada saudável nos ultimos dias, não era de se surpreender que estivesse tendo alucinações. Prometi a mim mesma passar menos tempo no hospital e descansar um pouco mais.

– Eu sabia! Você pode me ver! Você pode me ouvir também?

Ignorei deliberadamente. Eu não precisava falar com a alucinação. Ela certamente ia sumir depois de uma boa noite de sono. Fiz sinal para um táxi decidindo chegar em casa o mais rápido possível, onde tomaria um longo banho quente. Ligaria para o restaurante. Se dissesse que não estava me sentindo bem, tinha certeza de que Feliciana não deixaria de cancelar qualquer plano que tinha para cuidar do restaurante no meu lugar. Depois, só precisava me atirar na cama e dormir. Dormir até o ano que vem.

– Ah... Entendi... Você não pode falar comigo em público, porque as pessoas não podem me ver... Tudo bem, então.

Que raios de alucinação irritante! Era tão irritante quanto o Antonio verdadeiro! Ele me seguiu quando entrei no táxi e me seguiu quando cheguei ao meu prédio. O porteiro estava dormindo — para variar — então não me cumprimentou e nem notou meu comportamento estranho. Eu não sosseguei enquanto não estava dentro do meu apartamento. Infelizmente, o espírito do tomate entrou junto comigo.

– Lovina? Você pode me ouvir, não pode? Vai me ignorar? Ah, é... Você ainda está chateada por aquele dia na minha casa? Desculpe! Eu não queria sujar seu cabelo de molho de tomate.

Tirei os sapatos logo na entrada e fui de pés descalços para o quarto. De repente, me senti exausta, então fui direto para a cama onde agarrei um travesseiro e cobri a cabeça com o mesmo. É só uma alucinação. Vai sumir quando eu dormir. Quando eu acordar, vou descobrir o quão boba eu fui pro ficar cismada com isso.

– Lovina? Foi brincadeira. Desculpe, certo? Eu sei que eu disse que você ficou gostosa coberta de molho de tomate e foi uma brincadeira de mau gosto, eu lamento muito.

...

– Ah, que pena... Parece que você realmente não pode me ver e ouvir. Talvez eu deva ir embora.

Espere... Por que meu peito apertou? Eu quero que ele vá embora. Eu ainda não estou tão obsecada a ponto de querer o fantasma dele aqui. Certo?

– Ou... Eu posso ficar e observar você. Você não vai me ver mesmo, é melhor que ficar no hospital. E eu vou poder ver você tomando banho, trocando de roupa e...

– SEU VELHO PERVERTIDO! — Berrei atirando o travesseiro na direção da voz dele.

Ele desviou do travesseiro com facilidade e abriu um sorriso tão brilhante que eu achei que fosse cegar meus olhos. Antonio, o espírito do tomate, veio correndo e se jogou na minha cama. Na minha cama. Por cima de mim. Para me abraçar. Esse puto!

– Você pode me ver! Pode me ouvir!

Foi estranho. Eu podia sentir os braços de Antonio me apertando, mas era semelhante a ser tocada por água. Ele não era realmente sólido. Mais um sinal de que eu estava alucinando? A prova de que o espírito do Antonio era feito de molho de tomate? Especulações, especulações. Tentei não chorar enquanto sentia aquilo. Eu andava chorando um bocado nos ultimos tempos e se continuasse daquele jeito, ia acabar desidratando.

– Não posso, não! Droga! Você é uma alucinação porque eu fiquei muito tempo sem dormir. Você não pode ser um fantasma ou coisa parecida, então desapareça logo! Eu não gosto de estar louca.

– Que cruel, Lovina! Eu não sou um fantasma! — Ele afastou-se e encheu as bochechas de ar, montando uma expressão que deveria ser fofa. Não era.

– Então o que é você e porque só eu posso ver?!

– Ah.. Isso... — Antonio ficou pensativo — Eu não sei. Acordei no hospital um mês atrás e vi meu corpo inconsciente e ninguém podia me ver... Foi meio assustador. Mas hoje... Hoje você me viu!

– Um mê... — Meu rosto foi ficando quente — Você estava lá? O tempo todo?

– Ah! Sim... — O rosto de Antonio também corou, mas ele continuou a sorrir — Você... Ia me visitar sempre, não ia?

– N-não é como se eu... Eu só achei que fosse muito triste ficar o tempo todo sozinho lá, eu não... Hunf.

Ele apenas sorriu e me abraçou outra vez. Novamente, não era nem próximo de abraçar o Antonio de verdade. Não havia calor, não havia aperto real. Apenas aquela vaga sensação de ser acariciada por algo líquido. Um caroço se formou na minha garganta, mas logo eu estava abraçando-o de volta, apertando os braços em torno de suas costas e desejando poder torná-lo mais sólido. Havia muito tempo desde a ultima vez que eu tinha me sentido tão frágil e impotente.

– Eu estou feliz, Lovina. De todas as pessoas no mundo a poderem me ver, estou muito feliz que seja você.

– Idiota. Se você pudesse escolher, tenho certeza que teria escolhido alguém como o Francis, o Gilbert... Talvez a Feliciana, se ela não estivesse sempre tão ocupada com o Batatão.

– Batatão? — ele riu — Este seria o Lud?

Não respondi. Ele não tinha negado que escolheria algum desses três. Não era como se eu devesse esperar alguma coisa. Não, eu não estava criando esperanças. De jeito nenhum.


24 de dezembro de 2011, quarto de Lovina Vargas.


Eu lembrava de ter dormido como uma pedra, tão profundamente que não tinha sonhado. Rolei na cama. Havia uma ausência que eu não conseguia explicar. Apenas sentia desconforto e frio. O que era aquilo? Não era como eu acordava todos os dias? De alguma forma, sentia que faltava algo, mas estava sonolenta demais para abrir os olhos e descobrir o que era. Apenas encolhi-me numa bolinha debaixo dos lençóis esperando que o sono voltasse a reclamar minha consciência.

– Sorella? Sorella, acorde! — ouvi alguém chamando. — Sorella?

– An... toni... — Espere, Antonio? Opa... Acordei.

Sentei numa velocidade impressionante. Fiquei tonta. Segurei minha testa para diminuir a sensação de que minha cabeça estava girando e procurei Feliciana com os olhos. Ela estava bem ao lado da minha cama com uma expressão preocupada.

– Sorella? Você acabou de dizer... Er...

– Buongiorno. — respondi imediatamente. — Eu disse buongiorno.

– Ah. — Feliciana sorriu, aliviada. — Pensei por um instante... Ah, nada. Eu vi chamá-la, sorella, mas não achei que estivesse dormindo. Francamente, é mais de meio dia. Você tem que vir para a minha casa ajudar a preparar a ceia.

– Ceia... ?

– Não vá dizer que você esqueceu! Natal, sorella, a festa de natal vai ser na minha casa esse ano! Você prometeu me ajudar, lembra?

– Ah... Ah! Claro. Vá na frente, certo? Eu vou tomar banho, comer alguma coisa e depois vou pra sua casa e ajudo você.

– Tem certeza? Eu posso ficar e ajudar...

– Vai logo, Feliciana.

– Que cruel, sorella!

Mas ela foi embora. Suspirei de alívio quando fiquei sozinha outra vez.

Um minuto... Sozinha?

De repente, senti todo o sangue fugir das minhas veias, mas me obriguei a levantar da cama e dar uma volta pelo apartamento. Ele... Onde ele estava? Tinha desaparecido? Eu não perdoaria aquele bastardo se fizesse isso comigo! O apartamento estava vazio, vazio, desesperadoramente vazio. Apenas eu. Nem batatas, nem Feliciana, nem espírito do tomate e nem Antonio. Desesperada, fui para a cozinha e...

– Agora a Feli tem a chave da sua casa? — O bastardo estava tranquilamente sentado à mesa.

– Ah... — suspirei e precisei me apoiar na parede. — Ela tem. Ela ficou preocupada com o ataque que eu dei no dia do seu acidente e achou melhor tirar uma cópia da cha... — Falou demais, Lovina – N-não que isso seja da sua conta!

Eu devia ganhar o prêmio de estúpida do ano. Quero dizer... Eu praticamente falei "Eu surtei tanto quando você sofreu o acidente que a minha irmã achou que eu fosse me matar ou coisa parecida, então fez uma cópia da chave da minha casa", o que não é uma coisa muito legal para se dizern, então adotei minha atitude padrão de quando eu fazia besteira: Fingir que nada tinha acontecido. Procurei no congelador uma lasanha pré-pronta , coloquei num prato qualquer e enfiei no microondas.

Antonio não disse nada enquanto eu trabalhava. Continuou em silêncio quando eu abri o notebook que estava em cima da mesa e comecei a pesquisar algo na internet. O silêncio foi ficando pesado e eu fui ficando nervosa. Antonio e silêncio eram coisas que não combinavam. Eu não tinha nenhuma ideia de como quebrá-lo.

Quebrar o silêncio, não o Antonio. O Antonio já estava quebrado o suficiente.

Contudo, ao abrir a página inicial do meu computador, uma ideia me veio à mente. Digitei algumas palavras chave e apertei enter. Pesquisei sobre pessoas em coma e espíritos. Não havia nada que se enquadrasse na situação: Apenas alguns sites médicos sobre coma persistente, alguns sites religiosos que prometiam entrar em contato com seus parentes mortos, propagandas de filmes de terror, coisas como "assuntos inacabados" e blá blá blá. Nada sobre espíritos de pessoas vivas vagando por aí. Bom, não era como se eu fosse encontrar a explicação no Yahoo respostas. Seria algo tipo:


"Pergunta: O espírito do meu namorado em coma apareceu para mim. Porque?

Mais detalhes: O cara de quem eu gosto sofreu um acidente e está em coma, mas o espírito dele parece estar livre e eu sou a única que pode vê-lo. Como faço para que ele volte ao seu corpo e acorde?"


As respostas seriam algo como "Você já experimentou contar isso a um psiquiatra?" e com certeza alguém ia tirar print e publicar no Tumblr para rir da minha cara. Não, muito obrigada, vou ficar com as minhas dúvidas e dignidade.

– Lovina.. Seu almoço... — Antonio avisou.

Fechei o notebook com um sobressalto e fui pegar a lasanha no microondas. Enquanto comia, não pude deixar de notar que Antonio estava estranho. Sendo apenas um espírito, ele não podia comer, obviamente, mas ele não parava de me olhar de um jeito estranho. Pensei que talvez fosse insensível da minha parte comer quando ele claramente não podia, mas o que eu podia fazer? Morrer de fome?

Certo, não comi nem metade da lasanha. E ainda estava com fome. Mas não consegui comer porque me senti mal por aquele idiota. Que fique bem claro: Se eu morrer, a culpa é dele e seus malditos olhos de cachorrinho abandonado.

– Vou tomar banho. — anunciei, levantando.

– Certo. — ele respondeu, distraidamente.

– E... — hesitei. — Antonio, se eu ao menos sonhar que estou desconfiando que você tentou espiar, vou te dar uma surra tão grande que seu espírito vai continuar quebrado até o próximo natal.

Ele pareceu surpreso. E então sorriu.

– Ei, ontem eu estava só brincando. — disse rindo — Eu só queria que você admitisse que podia me ver.

Lancei a ele meu melhor olhar de "Estou avisando!" e fui tomar banho. O fato dele ter sorrido me deixou mais tranquila, mas não completamente. Algo na pequena pesquisa que fiz aumentou o caroço na minha garganta e eu não sabia explicar o porquê.


Ainda 24 de dezembro, apartamento de Feliciana Vargas.


Feliciana me deu de presente um vestido. Passamos a tarde preparando a casa para a noite e Feliciana quase me pegou falando com o Antonio um bilhão de vezes. Se ela tinha dúvidas sobre a minha aparente falta de sanidade, elas se transformaram em certezas depois de hoje. Ainda assim, ela me deu um vestido vermelho acinturado com uma saia rodada. Era um vestido muito feminino e delicado, que combinava com uma boneca. Ou com a fita vermelha que eu sempre usava no cabelo. Mas não comigo. Eu me senti estranha ao examinar meu reflexo no grande espelho de Feliciana. Era como se eu estivesse tentando parecer bonita do jeito que Feliciana era, mas todos perceberiam que não era a verdadeira eu. Não era porque eu não gostava de usar vestidos... Era porque eu sentia as pessoas iam achar que eu estava tentando copiar a minha irmã. E eu sabia que eu nunca ia ser tão bonita ou feminina quanto a Feliciana.

– Lovina? — era a voz de Antonio do outro lado da porta — Você já se vestiu?

– Já. — respondi e abri a porta. Eu não sabia se ele era capaz, mas não estava pronta psicologicamente para ver Antonio atravessando uma parede.

Assim que ele entrou, me olhou de boca aberta, como se nunca tivesse visto nada parecido antes.

– Lovina, você está...

– Bizarra, eu sei. — lhe dei as costas e fui procurar minha bolsa — Mas Feliciana me deu esse vestido e pediu tanto que eu usasse hoje que...

– Eu não ia dizer bizarra. Bizarra era a ultima coisa na minha mente agora.

– Tanto faz. — fiz força para não corar, sem sucesso. Ele estava apenas querendo me animar, como sempre. — Tente não falar comigo em público durante o jantar, certo? As pessoas já me acham maluca sem achar que eu ando falando sozinha.

– Não vou ficar para o jantar.

– Huh? — parei de mexer na bolsa, surpresa.

– Eu já atrapalhei muito. Vou voltar para o hospital. — sorriu ele, mas não do jeito habitual. — Não é certo ficar seguindo você por aí, afinal você é uma garota.

Uma garota. No fim, ele ainda me via como aquela garotinha de nove anos a quem ele pedira em casamento de brincadeira. Ele nunca ia me levar a sério.

– Claro! — falei acidamente, dando-lhe as costas e tornando a mexer na bolsa. — É mesmo mais fácil pra mim sem ter um velho pervertido morando comigo.

– Vá me visitar, certo? — pediu ele, baixinho.

Algo no tom dele aumentou o caroço na minha garganta. Precisei engolir em seco, mas a sensação não me abandonou. Ouvi a porta fechar. Não como se alguém tivesse fechado, mas como se o vento a tivesse feito bater. Antonio foi embora. Certo. Eu estava mesmo esperando que ele enjoasse da minha companhia e fosse embora. Não era uma decepção. Aprumei os ombros e decidi que não passar maquiagem nos olhos era uma boa ideia. Vou encarar o natal de cara limpa.

Foi ainda pior do que eu esperava.

Eu não lembrava muito da festa do ano passado, mas não tinha sido tão ruim quanto a desse ano. Para o meu completo desespero, Emily havia trazido um ramo de azevinho. Ela fez com que Feliciana e o Batatão acabassem embaixo dele (esse momento foi muito, MUITO nojento). Também o fez com aquele cara dinamarquês e a garota da Noruega cujos nomes eu não lembrava. Depois, acabou ela mesma ficando debaixo do azevinho por acidente, junto do Arthur. Achei que ele fosse explodir de tão vermelho que ficou quando todos começaram a aplaudir, assobiar e gritar coisas constrangedoras.

Tentei lembrar o que eu tinha feito na ceia anterior, para que não fosse tão irritante... E lembrei. Antonio e eu ficamos num canto distante de todos, rindo quando alguém era vítima do azevinho e zombando de quem ia ficando bêbado.

Eu estava sempre com o Antonio.

De repente, tomei uma decisão. Levantei da cadeira que estivera ocupando a noite inteira e caminhei resolutamente para a saída.

– Lovina? — uma voz grave chamou.

– O que é, Batatão? — perguntei, tão irritada que deixei escapar o apelido que criara para ele.

– Aonde você está indo?

– Não é da sua conta, é? — comecei a andar na direção da porta outra vez, mas ele agarrou meu pulso.

– Vai ver o Antonio? Lovina... A Feliciana está preocupada com você. Você passa muito tempo no hospital e anda mais quieta. Não há nada que você possa fazer pelo Antonio agora.

Naquele momento, odiei o Batatão com todas as minhas forças. Quem era ele para esfregar minha inutilidade na minha cara? Com os olhos cheios de lágrimas, virei-me para encará-lo.

– O que você faria no meu lugar, Ludwig? — perguntei em tom intenso — O que você faria se a Feliciana estivesse lá, desacordada, por mais de um mês?

Ele soltou meu pulso imediatamente. Passou-se um minuto tenso em que nos encaramos, até que ele suspirou com algum desgosto e me deu as costas.

– Vá pelas ruas mais movimentadas. Vou dizer à Feliciana que você sentiu sono e foi dormir.

Arregalei os olhos. O Batatão... Compreendia? Ele gostava tanto assim da Feliciana a ponto de compreender como eu me sentia a respeito do Antonio? Ele me lançou um olhar exasperado que dizia com todas as letras "Vá antes que eu me arrependa". E eu fui. Saí literalmente correndo. Ingorando completamente o fato de que e estava com um vestido na altura dos joelhos e saltos altos, corri como se não houvesse amanhã. Ninguém tentou me assaltar nem coisa parecida. Há algo a ser dito sobre uma mulher correndo de salto alto nas ruas desertas durante a véspera de natal, quando é quase meia noite: Ninguém quer chegar perto.

Cheguei ao hospital vermelha e ofegante. Eu tinha certeza de que estava parecendo uma maluca perigosa quando atravessei a recepção e corri direto para os elevadores. Graças a Deus, ninguém me interrompeu. Acho que parecer perigosa tem suas vantagens.
O hospital não estava vazio quanto era de se esperar, mas não me incomodei em registrar pequenos detalhes. Meus pés sabiam o caminho e me guiaram sozinhos para o quarto que eu procurava. Antonio estava lá. O corpo — pálido e inconsciente na cama — e o espírito — sentado no parapeito da janela, translúcido e tristonho. Dizer que ele ficou surpreso é eufemismo: Ele arregalou os olhos e seu queixo teria caído se não estivesse grudado na cabeça. Ainda ofegando da corrida, fechei a porta atrás de mim.

– Lovina?

– Eu... — ofega – Não podia... — ofega – Deixar você... - respira fundo– Passar o natal sozinho.

Antonio sorriu para mim. Ver aquele sorriso fez tudo valer a pena ao mesmo tempo que me fez mergulhar na vergonha. Com o rosto vermelho como um tomate, ocupei a minha cadeira ao lado da cama dele e apoiei o rosto nos braços, como de costume. Minha mão pousou sobre a mão dele.

– Você é muito gentil, Lovina.

– Não é isso. A festa lá que estava um saco, mesmo.

Fechei os olhos, grata por não ter passado maquiagem. Ela teria derretido quando eu corri e eu sentia que ia acabar chorando em algum ponto daquela visita.

– Sabe o que eu estava pensando, Lovinita? — ele perguntou — Avaliando a minha vida até aqui, só existe uma coisa de que eu me arrependo. Eu queria ter perguntado uma coisa a você, mas nunca tive coragem.

–Não pergunte. — respondi imediatamente.

– Eh? Por que?

– Porque... — hesitei — Esse deve ser o seu assunto inacabado.

– Assunto... ?

– Não ria. Hoje de manhã... Eu pesquisei na internet... Queria saber se não tinha um jeito de devolver você ao seu corpo, para que você acordasse, mas... Li algo sobre espíritos que ficam na terra por ter assuntos inacabados e... Assim que acabam esses assuntos, eles desaparecem. Eu não quero que você desapareça, então não acabe nada.

Apesar do meu aviso, ele riu.

– Você estava preocupada comigo tanto assim?

– Cale a boca!

– Desculpe, Lovina... Mas eu preciso saber. Eu queria perguntar sobre... Como... Você se sente ao meu respeito.

Sabe quando você acha que vai morrer de vergonha? Bom... O sentimento é bem esse. De repente, notei que Antonio sabia como eu me sentia a respeito dele. Ele provavelmente me achava uma pirralha patética que tem um fraco por ele. Ele provavelmente tinha pena de mim. Enfiei o rosto no colchão e quis morrer de verdade, pois não suportaria a piedade dele.

– Não quero falar sobre isso.

– Eu gosto de você... Mas você gosta de mim de um jeito diferente, não é?

– É. — admiti com a voz abafada. — Mas a culpa é toda sua! Eu tentei não ser legal com você, mas você... Continuou lá, simplesmente! Maldição...

E comecei a chorar. Eu devia ganhar um prêmio por ser inteligente a ponto de não passar maquiagem. Certo, eu levei um fora no natal e cometi a indignidade de chorar na frente dele, mas pelo menos eu não ficaria parecendo um personagem de filme de terror com aquelas coisas pretas escorrendo dos olhos pelo rosto. Eu só ia ficar com o rosto vermelho e inchado. Tipo um tomate gigante de vestido acinturado.

– Eu sei. — ouvi ele rir de um jeito triste — Você era gentil demais pra me dizer como se sentia, não é? Desculpe por ser um velho insistente. Mas... Podemos continuar a ser amigos, não é? Não precisa chorar por mim, Lovina.

– Vá para o inferno e me deixe chorar em paz, droga. Acabei de levar um fora em pleno natal.

– Espere... O que? Quem levou o fora fui eu.

...

– Hein? — esquecendo que estava com cara de tomate chorão, ergui o rosto.

– Você sabe... Você não gosta de mim do jeito que eu gosto de você, foi o que você disse. — ele ergueu as sobrancelhas.

– Antonio... — Franzi a testa — Como exatamente você gosta de mim?

– Você vai me obrigar a dizer com todas as letras?

Aguardei em silêncio, encarando-o com seriedade.

– Certo. — ele suspirou e corou — Eu... Amo você. Sei que você tenta não ser simpática comigo para que eu desista, mas mesmo você sendo rígida, eu não consigo deixar de amar você, Lovina. Não como minha melhor amiga, mas... Como mulher. Também sei que você me acha velho demais para...

– Você é retardado ou coisa parecida? — exclamei, com voz aguda — Eu não sou simpática com você porque eu não queria me apaixonar por você, eu que me acho nova demais para você, eu que sou a garota estúpida apaixonada que você não vê como nada além de uma pirralha.

– Lovina, a ultima coisa que eu... Espere, você acabou de dizer que está apaixonada por mim?

Opa.

– É... É, algo parecido com isso. — Desviei o olhar — Eu... Eu...

– Lovina! — ele deu a volta na cama, girou a minha cadeira, me fazendo ficar de frente para ele e segurou meu rosto com as duas mãos. — Como você se sente a meu respeito? Por favor, diga com todas as letras.

– Eu... Eu... — Por que eu não conseguia parar de chorar? — Eu a-amo você, droga.

Ele me olhava como se nunca tivesse visto nada parecido e então, como um sol nascendo, o sorriso mais brilhante e alegre que eu já tinha visto abriu-se em seu rosto. Ele abriu a boca para dizer algo, mas sua voz não saiu. Achei que as lágrimas estavam embaçando a minha visão, mas percebi que o quarto atrás dele ficava mais claro a medida que... Antonio ficava mais transparente. Ele estava desaparecendo.

– Antonio!

Minha mente fez a conexão: Antonio apareceu para mim pela primeira vez quando eu admiti para mim mesma que o amava e que estava arrependida de nunca ter dito nada. Então o assunto inacabado não era dele, era meu. Agora que eu tinha acabado com meu arrependimento, não tinha mais motivo para vê-lo ou ouví-lo. As lágrimas vieram em cachoeiras quando o caroço na minha garganta explodia. Estava acabado. Estava tudo acabado assim que ele desapareceu completamente. Estiquei a mão tentando segurá-lo, mas ele já tinha ido. Agora era apenas eu e o Antonio Inconsciente.

Cruzei os braços na beira do colchão, enterrei o rosto ali e solucei como nunca antes. Em minha mente, rezei. Rezei com toda a fé que tinha, pois a única coisa que eu queria de natal era poder vê-lo. Tudo o que eu queria era tê-lo de volta. Era pedir muito?

Uma mão grande e quente afagou minha cabeça, entrelaçando os dedos com os meus cabelos compridos. Ergui o rosto. Antonio — o Antonio verdadeiro, com o corpo sólido — estava com os olhos entreabertos e um sorriso fraco.

– Está tudo bem, Lovina. — ele sussurrou, fracamente.

Arregalei os olhos. No fim, o assunto agora acabado não o tinha feito sumir. O tinha feito voltar para o seu corpo.

– Antonio! — pode me chamar de patética, mas agarrei a mão dele e apertei contra o meu rosto, satisfeita com a solidez e o calor de sua pele.

– Feliz navidad, mi Lovinita.

Entre as lágrimas, eu sorri. Ele estava acordado. Ele ia ficar bem. E ele me amava. Eu não precisava de mais nada por pelo menos 100 natais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!