Feliz Natal, Nico
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem! :3
Nova York, dezembro de 2011
Cinco horas. Nico di Angelo esteve perambulando por aquela floresta durante cinco horas.
Ele passou andando pelas árvores, pulando nas raízes mais grossas, desviando de seus troncos, fazendo os galhos do chão estalar e as folhas ressoarem, algumas destas últimas sendo afastadas pelas pequenas mãos do menino e outras sendo pisoteadas com ferocidade. Ele fizera algumas pausas, sim, em sua solitária caminhada. Ora sentava-se aos pés de alguma árvore e se postava a chorar ainda mais, ora tirava um cochilo rápido ali mesmo apenas para acordar em um sobressalto ao ouvir algum barulho medonho.
Estava tão frio, ah se estava. A garganta de Nico doía, os lábios estavam rachados e secos, e o pequeno tremia da cabeça aos pés. As lágrimas desciam furiosamente pelo seu rosto deixando um gosto salgado na boca. Uma dor nunca antes sentida apertava seu coração. Mesmo debaixo das copas das árvores, a neve ultrapassava as folhas dos galhos mais altos, fazendo cócegas no nariz de Nico, e deixando pingos e mais pingos em suas roupas e em seu cabelo escuro. As bochechas do pequeno ainda estavam coradas devido ao clima gélido. Suas roupas não o aqueciam. Havia, naquela manhã, saído do chalé onze usando apenas bermuda, sapatos, meias longas, um casaco quente por cima de uma camisa simples e um cachecol verde. Se Bianca o tivesse visto naquele estado, com certeza o teria censurado, alegando ao irmão que poderia pegar um resfriado por não estar vestindo roupas devidamente quentes, contudo, ao saber que os semideuses voltaram da missão, Nico, muito animado e ansioso, tinha vestido qualquer roupa para sair logo do chalé onze a fim de encontrar Bianca. Quisera fazer tantas perguntas a ela... Em sua imaginação fértil e ingênua, fantasiara sua irmã como uma super-heroína, uma semideusa de seu jogo de Mitomagia, da qual tinha 500 pontos de ataque, 700 de defesa, e talvez 1.000 de chatice. Nico tinha rido só de imaginar provocando-a com isso.
Ele, nos seus dez anos de idade, presumira o falecimento de Bianca a partir de seus pesadelos, e assim chegou a aquela inconcebível conclusão quando Percy Jackson, — o herói que Nico acreditava que tinha 900 pontos de salvamento e mais sete por ser atraente, — contou como havia deixado Bianca morrer.
Aquilo não podia ser real. Não podia...
Mas agora lá estava ele. Andava sem rumo por uma floresta macabra, cuja tinha sons bizarros e anormais, dos quais alguns lembravam os de monstros, e outros de corujas e grilos. Nico conhecia aqueles últimos animais, mas os sons que emitiam lhe causavam arrepios.
O vento arrepiava-o todo, e Nico sentia que seus esforços de continuar andando eram praticamente inúteis contra o impiedoso frio. Ele sentia cansaço e fome, e mais do que tudo, uma solidão arrasadora.
Nico não tinha mãe, nem pai, e agora nem uma irmã ou um lar. Não fizera amigos na Westover Hall e nem naquele Hotel Sinistramente Maneiro em Las Vegas, e o único que achou que fosse seu amigo o traíra com sua promessa vazia. Se Bianca estivesse com ele, ali naquela floresta aterrorizante, debaixo daquela neve, enfrentando o frio, com certeza, Nico não se sentiria tão perdido. Óbvio que Bianca não saberia para onde eles estariam indo, mas aquilo não importaria, já que ele estaria com sua irmã, sendo assim, juntos enfrentariam o que viesse.
Depois de cinco horas andando, com frio e fome, e chorando assustado, Nico encontrou uma rodovia e ali se sentou, na beira do asfalto gelado mesmo.
Oh, o que farei agora? Pensou o pequeno.
A estrada estava deserta. Poucos carros passavam por ali, e nenhum deu carona para Nico. Não havia nenhuma mercearia ou loja de conveniência ali por perto, apenas a neve acumulada na beira da estrada, onde Nico estava sentado de pernas cruzadas.
Ele fungou. Dessa vez as lágrimas não vieram.
Os únicos sons que ouvia eram o cantar dos grilos e o piar das corujas na noite iluminada pela lua e as poucas estrelas do céu. A neve caía no asfalto com serenidade, trazendo mais frio e sentimentos negativos á Nico.
Queria ir para casa. Queria sua irmã de volta. Queria ter uma vida normal, ter tido a oportunidade de abraçar e conversar com sua mãe, de ver seu pai, de morar em algum lugar que sentisse que fosse sua casa, que fosse acolhedor e amável. Por que ele não podia ter uma vida normal? Por que ela tinha de ser tão misteriosa e cheia de perguntas sem respostas? Por que aquilo tinha de acontecer justamente com ele?
Não era justo.
Por conta de seu cansaço, Nico se encolheu no chão mesmo, achando que talvez não fosse se importar caso alguém o assaltasse, ou o sequestrasse. Nico já estava mais calmo, e logo parou de pensar em tudo, exceto no arrependimento que sentia por ter fugido do acampamento Meio-Sangue. Poderia estar deitado de barriga cheia em seu colchão no chalé onze aquele momento, envolto nos cobertores, muito confortável e aquecido. Nico refletiu sobre isso, dizendo a si mesmo que o acampamento não era seu lar, prometendo a si mesmo que nunca voltaria até lá, e nunca veria o assassino de Bianca outra vez. Percy deixara sua irmã morrer e enviara aquelas coisas atrás de Nico. O menino queria que ele tivesse caído naquela fenda que se abrira perto do pavilhão do refeitório no acampamento, para que assim ele pudesse pagar pelo o que fez a Bianca.
—Ei!
Nico ergueu os olhos vermelhos de tanto chorar, esfregando-os em seguida, mandando um olhar assustado para uma moça em um carro preto, que até então não vira se aproximar.
Pelo o olhar assustado da moça, Nico imaginou que estivesse com uma aparência deplorável. A mulher do veículo parecia não saber o que dizer mais. Ela observou as bochechas rosadas do menino, o nariz e os olhos vermelhos, as roupas esfarrapadas e sujas, de aparência pouco quente, os lábios rachados de frio e sede, e a postura de criança abandonada, e encontrou forças para falar:
— O que está fazendo aqui sozinho?
Nico engoliu em seco, lembrando-se de repente de algo que sua irmã lhe dissera.
— E-eu... Eu não posso falar com estranhos.
Ela pôs-se a assentir, relutante.
— E eu não posso deixá-lo aqui sozinho. Onde estão seus pais?
Não obteve nenhuma resposta, apenas um olhar tristonho.
Mil coisas pareceram passar pela cabeça da mulher naquele momento. Nico pensou que talvez fosse um monstro, e que deveria correr o mais rápido possível caso prezasse pela sua vida. Não teria como se defender, veja bem. Cartas de Mitomagia não feriam ninguém.
— Entre no carro, menino. – A mulher disse maternamente. – Vou levá-lo para a casa.
Nico quis dizer que não tinha casa, mas não o fez.
A mulher se inclinou e abriu a porta do passageiro da frente, insistindo mais uma vez:
— Entre no carro.
Nico gelou. Ele deveria correr, sim. Seus sentidos gritavam “Perigo!”, porém seu corpo ansiava por um banho quente, comida, e uma cama macia para dormir.
Ele apertou os lábios e obedeceu. Nico se levantou devagar, estremecendo de frio. Sentia dor de garganta e seu nariz escorria. Com a mão esquerda o limpou, e entrou no carro fungando, e corando.
— Bote o cinto.
E Nico botou com gestos pequenos e tímidos.
A moça lhe mandou um rápido olhar, pisando no acelerador. Depois de uns segundos, ela passou a marcha para a segunda e se apresentou.
— Eu me chamo Sarah Morris.
Aparentou esperar por uma resposta, algo como: “É um prazer conhecê-la”, mas não o teve. Estranhando com curiosidade, Sarah o olhou, vendo que o mesmo mantinha seu olhar fixo na janela de vidro fumê fechado, enquanto os pinheiros cobertos de neve passavam lá fora.
— Qual é seu nome? – Insistiu em fazê-lo falar, em vão.
O carro seguia pela rodovia deserta e pouco iluminada, com o rádio tocando uma canção natalina baixa. Nico ainda olhava pela janela, agora não com tanto frio, tentando ignorar o estômago, que doía de fome, ainda pensando em Bianca, e no acampamento que deixou para trás. Ele tentava assimilar tudo o que acontecera até então.
— Você é uma assombração?
— O quê? – Nico fez uma careta. Mal notou que sua voz estava estranhamente rouca. – Não!
Seu tom levemente ríspido com certeza despertou surpresa em Sarah.
— Desculpe. – Disse a mulher. – É que você estava deitado na beira de uma estrada deserta... Eu achei que fosse um fantasma ou algo do tipo. Já ouvi muitas histórias assustadoras a respeito de assombrações em estradas. Particularmente, eu gosto bastante delas, mas admito que quando te vi eu fiquei com muito medo. Primeiro, achei que estivesse sendo usado por bandidos. – Ao ver que Nico não entendeu, ela explicou de forma mais coerente, gesticulando com a mão livre do volante. – Você sabe, para que motoristas o vissem e se apiedassem de você. Enquanto conversassem com você, os bandidos apareceriam e anunciariam o assalto, podendo roubar o carro.
Ela estremeceu ao pensar naquilo.
Nico franziu a testa, também pensando naquilo. Imaginou que fora esse o motivo pelo qual alguns dos poucos carros que pela estrada passaram não deram carona para ele.
Ele encarou a mulher por alguns segundos, reparando em suas olheiras bem visíveis na pele clara, os cabelos castanhos e desgrenhados, presos num coque, e os olhos escuros dos quais sempre o olhavam arregalados.
— Você sabe onde fica sua casa? – Perguntou ela, com nítida atenção na estrada. Nico voltou a encarar a janela, sentindo o lábio inferior tremer com as lágrimas a rolarem.
Ao perceber que não respondeu, Sarah fez outra pergunta, com a atenção ainda na estrada.
— Você está perdido?
Silêncio.
— O que estava fazendo no meio da noite numa estrada deserta? – Sarah fez outra pergunta, e ao ouvi-lo fungar, acrescentou, em tom de advertência. – Você sabe que pode ficar doente por estar durante muito tempo no frio, certo?
Ele sabia, mas não tinha se importado.
Eles passaram mais alguns segundos em silêncio, até Sarah o cortar outra vez com mais uma pergunta inconveniente.
— Você fugiu de algum orfanato?
Nico reprimiu os lábios, e foi aí que Sarah Morris finalmente pareceu perceber que pressioná-lo não iria fazê-lo falar, de fato, sendo assim, permaneceu calada durante o percurso até sua casa.
Nico não chorou mais. Queria, porém, as lágrimas ainda se recusavam a rolar. Provavelmente o menino deveria tê-las esgotado enquanto caminhava por aquela floresta até a estrada deserta. Na verdade, já não sentia mais nada, como se estivesse morto por dentro. Era estranho.
O Voyage preto de Sarah Morris era bonito, espaçoso, com vidro fumê, aquecedor, e cheiro de novo. Com certeza, o carro do ano. Por dentro, tinha as luzes do painel do veículo, com figuras vermelhas que Nico não sabia o que representavam. As vezes, uma delas piscava sem parar emitindo um ruído mecânico sempre que Sarah fazia uma curva.
A mulher observou os olhares confusos do menino sobre o painel, o que a fez sorrir um pouco. Nico observava, timidamente, Sarah passar a marcha e girar o volante, e logo voltava a olhar pela janela. Ele não conhecia Nova York direito, não sabia para onde a moça estava o levando, só se importava com o fato de estar longe do acampamento Meio-Sangue e daquele traidor. Até aquele momento, Nico já não ligava mais se Sarah não era humana ou só uma mortal de bom coração.
O carro parou no sinal, numa rua deserta, com apenas alguns veículos do mesmo porte atrás deles. Sarah passou a bater os nós dos dedos no volante ao ritmo da canção natalina que tocava no rádio.
— Ainda está muito frio? – Ela perguntou ao ver que ele ainda mantinha seus braços cruzados.
Nico foi pego de surpresa pela pergunta. Estivera olhando pela janela, envolto em seus próprios pensamentos, totalmente distraído. Ele fez que não.
Sarah assentiu.
— Se estiver, eu aumento o aquecedor. – Falou, medindo a temperatura do mecanismo no painel do carro com a palma da mão.
Nico nem ao menos respondeu, desviando o olhar para a estrada a sua frente assim que o sinal abriu.
Nico di Angelo passara, com a irmã, cerca de oitenta natais no Hotel e Cassino Lótus, só que ambos não tinham noção do tempo. Acreditavam que ali ficaram por um mês. Aquele era o primeiro natal de verdade de Nico, o que podemos dizer que era a primeira vez que ele via as casas americanas com tantos enfeites chamativos de sua cultura, e para ele, era intrigante. Lembrava-se com lampejos, de salas decoradas com velas, meias, coraçõezinhos e estrelas da mesma cor.
A decoração de natal da residência de Sarah estava impecavelmente linda, mas um pouco exótica e um tanto estranha para Nico. Parecia levemente com o Hotel Sinistramente Maneiro em Las Vegas, todo brilhante, com muitas luzes ofuscantes piscando sem parar.
Toda a residência estava enfeitada com pisca-piscas cintilantes, com algumas figuras de flores, e uma enorme estrela no alto de uma janela que parecia dar para o sótão da casa. Havia um boneco do Papai Noel subindo pela chaminé e outro dentro de um trenó puxado por renas postas abaixo de uma das janelas luminosas. Aquilo fez com que Nico, por algum motivo, se lembrasse da carruagem do sol de Apolo. Outros pisca-piscas de cores vermelhas e verdes adereçavam não apenas a porta da garagem, e sim a de entrada, a janela do primeiro andar e a grama bem aparada e com respingos de neve no jardim. Três bonecos de neve lustrosos de plástico (Uma família completa!) enfeitavam o começo do pequeno lance de escadas da varanda, onde tinha uma árvore de natal como decoração, com mais luzes refulgentes como toque final.
Conforme desatava o cinto, Nico não desviou o olhar da casa, especificamente da porta da garagem reluzente, dando uma olhada, pela janela, no ornamento da residência do vizinho, que parecia mais simples, porém, ainda muito fulgurante. Contemplou de novo, com um aperto na garganta, todas as casas daquela rua enfeitadas caprichosamente para o natal, com cada embelezamento mais radiante que o outro.
Foi quando Nico decidiu que deveria temer, sim, pela sua vida e segurança. Se Sarah Morris fosse mesmo um monstro como o menino se defenderia? Como escaparia dela? O sentimento de medo voltou com tudo, e se foi repentinamente quando Nico ficou impressionado ao ver a porta da garagem se abrir automaticamente, revelando pelo farol do carro, uns pneus num canto, uma bicicleta velha no fundo do cômodo e uma porta fechada a esquerda. Ele encarou com fascinação a porta terminar de se abrir, e observou após a entrada do carro, com mais fascinação ainda, Sarah apertar um pequeno botão de um pequeno controle remoto, e com um ruído mecânico, a porta da garagem se fechar e as luzes se acenderam. Mesmo assim, estava levemente escuro dentro do veículo.
Nico estava boquiaberto.
— Legal, não é? – Disse a moça com um sorriso, retirando a chave da ignição e balançando o controle. – Bem útil.
Comentara aquilo apenas para arrancar um sorriso do pequeno, sem sucesso.
E saiu do carro, com o molho de chaves balançando em uma mão, e na outra o pequeno controle remoto.
Nico desceu logo depois, ainda impressionado com tudo aquilo, e concordando definitivamente com Sarah. Era muito legal mesmo.
Olhou para a porta da garagem com desconfiança, e pensou em perguntar a Sarah se podia abri-la com o controle, só para testá-lo ele mesmo. Será que deixaria? Provavelmente não. Os adultos eram uns chatos mesmo. Mas Sarah parecia diferente, mais interessante e amável... Não. Não podia mostrar que estava começando a confiar numa desconhecida, portanto, permaneceu em silêncio, preso em seu receio.
Sarah, ao pegar a caixa de enfeites emprestados de sua melhor amiga no banco de trás do carro, o guiou até a porta. Com um pouco de dificuldade para pegar as chaves de casa, ela conseguiu abri-la, acendendo as luzes antes mesmo de pisar na cozinha. Nico foi atrás dela assim que entrou.
A casa era bonita por dentro. A cozinha era espaçosa, com uma grande bancada, uma geladeira de duas portas, uma prateleira cheia de temperos e uma louça incrivelmente suja.
— Por favor, não repare na bagunça. – Disse, meio sem graça, e ao notar o olhar infantil de Nico, acrescentou. – Não acho que uma criança repararia...
E riu sem nenhum motivo aparente antes de pousar a caixa de enfeites na bancada.
Ela serviu um copo de água para ele e o observou bebê-la com certa euforia.
Nico queria andar pela casa, mas forçou-se a ficar parado e quieto, por mais que estivesse muito curioso para conhecer os outros cômodos.
— Venha comigo, querido. – Disse ela, quase que com carinho.
Haviam passado por uma árvore de natal cujo de enfeite, só tinha uma estrela no alto, e uma lareira apagada com meias e um Papai Noel de decoração, e subiram as escadas da sala de estar. Lá fora, as luzes iluminavam um pouco o cômodo, piscando sem parar.
Sarah guiou Nico até um quarto simples. Pelo corredor da casa, o menino pôde ver que a residência deveria ter uns três quartos, o que era muito para ele. Imaginou que a mulher tivesse muito dinheiro.
Nico observou o quarto; A cama de solteiro com lençóis pretos, o tapete da mesma cor escura, o armário, a escrivaninha, e a porta do banheiro por onde Sarah entrou, dizendo:
— Você pode ver nessa gaveta algumas roupas para você enquanto eu esquento a água para seu banho. Vai demorar apenas alguns minutinhos.
E desapareceu porta adentro.
Nico não estava mais com muito frio, porém, sua garganta ainda doía um pouco, e já não conseguia respirar pelo nariz. Ele passeou seus olhos castanhos pelo cômodo muito simples, e os fixou nas gavetas do armário a sua frente. Enquanto ouvia o som do chuveiro sendo ligado, ele caminhou com passos pequenos até lá e se abaixou, abrindo-as, e examinando as roupas quando Sarah voltou do banheiro.
— Eu não sei se você vai gostar dessas roupas... – Começou assistindo Nico pegar uma camisa preta de estampa de caveira que parecia não ser do seu tamanho. – Não parecem fazer seu estilo... Bom, eu não sei qual é o seu estilo. – Ela fez uma careta, e murmurou. – Não acho que crianças têm estilo. Têm?
Nico examinou mais algumas camisas pretas com estampas de bandas de rock e caveiras, e disse:
— São legais.
Sarah sorriu.
— Que bom que gostou. Eram do meu sobrinho, Richie. Elas fazem muito o estilo dele, sabe? Ele sempre vinha aqui passar o fim de semana comigo quando tinha uns onze ou doze anos, e sempre deixava suas roupas aqui. Ele tinha muitas e realmente não se importava em esquecê-las na minha casa. Da última vez que veio aqui, tinha catorze anos e esqueceu uma jaqueta de aviador no meu armário. – Ela riu um pouco. – Vou devolvê-la amanhã, talvez ainda sirva nele.
Sua risada morreu de repente.
Ao notar sua expressão aparentemente preocupada, Nico perguntou com muita cautela.
— Ele vem amanhã?
E botou lentamente a camisa de volta na gaveta, sentindo-se um intruso.
— Sim. – Disse ela, percebendo a inquietação de Nico. – É natal. Minha família toda vem. — Seu tom também era cauteloso.
— Ah. Eu... Não queria atrapalhar. Não deveria ter me dado carona. Eu vou embora.
Ele começou a se levantar quando Sarah disse apressadamente.
— Não, por favor, não. Eu não posso deixá-lo ir assim, no meio da noite, nesse frio, sem comer nada.
Nico olhou para ela, mas desviou seu olhar repentinamente, querendo sua irmã e ansiando por ter uma família de verdade para passar o natal também.
Sarah, ao respirar fundo, disse.
— Por favor, fique.
— Não posso. – Insistiu Nico. – Vou ter de ir embora de qualquer jeito. Minha casa não é aqui e você não é minha mãe.
Sarah prendeu a respiração, Nico notou.
— Você vai ligar para a polícia. – Observou o pequeno. – E vai vim mais um advogado para me levar para outra escola. – E se levantou. – E eu não quero ir para outra escola!
Sarah se sobressaltou com sua voz alta. Aparentava ser um menino tão doce e inofensivo...
— Escola... – As peças começaram a se encaixar na mente da mulher. – Você fugiu de uma escola, é isso?
Ele não respondeu, e dessa vez quem se irritou foi Sarah.
— Como vou te ajudar se você não me ajuda? – Exclamou. – Por favor, me conte quem é você, de onde veio, quem são seus pais...
— Você vai ligar para a polícia! – Gritou Nico de novo.
— Sim, eu vou! – Ameaçou ela. – Vou te dar um dia, garoto, está me ouvindo? Um dia! Se você não me contar nada sobre você até amanhã, eu ligo para a polícia! Pode comer da minha comida, e dormir o quanto quiser, mas amanhã eu quero saber tudo sobre você, está me entendendo? Tudo!
A expressão de Nico tornou-se de nojo. Ele a encarou, desolado. Sentiu-se um penetra em sua casa, um fardo nas costas de Sarah. Odiou aquele sentimento.
— E se eu te contar? – Perguntou. O silêncio de Sarah já respondia por si só. – Você vai ligar para a polícia de qualquer jeito.
Sarah piscou ao ser pega de surpresa pelas suas palavras verdadeiras.
— Eu não posso ficar com você, garoto. – Disse com suavidade.
— Eu sei.
— A polícia vai te ajudar.
— Não, não vai.
— Vai sim! – Ela tentou animá-lo. – Eles podem chamar esse advogado de quem falou e ele pode te levar para um orfanato bem legal, e quem sabe uma família pode te adotar e você pode ter um novo lar. – Forçou um sorriso. – Ou você pode ir para uma escola interna...
— Eu não quero ir para uma escola interna! E nem para um orfanato! – Gritou outra vez.
Observando seu estado crítico, Sarah disse:
— É o mínimo que eu posso fazer por você, garoto. – Ela soou paciente e caridosa. – Eu vou ajudá-lo se ligar para a polícia, e eles vão ver o que fazer com você. Não quer mesmo me contar...?
— Não! Você não ia entender! – Berrou.
Sarah observou-o, assustada e piedosa.
Além do mais, quem iria querer um menino malcriado e birrento como eu? Pensou Nico, por fim.
Permaneceram em silêncio; Nico já se acalmando aos poucos e Sarah o encarando, exigindo, pelo seu olhar de pena, uma explicação coerente da parte dele.
Ela não teve.
Nico resolveu mentir só um pouco para livrar-se dela.
— Eu vou embora. – Tornou a dizer ele. – Amanhã mesmo. – E suspirou.
— Não posso deixá-lo ir sozinho. – Disse Sarah. – Vou precisar ligar para a polícia...
— Eu vou para casa. – Mentiu Nico. – Só preciso que ligue para meus pais.
Sarah abriu a boca, mas nenhum som saiu de dentro dela.
— Tudo bem, então. – Disse devagar. – Vou...
— Amanhã.
— E se eles estiverem preocupados...
— Ligue amanhã. Por favor.
Sarah suspirou, e acabou por ceder.
— Tudo bem então.
E assim Nico se viu tendo de descobrir, durante aquele meio tempo, um jeito de fugir dali antes que Sarah Morris o pegasse na mentira.
Enquanto ela preparava algo para o menino comer, Nico tomava um banho quente e relaxante.
O banheiro do quarto tinha os melhores cheiros. Muito limpo e organizado, o pequeno queria ficar ali para sempre, apenas debaixo daquela água quente, testando todos os sabonetes da estante de arame que tinha dentro do boxe: Pimenta rosa, limão siciliano, baby care, go fresh, granado, romã e manga... Nico usou quase a maioria que pôde, ficando ligeiramente cheiroso e espumado. Ele costumava sempre apertar a espuma, soprá-la e lambê-la apenas para demorar no banho e irritar Bianca, que geralmente ficava do lado de fora do banheiro, batendo freneticamente na porta, mandando-o sair logo para que também pudesse tomar seu banho. Os oitenta anos que passou no Hotel Sinistramente Maneiro foram, de fato, bem recreativos. Mas em parte fazia isso com a espuma porque era divertido. Agora, não tinha mais graça. Nico esfregou com uma esponja seus joelhos meio arranhados pelos galhos daquela floresta, as pernas, os braços, e todo o seu pequeno e magricelo corpo moreno, com a voz de Bianca na cabeça: “Tome banho direito, Nico! Não é para ficar enrolando no banheiro!”
Nico saiu enrolado na toalha, arrastando-se na direção da cama, onde tinha separado para si, uma calça de moletom preto que era dez vezes o seu número e um suéter com caveirinhas dançantes. Não penteou os cabelos, deixou-os desgrenhados e bagunçados mesmo. Calçou um par de meias e desceu as escadas da casa, ainda muito tímido.
Ao chegar a cozinha, encontrou Sarah Morris na pia, de costas para ele.
— Hey — Ela forçou um sorriso, reparando no que ele vestia ao dar uma olhada para trás. Aquela expressão americana soou, de repente, irritante para Nico. – Você fica bem de preto.
Ela pousou um prato cheio de brownies recém-saídos do forno e uma caneca do que parecia ser chocolate quente na bancada. O cheiro bom fez o estômago de Nico roncar.
— Por favor, coma a vontade. – Ela disse. Nem parecia que havia ficado brava até poucos minutos atrás por não ter tido respostas as suas necessárias perguntas.
Envergonhado por ter gritado na frente de uma mulher que mal conhecia, Nico se sentou na cadeira com movimentos pequenos, e comeu o que Sarah preparara para ele. A comida espantou a tristeza e timidez que sentia, e logo Nico se esqueceu por alguns minutos de tudo o que acontecera, se concentrando somente naqueles brownies maravilhosos e no chocolate que descia quentinho e gostoso por sua garganta quase-inflamada. Enquanto comia, Sarah lavava a louça.
Ficaram em silêncio até que Nico engoliu seu último brownie, dizendo baixinho:
— Desculpe. – Ele deu um gole em seu chocolate quente.
Seu pedido infantil de desculpas despertou a atenção e surpresa de Sarah Morris. Ela sorriu outra vez, só que dessa vez, não foi forçado, e ouviu mais algumas palavras do pequeno.
— Eu não queria ter gritado com você, eu só estava...
— Nervoso? Ressentido? – Adivinhou Sarah, e pela expressão suave e engraçada de confirmação de Nico, ela acrescentou, rindo levemente. – Tudo bem, garoto. Eu entendo.
Nico quis dizer que ela não entendia coisa nenhuma, mas ficou calado.
Será que ela pensa que sou problemático? Perguntou-se o pequeno. Ele até pensou na possibilidade de ser adotado por aquela doce mulher. Ela já não parecia mais, aos seus olhos, nada que não fosse humano, mas mesmo assim Nico afastou aquela ideia da cabeça. “Eu não posso ficar com você, garoto.” Sarah dissera. E Nico entendia, para sua infelicidade, da mesma forma que entendia que aquela casa não era seu lugar. Sarah tinha coisas a fazer e familiares para receber no natal amanhã. Ela não podia simplesmente ficar com ele por alguns dias e quem sabe, adotá-lo. O que sua família diria ao vê-lo? O que Sarah pensava dele?
Enquanto bebericava de seu chocolate quente, Nico refletia sobre tudo isso, com tanto pesar e tristeza.
Sarah Morris era uma pessoa legal. Não fora justo a forma em que ele a tratou. Ela não tinha culpa de ele ter perdido a irmã, de não conseguir se lembrar de oitenta por cento de sua vida, sendo que vinte por cento dela era repleta de monstros, desventuras inimagináveis e azar. Muito azar. Por isso que disse:
— É Nico.
— O quê? – Sarah o olhou com olhos arregalados enquanto enxaguava a mão na pia da louça agora limpa.
Ele apertou os lábios, sentindo o rosto esquentar.
— Meu nome é Nico di Angelo.
— Ah. – Ela deu um enorme sorriso, feliz por pelo menos saber daquilo sobre o garoto. – É um lindo nome.
Nico não respondeu.
— Você quer me ajudar a enfeitar a árvore, Nico? – Perguntou, ainda sorrindo.
Ele não podia recusar, por isso assentiu lentamente, vendo o sorriso de Sarah crescer ainda mais.
Sarah havia o deixado em seu quarto simples, pertencido a Richie Morris, o sobrinho punk dela, que viria juntamente com o resto de sua família no natal amanhã. Ela ligou a televisão do quarto, mostrou á Nico como se trocava de canal, e o deixou no cômodo, indo para seu próprio quarto a fim de dormir. Ele ficou assistindo O Natal Mágico do Mickey Mouse até pegar no sono, o que não demorou muito. Os desenhos dos outros canais em que passara já não tinham mais graça, assim como suas cartas de Mitomagia, a única coisa que havia trago do acampamento Meio-Sangue além das roupas que vestia. Ele tinha as botado no bolso de sua bermuda, e antes de tomar banho ele as tirara, pousando-as na pia do banheiro. Ficou remexendo nelas distraidamente enquanto assistia Jovens Titãs, um desenho do qual amava, e como tantos outros, não parecia mais recreativo agora depois de tudo o que aconteceu. Acabou por trocar para a Disney de volta. Ele pegou no sono com o Mickey dizendo: Eu fiz tudo o que podia fazer, mas acho que o Donald jamais vai entrar no clima de natal.
Ele não dormiu muito bem. Teve pesadelos. Sonhou que seu jogo de Mitomagia ganhara vida, literalmente. Ele estava num local muito escuro. As cartas holográficas eram enormes, do tamanho de tapetes, e estavam organizadas caprichosamente no chão. As estatuetas falavam e se mexiam de forma macabra. Está feliz agora, garoto? Diziam com deboche. Nós somos reais, do jeito que você sempre quis. Seu jogo favorito ganhou vida, não está feliz, garoto? Ele queria gritar, mas não conseguia emitir nenhum som. Era assustador. Em seguida, ouvia uma voz maior e mais retumbante, que parecia vir de todos os lados, ressoando poderosa aos seus ouvidos. Junte-se a mim, criança. Não há lugar para você no acampamento Meio-Sangue, assim como não há lugar para seu pai no Monte Olimpo.
Nico acordou, tremendo. Não sabia que horas eram, mas sabia que estava prestes a amanhecer, pois os primeiros raios da alvorada penetravam no quarto, iluminando os móveis do cômodo, e as cartas espalhadas na cama. A TV ainda estava ligada com um desenho nunca antes visto por Nico. Ele parecia ser chato e altamente infantil e bobo.
Nico caçou o controle remoto e desligou a TV, deixando o quarto pouco iluminado agora, coçando os olhos. Juntou suas cartas holográficas, recordando-se do pesadelo. Pegou o elástico que deixara na cabeceira da cama, e as amarrou com firmeza.
Ficou sentado na cama por alguns minutos, refletindo sobre o sonho estranho que tivera, cutucando o elástico amarrado no bolo de cartas.
Com um bocejo, ele se levantou, sentindo a garganta doer e seu corpo pesar.
Naquela mesma manhã, Sarah faria com que ligasse para sua mãe morta, e não teria como Nico escapar, sendo assim, resolveu fugir.
Foi até o armário, e pegou uma mochila preta que ali encontrou. Abriu as gavetas, pegou o máximo de camisas, suéteres, e calças que pôde e umas cuecas extras. Quando abriu a outra porta do armário, encontrou uma jaqueta de aviador, a mesma da qual Sarah disse que pertencia a Richie. Bom, tudo ali pertencia a seu sobrinho. Lembrando que dissera que ele não se importava em esquecer suas roupas em sua casa, Nico achou que não faria mal roubá-las. Tirou a calça de moletom, trocando pela a de jeans escura, calçou uns tênis e vestiu a jaqueta de aviador por cima do suéter que ainda usava, em seguida, passou pelo corredor sorrateiramente, segurando suas cartas numa mão enquanto a outra estava ocupada com a alça da mochila.
Abriu a geladeira da cozinha e roubou umas garrafas de água, em seguida, furtou biscoitos, brownies, pãezinhos de alho e um pedaço de torta de limão, que cortou com certa dificuldade. Os organizou em potinhos e enfiou tudo na mochila. Para sua sorte, encontrou uma bolsinha rosa escondida debaixo do balcão, com cento e cinquenta dólares.
De mochila nas costas, muito aquecido com sua nova jaqueta de aviador, Nico saiu da casa de Sarah Morris pela porta da frente, e do lado de fora, fechou-a com cuidado para não fazer barulho. Enfiando as chaves que encontrou por baixo da porta, Nico saiu rua afora.
Quando Sarah Morris acordou, ela deu falta de Nico di Angelo, assim como deu falta de um pedaço de sua torta, das garrafas de água na geladeira e de seu dinheiro escondido no balcão.
Ela ficou com raiva, com muita raiva de ter dado carona a um ladrãozinho, mas logo se entristeceu.
Quem seria ele? Ele fugiu mesmo de alguma escola interna ou orfanato? Onde estavam seus pais? Deus, como ela queria saber! Sua fuga deixou claro que ele não queria a ajuda de Sarah. Não podia forçá-lo, e esperava do fundo do coração que ele fosse para casa ou para qualquer outro lugar de onde veio. Chateada por ter lhe fornecido comida e um teto para dormir e em retribuição ele fugira levando seu dinheiro junto, Sarah se ajoelhou aos pés da cama de seu sobrinho, lamentando por Nico. E rezou pela orientação de Deus, para que o Criador cuidasse e zelasse de seu anjinho que estava por aí na cidade, provavelmente sozinho, isto é, se não tivesse voltado para casa.
Mal sabia ela dos perigos que naquele mesmo instante Nico estava enfrentando.
Notas finais
Aceito mimos, críticas e sugestões.
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. Lá eu falo de livros, e (olha que surpresa!) riordanverso ksksks
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