Feliz Natal, Liza
1 Feliz Natal, Liza
Notas iniciais
Entendeu?
Espero que goste e boa leitura!
De: Lay Silva
Para: Liza S V
"Tudo é possível desde que você tenha fé"
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Alguns dirão que tivemos sorte enquanto outros já irão acreditar que foi predestinado, mas enquanto meu riso alcançar o seu, não vou me importar com o nosso “porque”.
Eu disse que por vezes me conecto a minha subconsciência e tudo se torna sólido, até mesmo meus conflitos psicológicos. Um dia sem querer, sonhei com você e neste sonho em uma fileira de casas você chutava uma bola errante que parava em meus pés. Eu me inclinava para pegar a bola com as mãos e encarei você.
Sua expressão era incrível, no entanto não irei descrevê-la.
Caminhava pelas ruas da pequena cidade serrana de Petrópolis. Quando mais nova, dizia que queria morar naquele lugar e não estava exagerando, ainda sonho com isso até os dias de então. Apesar de pequena, a cidade era um poço de cultura e beleza.
O transito apertado das pistas não irritava ninguém. No cenário, era possível ver a catedral de São Pedro de Alcântara iluminada por luzes coloridas. Não havia som de buzinas, também não havia muitas charretes há essa hora, puxadas por lustrosos cavalos e chamando a atenção dos turistas que passavam por ali.
Uma bela mulher de cabelos dourados em um vestido de noiva estava parada na beira da calçada olhando para os lados, ao lado de uma moça mais jovem segurando uma câmera fotográfica. Uma vez aproximei-me para perguntar se ela iria se casar o use estava apenas fantasiada, ela riu e disse que sua carruagem estava atrasada. Eu me encantei com o jeito que ela parecia tranquila o suficiente para rir daquele jeito tão casual. De onde eu vinha, as pessoas eram mais impacientes com esse tipo de coisa.
Atrás de mim, além das grades pontiagudas e de uma cortina verde de folhas, estava o Palácio Imperial, antiga moradia de D. Pedro II. Eu não me cansava de visitar aquele lugar e de passar pelos mesmos cômodos para demonstrar as mesmas expressões diante dos quadros, bustos, pianos e de fatos históricos que eram ignorados pelos turistas.
Acima da minha cabeça, um pôster vermelho dizia:
O Museu Imperial é nosso!
E algo embaixo que eu não conseguia ler por conta da miopia. Amaldiçoei a mim mesma por ter esquecido os óculos na pousada, apesar de eu não gostar de usá-los.
Continuei caminhando e contemplando a cidade. Apartamentos, casas e outros edifícios eram decorados externamente por luzes natalinas. Era possível ver famílias erguendo suas taças de vinho das janelas. Risadas ecoavam por toda a Petrópolis em uma noite de clima europeu.
Em uma noite daquelas, eu me afundava em um grande casaco preto com o capuz peludo sobre a cabeça. Deixava meus cabelos castanhos e escuros escaparem ao redor do meu pescoço. Pensei em me aquecer com uma xícara de cappuccino assim que encontrasse uma cafeteria. Era uma boa ideia.
Eu já havia passado pela Catedral de Petrópolis há algum tempo até que finalmente cheguei a uma área com um grande pinheiro no centro de um pátio com trilhas sustentadas por pequenas pedras espalhadas como areia. No fundo, uma espécie de estufa feita de retângulos de vidros transparentes e azuis.
Antigamente, no tempo de D. Pedro II, aquela estrutura foi construída com a intensão de abrigar as flores da Princesa Isabel, nos dias de hoje sustentava eventos.
Naquela véspera de natal, havia comida, barraquinhas com vendas de artesanatos e um pinheiro no centro do pátio, decorado com luzes, bolas vermelhas e prateadas. No tipicamente, uma estrela dourada. Não era uma árvore enorme e impressionante como das grandes cidades dos Estados Unidos, mas era grande e bonita. Algumas pessoas que passavam por ali escreviam em papeis desejos e penduravam nas bolas.
— Vale a pena acreditar em alguma coisa, pra variar – disse uma voz feminina ao meu lado.
- Acho que sim. – eu respondi mecanicamente.
Ainda não olhava na direção da voz, estava pensando em quantos desejos foram escritos. Depois disso pensei que fosse hora de voltar para minha família, antes que achassem que eu estava perdida.
- Acha? – perguntou a voz entre um riso. – Não é a resposta que eu queria.
Eu fiquei confusa, enfiei as mãos nos bolsos.
- O que quer que eu responda?
A menina hesitou.
- Só acho que você deveria tentar.
Franzi o cenho olhando para o lado, mas a garota já havia passado por mim. Consegui ver seus cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto. Era alta, mas não consegui ver mais que isso. Fiquei um bom tempo imóvel olhando para a direção que ela havia ido.
Eu deveria estar me perguntando quem era aquela louca, mas estava mais interessada em saber: Tentar o que?
- Ei! – chamei na multidão, mas a garota já havia desaparecido.
Quando vi, eu estava mergulhada no mar de gente. Não havia muitas pessoas, mas era difícil reconhecer alguém quando todos estavam juntos. Para mim, era como se fossemos todos iguais e de fato éramos, mas outros admitiam que se nós fossemos, o mundo seria chato. Então deixei essa questão de lado, não fazia sentido pensar nisso.
No fundo, dentro do palácio de cristal, um grupo de pessoas segurando livros se organizava em cima de um palco. Um homem careca de suéter vermelho conduzia as pessoas para cima do palco e para baixo. Turistas tiravam fotos. Crianças corriam e faziam algazarra. Vendedores sorriam e seduziam clientes. Nenhum sinal daquela estranha garota.
Distraidamente eu me aproximei de uma das lojas. Chapéus vermelhos de estilo papai Noel, luvas, chaveiros, havia de tudo. Dentre o tudo, algo me chamou atenção. Uma estatueta de um arcanjo.
Talvez ela soubesse me dizer...
A estatueta caiu da minha mão quando alguém esbarrou em mim por trás. Soltei uma exclamação ao mesmo tempo em que ouvia uma risada irritantemente familiar. Ao olhar para trás, não vejo nada além das pessoas passando de um lado para o outro, mas ninguém atrás de mim. Era como aquela brincadeira do “Não fui eu!”, alguém batia em você e quando você olhava, a pessoa fingia que nada havia acontecido.
Eu poderia dizer que uma das crianças aprontava comigo se não tivesse associado a risada com a voz.
Peguei no chão a estatueta do arcanjo e a coloquei de volta no lugar, então pedi desculpas ao comerciante.
- Um segundo – chamei – Viu quem me empurrou?
O comerciante era um homem baixinho bem menor que eu — e veja que eu não havia crescido tanto desde os quatorze anos de idade -, de cabeça raspada. O homem me encarou e sorriu de um jeito estranho me avaliando com seus pequenos olhos por trás dos óculos meia-lua.
- Ah! Se eu pudesse... – começou ele.
Eu franzi o cenho e o senhor riu, seus dentes amarelados surgiram acima de sua barba grisalha. Por alguma razão o imaginei com um tapa-olho e um papagaio. Sim, um pirata!
- Desculpe-me, senhorita – ele deu uma piscadela cumplice. – Eu não enxergo muito bem.
Pois então troque os óculos! Eu tinha vontade de dizer com um tom de irritação. Aquele homem estava realmente debochando de mim. Decidi esquecer esse detalhe e olhei ao redor a procura da garota, mas não a encontrava.
Finalmente eu a vi, estava perto das pessoas que queriam fazer seus desejos para a árvore de natal. Agora ela estava de frente, era alta e vestia uma jaqueta militar, era bonita, eu admito. Nossos olhos se encontraram e ela me encarou impacientemente como se dissesse: Vai ficar parada ai mesmo?
Eu andei até ela sem desviar meu olhar em nenhum microssegundo, hesitante que ela sumisse novamente. Estava começando a ficar sem paciência para aquele joguinho. Afinal de contas, porque eu ainda estava ali atrás dela? Não seria mais simples se eu fosse embora e esquecesse essa história toda? Aliás, que história? Eu que estava seguindo aquela garota estranha.
- Você é realmente lerda – ela disse.
- Ah, me dá um tempo – reclamei. – Aliás, quem é você?
Em vez de me responder devidamente, ela riu de mim.
- Vai desejar isso? – perguntou.
- Hã?
Ela apontou para a árvore.
- Você está na fila, cabeçuda.
- Estou? – olhei ao redor.
Não podia chamar aquilo de fila, era apenas um amontoado de pessoas mal organizadas, todas esperavam pacientemente, pensando sobre seus desejos.
– É... Acho que sim.
A garota revirou os olhos, agora de perto eu podia ver um tom entre o castanho e o verde. Invejei os olhos dela por um instante até que cai na real quando o coral dentro do Palácio de Cristal começou a cantar uma música que eu não conhecia, ou pelo menos, achava que não conhecia.
Eu olhei para o meu relógio, faltavam dez minutos para o ano seguinte começar, eu deveria ter voltado para a pousada com a minha família há muito tempo.
- O que você...
Minha frase morreu na metade, a garota tinha desaparecido novamente.
Eu realmente odeio quando ela faz isso. Pensei.
Além disso, era muito grosseiro o modo como ela estava agindo comigo. Olhei para todas as direções procurando por ela, pensei em fugir até o momento em que esbarro em alguém.
- Desculpa – murmuro.
- Desculpa – diz a pessoa.
Encaro dois grandes olhos verdes, não como os da outra garota, mas verdes e claros como a água. Os cabelos eram negros como o breu ao redor do seu rosto oval e claro. Ela sorriu ironicamente e eu fiquei mais irritada ainda. O que havia acontecido com o povo daquela cidade?
- Quanto tempo – ela disse com um tom sarcástico. – Quando vai voltar a me visitar?
- Oi?
- Oi. – ela respondeu. – Você ainda tem cinco minutos.
E nisso ela olhou para a árvore e eu olhei na mesma direção e em seguida de volta para ela, sem entender nada.
- Feliz Natal, “mãe” – ela riu.
- Acho que as pessoas exageraram no álcool esse ano... – assobiei.
- Sou menor de idade – justificou. – Seu tempo está acabando.
- Então eu vou morrer? – perguntei. – Quem é você, afinal?
A garota fez uma expressão decepcionada e então mudou para seriedade.
- Um minuto, vai logo, mulher! – ela me empurrou em direção a árvore.
- Ir pra onde? – perguntei.
- Fazer um pedido. – ela disse.
Olhei novamente para o pinheiro iluminado, agora havia poucas pessoas, todas já tinham ido se unir com seus familiares para a contagem regressiva. Voltei-me para a morena, mas ela não estava mais ali. Uma voz em minha mente sussurrou logo em seguida:
Trinta segundos.
Não era uma voz perturbadora, mas em alerta. Eu tinha trinta segundos para fazer um pedido de natal, de repente aquilo me pareceu importante. Agora eu não poderia voltar para a pousada, àquela noite seria em vão. Não valeria a pena.
Todos começaram a contagem regressiva pelo décimo segundo. Aquilo me lembrava do ano novo, mas não importava. Era natal, apenas isso, não tinha a mesma magia de antes quando eu era criança e esperava pelo papai Noel.
Mas mesmo assim, era o natal e por mais que não parecesse, continuaria sendo e em algum lugar haveria sua magia, mesmo que não fosse bem a minha frente.
Peguei uma tira de papel de uma caixa que estava ali e fiz um pedido, esperando para pendurar na árvore. A pessoa na minha frente era mais alta que eu, mas eu me estiquei para o lado tentando achar um bom lugar para colocar meu desejo, que não fosse alto o suficiente, até porque eu não alcançava.
Prendi o fôlego. A contagem estava no quinto segundo e nisso achei um lugar baixo para colocar, bem acima da minha cabeça. Eu me senti decepcionada.
- Poxa... – murmurei. – Podia ter colocado no alto.
A pessoa imediatamente se virou para mim e o que aconteceu depois disso... Bom...
Esse é um outro sonho.
Notas finais
A primeira garota era a Louise sim, mas... Se eu errei em algo, help-me, please?
Era uma jaqueta militar? Que a vovó-ninja deu pra ela?
Enfim, feliz natal.
Obrigada,
Beijos Azuis
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