Feliz Dia dos Não Namorados

1 A garota do cabelo colorido


Notas iniciais
* Dedicado a Winnie Cooper que me incentivou a escrever essa história, me cobrou no twitter e ainda fez a capa.

Estou sentado em um dos degraus da escada apenas observando toda a alegria em minha volta. Não que eu seja sempre assim, mal humorado. Só em algumas datas especiais e definitivamente o Dia dos Namorados é uma dessas datas.

Alguns anos atrás eu nem me importava com isso, estava mais preocupado em aperfeiçoar meus traços e algumas vezes até aceitava desenhar os casais apaixonados em troca de algum dinheiro extra. Não serei hipócrita em dizer que muitas vezes recebo cartas ou bilhetes.

Na verdade tenho alguns em meus bolsos, mas nenhum dela.

E é isso que estou observando.

A garota de cabelo laranja que sorri enquanto sua mão entrelaçada balança para frente e para trás. Nesses momentos ela parece ainda mais bonita, como se toda a luz do castelo iluminasse apenas seu corpo e todos os outros mortais em volta ficassem pintados de cinza.

Eu descobri sua beleza três anos atrás, antes eu apenas enxergava partes dela. Primeiro o sorriso. Depois o olhar. O jeito de falar. O cabelo curto e a franja. Só quando juntei cada pedacinho que entendi o quanto minha prima era incrivelmente bonita. E aparentemente todos os garotos tinham percebido também.

Agora ela está recebendo um tipo esquisito de serenata em frente de todos. Papeis vermelhos brilhantes giram em volta deles, do casal perfeito. E as garotas soltam risinhos, os garotos batem nas costas uns dos outros. E eu reviro meus olhos em repulsa a tudo isso.

Pego meus bilhetes e os rasgo lentamente enquanto vejo ela beijá-lo de um jeito que nunca havia beijado antes. Sei que está apaixonada, diferente dos outros. De quando era apenas brincadeira, apenas para se encaixar no contexto adolescente. Bem diferente de quando foi com a gente, embaixo da árvore em meu jardim, ela não queria começar o ano sem ter beijado ninguém, implorou que a ajudasse. Eu provavelmente já estava apaixonado e aceitei.

Ela me beijou de olhos fechados.

Foi rápido.

Foi maravilhoso.

E quebrou meu coração.

Um mês depois ela beijou em um passeio a Hogsmead, estávamos brincando e de repente a brincadeira tomou um rumo muito perigoso. Ela beijou Chris. Eu beijei Lane. Continuei na brincadeira apenas na esperança de poder beijá-la novamente. Não aconteceu e Lane ficou me mandando cartas por três meses, as quais agradecia e nunca respondia.

Mas o beijo que ela dá em Nate é diferente. É um beijo de verdade. Quando se separam consigo ver seus olhos brilharem, mesmo estando longe. E como se precisasse de mais um motivo apenas decreto que o dia dos namorados é o pior dia de todos.

Termino de rasgar meus bilhetes “apaixonados” de pessoas que apenas não querem passar tal dia sozinhos e os queimo no ar formando um pó brilhante que voa para todos os lados. Se não estivesse tão amargurado poderia até achar bonito.

Mas como toda pessoa que gosta de sofrer continuo sentado em meu degrau absorvendo toda a felicidade em volta de mim e transformando-a em rancor.

Eles continuam em sua roda de amor, conversando e rindo. Esperando por quem será o próximo a ganhar uma serenata, ou um grande ato de demonstração afetiva. E esse é o meu ápice. Deito nos degraus forçando um grito a ficar preso na garganta o transformando em resmungo.

É nesse momento que ela aparece. E senta-se ao meu lado.

― Qual é o problema com esse castelo? – questiona como se me conhecesse, o que não é o caso.

― Não te conheço. – Digo esquecendo toda a educação que Hermione me proporcionou.

― Imaginei que não, sou nova aqui. – Ela deu de ombros. – Intercambio.

Mas eu deveria pelo menos tê-la visto pelos corredores, a garota não era nada discreta. Tinha cabelos coloridos e seu tamanho não passaria despercebido. Eu certamente iria notá-la. Eu sou o observador, ficaria intrigado com todas as cores dela. Como estou agora.

― Intercambio? – Questiono não me lembrava de nenhum professor avisado sobre a chegada de alunos de intercambio.

― Isso. – Ela diz apoiando a cabeça em uma das mãos e olhando para frente.

Ela também observa a alegria dos casais em nossa frente. E eu percebo o motivo pelo qual não tinha reparado na garota colorida, ou nos recados dos professores. Eu estava ocupado demais reparando apenas em uma pessoa. Lily Luna. Minha pessoa preferida. Minha prima. Minha melhor amiga. Todos aqueles dias eu passei observando seus detalhes. E como ela foi se apaixonando por outro garoto e como não importava quantos garotos eram, nunca fui o escolhido.

Deixei de olhar em volta, de observar. Nem mesmo desenhava outra coisa que não fosse ela. E agora nem sabia mais o que estava acontecendo no castelo.

― Veio de onde? – Pergunto para a garota que parecia hipnotizada pela cena.

Ela balança a cabeça e faz uma careta antes de responder.

― Isso importa?

― Um pouco, não sei. – Digo, mas na verdade nem sei o nome dela porque me importaria o país dela? Dou de ombros.

― Eu acho que não importa. – Sua resposta é franca. – Mas o que acontece com esse castelo, isso importa.

Fico analisando seu rosto. Ela tem pouquíssimas sardas, mas algumas pintas. Seu cabelo é muito colorido, mas tem a raiz escura. O que me faz pensar que seu cabelo é castanho. Sua postura é confiante.

― Como assim?

― Todos esses corações. – Ela se aproxima e cochicha em meu ouvido. – Essas serenatas horríveis.

― Você não sabe? – Eu cochicho de volta. – É dia dos namorados.

Ela começa a gargalhar. E vejo algumas pessoas olhando em nossa direção. Pessoas que tinham esquecido tudo em volta enquanto demonstravam sua paixão, agora pareciam despertar de um topor.

― Eu sei que é dia dos namorados. – Ela enxuga as lágrimas que formaram em seus olhos. – Só achei muito exagerado.

― No seu país não é assim? – Questiono curioso. Um país que não comemora o dia dos namorados seria meu lugar.

― Um pouco. Mas não comemoramos no mesmo dia que a maioria dos países. – Ela explica. – Lá o dia dos namorados é em junho, antes das festas juninas começarem. E sinceramente eu sempre estou mais preocupada com as festas juninas.

Minha mente não consegue acompanhar tudo que a garota fala. Fico distraído descobrindo as cores dos seus cabelos. E às vezes volto a olhar para Lily e Nate tão felizes no meio de seus amigos, meus amigos, nossos amigos. Mas agora me sinto muito melhor com essa garota desconhecida do que com todos eles.

― Você gosta dela né? – A garota me pergunta.

― O que? De quem?

― Da garota ruiva. – Ela aponta para Lily. – Sua prima Lily.

Fico encarando seu rosto me questionando como ela sabe que Lily é minha prima, como sabe que o nome dela é Lily e mais ainda como sabe que eu gosto dela.

― Como?

― Eu andei perguntando. – Ela responde como se não fosse nada demais.

― Qual seu ano? – Pergunto por curiosidade. Eu e Lily estamos no quinto.

― Eu estou do sexto, Hugo. – ela fala naturalmente. – Não faço as mesmas aulas que vocês.

― E também sabe o meu nome?

― Eu disse que andei perguntando. – Seus ombros sobem e descem. E a garota parece ser aquelas pessoas que gostam de dar de ombros.

Fico analisando sua expressão. Não parece louca talvez impulsiva. Não entendo como sabe meu nome, sobre Lily. Ela sorri como se não se importasse com que eu estivesse pensando ou qualquer outra pessoa. E sei que alguém com aqueles cabelos certamente não se preocuparia com a opinião de ninguém.

Enquanto decido sobre aquela garota tão colorida que estava sentada ao meu lado e parecia me conhecer bem o suficiente para perceber meus sentimentos por Lily, consigo assistir outro beijo. Hoje eles estão acontecendo em um número alarmante. E viro meu rosto sentindo mais uma vez a dor de amar sem ser amado. Encontro os olhos castanhos da garota me analisando.

― Isso é horrível. – Ela diz se levantando. – Vem comigo.

― Eu nem te conheço.

― Oi, tudo bem? – Ela sorri. – Me chamo Íris e estou no sexto ano. Vim fazer um intercambio na mais famosa escola de bruxaria. Gosto de poções, elas ajudam a fixar as tintas. E amo adivinhação. – Ela pensa mais um pouco. – Sou boa com palavras, arrisco um pouco nos desenhos. Nasci no meio trouxa, fui criada no meio trouxa e pretendo continuar. Ser bruxa é incrível, mas você já ficou duas horas dentro de um ônibus olhando a paisagem e pensando na vida? É ótimo. E quando está chovendo posso fingir que estou em um clipe de música.

Olho para frente só para ter certeza que Lily não mudará de ideia e descobrirá que na verdade está apaixonada por mim. Não acontece. Ela esta pendurada no pescoço de Nate e a imagem daria um ótimo desenho. Me sinto pior ainda pensando nisso.

Então desisto de ficar me lamentando e resolvo conhecer melhor a garota colorida do intercambio que agora tem um nome. Íris.

― Tudo bem. – Estico minha mão. – Sou Hugo, mas aparentemente já sabe disso. Eu detesto poções, mas gosto de estudos trouxas e feitiços. Nunca passei duas horas dentro de um ônibus, mas deve ser a sensação de vir para escola de trem. Para onde vai me levar?

Apertamos nossas mãos e seus olhos ganham um brilho revigorado.

― Para o melhor dia de não namorados.

Ela me puxa escada abaixo sem soltar minha mão. Enquanto desço os degraus olhos para frente mais uma vez. Finalmente Lily está me olhando. Seus olhos questionam quem é a garota, para onde estou indo. É minha vez de erguer os ombros. Não faço ideia para onde vou, ou o que vou fazer. Mas sei que já chegou hora de fazer algo.

Deixar de esperar por um amor que não vai chegar.

Mas mesmo quando Nate a abraça ainda vejo Lily olhando para mim. Talvez ela também soubesse todo esse tempo que um dia isso iria acontecer. Eu passaria por eles sem me importar, sem trocar palavras, sem parar ao lado dela.

Íris sorri segurando minha mão.

― De onde você saiu?

― Poderia dizer dos seus sonhos, mas nem mesmo você poderia ter sonhos tão bons assim.

Seu sorriso é genuíno e eu não faço ideia do que estou fazendo.

― Meu Merlim. – Suspiro.

― Você vai gostar. E estaremos longe de todos esses enfeites, confetes, serenatas e corações partidos. – Ela me encara. — Vamos nos conhecer. E no final até deixo você me desenhar.

― Como sabe que talvez eu fosse querer te desenhar.

― Eu amo adivinhação. Eu disse.

Continuo a seguindo. Não sei o motivo. Apenas continuo.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Não sei se terá leitores porque nem todo mundo ama Hugo Weasley enlouquecidamente quanto eu.
E ainda mais ele e um personagem original.
Mas pelo menos deixo isso registrado e escrevi do fundo do coração.

Aguardarei comentários, de qualquer forma.