Felicidade Clandestina

1 Felicidade Clandestina


FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, alta, sem sardas e de cabelos lisos, meio loiros. Era achatada, enquanto nós todas já tínhamos bustos enormes. Para parecer que tinha busto, enchia os dois bolsos da blusa, com balas. Mas tinha o que qualquer mocinha louca por apps, games, smartphones, etc., gostaria de ter: uma mãe dona de loja de aparelhos eletrônicos.

Ela aproveitava bastante. E nós, também. Nos nossos aniversários ela, sempre a pedido de sua mãe, nos dava jogos de vídeo game, acessórios para celular, miniaturas de personagens de jogos eletrônicos. Mas, possuía um talento enorme para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, de estatura nem muito alta e nem muito baixa, de cabelos lindos. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de jogar, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os games que ela não jogava.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como usualmente, informou-me que possuía Sonic the Hedgehog, da Sega.

Era um game longo, um game para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o game a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Capivari, São Paulo. Dessa vez, nem caí: guiava-me a promessa do game, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha da dona da loja era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o game ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o game esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este game nunca saiu daqui de casa e você nem quis jogá-lo!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina ruiva em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Capivari. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o game agora mesmo. E para mim: “ E você fica com o game por quanto tempo quiser. ” Entendem? Valia mais do que me dar o game: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o game na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o game. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o game com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a jogá-lo. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois coloquei-o no vídeo game, liguei-o, passei algumas fases maravilhosas, desliguei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o game, achava-o, inseria-o no console por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes, sentava-me na poltrona da sala, como o joystick no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um game: era uma mulher com o seu amante.

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