Felicidade
1 Beatriz
Notas iniciais
O nome Beatriz significa "aquela que traz felicidade". Mas Bia nunca se viu como alguém que leva felicidade aos outros. Quando criança, ela costumava ser feliz quando estava sozinha, com suas brincadeiras e devaneios. Quando conheceu Carlinhos, foi quando percebeu que podia ser feliz com outra pessoa, que podia compartilhar o que sonhava.
Fazia sete anos desde que o tinha visto pela última vez. Se soubesse que sentiria tanta saudade, teria passado mais tempo ao lado dele ao invés de se afastar por estar confusa com seus sentimentos... Mas agora, Bia sabia exatamente o que sentia naquela época: amor. E gostava de se lembrar desse sentimento. Gostava de imaginar o que poderia ter acontecido se não tivesse ido embora ou o que poderia acontecer se reencontrasse o seu amor de infância. E quando Bia imaginava, ela sentia como se fosse real. Era como se fosse transportada para outro universo. No Mundo da Fantasia, ela e Carlinhos nunca tinham se separado. Sentia isso sempre que subia numa árvore ou quando cantava e dançava alguma música.
E havia felicidade.
Bia não sabia se veria Carlinhos novamente, mas pensava tanto nisso, que sentia como se estivesse preparada caso acontecesse. E sabia que, quando o visse, ficariam juntos e viveriam felizes para sempre. Era o único destino possível, pois ela nunca tinha encontrado outra pessoa com quem pudesse ser tão feliz e tão... ela mesma quanto era com ele. E sabia que também podia fazê-lo feliz. Era bom viver com essa esperança.
Mas quando realmente o reencontrou, não foi exatamente como tinha imaginado.
Bia tinha se tornado uma artista de circo depois que terminou a escola e estava fazendo uma turnê pelo Brasil. No mês de agosto, o circo do qual fazia parte se apresentaria no estado da Paraíba, onde ela morava quando era vizinha de Carlinhos, mas na capital, não na mesma cidade. Bia se apresentava na corda bamba, quando o viu na plateia. Tinha certeza de que era ele! Ela já tinha imaginado várias vezes como estaria a aparência dele mais mais velho, mas ele estava bem mais alto e mais bonito do que ela imaginava.
De repente, Bia começou a sentir uns calafrios que a fizeram se lembrar do porquê de ter fugido dele na adolescência. Seu coração começou a acelerar e suas pernas ficaram bambas, o que era péssimo, porque ela estava literalmente numa corda bamba! Ela se desequilibrou feio e todos a sua volta perceberam. Parecia o tipo de pesadelo que tinha antes de fazer suas primeiras apresentações, mas aquilo nunca tinha chegado a acontecer de verdade, a não ser quando ainda estava aprendendo a andar na corda bamba.
Foram apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade! Por pouco ela não caiu. E conseguiu continuar até o final. Estava morrendo de vergonha e achou que seria muito vaiada, mas a plateia, que estava quase tão tensa quanto ela, aplaudiu muito quando ela chegou do outro lado. Bia ficou muito feliz e sorriu diretamente para o seu amigo de infância. Será que ele também a reconheceu? Estava doida pra falar com ele! Mas ainda haveriam outras apresentações, então precisava esperar.
Porém, depois que o espetáculo acabou, Carlinhos já tinha ido embora. E agora?... Tomara que ele voltasse pra ver outra apresentação... Depois que todos foram embora, Bia voltou pro palco e começou a fazer de conta que seu amigo estava lá e que estava fazendo a performance só pra ele. Queria tanto que ele voltasse! Se isso acontecesse, ela ia dar um jeito de falar com ele e de saber tudo sobre a vida dele. E, então, daria um jeito de ficar com ele pra sempre. Ela podia mudar pra se encaixar. Estava gostando de viajar com o circo, mas podia morar onde Carlinhos morava e talvez procurar outro emprego. Só não deixaria de ser artista, é claro. Uma pessoa como ela não ia aguentar ficar num emprego que fosse vida real demais.
**
Alguns dias depois, ele voltou. Bia espiou pela cortina pra ver a plateia antes do espetáculo começar. Ficou muito feliz por ele estar lá, mas logo sua alegria foi diminuindo quando viu que estava acompanhado. Ele estava com uma mulher que ela nunca tinha visto na vida e parecia ter a mesma idade que eles. Carlinhos não tinha irmãs, então Bia ficou torcendo para que fosse uma prima. Então foi lá pra fora tomar um ar.
Haveriam outros números antes do seu, portanto, não precisava se preocupar. Bom, não precisava se preocupar com o número, mas estava preocupada com outra coisa. Havia uma árvore grande lá, ela pensou em subir. Mas depois mudou de ideia, era melhor ficar no chão. Seu pensamento voava muito longe sempre que subia numa árvore...
Como ela pôde não considerar a possibilidade de Carlinhos ter uma namorada??? Pra falar a verdade, é claro que ela já tinha pensado nisso, mas sempre que esse pensamento lhe vinha à mente, ela o espantava para longe e pensava numa coisa boa, afinal, são os pensamentos felizes que fazem voar. E Bia adorava voar! Será possível que uma mulher de 21 anos ainda podia viver nesse mundo de pura fantasia?...
Quando chegou sua vez de se apresentar, Bia tentou esquecer essa história. Sabia que não podia se desconcentrar ou, senão, cometeria um erro como o da outra vez e, desta vez, podia ser que não saísse sem levar bronca do dono do circo. Seu número era de acrobacia. No palco, ela podia literalmente voar enquanto dava seus saltos mortais na cama elástica.
Após o fim do espetáculo, Bia resolveu que desta vez ia falar com Carlinhos de qualquer jeito, mesmo que, pra isso, tivesse que falar com a acompanhante dele também. Ficou atenta para não deixá-lo escapar como da outra vez. A plateia ainda estava aplaudindo quando Bia foi para perto do assento onde ele estava. Foi um pouco difícil chegar até lá, pois as outras pessoas ficavam tietando ela, afinal, haviam ficado impressionadas com sua apresentação e não queriam perder a chance de falar com ela e tirar fotos. Por sorte, essas pessoas também estavam muito interessadas nos outros artistas, então Bia conseguia desviar a atenção delas apontando onde eles estavam.
Carlinhos estava falando com a moça que havia ficado o tempo todo ao seu lado quando Bia chegou perto dele. Os dois pareciam comentar sobre as coisas incríveis que tinham acabado de ver, então a moça ficou com uma expressão de surpresa e disse:
— Olha! — Apontando pra Bia e cutucando Carlinhos.
Ele se virou. Os dois a olhavam da mesma forma que as outras pessoas da plateia: como se ela fosse uma celebridade. Ou uma personagem... Apesar de sempre se apresentar e de amar o seu trabalho, Bia ainda era tímida na vida real, então ficava um pouco desconfortável com isso. Mas não achava de todo ruim, no final das contas, estava sendo adimirada pelo que amava fazer e se lembrava de como era quando ela fazia parte da plateia dos circos e se sentia exatamente como essas pessoas.
Porém, naquele momento em particular, ela estava odiando ser vista dessa forma. Carlinhos e essa moça pareciam tão adultos e sérios... Certamente estavam no circo para dar uma pausa no dia a dia da vida normal deles e passar um tempinho no mundo da fantasia. E ela estava lá com sua malha verde e brilhante, esperando que seu amigo de infância a reconhecesse e a visse como uma pessoa normal. Ela mal podia acreditar que realmente tinha achado que ele sentiria alguma coisa por ela se a visse de novo...
Apesar de todos esses pensamentos e de estar morrendo de vergonha e de vontade de fingir que ele era mesmo só mais uma pessoa da plateia que ela nunca mais veria na vida, ir embora e torcer pra que ele não a reconhecesse, Bia não desistiu de falar com ele. Foi por causa desse medo bobo que ela passou uns 2 anos fugindo dele quando eram adolescentes e não ia fazer isso de novo.
— Eu sei que é estranho eu falar assim do nada, mas... eu acho que conheço você. O seu nome é Carlos? — Ele assentiu e ela continuou: — Eu sou a Bia, você lembra de mim? Eu fui sua vizinha quando a gente era criança. Lá em Itabaiana.
Carlos tinha uma expressão de surpresa e confusão e não disse nada por um momento. Bia achou que tinha se confundido e estava morrendo de vergonha, só queria que um buraco se abrisse no chão e a engolisse naquele momento.
— Você não pode ser a Bia! — Ele, por fim, falou, enquanto se levantava. — A Bia que eu conheci tinha medo até de subir em árvore, como pode fazer esse monte acrobacias agora???
Era ele mesmo! Bia ficou muito aliviada, e muito feliz!
— Depois da primeira vez que eu subi numa árvore, fui perdendo o medo dessas coisas — ela disse com um sorriso enorme.
Carlinhos também sorriu, disse que achava que nunca a veria de novo, e ainda mais como artista de circo, e os dois riam com a situação inusitada.
Até que a acompanhante de Carlinhos pigarreou e ele disse:
— Ah, é, desculpa! — Ela não tinha uma expressão muito amigável. Então, voltando-se para Bia e indicando a outra moça com a mão, ele continuou: — Essa é Marina, minha namorada. Ela ficou curiosa pra ver o circo depois que eu contei pra ela como era. Eu vim aqui logo quando vocês chegaram na cidade, mas acho que você não me viu.
Marina, agora com uma expressão bem mais simpática, apertou a mão de Bia dizendo que era um prazer conhecê-la. Pelo jeito, ela não era uma namorada ciumenta, só devia ter ficado incomodada porque não estava sendo incluída na conversa.
Bia também foi simpática com ela, mas, por dentro, se sentia muito mal. Por mais que já tivesse pensado na possibilidade dessa menina ser namorada de Carlinhos, ainda tinha um pouco de esperança de que ela não fosse e ouvir a confirmação disso foi como uma facada em seu peito.
Os dois disseram que se conheceram na faculdade de medicina. Pelo jeito, tinham muito em comum. Eles eram tão normais... Bia se sentia uma palhaça perto dessa Marina. Literalmente, já que trabalhava no circo e às vezes se apresentava mesmo como palhaça. Eles marcaram de se encontrar no dia seguinte pra almoçar com ela. Bia concordou, mas não estava com a mínima vontade de ir. Ela se sentia muito patética perto de dois futuros médicos.
Porém, isso não era o pior... Quando foi dormir (ou melhor, tentar, porque tava bem difícil conseguir dormir depois de tanto impacto!), Bia ficou pensando em como estava errada em achar que ela e Carlinhos eram almas gêmeas. Ela achava que quando se reencontrassem, ia ser como se nada tivesse mudado. Como quando eles conversaram de novo após passarem um tempo sem se falar na adolescência. E ela também achava que ele ainda ia olhar pra ela do mesmo jeito, mas não foi o que aconteceu. Ele não tinha aquele brilho nos olhos de antes... Talvez agora tivesse quando olhasse pr'aquela tal de Marina...
Qual era o problema de Bia? Ela achava mesmo que depois de 7 anos as coisas não iam mudar? As pessoas mudam, crescem. Só ela que não... Parecia o contrário da história: o Peter Pan tinha saído da Terra do Nunca e resolvido crescer enquanto a Wendy continuava lá, voando e sonhando acordada.
Carlos nunca foi dela. Tudo o que Bia tinha agora eram memórias de uma época em que ele pode ou não ter sido apaixonado por ela, porque agora nem disso ela tinha certeza. Será que alguma vez ele já tinham mesmo sentido algo por ela ou isso foi só fruto da imaginação extremamente fértil de Bia? Bom, independentemente, ele não precisava dela pra ser feliz. Mas como Bia conseguiria ser plenamente feliz se o amor de sua vida pertencia a outra?
**
No dia seguinte, Bia escolheu a roupa mais madura encontrou. Queria ser levada a sério. Estava tão nervosa! Era estranho, parecia que estava indo fazer uma entrevista de emprego ou sei lá... O que é bem irônico, já que quando fez uma entrevista de emprego de verdade, ela teve que mostrar suas habilidades artísticas.
Mas seu maior medo era não conseguir disfarçar o que sentia por Carlinhos. Se a namorada dele percebesse, aquela simpatia iria embora num instante... Bia não se sentia bem com isso, nunca tinha imaginado que seria uma garota que gosta do namorado de outra, mas o que ela podia fazer se esse sentimento tinha aparecido quando ela tinha 12 anos e até um dia atrás ela não sabia que Carlinhos estava comprometido?
Chegando no restaurante em que marcaram, entretanto, só ele estava lá, sem a namorada. Bia achou que talvez ela estivesse no banheiro ou algo assim, mas Carlinhos disse que ela teve um compromisso e não pôde ir, portanto, seriam só eles dois: Beatriz e Carlos. E, por alguma razão, Bia ficou ainda mais nervosa quando soube disso. Parecia quando eram adolescentes e ela não tinha mais coragem de ficar sozinha com ele, os dois só ficavam no mesmo ambiente se tivesse mais alguém por perto. Por que Bia era tão medrosa??? Do que ela tinha medo, afinal? Eles só iam almoçar e falar de suas vidas...
Depois que pediram a comida, houve um silêncio constrangedor. As coisas realmente não eram mais as mesmas! Carlinhos tinha mudado tanto... Se ainda fossem crianças, ele nunca deixaria o ambiente silencioso. Será que tinha ficado tímido com o tempo ou só estava achando aquela situação estranha e constrangedora?
Para a surpresa dos dois, Bia foi a primeira a falar:
— Então agora você não é mais o Carlinhos, é o futuro doutor Carlos?
Ele riu e disse:
— Faz tempo que ninguém me chama de Carlinhos, mesmo... E você não é mais Bia, né? É Beatriz, a equilibrista, acrobata, dançarina, atriz e mais uma ruma de coisa que tinha lá no anúncio do circo...
Bia riu e também ficou um pouco surpresa. Ela ficava pensando que ele tinha mudado muito e que ela continuava a mesma, mas a verdade é que ela também mudou. Ainda tinha sua criança interior, mas também fazia coisas que a Bia criança nunca imaginou. Quer dizer, ela até já tinha imaginado, porque ela imaginava de tudo, só não imaginava que teria coragem de fazer essas coisas de verdade.
— É, eu sou essa Beatriz, mas também sou Bia ainda... — ela respondeu depois de um tempo. — Você ainda gosta de música?
— Eu amo música! Só que não dá pra viver disso, né? Quer dizer, até dá, mas ia ser muito difícil...
— Mas também gosta de medicina?
— Muito! — Por sua expressão, ele parecia sincero. — Eu gosto de ajudar as pessoas.
— É uma profissão muito importante!
— É... mas a sua também é.
Bia não pôde disfarçar sua cara de que sabia que ele não estava falando sério.
— Eu tô falando sério! — Disse ele. — Você leva felicidade pras pessoas. Todo mundo precisa disso...
Bia sentiu algo que não podia explicar quando ouviu o que Carlinhos disse. Ela não sabia, mas precisava ouvir essa frase. Ela teve uma espécie de epifania. Era como se tudo em sua vida, de repente, fizesse sentido. Ela era mesmo Beatriz, aquela que traz felicidade. E ficou muito feliz em descobrir isso. Ela não precisava mudar pra se encaixar na vida de Carlos, ele tinha sua vida e ela tinha a dela, e os dois estavam felizes com o que faziam.
Depois disso, as coisas pararam de ficar estranhas. Durante todo o almoço, eles ficaram falando sobre sua infância. Eram vários "você lembra?" seguidos de outros "lembra?" e muitas risadas com as lembranças de suas brincadeiras. No final, se despediram com um abraço, muito parecido com o último abraço que deram antes de Bia se mudar de Itabaiana.
O circo estava prestes a sair de João Pessoa, então não se veriam mais depois daquele almoço. Bia sabia que não podiam ser mais do que amigos, mas isso não a incomodava mais. Ela entendeu que, apesar de ter havido felicidade com Carlinhos, também haveria felicidade depois dele. Desejava que ele fosse feliz com Marina.
À noite, Bia subiu numa árvore. A mesma que tinha pensado em subir quando viu os dois na plateia. Enquanto subia, ela pensava em tudo o que fez depois que Carlinhos a ajudou a subir numa árvore pela primeira vez. Ele foi muito importante pra sua vida, mas isso não significava que ela não podia viver sem ele. Talvez, um dia, ela achasse alguém como ele. Talvez não. Mas isso não importava. Quando chegou no lugar mais alto que conseguiu, Bia olhou para o Céu estrelado e sorriu, sentindo uma alegria inexplicável. Ela não sabia se algum dia teria a felicidade do amor romântico. Mas a Felicidade real, ela já tinha. E podia compartilhar com quem quisesse.
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