Felicidade
1 Significados
Zoro nunca foi uma pessoa religiosa.
Isso vinha desde que era criança. Vivera a maior parte da sua vida enclausurado num dojô, aprendendo com seu mestre, Kuina e outras crianças a arte da espada. Seu mestre o ensinara a crer sempre em sua própria força e potencial, e a contar com as próprias habilidades para vencer e sempre se sobressair. Não recebera nenhuma orientação religiosa. Por isso, não acreditava em deuses, ou no que eles representavam.
Por isso, antes de se tornar um membro do bando de piratas do Chapéu de Palha, Zoro nunca comemorara o Natal. Por acreditar ser uma festa puramente religiosa, nunca sentira necessidade de celebrar essa data. Por não crer no que ela representava, essa celebração nunca tivera grande apelo para si. Era só uma data como qualquer outra. Pelo menos até ter a companhia de amigos que a comemoravam fervorosamente.
Zoro ainda não acreditava em deuses, ou no que eles representavam. Mas descobrira que o Natal não era simplesmente uma festa religiosa. Havia muito mais por trás de seu significado. Sentia um calor estranho, porém aconchegante ao observar a alegria de seus companheiros enquanto se preparavam para as festas. Via a empolgação de seu capitão e dos demais enquanto enfeitavam o navio com bolas coloridas, guirlandas e luzinhas pisca-pisca. Via a afeição sincera no rosto de cada um ao desejaram tudo de melhor uns para os outros, ao cair da meia-noite. Mesmo envergonhado, recebia com carinho os abraços de um Luffy saltitante, de um Franky entusiasmado, de um Usopp tagarela, de um Chopper choroso, de uma Robin sorridente. Sentia a paz daquele momento único e especial.
Descobrira que o significado do Natal era a união. Era estar com quem se gosta, sentir o prazer de ser querido, de estar incluído, de poder receber um abraço das pessoas que mais gostava. Não havia espaço para o seu orgulho, para a sua reclusão. Apenas para a sensação aconchegante de ter amigos com quem celebrar aquela data única.
Aquilo era a Felicidade.
***
Nami não era exatamente uma pessoa generosa.
Não era sua culpa. Desde a mais tenra idade, ela sentira na pele o que era a miséria. Sua mãe adotiva, Bellemere, era tão pobre que mal podia comprar comida o suficiente para alimentar á si mesma, á ela e a Nojiko. Mesmo nas épocas em que tinham uma boa safra na colheita de laranjas, eram necessárias economias e sacrifícios.
Graças á essa situação financeira precária, sua família nunca pudera comemorar abertamente o Natal. Mesmo que Gen-san e os moradores da vila Kokoyashi ajudassem da maneira que pudesse, as coisas eram sempre difíceis. Era algum alimento em especial que faltava. Eram presentes que não podiam ser comprados. Era a falta de uma arvorezinha de Natal embelezando a pequena casa.
“Desculpem, meninas, mas nesse ano não deu. A safra não foi boa. A única coisa que posso dar á vocês é isto.”
E dizendo essas palavras, Bellemere acolhia as duas meninas emburradas em seus braços. E mesmo sem boa comida, sem presentes e sem enfeites bonitos, Nami se sentia feliz. Aquecida. E amada.
Depois da trágica morte da mãe, Nami não comemorara mais o Natal. Nojiko nunca insistira, sabendo que os motivos para celebrarem essa data haviam se esvaído, junto á vida de Bellemere. A ruiva passara as próximas festas invadindo navios e tavernas onde piratas caindo de bêbados festejavam, e furtava tudo de valor que conseguisse encontrar. E de noite, no silêncio de um quarto ou de uma rua deserta, ela virava uma garrafa de saquê na boca.
“Feliz Natal, Bellemere-san.”
E chorava até a aurora despontar.
Durante a infância, ela nunca tivera dinheiro para nada. Por isso, atualmente, as preciosas notas passaram a representar tudo em sua vida. E agora, era á isso que seus natais se resumiam. Roubar. Guardar tudo no esconderijo da plantação de laranjas. Amaldiçoar Arlong por todas as coisas que ele lhe tirara. E pedir perdão á Deus por estar cometendo tamanha heresia naquela data tão significativa.
Mas depois de entrar definitivamente para o bando de piratas do Chapéu de Palha, Nami descobrira um novo significado para o Natal.
Mesmo que não gostasse de gastar dinheiro com frivolidades, ela não se importava em dar dinheiro á Sanji para que ele comprasse os ingredientes necessários para preparar a ceia. Não se importava em dar dinheiro á Franky para que ele comprasse os enfeites bonitos dos quais tanto sentira falta na infância. E não se importava em torrar as notas que economizara com tanto esforço em presentes para seus amigos. Nem que fosse em lembrancinhas. O que valia era a intenção, não é?
Descobrira que o significado do Natal era a partilha. Era partilhar seus bens, seu carinho, sua alegria com as pessoas que deram um novo significado para a sua vida e para aquela data única. Era partilhar uns com os outros a amizade e o apreço que os unia. Era partilhar seus sorrisos, suas risadas, suas lágrimas. Aquilo lhe dava uma sensação maravilhosa, que não sentira por muito tempo, mas que agora vinha como uma enxurrada para inundar seu peito de calor.
Aquilo era a Felicidade.
***
– Isso é bem engraçado, não é?
Zoro olhou para Nami, que estava parada ao seu lado, segurando nas duas mãos uma caneca de chocolate quente. Mesmo sem perguntar, ele sabia á que ela se referia. Estavam observando seus companheiros enfeitando o pinheiro que Franky trouxera mais cedo, tirado da floresta que circundava a ilha onde haviam aportado. A árvore já estava abarrotada com luzinhas brilhantes, bolas de vidro coloridas em vermelho e dourado, miniaturas de anjos e de um Papai Noel. Faltava apenas o principal: a estrelinha dourada, destinada ao topo da árvore. Luffy insistira em ser aquele que colocaria a estrela, mas Franky alegara que aquilo deveria ser um trabalho em equipe. O capitão subira nos ombros do ciborgue, e Chopper se apoiava nos ombros deste, tentando se esticar para alcançar o topo do pinheiro. Usopp gritava instruções para o trio, dizendo se deveriam ir mais para a direita ou mais para a esquerda. Robin ria da pequena confusão, enquanto Brook alegrava o ambiente ao compor uma melodia natalina em seu violino. O cheiro delicioso da ceia que Sanji preparava na cozinha já impregnava todo o convés.
– Só estou esperando o momento em que eles vão perder o equilíbrio e cair. – Zoro murmurou, ao que Nami riu. Estava fazendo um frio danado. Os flocos de neve caiam do céu, rodopiando envolta uns dos outros, acumulando-se no convés e na balaustrada. Nami virou um gole de seu chocolate na boca, sorrindo ao sentir aquele calorzinho descer por sua garganta e alojar-se em sua barriga. Sentia-se feliz, totalmente em paz com o mundo e consigo mesma. Mas estranhava o fato de Zoro não estar sorrindo.
– Que cara de velório é essa? – A navegadora quis saber, dando uma suave cotovelada no braço do espadachim. Ele a encarou, pensativo. Suspirou.
– Eu nunca tinha comemorado o Natal.
A ruiva arregalou os olhos, surpresa.
– Nunca?
– Nunca.
– Então seu primeiro Natal é conosco? – Um sorriso caloroso brincou em seus lábios. Ao vê-la sorrir para si daquela maneira, Zoro não conseguiu evitar retribuir.
– Pode-se dizer que sim.
O sorriso dela se ampliou. Apesar de sentir certa pena do espadachim ao pensar que ele nunca celebrara essa data, também se sentia exultante em saber que seria com ela e com os demais que o rapaz comemoraria aquela ocasião pela primeira vez. Durante dois anos de separação, ela pensara nos companheiros e em com quem eles estariam comemorando seus natais. Sentiu novamente pena de Zoro, ao pensar nele treinando arduamente, sem ninguém querido por perto para desejar á ele boas festas.
– Hunn... Então vamos garantir que esse seja o seu melhor Natal. – Ela decretou, dando ás costas ao espadachim surpreso e rumando para a cozinha. Voltou três minutos depois, trazendo uma segunda caneca nas mãos. Ofereceu-a á ele, que a apanhou sem discutir e aspirou o perfume doce do chocolate quentinho.
– Eu preferia saquê, sabe...
– Deixe de ser mal-agradecido! – Ela o repreendeu, dando um tapa em sua nuca. Zoro rosnou, mas conteve-se para não xingá-la. Não queria iniciar uma discussão com a ruiva, não agora que ela parecia estar tendo um surto de generosidade. Virou o chocolate na boca, sentindo o prazer da doçura do líquido escorrer por sua garganta. Voltou-se para a companheira, um meio-sorriso sacana estampado no rosto.
– O que diabos deu em você, hein? Foi possuída pelo tal espírito natalino ou está bancando a boa samaritana pra me cobrar um tratamento igual depois?
– Eu nem sonharia com isso. – Nami respondeu, dando um sorriso igualmente atrevido – Eu não esperaria um tratamento amigável vindo de um troglodita como você. E nem o cobraria, aliais. Você já tem uma dívida e tanto comigo.
O espadachim bufou, aborrecido.
– Nem nessa época você se esquece dessa porcaria de dívida? – Ele sibilou, indignado – Será que não dá pra você dar um desconto e fingir que não te devo nada, pelo menos por hoje? Pelo espírito do Natal?
Nami riu ou ouvi-lo falar de uma coisa que duvidava que ele acreditasse. Deu mais uma cotovelada de brincadeira no braço dele.
– E perder a oportunidade de aborrecer você? Jamais.
– Sua bruxa!
Nami riu com gosto, jogando a cabeça pra trás. Por mais que a menção da tal dívida sempre o aborrecesse, ele simplesmente não conseguia se aborrecer com ela quando ria daquele jeito espontâneo. Na verdade, ele sentira falta daquelas risadas doces e melodiosas nos dois anos em que ficou sem poder ouvi-las. E Nami sentira falta dos bufos e dos olhares aborrecidos que o espadachim lhe dirigia sempre que tocava no assunto do tal débito. Sentira falta do Zoro, principalmente quando ele era ele mesmo.
Com um longo suspiro, levada pelo frio que a enregelava e pelo chocolate que a alegrara, ela encostou a cabeça no ombro largo do rapaz, que a encarou com surpresa, embora não dissesse nada contra a atitude atípica dela.
– Sabe... Eu também não costumava comemorar o Natal. Não o comemorei por longos oito anos. – Ela murmurou, os olhos desfocados, perdidos em reminiscências. Zoro ficou olhando-a enquanto tomava mais um gole de seu chocolate.
– Desde a morte da Bellemere-san, eu não encontrava mais sentido nenhum no Natal. Não sentia mais a alegria que essa época representava. Até conhecer vocês.
Zoro desviou o olhar. Sabia de todas as coisas ruins que Nami havia passado. Não se surpreendia por ela não ter encontrado o animo necessário para comemorar aquela data. Um mal estar se alojou dentro de si; o amargo da pena batalhando contra o doce do chocolate.
– Ao lado de vocês, eu descobri um novo significado pro Natal. Não é apenas comer, beber e ganhar presentes. O Natal representa a partilha. E... Eu quero partilhar o que eu tenho de melhor com vocês. – Ela sorriu docemente – Quero partilhar minha alegria, meu carinho, meus sonhos e anseios. Quero partilhar suas alegrias, sonhos e anseios também. Eu... Eu quero partilhar o que eu tenho de melhor com você, Zoro.
O coração do espadachim se acelerou, batendo com força contra seu peito, agora totalmente aquecido. Pelo visto não fora só ele que aprendera um dos vários significados do Natal. Nami queria partilhar. E ele... Bom, ele queria união. Queria estar sempre com seus amigos, independente da época ou da situação. E... Queria estar sempre com ela.
– Bom saber que você resolveu deixar essa mesquinhez um pouco de lado. – Ele debochou, sorrindo abertamente, ao que ela revirou os olhos – Mas sabe, eu... Eu também descobri um novo significado pro Natal. – Ele abaixou a cabeça, corando furiosamente – Eu não sou uma pessoa religiosa, e como sempre pensei no Natal como uma festa religiosa, nunca o comemorei. Mas essa data não significa só isso. Ela também significa união. A união que desenvolvi com meus companheiros, uma união que eu nunca vou querer romper. Uma união que eu desenvolvi com você também. Mesmo que nossa união represente sua sovinice e uma dívida idiota.
Nami riu, virando a cabeça um pouco de lado.
– Ela também representa a sua grosseria e estupidez, marimo. – Enfatizou – Mas eu não me importo com isso, porque esse é você. Esse é o Zoro com quem eu aprendi á conviver, e á quem eu aprendi á gostar. Então, vamos partilhar minha mesquinhez e sermos unidos por sua estupidez. Que tal?
– É uma boa ideia.
Sorriram um para o outro. O momento foi interrompido por um grito de vitória, dado no canto da navio. Chopper enfim conseguira fincar a estrelinha dourada no topo do pinheiro, e todos comemoravam aos pulos. Franky agarrou cada companheiro em seu campo de visão num apertado abraço grupal. Os gritos e reclamações dos outros fizeram o espadachim e a navegadora rirem juntos. Estavam unidos por aquele momento único. Estavam partilhando uma risada.
– Zoro. – Nami o chamou, um sorriso sugestivo no canto de seus lábios – Quero partilhar uma coisa com você.
– O quê?
A ruiva não respondeu. Simplesmente agiu. E antes que o espadachim pudesse dizer qualquer coisa, ela havia passado os braços ao redor de seu pescoço e colado sua boca na dele, num beijo doce e casto. Por um segundo tudo o que ele sentiu foi espanto. Mas logo aquele calor voltou á se alojar em seu peito, e ele estava correspondendo o beijo com o mesmo fervor.
Estavam unidos por aquela carícia. Estavam partilhando aquela alegria.
Separaram-se minutos depois, ofegantes. Os olhos castanhos estavam brilhando. E o negro arisco estava arregalado.
– Nami... – Ele sussurrou, mas foi interrompido pelo dedo dela, pousado sobre sua boca.
– Feliz Natal, idiota.
E tudo o que Zoro pode fazer foi sorrir. Nami partilhou com ele a sua alegria, e seus sentimentos ocultos. E o que mais ele poderia fazer? Simplesmente respondeu:
– Feliz Natal, bruxa.
E beijou-a mais uma vez.
Aquele foi o primeiro Natal de Zoro. O Natal onde ele aprendeu o significado da união.
Aquele foi o Natal mais feliz da vida de Nami. O Natal onde ela aprendeu o significado da partilha.
O Natal onde dois corações, um bruto e um entristecido, se amoleceram e acolheram juntos aquele sentimento. Um sentimento puro e sincero, provindo da comemoração daquela data tão especial. Um sentimento de união. Um sentimento de partilha.
Um sentimento de Felicidade.
# FIM #
Notas finais
Desejo á todos um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Que todos nós sejamos felizes e realizemos nossos sonhos e aspirações. Tudo de melhor para vocês 0/
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