Feliccia
1 Capítulo Único
Na rua East Garden, no bairro londrino de Westminster, vivia uma mulher, mas não uma qualquer. Feliccia Georgina Streunberg, uma fazendeira que veio das entranhas do norte inglês para a badalada capital real. Morando poucos quarteirões de 10th Downing Street e Buckingham, todos poderiam pensar se tratar de uma pessoa normal, instruída e educada. Conforme os padrões dos anos 1922, pós-guerra... britânico algum pensava no mal que um de seus moradores poderiam causar.
A senhora, idade entre 40 e 50 anos, sempre utilizando o vestido típico da época. Pousou para uma foto do seu criado fotógrafo, na varanda da sua casa ao lado do Tâmisa. Em seus braços uma pessoa miúda em volta de uma echarpe... um bebê? Um corpo esquelético de um bebê. Seu filho, Roosvelt, morrera aos 2 anos de idade vítima de tuberculose. O bebê havia nascido com complicações, haja vista durante a gestação a matriarca abusava do tabaco. Era um vício que matou um inocente.
E Feliccia, após perder o filho, divorciou-se de Clarence Thomas, seu marido e professor de química numa universidade aclamada do reino. Desde então a sua sina era viver enclausurada.
A casa em estilo vitoriano, número 15 da East Garden se tornou palco de uma verdadeira carnificina. Algo chocante que até mesmo os detetives da Scotland Yard ficaram boquiabertos. Algo que não chocou tanto desde Jack o Estripador.
Os detetives acharam o corpo de Feliccia dentro de uma banheira, gélido e imóvel. Pelos cálculos, passaram mais de 24 horas desde que morreu. Sangue misturado com água deixou claro que havia um suposto suicídio, corroborado este fato com os pulsos cortados da mulher.
Rastros de sangue pelo chão de madeira indicavam algo realmente espantoso: no quarto de bebê, uma criança recém-nascida e três cadáveres ao redor. Dois meninos e uma menina. O menino, por volta dos seus oito anos, estava pregado na parede, com pregos enfiados nos seus pulsos e pés tal como Jesus de Nazaré. Seus olhos foram arrancados e colocados num pote de conserva, com álcool misturado na água. Tal pote estava sobre uma escrivaninha branca. O sangue do garoto escorria pela parede e ele estava vestido com roupas elegantes para criança.
O segundo corpo era da garota, talvez uma garotinha judia dada como desaparecida na semana passada. Estava escorada num banco acolchoado, sentada no chão e as costas apoiadas nesse banco. Suas mãos foram costuradas com linha de costura e ficou em forma de "reza". Seus olhos foram furados e o sangue seco estava escorrido pelo rosto. Vestia um vestido florido e parte de seus cabelos foram cortados, porque no chão havia mechas de cabelo loiro e a menina era a única assim.
O terceiro garotinho estava bem mais bizarro que os outros dois. Seu corpo estava pregado no teto e olhando para o berço. Pelo visto era o mais intacto... Ledo engano. Ao tirar o corpo, os detetives puderam perceber que a cabeça fora arrancada e apenas costurada com linha de costura. Todo o seu corpo estava com palha no seu interior, ou seja, o menino foram empalhado. Acharam na geladeira os órgãos apodrecidos da criança.
Quem poderia ter feito uma barbaridade dessa? Feliccia ou alguém desconhecido?
Feliccia deixou um diário dentro do armário da cozinha, revelando os seus feitos doentios. Não era a primeira vez que ela matava crianças, mas essa foi a única vez que ela decidiu exibir os corpos.
Diário de Feliccia Streunberg
12 de junho de 1920
Há quinze anos, o meu filhinho, Theodore Roosvelt, nome de ex-presidente americano, foi encontrado morto no seu quarto de bebê. Meu ex-marido ficou chocado, eu passei dias sendo avaliada por um psicólogo, mas não deu jeito. Nos separamos dias depois. Desde então eu fiquei em tratamentos antidepressivos e me mudei para a capital. Pensei que, morando na casa de meus pais, seria mais fácil. Entretanto, papai morreu dois anos depois e mamãe me deixou ano passado. Estou sozinha.
13 de maio de 1921
Os meus demônios me perturbam. Há cinco meses que decidi não tomar banho ou fazer qualquer higiene pessoal. Subornei o coveiro a ponto dele me devolver o corpo do meu filho, morto em 1905. Dezesseis anos. Seu corpo estava uma total caveira. Mesmo assim eu quis criá-lo. Sou a mãe e tenho esse direito.
06 de novembro de 1921
Meu ex-marido morreu com manchas negras pelo corpo. Definhou na cama do pronto-socorro, mas eu sequer me importei com aquilo.
Hoje veio uma judia me pedir emola com duas criancinhas. Não as atendi, porém aquelas crianças eram tão bonitas.
01 de janeiro de 1922
Após o ano novo, muitas crianças brincavam nas ruas. Fiquei mais um ano sozinha em casa, não aguentava mais essa pressão, esse peso. Mesmo com meu querido Roosvelt aqui, as coisas ficaram completamente diferentes.
27 de janeiro de 1922
Tenho que adotar um outro filho. Tomei banho, vesti uma roupa bonita e saí entregando maçãs pelas ruas. Consegui raptar um casal de irmãos judeus. Eles choravam sem parar e tive que calá-los. Estrangulei aquelas crianças e as fiz devotar o pequeno Roosvelt no berço. A menina cortei-lhe seus cabelos, furei-lhes os olhos e costurei suas mãos. O rapaz eu tive que pendurar no teto, mas antes eu golpeei sua cabeça com uma marreta. Os órgãos foram retirados e substituídos por palha.
02 de fevereiro de 1922
Um terceiro garotinho entrou em meu quintal. Agarrei e o obriguei a comer o coração do outro garotinho. Levei várias cuspidas no rosto, por isso eu o preguei vivo contra a parede. Um jovenzinho pecador merece queimar no inferno!
...
Os detetives ficaram perplexos com as palavras vis de uma mulher ensandecida. Os pulsos cortados talvez sejam a prova do seu arrependimento, mas, com um crime brutal que ela cometera, júri algum se comoveria. Seu destino seria a forca, talvez?
A família pôde enterrar as suas crianças, apesar das lamentações.
Hoje em dia, muitos rebeldes sem causa vão ao túmulo de Feliccia para homenageá-la. Um amor doentio e bizarro. O mais estranho era o bebê dentro do berço de Roosvelt. Segundo Feliccia, era um esqueleto do seu filho de dois anos, morto pela tuberculose. Então como a criança recuperou a vida? Seria uma quarta criança? Seria uma invenção da cabeça da insana? Seria realmente verdade e usou de bruxaria para fazer dos 3 garotinhos uma oferenda e assim dar suas vidas em troca de Roosvelt? Ninguém sabe e nunca irão saber.
Feliccia, a icógnita.
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