Feito à mão
1 único
Notas iniciais
“Você dilata minha pupila,
aquece meu coração e parece me
dar asas, me fazendo voar sem
tirar os pés do chão.”
Autor desconhecido.
O Natal parecia ter passado por uma transição onde as decorações diminuíram por um período, tornando a atmosfera mais melancólica e áspera, para então voltar a preencher todas as casas com uma vida ofuscante. Porém, as tradições permanecem independentes de como o mundo passa por esses momentos. Às vezes são resignificadas, às vezes alguns detalhes se tornam mais evidentes que outros, mas nunca deixam de existir.
Na quase sagrada reunião da família Uchiha, três meses antes de Dezembro, tinha-se a tradição das ceias serem em lugares diferentes desde que Tajima faleceu, assim foi feito um sorteio de quais casas teriam essa responsabilidade. Com a adição da nova casa de Itachi, que havia se casado há pouco tempo com o jovem artesão, Hyuuga Neji. Mas, para a surpresa de todos, os recém-casados foram os sorteados da vez junto com o par de irmãos, Madara e Izuna, para o Ano Novo.
— De primeira, que sorte. — Sasuke comemorou com tapas fortes no ombro do irmão.
Itachi arqueou a sobrancelha. — Você está comemorando ou jogando algum tipo de praga, irmãozinho?
O alfa sorriu de lado. — Um pouco dos dois, talvez. — Deu uma piscadela, antes de olhar para seu cunhado conversando com Mikoto, a expressão se tornando serena. — Na primeira vez que a minha casa foi escolhida, Gaara quase surtou e junto me deixou doido, então… não deixe Neji se sobrecarregar muito.
A preocupação do mais novo era um conselho singelo para que a comemoração não se tornasse um peso para eles.
— Hm — resmungou baixo, se afastando do irmão para ir até o marido.
— Ita — O ômega chamou, as bochechas levemente coradas ao ter a mão entrelaçada. — Mikoto-san estava me dando uma lista de comidas que podemos fazer — diz, mostrando o papel.
Itachi sorriu pequeno. — Mãe, já que é nosso primeiro ano... — Respeitosamente devolveu a lista a Uchiha. — Nos deixe surpreendê-la.
A matriarca encarou o filho com certa curiosidade, mas não se sentiu ofendida pela recusa dele. — Se Itachi-kun e Neji-kun querem surpreender. — O sorriso doce apontava seu apoio ao casal. — Ficarei no aguardo então.
Neji não entendia o que seu marido pretendia com aquele aviso, mas não se preocupou, naquele instante.
— Só não esqueça, sobrinho, que também tem os presentes para comprar. — Madara chegou acompanhado de Izuna, o sorriso levemente irônico. — E já que quer fazer uma surpresa para nós, espero que o presente também seja chocante.
Izuna beliscou o irmão. — Irmão! Não provoque Itachi-kun.
— Não estou provocando — rebateu o mais velho, desviando o olhar com falsa culpa.
A pequena troca entre os Uchiha chamou a atenção do Hyuuga, que até o momento tentava desvendar os planos do moreno sobre os pratos da ceia, no entanto, o acréscimo de entregar presentes o deixou levemente agitado.
— Presentes? — As pérolas procuram o par onix do marido. — Como assim presentes?
Itachi não esboçou nenhuma reação alarmante, mas seus dedos apertaram os do perolado com um pouco mais de força. Seu olhar mais profundo ao explicar:
— A casa sorteada não só cuida da ceia como dá um presente temático aos convidados, mas… — Ele sorriu, tentando transmitir serenidade ao outro. — Esses presentes não precisam ser elaborados, é como uma lembrancinha de aniversário.
— Exatamente — O omega mais velho respondeu, abraçando o braço de Madara. — Ano passado Shisui entregou uma caixa de bombons para todos junto de chaveiro em formato de leque. — Izuna apontou para a chave que estava presa no passante da calça do alfa. — Não exigimos um presente específico, é mais como um desejo que cada casa quer transmitir nesses encontros.
Parecia certo não ter essa cobrança do que dar, para Neji, porém, cutucava uma parte dele mais competitiva e quase julgadora. Afinal ele era um artesão, trabalhava com as mãos, com o tempo, com a paciência de entregar algo que fizesse diferença para a pessoa que receberia. Não havia espaço em sua rotina — nem em seu coração — para compras aleatórias que só fariam preencher o espaço com objetos vazios de intenção.
Não era assim que seu mundo criativo e profissional fluíam.
— Entendo… — sussurrou por fim, seu olhar se tornando mais centrado. — Obrigado, Izuna-sama. — Sorriu, ficando em silêncio.
Izuna acenou levemente, puxando o irmão para longe em seguida. Os leves resmungos do ômega eram ouvidos pela sala, mas ninguém interrompia ou interferia na relação do par — Madara gostava de implicar com os sobrinhos e quase sempre Izuna tinha que impedir que saísse do saudável.
Ao passo que Itachi guardava um suspiro profundo, reconhecendo na expressão do ômega perolado algo que pensava que iria impedir. “Droga…”
— Mãe, com sua licença, estamos indo — disse, não dando tempo para Mikoto responder.
O alfa não se despediu de mais ninguém, saindo a passos rápidos da casa da beta, ação que foi percebida, mas não foi reclamada pelo Hyuuga. Seus pensamentos estavam mais ocupados em preencher as lacunas do “presente temático” de Natal — ideias que borbulhavam em seu consciente, calculando quanto de material tinha em seu ateliê, o tempo que teria para produzir.
Durante o percurso, Itachi não disse nada, apenas observava de relance o Hyuuga imerso no próprio mundo. Uma fúria corrosiva em seu coração com a intromissão indesejada do alfa mais velho, antes pensava que se recusasse a ajuda de Mikoto e cuidasse das comidas sozinho, o ômega ficaria tranquilo para só decorar. Porém a menção dos benditos presentes jogou tudo a perder, “Tio Madara não sabe manter aquela boca fechada”, reclamava mentalmente, pisando no acelerador.
Ao chegarem em casa, Neji seguiu no automático — tirou os sapatos, o cachecol e o casaco — caminhou até o centro da sala para sentar, mas antes que o fizesse sentiu o feromônio agridoce em volta dele e o calor dos braços fortes do alfa em sua cintura, abraçando-o com possessividade. Sua cabeça foi pressionada no peito firme, trazendo a sensação de conforto e segurança.
— Ita — sussurrou, afundando o nariz no tecido, aspirando aquela fragrância.
— Eu sei o que você está pensando — respondeu, as íris ficando carmesins. — E eu sei que não vou conseguir impedir o que estiver ruminando nessa sua cabecinha, mas não vou deixar você adoecer com isso, ouviu?
Neji sentiu uma parte de si estremecer, reconhecendo naquelas palavras a sinceridade firme do marido.
— Eu não vou adoecer, Ita — sussurrou, seu olhar se erguendo. — Prometo… — Pérolas que ardiam em um lilás mais profundo, o feromônio delicado de sândalo correspondendo ao do alfa.
Itachi guardou a promessa, aceitando apenas isso como garantia antes de abaixar a cabeça, os lábios se encontrando em um beijo lento, as mãos se fincando na cintura fina. O desejo possessivo de cuidar e proteger sobrepujando o restante de seus pensamentos, logo pegou o ômega no colo, o brilho vermelho enquanto espalhava seu cheiro pelos cômodos até o quarto. E logo as roupas se perderam pelo chão acompanhadas da sinfonia apaixonada que acontecia na cama.
…
Por alguns meses tudo pareceu seguir um fluxo tranquilo — ao menos à superfície. E quando chegou na metade de novembro, Itachi já tinha montado uma lista de pratos que pretendia fazer, preços pesquisados do que compraria mais próximo da data e outras guardadas na dispensa. Neji, por outro lado, sentiu um nó se formar ao encarar todos os protótipos que tinha feito — modelos de joias que foram esboçados entre uma encomenda e outra, mas que agora só entulhava sua mesa com ideias tolas e desperdício.
— Por que nada fica bom?! — grunhiu, apertando o encosto da cadeira tanta força que os nós dos dedos ficaram vermelhos. Lágrimas finas encharcando o canto dos olhos. — Tudo parece tão… padrão, ridículo — rosnou para um conjunto de pulseiras prateada com pingentes de rosas vermelhas.
— Você está fazendo isso de novo, Neji — disse Itachi, encostando no batente da porta.
— Estou frustrado — respondeu, o sândalo se tornando espesso, quase sufocante no pequeno espaço. — Você vê como isso…— Agarrou a joia e jogou no Uchiha. — Parece uma pulseira qualquer de uma boutique de quinta.
O alfa pegou a pulseira, observando o trabalho cuidadoso do Hyuuga em cada parte da joia. No fundo, sabia que ele não pensava assim, no entanto dizer aquela verdade abertamente faria o ômega ficar mais furioso — e essa não era sua intenção ali.
Com uma respiração mais funda, se aproximou do marido, deixando o objeto na mesa. — Você se cobra muito — murmurou, pegando a mão do omega, esfregando seu rosto na pele macia; transferindo seu cheiro para ele. — Tente dar uma pausa por hoje, por favor?
Por favor… era uma frase pouco usada pelo Uchiha em dias comuns.
Mas ali estava seu alfa, espalhando aquele cheiro doce de cereja para acalmar os seus. Íris negras encarando-o com aquele ar de devoção, pedindo para que desse uma pausa. E Neji ainda pensou em recusar, gritar porque o Uchiha estava tão tranquilo enquanto ele tinha dado dias de dedicação em peças que não tinham serventia para o propósito da ceia. Esfregar a ponta do dedo no rosto sereno do alfa, rogando suas reclamações dessa tradição boba de entregar presentes “temáticos”, entre tantas outras coisas que poderia dizer naquele instante, mas que não ousaram serem proferidas, pois não resolveria seu problema.
Briga com Itachi não resolveria nada.
Mesmo que a ideia de não saber o que oferecer aos familiares o deixasse inquieto, os pensamentos pareciam encruzilhadas que não levavam a nada concreto. No fim, suspirou, aceitando ser conduzido para fora e embalado nos carinhos do marido.
— Eu vou… dar uma pausa, Ita — sussurrou, a porta atrás sendo fechada em um click suave.
No restante da tarde, Itachi ocupou o espaço do Hyuuga com mimos e carinhos. Lanches que pudessem adoçar a mente caótica, toques que sabia que tirariam o foco do ateliê para focar neles, no agora. Filmes clichês e previsíveis para preencher a sala com sons de alegria e leveza. E embora tivesse um efeito razoável, percebia no silêncio mais prolongado, nos suspiros contidos, na forma como Neji apertava demais os dedos ao segurar a xícara de chá.
Sinais mínimos de que ele estava tentando.
Ao irem se deitar, Itachi tentou sugerir novas ideias, apontar possibilidades que não precisasse mexer tanto naquilo que já estava pronto, mas os olhares que recebeu fizeram ele entender que Neji não buscava uma solução pronta — ele buscava algo que fizesse sentido. Algo que os outros pudessem ter para compreender um terço de seus sentimentos.
— Amanhã… amanhã é um novo dia. — Neji se aconchegou no peito do moreno, os olhos pesados demais para continuarem abertos.
Itachi sorriu, beijando as madeixas castanhas, sem dizer nada pelo tempo em que o outro pegava no sono. Quanto mais lenta e tranquila se tornava a respiração do ômega, mais a expressão do Uchiha se tornava neutra. A sensação surda de estar falhando naquilo que havia dito ao irmão no dia do sorteio.
Os dedos apertam suavemente a cintura, trazendo o corpo magro para o mais próximo que conseguisse. Ainda que soubesse que não estava sob seu controle as decisões do Hyuuga, o que mais o feria era não conseguir oferecer nem o mínimo de ajuda.
— Por que você tem que ser tão… difícil? — sussurrou, não culpando o outro pela dedicação, mas pelo desgaste auto imposto.
A pergunta nunca seria ouvida pelo perolado. Os anseios do alfa perdidos no silêncio em que dormiam. Na manhã seguinte, os avanços novamente não foram satisfatórios e a caixa com todos os protótipos enchia de peças sem destinos. Itachi não interferia além do necessário, dando suporte para arrumar a mesa, separar materiais e às vezes ser o suporte para limpar as lágrimas cheias de frustração do marido.
Foi numa tarde fria, quando o céu estava limpo e o inverno parecia mais gentil, que Itachi sugeriu um passeio. Nada elaborado — apenas sair, caminhar, lanchar algo caseiro, respirar outro ar. Neji aceitou sem questionar, o sorriso sem graça, olheiras de cansaço aparentes abaixo das pérolas quase cinzentas pelo clima, o cachecol bem ajustado ao pescoço e a mão naturalmente encontrando a do marido.
O percurso era conhecido, não muito distante da casa onde moravam. Naquele horário havia poucas pessoas andando, enfeites colorindo a brancura gélida do ambiente e o silêncio singelo do parque trazia uma paz efêmera. Árvores altas, galhos quase nus, o chão coberto por folhas secas, outras congeladas. O som distante dos pássaros misturava-se ao vento leve, criando um ritmo tranquilo, quase meditativo. Eles lancharam em um espaço reservado entre as árvores, caminharam sem pressa, lado a lado, compartilhando a presença mais do que palavras.
Neji sentia o caos interior passando lentamente a cada passo, parando um instante e outro para apontar alguma coisa que viu. Enquanto Itachi parava para fotografar parte dos cenários; um esquilo se escondendo, os dedos esguios segurando um punhado de neve, um sorriso escondido parcialmente pelo cachecol roxo.
“Lindo”, pensou Itachi pronto para tirar mais uma foto, no mesmo instante Neji parou.
O olhar perolado se fixou no chão próximo de uma árvore menos coberta pela neve, onde uma pinha repousava entre os galhos e algumas folhas secas de pinheiro. Algo simples, facilmente ignorado pela maioria. Ainda assim, havia uma sensação que o chamou, quase um sussurro no fundo da mente — perceptível pelo tato, indecifrável pelo consciente. As pupilas dilatam como olhos de gato, ele se agachou lentamente, recolhendo a pinha com cuidado, como se ela pudesse se desfazer entre seus dedos.
Itachi observou em silêncio, a câmera gravando o momento.
Ele não perguntou o porquê, não interrompeu o instante. Apenas ficou no mesmo lugar até o outro começar a se mover ao redor.
— Nej-
— Me ajude, Ita.
Aquilo foi tudo que foi dito dali em diante, apenas se ouvia os passos em volta dos pinheiros, pequenos “aqui” e “ali” quando viam algo interessante — outras pinhas em tamanhos diferentes, galhos finos ou pouco mais robustos, folhas em cor vibrante, pequenos fragmentos que pareciam carregar o cheiro da estação. Em pouco tempo, a cesta que haviam levado para um lanche estava cheia de elementos da natureza, recolhidos com cuidado e apreço.
— Vamos — Neji disse, o sorriso em seu rosto é tão brilhante quanto o sol.
— Sim, vamos. — Segurando a cesta com força, como se carregasse um tesouro precioso, Itachi os tirou do parque com pressa enquanto o ômega encarava tudo que havia recolhido, sem se lembrar quando tinha respirado tão fundo pela última vez.
…
De volta para casa, Neji não perdeu tempo com trivialidades, se fechando em seu mundo criativo como uma criança. O alfa sentia o coração bater mais tranquilo, sabendo que logo o seu amado ômega apareceria com uma criação que afastaria todos os tormentos anteriores. Assim cuidou da casa, serviu as refeições, saiu para trabalhar e continuou esperando.
No pequeno cômodo, as mãos trabalhavam com precisão, as pérolas atentas a cada detalhe. As pinhas foram desmontadas em pequenos pedaços, lixadas, tratadas. Os galhos viraram suportes delicados, as folhas secas ganharam novas formas. Uma a uma, pulseiras começaram a surgir — simples, rústicas, mas carregadas de significado. Em cada pingente, o nome de um familiar gravado com cuidado, como se aquele gesto fosse uma forma silenciosa de dizer “eu pensei em você.”
Quando o instante falava um pouco mais alto, Itachi vinha assistir de longe, respeitando o espaço, oferecendo apenas o que Neji aceitava: um copo de água, um café quente, um beijo no topo da cabeça, um olhar orgulhoso. As conversas são tomadas pelo silêncio tranquilo das palavras e pelos sons dos instrumentos.
Sem pressa.
Apenas a confiança de estar no caminho certo.
E, na noite em que tudo ficou pronto, Itachi foi o primeiro a saber — como em todas as outras etapas desse processo de encontro criativo. Mas que para sua surpresa recebeu um presente mais único: um broche.
— Para você, Ita — sussurrou Neji, as bochechas coradas e o canto dos olhos levemente úmidos.
Itachi pegou o pequeno objeto, sentindo a textura amadeirada, feito da mesma matéria-prima das outras. A fragrância singela de pinheiro, o inicial de ambos gravado e pequenos pedaços de folhas espalhados, mas trabalhado com um cuidado ainda maior. Exclusivo. Único. Pensado apenas para ele.
— Você conseguiu — disse baixo, o sorriso carregado de admiração.
Neji se apoiou sobre o peito de Itachi, as pérolas refletindo com gratidão e amor a imagem do marido.
— Sem você, não seria possível — respondeu, com pequenas lágrimas deslizando pelo canto do rosto.
Não houve resposta, apenas um toque para amparar cada gota que tocava a curva das bochechas. Um silêncio confortável se seguiu entre eles, daqueles que não pedem mais palavras por um tempo. E quando Neji se moveu de novo, foi com uma delicadeza para tomar o broche e o prender na roupa do marido, os dedos tremendo levemente ao passar o metal fino pelo tecido.
Itachi fechou os olhos ao sentir o toque.
— Obrigado, Neji — murmurou, levando a mão até a de Neji.
O Hyuuga sorriu pequeno, encostando a testa na do outro, o coração finalmente em paz. E ali, naquele gesto simples, estava tudo o que ele queria dizer: cuidado, carinho, amor.
— Eu te amo…
A declaração foi dita em uníssono, baixa demais para que ecoasse pela casa, o suficiente para ser sentida no instante em que os lábios se encontraram. E, pela primeira vez em dias, Neji dormiu tranquilo — sabendo que havia criado algo que não apenas cumpria uma tradição, mas que carregava sua essência em cada detalhe.
Fim…
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