Feito de Mim

3 Capítulo dois.


Notas iniciais

Aqui está mais um capitulo! Revisado na medida do possível. Espero críticas construtivas, com todo o coração. (Falo sério, estou ansiando por qualquer crítica, qualquer uma.) beijos e obrigada para quem comenta!

Eu começava a minha segunda semana naquele mundo agradável com a constante presença de Anna, que seria o meu outono por mais aquela semana. Era bom estar perto dela, como a filha que ela tanto queria. Anna me tratava com extremo carinho, falava-me coisas desconexas que cada vez mais invadiam minha mente e se apossava de mim. Sabia que mesmo que não entendesse nada do que ela me dissesse, aquilo sempre estaria guardado dentro de mim. — Um dia, você verá... -cantarolava baixinho enquanto acariciava meus cabelos. -Alguém pra te fazer feliz, de cavalo negro surgirá. — De novo, Anna. -respirei fundo, ela produziu algo como me pedindo silêncio. Eu sorri. — Depois dessa semana, você sabe, meu amor. Serás o teu inverno a te proteger de tudo e todos, e você irá chorar até o último dia se acabar. Logicamente eu estranhei, mas deixei de canto. Confiaria em todos eles até o dia que entendesse tudo por mim mesma. Aquela semana passou-se rápido. Em uma noite, ela me ninava. Pela manhã, ouvi o Sir Benedito sussurrar palavras de reconforto contra um travesseiro. Seu sotaque francês misturava-se com o sotaque italiano, dando-lhe um ar de Inverno perfeito. Cocei os olhos, olhando-o fixamente. Meu rosto estava extremamente molhado e eu sentia uma melancolia dominar meu ser. — Bonjour monsieur. — Bonjour Sir. -tentei imitar o sotaque dele, sem sucesso. Ele levantou-se da cadeira de descanso que estava ao lado da minha cama. Eu sentei-me, ele me abraçou. Não entendi o porquê daquele abraço, mas aceitei-o com gratidão. Fiquei um bom tempo naqueles braços acolhedores. Sir Benedito murmurava que apesar de ser longo, tudo aquilo passaria rápido. Agia como um verdadeiro pai para mim. Eu derramava longas lágrimas e não sabia o porquê. Só sentia vontade de chorar, e chorava. Ele chorava junto comigo. O frio abraçava-me assim como ele também. Eu tremia convulsivamente, de frio, de tristeza... De depressão. Senti as lembranças de tudo o que me ocorrera antes de entrar naquele mundo me invadirem e o choro me alagou. Ao longe, como se fosse um rádio com o volume alto do lado de fora da casa, começou a tocar uma música desconhecida. O cantor era americano, como eu pude perceber. A voz dele era maravilhosamente linda e Sir Benedito traduzia a letra para mim. — Não chore esta noite. -ouvindo aquilo, eu chorei ainda mais. Depois de muito choro, eu acabei por me acalmar. Olhei para ele, confusa. Ele sorriu tristemente. — Será um mês com esta tortura, o seu inverno chegou. Depois você compreendera tudo, prometo a ti. -devolvi o sorriso, provavelmente meu rosto estaria inchado. Faltava dois dias para acabar o meu mês de Inverno, quando o choro se intensificou, ficando mais forte até que o primeiro dia. Dormi cansada no último dia então, os olhos pesando e o sono me acalmando. Acordei sendo agitada, uma alegria me envolvendo. — Acorde, é Natal! -ouvi aquela mesma voz conhecida soar em meus ouvidos. Era uma voz agitada que me gritava com empolgação. — Natal? -perguntei, sorrindo brincalhona e coçando os olhos. — Não, isso era só pretexto para te acordar. -Lian riu gostosamente, enquanto recebia uma merecida almofadada no rosto. Levantei-me e fui para o banheiro. Um mês feliz daquela forma e eu estaria livre de toda aquela depressão que me nocauteara por um inverno. Depois de usá-lo, troquei-me vestindo uma roupa verde e alegre. Lian me esperava na sala ao lado de Fransies, que havia sumido por todo o inverno. Aquela pequena bola de pelos pulou em mim, abanando o curto rabo e lambendo meu rosto. Aquela linda recepção realmente me deixou mais feliz ainda. Acariciei-o por completo, cheirando sua cabecinha Ele estava com um cheiro gostoso de cachorro fedido, que tanto me agradava. — Lorenna, saudades! -eu ainda não estava totalmente acostumada com o fato de um cachorro falar, mas fazer o que, né? — Oh, que lindo você! -ele saltou do meu colo ao chão, fazendo piruetas. — Amore, vamos! Temos muitos dias de verão para aproveitar. Lá fora! -ele saía porta afora e Fransies o seguia. Não tive outra opção se não segui-los. Do lado de fora daquela casa era ainda mais lindo. Havia casas, porém nenhuma que possuísse algum ser vivo. Fui praticamente arrastada até alguns bosques onde a relva era rasteira e algumas árvores faziam uma deliciosa sombra. Existiam morangueiros por todos os cantos onde íamos e era tudo muito colorido, tão diferente daquele primeiro dia. Lian colheu alguns morangos pelo caminho, colocando-os em sua cartola e saiu em disparada até um riacho próximo dali. Corri atrás dele, sentando-me ao seu lado. Ele lavou os morangos na água transparente e eu vi alguns peixinhos nadando apressados até o outro lado. Entregou-me alguns, dando outros para Fransies e ficou com o restante para si. Mordi o primeiro. Deliciosamente bom, do jeito que eu mais amava. Morango era minha fruta favorita. Eu adorava aqueles que eram mais azedinhos que os outros. Para minha surpresa, todos eles eram assim. — Gostaria de experimentar desta água, bela dama? -eu ri, assentindo. Não sei de onde ele tirou aquilo, mas logo estava com uma jarra e dois copos em mão, pegando água no riacho. Então me lembrei que ele era mágico. Entregou-me um destes, eu tomei um gole. Era gelada, refrescante e tinha gosto de morango. Era incrível. Respirei fundo, sentindo o leve aroma da fruta vermelha no ar. Estranho como tudo lá possuía o gostinho daquela fruta tão gostosa. O tempo que eu passara com Lian, nos dias seguintes, serviram para que eu pudesse ser feliz por bastante tempo. O mês chegava ao fim, o fim de um mês cheio de magia e alegria. Eu aprendi a amar todos os que eu já conhecia melhor e ter gratidão a todos eles, até mesmo ao meu temido inverno, Sir Benedito, conhecido por Sir Dito. Adormeci feliz em um sábado, tendo a plena consciência de que no dia seguinte, quem estaria comigo seria a minha primavera, Steffany. O dia amanheceu fresco, tão diferente daquele último dia de verão. Era gostoso sentir que eu poderia estar em paz por exatas quatro semanas, ao lado daquela moça ruiva de voz rouca. Pulei da cama assim que abri os olhos; não tinha ninguém ao meu lado. Nem mesmo Fransies que sempre estava lá, e que também havia dormido ao meu lado na noite anterior. Franzi a testa. Seria um teste, um jogo ou algo do tipo? Ri nervosamente, tamborilando os dedos em minha coxa. Caminhei até a sacada, olhando para o dia lá fora. Era agradável, porém, não havia nada mais do que antes havia lá. Sai do quarto, descendo as escadas. Esperava encontrar alguém lá, mas também não havia uma alma sequer ali. — Steffany? -chamei-a, a voz dela sussurrou intensa em minha mente. — No riacho. -sorri, caminhando para fora da casa. Tomei o caminho do riacho, passando pelo bosque. Ainda era repleto de morangos, com o detalhe de que possuía mais flores do que antes. Colhi algumas no caminho, chegando logo ao tal riacho. Notei uma grande diferença ali: o riacho agora era um rio que nascia no final de uma cachoeira. Uma cachoeira presa no invisível da manhã, as águas caindo como em um ritual de Bom-dia. A beira do riacho estava Steffany, sem sua animação. — Que bom que chegou, queridê. Precisamos conversar.