Feiticeiro do Amor
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não era o primeiro dia deles ali, e não havia sinais de progresso na missão. Shura massageou as têmporas, em seguida recolocou os óculos que costumava usar quando precisava se passar por civil. Já sabia que nada seria fácil para eles. Nada para ele seria fácil. Mas Mestre Shion precisava ser tão… Sequer tinha palavras para definir.
Quando retornaram, não se encontraram de imediato — exceto Shura e Aiolia que, por algum motivo, se viram novamente vivos no Santuário. Os demais… Mu no Tibete, mas era quase impossível saber se por vontade própria ou capricho dos deuses — Shura apostaria que era por escolha.
Afrodite, ironicamente, fora parar na Ilha de Andrômeda, junto a Milo. Podia parecer que estavam ancorados aos locais de seus maiores arrependimentos. Mas não era o caso, era? Ou Saga não teria aparecido no Japão… Se bem que até faria sentido... Shura tinha tantas perguntas, e ninguém apto a respondê-las. Foram ressuscitados apenas para morrerem de novo? Aquele truque já era velho demais.
— Façam melhor, deuses — resmungou entredentes o recém-renascido, pouco após seu despertar.
Forçou-se a pensar no presente. Não bastava que fosse despachado em missão para encontrar Aiolos, o sadismo de Shion era tamanho que enviara-lhe junto a Aiolia. Aiolia, de todas as pessoas! Não bastava que os habitantes do país sul-americano falassem um castelhano muito diferente daquele a que Shura estava acostumado a falar, abusando do xis e empregando aquele pronome alienígena para a segunda pessoa do singular, com a flexão verbal mais estranha do universo, ainda tinha aquele companheiro de missão.
Não bastasse a onda de calor insuportável para alguém acostumado ao clima ameno, na opinião dele, dos Pirineus — porque Shura jamais deixara de queixar-se do calor grego, ainda que apenas internamente, e jamais deixaria de reclamar do calor em qualquer lugar — ainda tinha que lidar com Aiolia.
— Vamos encontrar meu irmão! Anda logo! — Não havia a empolgação de quando era criança. Não havia sequer uma nota de mágoa na ordem, e sim frieza.
— Escute, Aiolia…
Aiolia não escutaria, e Shura sabia. Não adiantaria tentar travar qualquer diálogo. Não com Leão, cujas mágoas pareciam sempre frescas na memória.
Foi durante o silêncio pesado que se seguiu que algo chamou a atenção de Shura: vários panfletos, todos idênticos, pregados pelos comércios, nos postes, e até nas paredes na parada de ônibus daquele quarteirão.
Ele chegou mais perto para ler um deles, e não pôde disfarçar a descrença. "Hechicero del amor", lia-se em letras rosa néon. Seguia-se uma série de promessas: retorno da pessoa amada, casamento. E, por estranho que parecesse, comunicação com a pessoa amada no além.
Shura sentiu seu coração falhar uma batida. Sua mente brindava-lhe com suposições catastróficas.
E se Aiolos não retornasse? E se a alma dele estivesse perdida para sempre? E se Aiolos desertasse? Estaria no direito dele, depois de tudo, Capricórnio imaginava, embora não fosse o correto a se fazer. E se fosse apenas uma emboscada de um inimigo, aproveitando-se da confusão para dar vagas esperanças de um reencontro a eles?
Contra qualquer elucubração e contra qualquer lógica, anotou no celular o número e o endereço do tal Hechicero del Amor. Puro desespero, pensou consigo. Quase queixou-se pela distância, mas estava decidido, iria até lá, e que os deuses o ajudassem… se quisessem. (Eles geralmente não queriam ajudar.)
Precisou perguntar pelas ruas sobre a direção a seguir. Tratava de não usar o “tu”, de tão espantadas as expressões das pessoas quando ocorria.
Quando criou coragem para usar o pronome alienígena — vos — sua boca e sua língua involuntariamente pronunciavam as flexões como se pertencentes a vosotros, o que mais uma vez rendia-lhe olhares estranhos… Apesar das diferenças mínimas na pronúncia.
Mudar o pronome para o formal usted em uma terra onde desconhecidos se abraçavam para fazer negócios também causou estranhamento. Aiolia riu de um Shura extremamente desconfortável, quando eles foram buscar as chaves do apartamento que compartilhariam por pelo menos uma semana, e a senhora que lhes recebeu deu um abraço em cada um. Mas, ao menos, não recebia mais tantos olhares enviesados.
No fim, andou por quase uma hora pelas ruas. Poderia ter feito o percurso em velocidade muito superior, porém seguia fielmente a ordem de não chamar a atenção.
Tocou a campainha da casa com fachada histórica, localizada em uma rua estreita. Com poucos transeuntes, parecia um lugar parado no tempo. A porta abriu-se. Certamente um sistema automático, Shura calculou. Ainda assim, os mais impressionáveis talvez atribuíssem o evento a causas sobrenaturais.
O pretenso feiticeiro aguardava-lhe detrás de uma cortina de miçangas coloridas. A iluminação era fraca, com uma luz alaranjada espalhando-se preguiçosamente. Um forte cheiro de incenso fazia quase impossível respirar na pequena sala.
Havia cartas dispostas sobre a mesa. O feiticeiro apoiou o queixo nas mãos. Parecia analisar Shura.
— Bem-venido, guerreiro. — O homem sussurrou, em um sotaque obviamente forçado, após a entrada de Shura.
Shura não estava muito impressionado: imaginou que o termo “guerreiro” fosse empregado com frequência pelo homem de vestes roxas e turbante à sua frente. Afinal, quantas pessoas que passavam ali não estavam passando por dificuldades? Só estando muito desesperado mesmo para pensar em marcar um horário com uma figura daquelas…
Já estava quase pronto para contestar qualquer discurso motivacional por parte do feiticeiro, era tudo uma grande baboseira. Mas foi um erro distrair-se com algo tão irrelevante.
Foi enquanto analisava os olhos verdes, emoldurados por um delineado de tipo gatinho, que Shura quase teve o segundo ataque cardíaco do dia. Capricórnio reconheceria aqueles olhos em vida ou na morte, em qualquer lugar do mundo.
E tinha mais! O desgraçado não tivera nem a decência de disfarçar o próprio cosmo! Como Shura pôde se deixar enganar tão facilmente? Para a sua sorte, aquela não era uma missão de vida ou morte.
— Aiolos!
— Oh, non, non, xo soy el hechicero del amor!
Shura não pensou antes de arrancar o turbante do charlatão, revelando uma bandana abaixo dele. Aiolos piscou, fingindo-se inocente e chocado — e tentando reaver o turbante, o que apenas fez a bandana cair, e revelou a faixa vermelha de estimação. Era uma vez um disfarce… Mas o que Aiolos estava tentando fazer? Uma matrioska de acessórios para a cabeça?
— Que desrepetuoso sos vos! — E o maldito seguia empregando o espanhol com falso sotaque carregado. Além do mais, a palavra correta era irrespetuoso. E Shura sabia que não precisava dizê-lo a Aiolos.
Sagitário era fluente em uma miríade de idiomas, sendo espanhol um deles, o que tornava a cena ainda mais ridícula aos olhos (e ouvidos, principalmente aos ouvidos) de Capricórnio.
Ao contrário do que o estereótipo de um homem latino podia ditar, Shura possuía um invejável controle sobre os próprios sentimentos — algo que acabava por voltar-se contra ele, em alguns momentos. Não fosse ele assim, não teria conseguido a determinação necessária para matar Aiolos.
E os deuses sabiam o quanto aquilo pesava na alma de Shura mais do que o mundo sobre os ombros de Atlas.
Naquele momento, contudo, a sua carga de culpa transformava-se em ainda mais irritação. Como nunca em sua vida, sentia o sangue ferver.
— ¡Calmate, pendejo! ¿Querés matarme?
Pendejo! Qual seria o próximo passo? Usar o wéon emprestado dos chilenos? Ainda por cima, Aiolos flexionava os malditos verbos como os locais, algo que tanto custou a Capricórnio. Shura não sabia mais como reagir, portanto apenas piscou repetidamente. E era uma vez seu autocontrole…
— Ridículo! — Ralhou, entredentes.
— Raiva não cai bem em você, Shura de Capricórnio.
— E charlatanismo cai muito mal em você, Aiolos de Sagitário! Ridículo!
Aiolos gargalhou. E gargalhou com tanta vontade que inclinou a cabeça para trás, deixando cair sua faixa, e suspirou com as mãos sobre o abdômen até a crise de riso passar.
— Que reação exagerada, Shura… — Limpou lágrimas nos cantos dos olhos, usando os esforços para não cair no riso novamente. — Me desculpe por isto.
Shura nada mais disse, mas Aiolos podia jurar que ouviu mais um “ridículo” sendo proferido entredentes, antes de Capricórnio sentar-se e suspirar, com as mãos sobre o rosto.
O silêncio era desconfortável para Sagitário, então ele resolveu utilizar o truque que tinha na manga. Na camisa, na realidade, pois retirou dali uma carta de tarot. Eram Os Enamorados. Colocou a carta sobre a mesa, na frente de Shura.
— Vejo isto no seu futuro.
Shura observou a carta, impassível. Certamente, tratava-se apenas de mais uma das famosas pegadinhas de Sagitário. Desviou o para Aiolos, que não parecia querer mover-se dali, ainda com o indicador sobre a carta.
— Aiolos, nós temos que ir.
— Algum motivo para tanta pressa?
— Precisamos voltar para casa.
Shura não deu mais nenhuma explicação. Apenas afastou-se. Sequer olhou para trás até chegar à porta. Ao menos, até perceber que Aiolos não o acompanhava.
— Aiolos, não dificulte…
Aiolos piscou aqueles olhos verdes que tanto hipnotizavam Shura, ainda com o delineado perfeito em torno deles. Encolheu os ombros.
— Eu só tenho que entregar as chaves, tá bom?
Não havia muito o que Shura pudesse fazer, senão acompanhar Aiolos para que ele não fugisse.
Acompanhou Sagitário, em silêncio, e com olhares desconfiados, embora soubesse bem que não deveria. Não tinha tal direito.
Tratando-se de Aiolos, não tinha direito a nada. Portanto, apenas seguiu Aiolos em silêncio, e observou-o entregando as chaves, sorrindo e conversando amavelmente.
Chegou à desconfortável conclusão de que não eram apenas os olhos que deixavam-lhe hipnotizado, e sim tudo em Aiolos.
— Pronto, Aiolos?
— Mais do que nunca.
— Vamos. Aiolia está louco para te ver.
Aiolos sorriu para Shura, e piscou o olho direito em seguida. Certamente estava aprontando alguma, mas o cavaleiro de Capricórnio estava distraído demais com a visão que parecia iluminar o mundo inteiro para se preocupar com as travessuras de Sagitário.
Caminharam com calma e em relativo silêncio, fazendo uma ou outra parada pelo caminho, para que Aiolos tirasse fotos dos pontos turísticos da cidade com um Shura falsamente relutante, que lembrava ao sagitariano sobre o irmão esperando por eles, a toda oportunidade.
Por fim, pararam em uma livraria. Daquela vez, Shura não reclamou. O ambiente climatizado com ar-condicionado era muito bem vindo.
Shura flagrou-se sorrindo ao ver Aiolos cheirando as páginas de um livro. Desviou o olhar imediatamente, temendo ser descoberto: sabia que o companheiro não deixaria barato, e o provocaria incansavelmente.
Foi apenas enquanto voltavam ao hotel, carregados de sacolas de compras — a maior parte delas de Sagitário — que Shura finalmente tomou a iniciativa de quebrar o silêncio.
— Por favor, me explique. Por quê, Aiolos?
— Achei que seria divertido. E queria ter certeza de que não tínhamos nenhum deus com segundas intenções sobre o nosso renascimento.
Aiolos sorriu e deu de ombros, como se aquilo fosse algo banal. Talvez, refletiu Shura, realmente a história de morrer e voltar à vida estivesse se tornando uma banalidade para eles.
Aiolia quase derrubou o irmão ao abrir a porta do quarto e abraçá-lo com a força de um leão. Shura sabia que aquele não era o momento de estar ali; permitiria que os irmãos conversassem sem a sua presença.
— Para onde está indo, Shura? — Aiolos ergueu as sobrancelhas ao indagar.
— É melhor dar tempo e espaço para vocês.
Era estranho observar os irmãos trocando olhares e se entendendo através deles, era como se voltassem aos velhos tempos.
— Fique. — Aiolia disse, por fim. — Você também é da família… Apesar de tudo. Além do mais, está perto demais do horário de check-out.
Durante os minutos seguintes, ocuparam-se de arrumar a pouca bagagem que tinham. Aiolos ainda tinha o desafio de remover a maquiagem dos olhos. Por mais que lavasse, o delineado não parecia sair por nada, apenas borrava mais e mais. No final das contas, conseguiu retirar o borrão e resolveu retocar a maquiagem e recolocar o turbante.
Arrancou muitas risadas de Aiolia e muitos suspiros de Shura com a solução para a crise com a maquiagem. Ele mesmo não se importava muito; na realidade, se divertia com a reação das pessoas por algo tão simples.
Durante o deslocamento até o aeroporto, e mesmo quando estavam acomodados em seus assentos esperando a decolagem, Shura sentia-se muito desconfortável. No início, pensava que era pura culpa. Suas mãos estavam manchadas, afinal.
Depois, percebeu que era algo mais do que isto. Algo menos sombrio.
Seguramente, não havia obra de feitiçaria. No entanto, ao mirar Aiolos, Shura sentia-se enfeitiçado. Encantado. Apaixonado.
Impressionante mesmo foi ter necessitado das mais de catorze horas do primeiro vôo — e as conexões — ao lado de um Aiolia que preferia dormir a presenciar mais daqueles olhares, para finalmente dar-se conta do sentimento que havia surgido em algum momento que não pôde precisar. Provavelmente, muito antes da primeira morte de qualquer um deles.
Quando desembarcaram em Atenas, havia certo estranhamento, superado pelo conforto, no fato de estar segurando a mão de Aiolos enquanto retornavam ao lar. Poderia, enfim, escrever uma nova história: sem enganos, sem tramas complicadas. E que os deuses os ajudassem, daquela vez...
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