Feelings
1 Angry - Capítulo único.
Notas iniciais
Sun.
Quebrada, era assim que eles me viam.
Pra ser sincera era assim que eu me sentia. Todos olham pra mim e não veem nada além da mulher que ousou ir contra a própria família, mais precisamente contra o próprio pai. Claro, eu assumi a culpa pelos erros de meu irmão. Mas antes não assumisse, pois agora só o que sinto é arrependimento e raiva, muita raiva.
Achei que estaria poupando meu pai de uma vergonha da qual ele não merecia, que estaria o protegendo, ele e Joong. Assim como minha mãe havia me feito prometer. Não poderia desonra-la, tinha que fazer o que era certo para minha família, fazer o que era certo.
Mas ao fazê-lo só consegui me decepcionar. Eu sabia muito bem da índole de meu irmão e mesmo não merecendo que eu me entregasse em seu lugar, eu concordei. Porque queria protege-lo, porque tinha que protegê-lo.
Sou considerada por muitas pessoas, fria. Posso ser alguém que não transparece muito as emoções, que não demonstra sentimentos, mas eu os tenho. Eu sinto e acho que sinto muito mais que as outras pessoas. Talvez tenha algo haver com o fato de ter outros compartilhando essas emoções comigo. Droga! Depois que descobri essas outras vozes, pessoas, tudo ficou pior. Porém já me sentia assim bem antes de toda essa bagunça de Sensates. Às vezes eu não seu como lidar com o misto de sensações dentro de mim, eu tento controla-las, mas nem sempre eu sucedo. Como quando na vez em que tive uma crise de choro na frente do Lito, eu realmente estava um desastre aquele dia. No geral, eu consigo conter todas dentro de mim, quase todas, porque a raiva, a raiva é mais forte, então eu a uso como combustível. Canalizo tudo para meu punho, que é onde eu desconto todas as outras.
Porém não sou de ferro. Em um surto elas explodem, porque eu querendo ou não sou humana. Às vezes eu desejo ser de pedra, uma rocha para ser mais precisa. Dura, fria e forte. Tudo o que mais quero é ser forte. Mas meu conhecimento nas artes marcias e minha pratica de prender as emoções nem sempre funcionam. No final, ainda sou humana.
Queria que meu pai se orgulhasse de mim, que visse em mim a mulher trabalhadora e competente que sou, e venho me empenhando tanto em ser, queria ser motivo de orgulho. Por toda minha vida é o que venho fazendo. Tentando não ser transparente aos olhos de meu pai. Porra, aos olhos de todos. E pude ver que ele somente me enxergou depois que eu assumi a culpa por Joong, só então ele percebeu que eu era real, e que ao contrário do que ele pensava, eu me importava sim com nossa família, mas do que meu irmão que nunca sequer se importou com nada. Aquele vagabundo desonrava o nome de nossa mãe e envergonhava nossa família com suas atitudes, próprias de um canalha. Mas eu não, eu tentava sempre fazer o certo, parecer coerente, e meu pai não via isso. Somente quando por um deslize, do qual me arrependo amargamente agora, que eu cometi assumindo a culpa por Joong, foi que ele me notou. E tinha de admitir, foi bom vê-lo se esforçando para me ajudar, mesmo que eu tenha vindo parar neste presidio horrível, ainda sim valeu a pena. Meu pai estava orgulhoso de mim, era tudo que eu sempre quis.
O que eu poderia fazer, agora? Tudo o que eu conquistei, em segundos foi tirado de mim. Depois de descobrir que Joong matou nosso pai, eu desabei. Honrar minha mãe, fazer meu pai orgulhoso, proteger aquele nojento sem coração, tudo foi em vão. Eu não conseguia! Foi por isso que o ataquei, e se as guardas não houvessem me tirado de cima dele eu provavelmente o mataria. Ele fez aquilo, destruiu tudo de bom que eu havia conquistado. Ele me quebrou.
E meu surto veio. Como sempre tão forte, bem maior que os outros. Eu não podia mais, deixei as emoções que vinha carregando, explodirem e saírem todas de uma vez. Tudo o que sentia, se misturava, e travando uma batalha, elas latejavam no fundo de meu consciente. Como sempre a raiva era a maior, e dessa vez eu não pude canaliza-la. Sim, elas foram diretamente para meus punhos, mas não foi por minha escolha.
E aqui estou eu, socando a parede como se com isso pudesse parti-la, como se fosse adiantar de alguma coisa. Mas se me impede de deixar esse sentimento me consumir, então tanto faz. Posso socar até meus punhos sangrarem, até quebra-los. Nada mais importa.
E agora parece que essa é nova Eu. Apenas movida a raiva. Apenas movida a vingança.
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