Feeling my way through the darkness
1 Oneshot
O silêncio se espalha pelo ambiente, se estendendo sobre mim feito um tapete. Fui engolida por uma escuridão, e estou me afogando nela. O escuro é tão intenso e apavorante que sequer sei se meus olhos estão abertos ou fechados.
Minhas mãos tateiam o ar tolamente, até achar o chão frio ao qual estou caída, em posição fetal. Não sei ao certo porquê, mas sinto que devo procurar por uma luz. Minhas pernas trôpegas bambeiam até sustentar meu tronco, e logo estou de pé. Às cegas, encontro um interruptor e o acendo.Meus olhos demoram a se adaptar a luz, então os fecho. A escuridão que vejo atrás de minhas pálpebras se assemelha a minha confusão. Enorme, infinita. Arfo baixamente a medida que abro meus olhos e olho ao redor, em seguida baixando-os a mim mesma. Vejo-me trajada numa túnica branca manchada, pés descalços. Não sei que lugar é este, e meu nome é desconhecido, também. Eu só sinto que este é o lugar errado para mim.O ambiente trata-se de um quarto, que devia ser de um apartamento. Eu não sei como posso saber tanto sobre um lugar que não pertence a mim. É a forma com que me sinto: eu não pertenço a este lugar. Tateio a maçaneta e a giro, saindo do local e encontrando a escuridão sádica novamente. Minha mente dá voltas ao redor de um abismo, e eu não sei o quão profundo pode ser. Procuro por uma saída, mas todas as janelas estão fechadas, inclusive a porta. Não há nada aqui além de vazio e portas fechadas. E eu não consigo saber porque. Aproximo-me de um dos vitrôs, vidro de duas faces que não me permite ver o lado de fora e pedir ajuda pra sabe-se-lá quem sabe-se-lá onde. Estou perdida, e não só perdida. Estou perdida em um lugar onde eu nunca cheguei.A lateral de meu corpo desliza na parede até que me vejo sentada no chão. Abraço meus joelhos, afundo meu rosto neles, e me permito exprimir toda a minha dor. Eu só não sei porque dói tanto, se estou sozinha. Ninguém me machucou. Eu sei disso. Não sei quem sou, nem onde estou, mas sei que ninguém me machucou.Uma parte de mim me diz que posso pedir ajuda a alguma divindade, mas a outra metade me repreende, então me reprimo. Há uma discussão interna me possuindo, e esta é uma das poucas coisas que me lembro antes de adormecer entre minhas lágrimas.(...)Uma mão sacode meu ombro, e então acordo com um solavanco. Ponho-me de pé sem me importar se o frio da madeira polida incomoda meus pés descalços. Só o que vejo é uma mulher, moça. Seu cabelo é negro e liso, bate na altura dos ombros. Os olhos são de um azul puro. Ela me olha com ternura, e novamente pousa a mão em meu ombro. Eu não tinha reparado no quanto poderia estar assustada. - Fique calma, querida. Eu não vou te fazer mal. — Diz a anônima, e eu estranhamente suspiro. Consigo ver um certo receio nos olhos dela, mas nada digo.- Quem é você? — Áspera, minha voz se arrasta a cada palavra. A estranha suspira, balança a cabeça, e me responde.- A pergunta, criança, é quem é você. Deixo-me ser conduzida por aquela mão ossuda até o quarto onde tudo começou. Só o que há é um objeto grande e oval, coberto por um tecido empoeirado branco. Minha nova companhia balança a cabeça em negativa novamente, e me pede para esperar na porta. Puxa o pano branco que cobria um espelho, e demora-se em sua face. Em seguida, olha para mim. Eu uno minhas sobrancelhas, mas ela vem até mim. Com sutileza, me segura pelos ombros e me conduz ao espelho, tomando o cuidado de pedir para que eu feche meus olhos.- Você foi o mais belo dos arcanjos. — Ela diz, com um pesar audível em sua voz mansa. Pareceu engolir um nó na garganta antes de continuar. — Sua pureza, criança, era de alimentar a cobiça em qualquer coração fraco.Ela desliza as mãos sobre meus ombros, num gesto acolhedor. Em seguida, põe a mão sobre meus olhos, mas eu sequer havia espiado. Enquanto ela fala, minha mente viaja em vários flash's. Consigo ver um par de asas, e ouço murmúrios baixos aqui e ali.- E foi por este mesmo motivo que caiu nas mãos daqueles que, te tentando, roubaram sua virtude. Ouço um suspiro. Ela solta meus olhos, e eu me encaro diante do espelho. Por um momento, vejo apenas uma pessoa normal. Cabelo louro claro, ondulado, caindo em cascata até abaixo dos ombros. Olhos azuis celeste, e pele pálida feito marfim. Mas em seguida, vejo a forma visível atrás de mim. Negras feito a escuridão que me devorara minutos antes, estava um par de asas. Grandes o suficiente para sustentar meu corpo num vôo alto. As penas reluzem sob a iluminação precária do cômodo, mas há o terror espalhado em minha face.- Ele decidiu que arrancar suas asas e te enviar aos Mundanos seria pouco. Achou que seria mais apropriado que visse a sua impureza todos os dias de sua eternidade. O Criador te puniu com a vergonha.De repente, as asas pesam sobre minhas costas. Meus olhos se marejam, e um grito de horror rasga minha garganta. Em um segundo, espelho está despedaçado no chão. As mãos da anja enviada para me instruir estão sobre meus ombros, e eu estou no chão, num choro impulsivo. Os gritos do silêncio dobram-se diante dos meus gritos de terror.(...)Claire, como a anja pediu para que eu a chamasse, demorou para aceitar a minha decisão. Não acho que ela deva se preocupar comigo.
- Eu vou ficar bem. — Insisto, vendo-a fitar o buraco largo no chão. A encaro longamente, mas me deito no caixão acolchoado e pouso a adaga na barriga. Claire morde o lábio inferior, chora, e fecha a tampa. Assinto para ela, que começa a atirar a terra de volta a seu lugar. Depois que ela já não me pode ver, enterro a adaga no peito, e permito que a escuridão me devore pela última vez.
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