Mais um trovão ressoou no céu cinzento daquela tarde melancólica. A chuva era pesada e constante demais para a primavera, mas pelo visto ela não ia parar tão cedo.

Eu estava encolhida no chão da calçada de um beco sem saída. Eu admirava a pele da minha mão, estava com pálido doentio. Meus cabelos negros e compridos grudavam e contrastavam na pele do meu braço. Só havia alguns carros estacionados ali na rua... E ela continuava ali, olhando para mim, podia sentir. É claro que eu não olhava de volta para ela, não diretamente, não ainda.

Preguiçosamente eu enfiei minha mão no bolço da minha calça e tirei meu celular. Procurei em contatos o nome que eu queria e fiquei admirando. Apenas isso: admirando. Fiquei pensando no que ele deveria estar fazendo, se estaria pensando em mim ou tentando me esquecer já que eu lhe gerara tanta preocupação. Afinal, eu sempre fui apenas um peso na vida dele, por isso não o culparia, e nem me arrependeria do que estava prestes a fazer.

Enquanto ela se aproximava de mim eu sentia mais frio, mais desistência vital. Sua pele era estupidamente branca, num tom quase púrpuro, e seus cabelos eram como um véu negro sobre sua cabeça que agora pairava a alguns centímetros da minha.

Meu dedão acariciava o botão de chamada enquanto aquele nome ainda brilhava na tela do meu celular. De qualquer maneira eu precisava ouvir sua voz. Mesmo que ele dissesse “alô” e eu desligasse...

... ele atendeu no primeiro toque.

– Amy? Amy? – sua voz estava banhada de preocupação, como sempre. – Amy, me diz onde você está que eu vou aí te buscar!

Meus lábios tremeram antes que eu conseguisse pronunciar qualquer palavra.

– Não precisa – Minha voz estava pior do que eu podia imaginar, estava embargada e rouca. – E-eu... – Limpei a garganta, mas não adiantou muito. – Eu estou bem.

– Onde você está? – perguntou ele com a voz mais firme, mas, mesmo assim, trêmula.

Eu suspirei.

– Logan – sussurrei me deliciando com a pronúncia de seu nome em meus lábios. – Eu preciso te dizer uma coisa, uma coisa que deveria ter dito há muito tempo, mas...

– Pelo amor de Deus! – ele me interrompeu. – Me diz onde você está – agora não era um pedido, era uma ordem.

Eu olhei para meu lado esquerdo, onde havia a grade que separava o beco da calçada. Podia imaginar seu carro estacionando ali, podia sentir a sensação de alívio e logo então o calor dos seus braços me envolvendo e me levando para um lugar seguro.

Mas dizer a ele onde eu estava era egoísmo, porque eu sei que faria tudo de novo no dia seguinte. Porque uma vez que você se vicia, você nunca mais se liberta.

Isso que eu era. Uma viciada. A garota rebelde que saía a noite e só voltava no dia seguinte, e quando voltava. A garota que sempre decepcionava os pais que a deixava de castigo por meses incontáveis, mas sempre arranjava um jeito de fugir... e tudo voltava.

Mas agora, bem agora, eu estava sóbria. Pelo menos me sentia sóbria. Claro que poderia estar completamente louca, já que ela nunca fora uma figura... Agora ela estava agachada na minha frente. E eu ainda não estava preparada para olhar em seus olhos, então fiquei olhando seus pés.

– Eu te amo – dissera por fim, minha voz num sussurro arrastado. – E eu queria gastar todos os dias da minha vida com você, queria dormir acariciando seus cabelos e acordar olhando em seus olhos, passar tardes de chuvas te beijando debaixo do edredom ou tardes de sol correndo na praia – Soltei uma breve risada sem humor.

– Amy... – agora sua voz estava tão desgastada quanto a minha.

– Diga a minha mãe que eu a amo e a acho uma mulher incrível e... – Limpei minha garganta de novo. – Diz para o meu pai que eu peço desculpas por não ser a filha exemplar que eu sei que ele sempre quis...

– Mas do que...

– Logan – sussurrei e sua voz vacilou, podia jurar que ele estava chorando, mas não queria acreditar. – Eu já causei problemas demais na sua vida...

– Não diga isso – Pude sentir que ele tentou ao máximo reprimir o tremor em sua voz.

– Por que você nunca desistiu de mim? – Essa era a pergunta que vinha em minha cabeça todas as vezes que eu estava no banco de carona do seu carro.

– Porque eu te amo de verdade – disse ele convicto – Você é como uma boneca quebrada que estou disposto a concertar.

Eu sorri ao ser comparada a uma boneca quebrado. Não fazia diferença mesmo. Eu era um brinquedo velho, quebrado e inútil ocupando o lugar no quarto de um menino que merece brinquedos melhores do que esse total desapontamento.

– Mas sem essa boneca você teria mais liberdade – me ouvi falando uma coisa que não veio da minha cabeça. – Mais tempo para você mesmo, menos preocupação...

– Por favor, não diga... não faça isso comigo.

Eu fechei os olhos deixando as lágrimas encharcarem meus cílios, quando eu tornei a abri-los vi que ela estava bem próxima a mim, seu nariz na altura do meu, sua mão direita pairando sobre meu peito, e eu também podia perceber um leve sorriso em seus lábios, fiquei encarando-os por um tempo... A curiosidade de olhar em seus olhos aumentava, mas era uma vontade que se colidia ao desejo de ter Logan de volta.

Não, eu prometo que agora vou fazer tudo certo, pensei comigo mesma. Não vou decepcionar meus pais, nem causar problemas ao meu namorado que diz ser verdade que me ama. Eu estou jogando uma vida maravilhosa fora.

Agora seus lábios se separaram, podia sentir seu hálito... aliás, não sabia que ela podia ter hálito, mas ela tinha, o aroma era de lírios. Um campo inteiro e inacabável de lírios que dançavam ternamente com uma brisa cálida.

– Logan, não se esqueça disso: eu te amo e quero que você seja feliz...

– Eu posso ser feliz ao seu lado!

–... com uma pessoa melhor que eu...

– Eu quero você.

–... com certeza não vai difícil de achar...

– Amyyyyy! – ele gemeu.

– Adeus, Logan – esse foi meu último sussurro.

Eu continuei olhando os lábios finos dela sem coragem de descobrir o que havia naqueles olhos, por que todos aqueles que uma vez olharam nunca mais voltaram. Meus olhos subiram devagar e se concentraram na ponta de seu nariz.

Agora eu pude ver, mesmo sem olhar.

Seus olhos eram como duas órbitas vazias. E sei que ela me sugaria para dentro daquele par de poços.

Mas num era isso que eu queria?

Então, sem pensar duas vezes, eu olhei em seus olhos sem fundo. Sua mão que antes pairava sobre meu peito penetrou em minha pele, atravessou minhas costelas, e pude sentir seus dedos tocarem em meu coração. Não era um toque exatamente físico, um toque sólido. Era mais como sentir um sopro frio por dentro.

Agora ela segurava meu coração. E eu não sentia dor alguma, apenas fraqueza e sono, muito sono. Ela foi apertando meu coração devagar sem que eu percebesse até ele parar de bater e eu não sentir mais nada.

Sabe o que é não sentir nada?

Nada de dor, nada de nostalgia, nada de arrependimento... Exatamente nada do gênero.

Depois disso eu não sei dizer o que ela fez já que não podia abrir os olhos, e sim, apenas sentir o aroma de lírios, o mesmo aroma de seu hálito.

Também podia sentir uma leve camada de seda cobrir meu corpo como uma manta, podia sentir uma brisa deliciosamente morna. E podia sentir algo tremeluzir através de minhas pálpebras.

Eu abri meus olhos.

Me encontrava completamente confusa sem saber o por que e como eu fui parar naquele campo de lírios. Aliás, eu não merecia estar no paraíso depois de tanto que fiz.

Eu me levantei, hesitante e cambaleante, sentindo a grama húmida sob meus pés. Eu tinha vontade de correr, pular, dançar, girar e, até mesmo – se possível –, voar. Mas não deu tempo de eu fazer todas essas quando meus olhos encontraram aquela figura absurdamente perfeita admirando a paisagem... ou a mim.

– Logan? – chamei baixinho.

Eu engoli em seco. A figura era perfeita demais para ser apenas uma ilusão, alucinação. Porque todos os detalhes estavam ali: seu corpo másculo e esguio, seus cabelos negros contrastando com a pele clara e os olhos azuis.

– Log... – Minha voz travou quando ele sorriu para mim exibindo covinhas nas bochechas.

– Amy – ele sussurrou se aproximando de mim já que eu parara no meio do caminho com as pernas bambas e o coração (não sei como ele ainda batia) acelerado. – Amy – ele sussurrou de novo, só que agora num tom mais sensual, mais persuasivo. Um que me convidada a lhe beijar e lhe abraçar e nunca mais lhe soltar.

Eu apenas obedeci ao seu tom e sentir seus lábios tocarem os meus.

Não era como das outras vezes que eu o beijava. Era mais... mais... puro. Imaculado, divino, delicado, mais doce. Mais vibrante. Mais...

Ele interrompeu o beijo bruscamente e começou a sacudir meus ombros.

– Amy! Amy! Acorde, por favor, acorde! – Ele estava com os olhos azuis arregalados e alarmados.

– O que você ta fazendo? – perguntei assustada,

– Amy!!! – chamou ele com mais urgência, me sacudindo mais.

Eu franzi cenho. Como ele queria que eu acordasse de um sonho (eu não sei especificamente o que é isso tudo, então prefiro pensar que é apenas um sonho antes do meu mergulho eterno para o inferno) tão bom quanto tal? Será que não estava sendo tão bom para ele quanto para mim?

– AMY! – ele gritou com mais urgência.

Eu despertei.

E foi horrível.

Foi como nascer de novo, foi como se eu tivesse acabado de acordar de um pesadelo, foi como se tivessem me arrancado das profundezas de um mar congelante. Foi repentino e eu ofegava. Meus pulmões doíam, eu respirava com dificuldade e meu coração também doía. Como se cada batia fosse um sacrifício para ele, mas de qualquer maneira ele me queria viva.

– Amy – Ele soltou a respiração como se tivesse prendendo-a há algum tempo e me abraçou. Seu abraço quente, confortável e protetor. – Amy... Você está bem? – Ele segurava meu rosto entre suas mãos agora, seus olhos azuis estavam marejados de lágrimas... Eu não queria ver lágrimas em seus olhos de novo.

Eu tentei falar, lhe responder, mas não conseguia achar minha voz.

– L... L... – Minha língua tocava o céu da minha boca numa tentativa inútil de fazer o som do L. Mas não desisti. – Lo-lo... – Eu respirei fundo, era frustrante olhar em seus olhos ansiosos e não conseguir fazer nada por isso. – L-lo-logan. – finalmente consegui dizer. E não resisti a um sorriso com isso, nem ele.

Ele pegou uma mecha que estava em meu rosto e a colocou delicadamente atrás da minha orelha.

– Como me achou? – perguntei no exato momento em que ele abriu a boca para falar.

Logan olhou para seu carro que estava na calçada e depois voltou a olhara nos meus olhos, sorrindo.

– Talvez eu conheça você mais do que eu imaginava. Vou te levar para casa – falou ele me pegando no colo.

Eu me aninhei em seu peito como um bebê. Agora eu queria ir para casa, mais para lugar nenhum, só queria o conforto da minha casa. Queria ficar debaixo do meu edredom com ele, me deliciando com seus beijos, ouvindo uma hora ou outra seus sermões – só que dessa vez eu os levaria a sério –, e depois o ouvir dizer o quanto me ama e que ele sempre cuidaria de mim enquanto estivesse vivo – e dessa vez eu daria valor.

Porque, afinal, eu estava me sentindo sóbria.

Notas finais
Se chegou até aqui é porque leu tudinho *-* (ou porque simplesmente rolou até o final pra saber se era muito grande - sei dos seus segredos) então comente! :D Ou não comente, você é um ser humano livre afinal o/ Mas se for por preguiça você pode simplesmente preencher os campos do comentário com reticências (sabia que isso é permitido por lei? :o eu num sabia u.u). kkkk obrigada por ler ^-^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!