Notas iniciais
E o segundo capítulo, uhuuu!

Depois de ficar me admirando no quarto de Heidi por uma hora, voltei para o meu próprio quarto e sentei-me na poltrona ao lado de minha cama. Digerindo tudo. Fiquei na mesma posição por horas, sem me mover. E para meu espanto, fiquei chocada ao notar que não sentia dores nas costas ou na bunda. Sim, eu ainda iria me acostumar com aquilo.

Em quesito dores, só havia a ardência insistente em minha garganta, mas eu controlava isso bem até demais. Sentia-me elétrica, pronta para qualquer coisa até que tive uma ideia pouco emocionante. Decidi arrumar meu quarto. Ah, qual é? Eu tinha energia eterna, precisava fazer alguma coisa! Tirei roupas do chão, arrumei minha cama, dobrei lençóis, organizei meu armário e para finalizar, abri as cortinas. Infelizmente, esqueci do quão forte estava. Resultado: a cortina caiu no chão, batendo na mesa de cabeceira antes e derrubando meu abajur, que se quebrou em mil pedaços.

– Merda!

Baixei os olhos para o desastre e me lembrei de algo ao ver a luz do sol entrar. Relutante, puxei a manga de minha blusa para cima e levantei o braço esquerdo. Sim, eu brilhava. Deixei uma risada escapar. Era tudo tão estranho! Eu não precisava comer, não precisava dormir para recarregar as energias, não precisava me preocupar em me arrumar já que estaria linda e maravilhosa o tempo todo – meu ego estava começando a me assustar. Resumindo: a vida que eu sempre quis! E o melhor de tudo, nunca iria engordar! Agradecer Aro estava no topo da minha lista de “coisas a fazer”, logo depois de...

Passos tomaram conta do corredor, me distraindo de minhas notas mentais e aproximavam-se. Olhei de relance para a porta e os passos cessaram bem ali. Alguém respirou fundo e então, três batidas leves. Caminhei até a porta, pulando com elegância a cortina no chão e segurei a maçaneta com leveza, tentando não quebrá-la. Ainda concentrada, abri a porta o suficiente para ver Demetri me olhando um pouco chocado.

– Oi – falei, me endireitando. Do jeito que ele me encarava, parecia que eu havia me tornado um enorme monstro verde com pintinhas azuis. E eu não estava muito atrás na questão “choque”. Ele estava ainda mais perfeito, se isso é possível. Seu cabelo estava um pouco mais claro, graças aos raios de sol que batiam em sua nuca e deixava-o lindo o suficiente para tirar meu fôlego desnecessário. Notei que seus olhos vermelhos me analisavam também e parou em meu rosto, sorrindo de lado. Não aguentei e comecei a rir, estranhando minha própria risada estar tão maravilhosa. Eu estava apaixonada por mim mesma, e mais apaixonada ainda pelo homem que ria comigo e estava bem na minha frente. – Pensei que fosse ser mais estranho.

– Você está perfeita – ele declarou, fazendo com que eu ficasse séria. Mordi meu lábio inferior e suspirei.

– Você sempre foi, mas agora eu consigo te ver de verdade – murmurei. Ele se aproximou, colocando uma mão em meu rosto e eu fechei meus olhos. Seus lábios encostaram em minha testa, então ele respirou fundo, distanciando-se um pouco. Levantei a cabeça, notando debilmente que eu continuava baixa e olhei para ele. – Agora eu tenho a eternidade para brigar com você.

– Addison, não estrague o momento – ele reclamou, me fazendo rir. Notei que ele segurava um sorriso e fiquei feliz em saber que ele ainda ria das coisas que eu dizia. Não sei por que pensei que isso iria mudar. Eu continuava a mesma pessoa, apenas meu corpo havia mudado.

– Desculpa, eu não consigo – fiz uma careta e dei-lhe um selinho, sentindo um arrepio interno que ia da base de meu pescoço até meus cotovelos, descendo até minha cintura. Sorri maravilhada com aquela sensação, ofegando de forma desnecessária. Um desejo enorme tomou conta de meu corpo e apenas um pensamento em minha cabeça: Demetri na minha cama.

– Não sei se deveria ficar excitado ou com medo desse seu sorriso – ele comentou com os olhos semicerrados.

– Eu posso te mostrar – sussurrei, segurando seu casaco com uma mão e puxando-o bruscamente para mim.

– Só lembre que você pode me machucar, ok?

– Vou tentar ser gentil.

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– Addison! Você está indo treinar, não para um concurso de beleza! – Felix gritou pela milionésima vez enquanto eu escolhia uma roupa para usar.

– Eu preciso ficar bonita, não posso ser a única vampira nesse lugar que anda como uma mendiga – sibilei, trocando de blusa novamente. Optei por um top preto e uma blusa branca larga por cima, e lógico, um short preto curtíssimo. Eu estava cada vez mais exibicionista, usava roupas curtas e apertadas na maior parte do tempo. Era muito bom ver todos os olhos virados para você. Especialmente um par de olhos cheios de desejo e ciúmes.

– Até com um saco de lixo você vai ficar linda, ruivinha.

Voltei para o meu quarto e Felix permanecia jogado em minha cama, trocando de canais. Ele olhou para mim e deu um salto. Era estranho vê-lo tão... Esportivo. Uma regata cinza e uma calça de corrida preta, completando com um tênis branco.

– Obrigada, eu sei disso – falei sorridente. – Vamos?

Ele saiu de meu quarto e eu fui logo atrás, trancando a porta antes. Seguimos pelos corredores, descendo um lance de escadas e parando na frente da sala que eles usavam para treinar. Era enorme e toda branca, possuía algumas estatuas despedaçadas de mármore e eu sabia que aquelas paredes eram revestidas com bilhões de coisas para não quebrarem a toa. Felix me falou disso em algumas vezes que estive ali.

– Vamos começar com defesa? – ele perguntou. A sala estava vazia e eu não poderia estar mais empolgada. Finalmente conseguiria me defender sozinha.

– Você é o professor, não sou eu que tenho que decidir isso – alfinetei. Felix bufou, parando no meio da sala.

– Nunca deixe chegarem perto de seu pescoço – ele falou sério. Pude vê-lo se aproximar em uma velocidade maior que a humana, mas vi cada passo seu. Ele levantou os braços, tentando alcançar meu pescoço. Eu era inexperiente, mas era mais rápida e forte. Consegui segurar seus braços, e lançá-lo para o lado, como em uma dança. No segundo seguinte, Felix estava de volta. Agora, tentando imobilizar meus braços, mas novamente eu desviei. Não de uma forma comum, já que eu pulei e ele passou correndo abaixo de mim.

– Mais alguma coisa? – perguntei inocentemente, piscando exageradamente. Ele rosnou e parecia insatisfeito. Ótimo!

– Toda essa sua velocidade vai passar em algum momento – falou baixo. Abri a boca, chocada.

– Está me ameaçando? – indaguei com a voz esganiçada. Felix deu de ombros e arqueou uma sobrancelha.

– Entenda como quiser.

– Você é um idiota – resmunguei, cruzando os braços. – E eu só fui transformada há três dias, pode apostar que vai demorar!

– Vamos lá, ruivinha! Chega de reclamar! – ele exclamou. – Próxima lição: ataque!

Felix era um ótimo professor de luta. Parecia um ogro de tão alto e bruto, mas eu não me sentia mais intimidada por ele. Agora éramos iguais – eu estava um pouco mais forte e rápida por ser recém-criada, mas enfim. De uma escala de 0 a 10, o medo que eu sentia de Felix e toda sua brutalidade estava no -20.

Depois de passar a tarde toda e uma parte da noite na sala de treinamento, eu e Felix fomos em direção aos quartos. Demetri estava no corredor, com as mãos no bolso da calça e com uma camisa branca com alguns botões abertos, dando uma visão de seu peito. Desde quando vampiros têm vertigens? Era a única explicação que eu havia achado para a suposta tontura que senti ao vê-lo tão lindo e perfeito na minha frente.

– Vocês estão babando – Felix declarou depois de alguns segundos que ficamos parados um na frente do outro. – O quarto da Addie tá a alguns metros daqui...

– Shhh! – Olhei irritada para ele, que arqueou uma sobrancelha. – Você está atrapalh-

O cheiro chegou em mim como um tapa. Heidi estava com mais turistas? Olhei para trás, mas ouvia apenas um coração batendo. O cheiro era maravilhoso e eu quase podia sentir o gosto do sangue em minha boca, se não tivesse tanto veneno acumulado ali. De repente, os passos começaram a ficar cada vez mais próximos. E eu sorri.

Giuliana entrou na minha frente, parando subitamente e me encarando. Inspirei novamente, sentindo o cheio de seu sangue arranhou minha garganta. Dei um passo para frente e alguém se aproximou. Rosnei baixo, apenas um aviso e dei outro passo. Mas dessa vez, Giuliana começou a correr e gritar por Enzo. Bobinha. Me preparei para correr atrás dela, mas fui segurada pela cintura.

– Addie, segure a respiração – Demetri disse em meu ouvido. Rosnei mais alto e tentei lhe chutar, mas minhas pernas estavam entre as suas. Felix me segurou pelos ombros, tentando me manter parada.

– Me soltem! – gritei irritada. Giuliana provavelmente estava do outro lado do castelo, mas eu ainda queria ir até ela. Aquele cheiro não podia ser ignorado. Eu queria tanto! Por que eles não entendiam aquilo?!

– Addison! Pare! – Demetri gritou. Continuei me debatendo, até que consegui dar uma cotovelada na barriga de Demetri e empurrei Felix para o lado. Sai correndo, seguindo o cheiro de Giuliana, mas assim que virei em corredor, algo atingiu meu rosto e eu bati a cabeça com força na parede, deixando um buraco ali. Sentada no chão e sentindo cócegas em meu rosto, olhei para Enzo que estava agachado e rosnava para mim, com Giuliana assustada e chorando atrás de si.

Eu estava atordoada. O que havia acontecido comigo? Coloquei a mão em meu rosto, sentindo uma ferida idêntica a rachadura na parede e fiquei mais chocada do que já estava.

– Addison! – Demetri estava agachado na minha frente, segurando meu rosto. Felix olhou sério para Enzo. – Você está bem?

Balancei a cabeça, negando e ele me ajudou a levantar. Olhei para Giu, sentindo meus olhos arderem e o ar que eu não precisava fazer falta em meus pulmões. Era como se eu estivesse sufocando. Entendi o que estava acontecendo quando um soluço torturado saiu de minha garganta. Eu estava chorando. Na minha maneira, mas estava.

Eu havia tentado matar minha melhor amiga. E teria conseguido, se não fosse por Enzo. Olhei para ele, que ainda estava sério e aparentava estar com raiva.

– Obrigada – sussurrei e sua expressão suavizou. Deixei que Demetri me arrastasse pelos corredores, enquanto eu ainda soluçava.

– Isso acontece, não se preocupe – ele murmurou, passando a mão em minhas costas e beijando minha cabeça. Entramos em meu quarto e ele trancou a porta.

Sentei-me na cama, abraçando meus joelhos e encarando meus pés. Demetri sentou ao meu lado, passando um braço em minha cintura e eu encostei minha testa em seu ombro. Os soluços ficaram cada vez mais frequentes e eu já não aguentava meus olhos arderem, então os fechei, tentando me acalmar.

Eu me sentia extremamente monstruosa. Assustada. Outra pessoa. De fato, eu era. Era uma vampira e era altamente perigosa. Eu sabia quais eram as consequências que eu teria de enfrentar, sabia de tudo que poderia acontecer tanto comigo quanto com aqueles que estavam a minha volta.

Demetri traçava padrões em minha cintura que estava descoberta, graças à blusa exageradamente larga. Aconcheguei-me em seus braços, envolvendo sua cintura em um abraço torto, mas confortável. E deixei os soluços perturbadores saírem de minha garganta.

Não sei ao certo quanto tempo ficamos naquela posição, mas já me sentia melhor. Olhei para Demetri, que sorriu de lado para mim.

– Eu não acredito que tentei matá-la – senti meus olhos arderem novamente. Demm beijou minha testa e acariciou meu rosto.

– Addie, essas coisas acontecem – ele falou calmamente. – Você vai se acostumar, só precisa ter paciência e um pouco de disciplina.

– Ela nunca vai me perdoar – lamentei.

– Giuliana sabe muito bem como é viver entre vampiros, ela vai entender.

– Mas é diferente, nós somos praticamente irmãs! Eu sou a pior pessoa do mundo?

– Claro que não! Agora, tente relaxar ok?

– Eu quero falar com ela. Dizer que sinto muito e pedir para ela não me odiar...

– Addie, espere. Ela deve estar nervosa, assim como você. Vocês vão ter muito tempo para conversar.

Ponderei por alguns segundos e respirei fundo.

– Se eu fosse humana, diria que estou com fome – murmurei, o fazendo rir.

– Provavelmente pediria uma pizza enorme cheia de queijo.

– E comeria tudo sozinha.

Estava tão absorta em meus pensamentos que sequer ouvi Heidi e Felix na porta. Quando dei por mim, os dois já estavam jogados em minha cama.

– Como você está? – Heidi perguntou solidária.

– Acabei de tentar matar minha melhor amiga – falei. – Poderia estar melhor.

– O que acha de uma bebida? – Felix sorriu.

– E dá pra sentir o efeito? – indaguei.

– Quem sabe se você beber bastante – ele deu de ombros.

– Acho que tem umas duas garrafas de vodca no armário – apontei e Demetri segurou meus ombros, fazendo-me encará-lo.

– Você era o que? Uma alcoólatra? – ele indagou chocado.

– Eles que me deram! – me defendi, apontando para Heidi e Felix, que nem prestavam atenção, concentrados nas bebidas.

– Achei uísque e tequila, os dois pela metade – Felix falou e eu olhei para Demm, que me encarava com reprovação.

– Eu gostava de me desligar às vezes – murmurei fazendo um biquinho.

– Vamos lá, meu bem! Manda pra dentro! – Heidi me estendeu a garrafa de tequila e eu bebi um pouco. Eu não sentia nada, talvez um pouco de cócegas assim que o líquido desce pela minha garganta. Quando fiz menção de abaixar a garrafa, Heidi segurou minha mão, para que eu continuasse bebendo. E assim fiz, bebendo a garrafa inteira em questão de segundos. A sensação era estranha. Uma boa comparação é quando bebia água sem ter comido nada.

Eles me encaravam, esperando alguma coisa e eu simplesmente larguei a garrafa na cama, dando de ombros.

– Isso é um pouco triste – Felix fez uma cara de tristeza.

– Continue bebendo, quero ver o que acontece – Heidi estava empolgada por me usar como cobaia. Não que eu me importasse, beber era bem divertido.

– Espero ficar pelo menos tonta com isso – falei, esticando a mão para abrir a garrafa de vodca.

Foi dessa maneira que passei a noite. Bebendo e rindo das besteiras que Heidi e Felix diziam. A cada momento que se passava, eu sentia que aquela vida fora planejada para mim. Olhei para Demetri rindo ao meu lado, sentindo um calor confortável no lugar em que meu coração parado estava.

Sim, aquele era o meu lugar.

Notas finais
Não esqueçam de comentar! Beijos.