Feeling
1 To Feel
Notas iniciais
Não que Ojiro não gostasse de sair com Hakagure, não era isso, mas é que era sempre muito difícil responder quando ela perguntava o que ele achava da nova roupa que havia provado. Não tinha como ele saber se havia realmente combinado com ela, para ele parecia mais que a roupa estava em um manequim invisível. No entanto Hakagure insistia em perguntar todas às vezes, como se gostasse de tortura-lo.
—Ojiro — O loiro se arrepiou ao ouvir novamente aquela voz feminina.
Novamente Hakagure saia do provador. Desta vez ela estava provando roupas de praia, para a viagem da turma. Ela saiu do provador com uma regata branca de tricô que fechava por botões na frente e um short jeans claro, que parecia folgado nela, pois estava pendendo de um lado, deixando a mostra parte do biquíni que usava. O que acabou deixando o loiro corado, o fazendo tirar levemente o olhar da garota a sua frente.
Algo que Hakagure também notou, ruborizando suas bochechas. Algo bem estranho, pois não dava nem pra ver suas bochechas, mas o vermelho era bem claro.
—O que você achou Ojiro? — A garota falou com uma voz levemente envergonhada, ameaçando gaguejar — Acha que combinou comigo?
Ojiro voltou seu olhar para ela, observando como as roupas ressaltavam seu corpo, ou pelo menos o deixavam suficientemente visível. Ele passava os olhos por tudo que conseguia enxergar, pensando em como responderia aquela pergunta, sem ressaltar o fato dela ser invisível.
—Bem... — O loiro pigarreou, as palavras simplesmente não vinham — Você... Você está muito bem.
Aquilo não parecia ter deixado a garota muito feliz, o rubor sumiu de suas bochechas, e ela soltou um suspiro esperançoso, porém decepcionado.
—Apenas bem? — Hakagure se forçou a soar feliz.
Ojiro abria e fechava a boca sem emitir nenhuma palavra, apenas sons que pareciam ser tentativas de formular uma frase, ou pelo menos uma palavra. Os ombros da garota caíram desanimados, o garoto pode perceber isso pelo cair desanimado das alças da regata.
—Bem, obrigada — A garota agradeceu desanimada.
Desde que sua peculiaridade se manifestou sua vida se resumia a isso, apenas bem, ninguém a olhava, nem ela mesma conseguia se olhar. Não recebia elogios, nem de ninguém, nem dela mesma. Hakagure era uma garota muito animada e feliz, isso não se dava para negar, mas mesmo que ela não admitisse, Ojiro imaginava como seria a vida dela.
Ninguém conseguia enxerga-la, a não ser pelas roupas, imaginava se ela conseguia se enxergar, e se não, será que ela se lembrava como era? A cor dos olhos? O jeito de seus cabelos? O sorriso?
Quantos namorados a garota poderia ter tido? Será que ela sentia falta de receber comentários sobre sua aparência? Opiniões sobre como suas roupas faziam ressaltar qualquer coisa nela?
Ver a garota desanimada daquela forma fazia o coração de Ojiro apertar e doer, se sentia mal por provavelmente ter entrado para o grupo de pessoas que não a enxergavam.
—Hakagure... — Tentou tocar na garota, mas ela recuou.
—Ojiro, desculpa, sei que não da pra saber se combinou ou não comigo — Virou-se de costas, voltando para o provador, mas Ojiro a impediu, segurando seu ombro.
—Espere — Antes de continuar, o garoto respirou fundo — Hakagure, por que você me chamou? — Pode sentir a garota desanimar ainda mais, e continuou — O que quis dizer, é que as garotas te tratam como uma delas, quer dizer, você é uma delas — Ojiro percebeu que estava piorando as coisas — Quer dizer, elas te tratam como se conseguissem te ver, te ajudam a escolher roupas, maquiagem e todas essas coisas, mesmo sem saber como você realmente é.
Ojiro pode perceber que a respiração da garota a sua frente havia acelerado, e ela havia começado há tremer um pouco. Ojiro se assustou, tirando rapidamente a mão de seu ombro.
—Hakagure você está bem? — O loiro soou preocupado.
Mas ela nada respondeu.
—Hakagure, por favor, você está se sentindo mal? — Ojirou segurou carinhosamente os braços da garota, há fazendo virar para ele — Precisa de algo? Uma água? Foi algo que falei?
A garota parecia tentar controlar a respiração e um grande rubor tomou conta de sua face, soltando-se do colega de classe.
—Ojirou... Eu te chamei por que... — Hakagure respirou fundo, tomando coragem — Você também me trata como se me visse.
Ojirou estava confuso.
—Ojirou, você sai comigo, você conversa comigo, as garotas também, sou grata a elas por isso, e são minhas melhores amigas, mas... — Ojirou podi ver a regata subir e descer com a respiração descompassada da garota — Já fazia muito tempo que eu não me sentia vista por... Por um garoto.
O loiro a encarou por um tempo, até finalmente conseguir assimilar aquelas palavras, corando imediatamente.
Ojiro não sabia o que falar, podia sentir seus lábios tremerem com a vontade de falar qualquer coisa, mas sua mente estava em branco. O loiro coçava a nuca sem olhá-la, enquanto que sua colega provavelmente estava escondendo o rosto entre as mãos, mas não tinha como saber.
E um silêncio constrangedor se instaurou entre eles.
—Desculpe Ojirou — A garota por fim quebrou o silêncio, com a voz abafada, provavelmente estava com as mãos no rosto, envergonhada — Eu devia ter ficado calada, obrigada por ter me acompanhado de qualquer forma.
E correu de volta para o provador, no entanto, quando já estava quase que totalmente escondida, sentiu alguém segurando seu braço, alguém que estava tremendo bastante. Ao virar não pode evitar corar com o olhar que Ojiro lhe dirigia.
—Hakagure, espere... —Ojirou respirou fundo.
Naquele momento Ojirou percebeu algo que nunca havia visto naquela garota, e não, isso não era uma piada com o fato de ela ser invisível. Pois isso era algo que a peculiaridade dela não havia apagado, como que ele nunca percebera que nunca havia se tratado de vê-la ou não, mas sim do sentir?
Hakagure poderia querer ser vista sim, mas esse não era o ponto principal, o fato é que ela gostava como se sentia ao lado dele, gostava de como o fato de ser invisível nunca havia atrapalhado o garoto de olhá-la, nunca a havia impedido de sentir o que sentia. E mesmo que ela não soubesse, nunca o havia impedido de se sentir como se sentia perto dela.
E naquele momento, Ojiro finalmente entendeu. Hakagure não queria ser vista, ela queria ser sentida. E ele estava disposto a fazer isso por ela.
—Hakagure... — Ele a olhou, não sabia se olhava em seus olhos, mas algo dentro dele borbulhava como se indicando que olhava para o lugar certo, e respirando fundo para controlar o coração que batia descompassado, Ojiro finalmente falou — Você está realmente muito linda com essa roupa.
A garota estava imóvel, deixando mais uma vez que o rubor tomasse conta de seu rosto, deixando escapar desta vez algumas lágrimas, que logo foram secas pela mesma. E mesmo que o garoto não pudesse ver, ele sabia de alguma forma, que ela estava sorrindo.
E sentia dentro de si, que não havia um sorriso mais bonito que aquele.
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