Fecho Os Meus Olhos E Ouço A Sua Voz
14 A verdade e a grande reviravolta
Notas iniciais
- Calma, Julie. Eu sei que os meninos vão te ajudar, e enquanto a barriga não aparecer, tá tudo certo.
- Ai, sei lá. Não quero pensar nisso agora.
- Mas espera aí. O Daniel era um fantasma. Não é impossível engravidar de um fantasma?
- Bia. O Daniel não é mais um fantasma. E eu já transei com o Daniel vivo. É um bebê normal, nem fantasma é!
- Não era melhor contar logo pro Daniel? Ele é o pai e merece saber.
- Calma, calma, calma. Nem sabemos se é isso mesmo! Nem fizemos nenhum teste, a única prova que temos é um mal estar e enjoo ocasionais e menstruação atrasada. Sou muito nova, às vezes o ciclo é irregular mesmo.
- Vamos tirar a prova. – Ela me olha, e estende o punho cerrado na minha direção. – Compra essa briga?
Estendo meu punho cerrado e toco o dela com os nós dos dedos.
- Eu compro.
Nem avisamos ninguém que estávamos de saída. Fomos correndo até a farmácia da esquina.
Avistei uma vendedora no balcão e perguntei:
- Oi, tem teste de gravidez?
Ela me olha em reprovação.
- Tsc, tsc... Tão nova assim, pra já estragar a própria vida...
- Escuta aqui... – comecei, enraivecida. Bia me deteve.
- Julie, chega. Não vai dar a louca e discutir com a mulher aqui no meio. – ela sussurra, entre dentes.
Assinto e logo vislumbro um teste. O pego e vou até o caixa. Depois de pagar, me viro e vejo que a mulher ainda me olhava. Mostro-lhe o dedo do meio e saio de lá esbravejando.
Ao entrar em casa, corro para o banheiro.
Alguns minutos se passam até que Bia bate na porta.
- Já acabou?
- Já. – exclamo.
- Como foi?
- A pontinha ficou azul.
- Então é verdade...
Me olho no espelho e aliso minha barriga. Ela ainda nem mudara sua forma, mas esse corpo de miss Califórnia não se manteria por muito tempo.
Decidi que Bia estava certa: Daniel precisava saber.
Desci até a edícula com passos firmes. O encontro sozinho com a única coisa que ele ama, depois de mim: a guitarra. Tocava alguns acordes despreocupadamente, até sorrindo, e meu coração pesou ao saber que eu poderia desfazer aquele sorriso. Ou, quem sabe, aumentá-lo.
- Daniel. – chamo, séria.
- Oi meu amor. – ele sorri. – Está tudo bem com você?
- Mais ou menos. – digo. – Eu tenho uma novidade.
- É boa ou ruim? – ele começa a se preocupar.
- Ah, pra mim é boa, meio impactante, mas boa. Só não sei como você vai encarar.
- Conta logo! – sua curiosidade fala mais alto. Hesitante, respondo.
- Daniel, eu... Eu tô... Tô grávida.
Seu queixo cai, ele solta a guitarra, corre em minha direção, me pega no colo e me gira no ar, daquele jeito fofo que a gente vê nos filmes.
- Eu não acredito! Julie! Isso... É maravilhoso! – ele me põe de volta no chão, levanta minha blusa e beija minha barriga repetidas vezes, enquanto digo “eu te amo”, bem baixinho.
Ele me abraça bem forte, e tão logo Martin e Félix entram na edícula.
- Ei, qual é a boa? – perguntam.
- A Julie tá grávida! – ele diz todo animado. Nunca o vi assim.
- Jura? – eles dizem em coro. Dou uma risadinha.
- É sim, galera. – afirmo. – Fiz o teste hoje.
Bia e Pedrinho adentram, e daí tudo vira festa. Passamos grande parte do dia discutindo coisas sobre o nome do bebê e onde vai nascer. Bia até me obrigou a fazer aquela simpatia esquisita do garfo e da colher. Acabou que sentei na colher, o que dizia que seria uma menina.
Expliquei à Bia que eu não acreditava nesse tipo de coisa, que não tinha cunho científico, não era nada provado.
- Mas Julie. – Daniel me corrige. – Fantasmas também não têm cunho científico.
- Sabe que é mesmo? – confirmo. – Ah, sei lá.
E volto a discorrer sobre o nome que quero se for menino ou menina.
Quando começa a escurecer, Bia diz que precisa ir pra casa.
- Tem certeza? Pode dormir aqui se quiser. – ofereço.
- Não dá não, Julie. Minha mãe tá toda doida lá em casa, fala que eu saio muito. Preciso ir. Ela se despede dos meninos, e quando chega a mim, me dá um beijo na bochecha e beija minha barriga, dizendo “tchau nenê!”, toda fofa. Vai entender, né...
Sozinha na edícula com os meninos, Pedrinho sobe para seu quarto, alegando que ficará parte da noite acordado, trabalhando num experimento.
- Ai meninos, tô cansada. Acho que vou deitar. – e saio devagarzinho da edícula. Quando chego à porta, olho para trás. – Daniel? Vai ficar aí parado feito um dois de paus?
Ele desperta de seus pensamentos distantes e me acompanha.
Ao chegarmos ao meu quarto, ele fecha a porta e se vira para mim.
- Julie, mas e quando o seu pai voltar de viagem? Vai ser tipo: Oi pai, tudo bom? Olha, enquanto você esteve fora, eu tive um namorado fantasma, que depois virou humano, aí depois eu engravidei e agora você é vovô! Ebaaaa! – ele dramatiza.
- Daniel. – digo, preocupada. – Eu não tinha pensado nisso.
- Ah Julie... Não fica assim. Em três anos, nós dois vamos fazer a nossa vida.
- Como? Eu nem terminei o ensino Médio.
- Mas eu sim. Vamos dar entrada num apartamento, aí você fica em casa cuidando do Daniel Júnior e eu vou trabalhar.
- Tá bem. Mas sem essa de Daniel Júnior.
Ele riu.
Eu me espreguiço e troco de roupa em seguida. A me ver despida, Daniel indaga:
- Ué, não sente vergonha de trocar de roupa na minha frente?
- E por que eu teria? Você já me viu nua mesmo.
Ele assente e logo visto um pijama grosso. Fazia frio.
Me deitei na cama. Daniel ficou ali em pé, me olhando.
- Ué, não vem dormir?
Ele se deita junto à mim e me abraça. Acabou que dormimos de “conchinha”.
****mais ou menos 9 meses depois****.
Acordei numa sala branca. Silêncio total. Tinha um cateter me dando soro no braço direito. Olho para os dois lados. À direita, vejo Daniel ali, que me esperava acordar.
- Daniel. – chamo, ainda meio cansada. – O que aconteceu?
- Julie. – ele se levanta e acaricia meu cabelo. – Você quase morreu.
- Como? Por que? – começo a enchê-lo de perguntas. Ele põe o dedo em meus lábios secos e começa a se explicar.
- Você teve um aumento repentino de pressão arterial durante a noite e ficou desacordada por um tempo. Quando percebi que você dormia demais, te levei até o hospital, e você ficou em coma por muito tempo. – ele respondeu triste.
- Mas e nesse meio tempo? E o Pedrinho? E o bebê?
- O Pedrinho tá no nosso apartamento. E o bebê tá na incubadora ainda. Nasceu de sete meses, mas a enfermeira me disse mais cedo que ele já pode ir pra casa.
- Ei, nosso apartamento?
- É. Fizemos o máximo possível de shows enquanto você estava em coma. Com o dinheiro, dei entrada num apartamento aqui perto. Ele é nosso, agora.
Abro um sorrisão e abraço Daniel com o máximo de minhas forças.
- Que dia maravilhoso. – ele comenta. – Poder levar para casa no mesmo dia, os maiores amores da minha vida.
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