Fechar os olhos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Jyushimatsu lhe cumprimentou com empolgação quando se encontraram pela segunda vez.
— Então, o que achou? — Jyushi provavelmente já estava a par de que tinha ido ao show por meio de Todomatsu.
— Nada mal. Mas onde você estava? Pensava que também era um fã como meu irmão. — Choromatsu disse com um pouco de curiosidade.
— Ah... — Jyushimatsu disse, e olhou para outro lado como se lembrasse de algo desconfortável. — Eu estava cuidando de uns assuntos.
Choromatsu arqueou uma sobrancelha, mas não pressionaria seu conhecido por algo que nem lhe devia dizer respeito.
— Talvez dê para eu ir de novo hoje. — Choromatsu disse pensativo. Estava bastante cansado, daquele dia em especial, para pensar em ficar acordado além das 20:00, mas queria dizer alguma coisa para tirar o outro do mundo que ele estivesse.
— É mesmo? Então, posso contar a Osomatsu que você está vindo? — Jyushi disse, seguindo a mudança do rumo da conversa com uma expressão agradecida em seu rosto. — Ele vai ficar bastante contente!
Segurou a vontade de arquear a sobrancelha mais uma vez. De novo, por quê Osomatsu ficaria contente se ele aparecesse?
— Me diga, Jyushi... — Choromatsu disse cauteloso — Ele diz a mesma coisa para você e ao Todomatsu?
— Diz o quê? — Jyushi disse, o sorriso permanecendo em seu rosto.
— Que ele fica contente em te ver de novo. — Choromatsu aclarou, as mãos suando frio, pensando em qualquer outro motivo além do aparente.
— Ah, diz sim. — Jyushi falou sem pensar duas vezes, o que fez com que Choromatsu suspirasse de alívio. Então, não era nenhuma perseguição particular ou algo do tipo. Esse tipo de atenção lhe causava paranoia.
— Quer dizer — Jyushi acabou por se corrigir, escondendo a boca com uma das mangas longas de sua blusa, pensativo. —, de vez em quando, Osomatsu pode ficar interessado em alguém em particular, mas ele não diz bem o motivo. Como eu não estava lá, não sei dizer se você é uma dessas pessoas ou não.
— Mas não precisa se preocupar! — Jyushi foi rápido em acrescentar, tirando a manga da blusa sobre a boca, revelando um sorriso — Já estou algum tempo o ajudando, até mesmo antes de contar a Todomatsu, e a única coisa que pode me fazer preocupar com ele é o quanto Osomatsu gosta do irmão! Ele até esquece de se alimentar por causa disso. É bem perigoso.
— O irmão dele, Ichimatsu, está dormindo há muito tempo e sem sinal de melhora, ontem mesmo eu dei uma checada nele a pedido do Osomatsu e bem... — Jyushi disse, balançando a cabeça, como se estivesse lembrando algo que não devia. — Isso é um segredo, ok? Osomatsu me pediu para que eu não contasse.
“Se esse é o caso, me pergunto por que está me contando isso agora. ” Choromatsu segurou essas palavras, uma vez que não estava em seu 100% para lidar com um Jyushi se sentindo culpado, mesmo em seu 100% era difícil fazer isso.
— Entendo, pode confiar em mim. Agora, se me der licença...
— Ah, sim, aviso que você está vindo? — Jyushi disse, como se não tivesse lhe falado sobre uma pessoa possivelmente em coma, o irmão de Osomatsu, a alguns instantes atrás.
Invejava o rapaz, pois diferente dele Choromatsu não sabia exatamente o que pensar após ouvir sobre isso.
— Melhor não, sabe... assim vai estragar a surpresa. — Choromatsu disse, ao fim tinha um sorriso forçado no rosto, mas Jyushimatsu parecia perdido em seu próprio mundo para perceber.
— Oh... adoro surpresas!
(...)
Choromatsu acordou com um chacoalhar em seu ombro. Demorou alguns segundos para perceber que estava em segurança, desse modo, deu um suspiro de alívio. Depois, franziu as sobrancelhas, já que a sala estava muito mais escura do que se recordava. Ele não tinha tirado um cochilo de alguns minutos? Pois era isso o que tinha planejado de princípio. A dor que passou pelo seu braço ao se apoiar para se sentar dizia uma história diferente.
Como se lesse seus pensamentos, Osomatsu foi rápido em responder:
— Jyushimatsu disse que você estava vindo. Então, como não tinha aparecido, fiquei preocupado. — Osomatsu disse, coçando o nariz — Todomatsu fez o favor de me dizer onde moravam e me guiar, mas como está tarde ele e seu outro irmão já foram dormir. Eu já estava indo para casa, mas como você estava tendo um pesadelo... pensei em acordá-lo. Espero que não tenha sido tão intrometido.
— Ah, você não foi... — Choromatsu disse, esfregando os olhos com uma das mãos, enquanto tentava observar o outro mais detidamente.
Claro que tinha sido intrometido, estava em sua casa mesmo quando ninguém estava acordado, ainda que tivesse sido convidado antes. Contudo, ser tirado de seu pesadelo antes do previsto era sempre apreciável, a ponto de que estava com bom humor o suficiente para deixar aquilo passar por hora.
— Mas espera — Choromatsu continuou a dizer, franzindo as sobrancelhas mais uma vez. — Eu tinha pedido para que Jyushi não dissesse nada.
— Jyushimatsu não é bom com segredos. — Osomatsu disse, e Choromatsu não poderia negar aquela constatação quando Jyushi realmente havia deixado escapar um mais cedo. — Então, como está se sentindo?
— Já me senti melhor, mas estou bem.
— Isso é bom — Osomatsu disse com um sorriso, depois colocando uma mão no queixo de forma pensativa. —, apesar de que era um belo sonho esse que você estava tendo... mesmo que não tenha sido o primeiro a ter problemas com os pais... acho que no geral daria uma nota 7. Nada mal.
Choromatsu olhou para Osomatsu como se não tivesse escutado direito o que o outro havia dito, mas é claro que tinha escutado bem.
— Você viu? — Choromatsu disse, como que não acreditasse nas próprias palavras.
— Ora, essa é uma das minhas especialidades. — Osomatsu disse, estendendo a mão que antes descansava no rosto em um cumprimento. — Baku, Osomatsu, a seu dispor. Mágico nas horas vagas.
Foi aí que sua gratidão pela companhia daquele homem se tornou em receio, pois ele viu que antes não tinha imaginado coisas. Osomatsu tinha mesmo uma obscuridade em seus olhos vermelhos, como se algum tipo de entidade o possuísse ou ele fosse a própria entidade. Um Baku era uma criatura que poderia ser tanto benéfica quanto maléfica, dependendo da ocasião. Tinha lido uma história sobre ele, contudo, há muito tempo para que recordasse algo mais sólido.
Todavia, definitivamente aqueles não eram olhos que dispensassem cuidado. Antes que pudesse gritar ou correr, Osomatsu falou em um tom divertido:
— Ah, ah, e eu pensando que poderia ser de alguma ajuda... mas parece que Choromatsu agora me rejeita por saber a verdade. Uma pena.
— Como assim? — Choromatsu disse, tentando se manter calmo como podia. Olhou para o outro com desconfiança.
— Bem, eu posso muito bem fazer esses “pesadelos” desaparecerem, se quiser. Mas — Choromatsu já estava esperando por isso — vai ter que me dar algo em troca.
Choromatsu realmente não estava botando nenhuma fé no homem à sua frente. Tinha essa informação de que Osomatsu podia mesmo não ser humano e, ainda que tivesse visto a última apresentação, tinha esses pesadelos, lembranças, de sua mãe lhe estrangulando há anos. Não era como se de repente fosse esquecer. Todavia, sua curiosidade e vontade de que fosse sério acabou vencendo seus demais sentimentos.
“Que mal poderia lhe fazer, além daquele que já existia? ”
— Certo... — Choromatsu disse em um tom de derrota — o que eu preciso fazer?
— Ah, não é nada demais. — Osomatsu disse, então, o sorriso se ampliou. — Faça uma promessa comigo, yubikiri genman¹.
— Apenas isso? Tudo bem. — Choromatsu uniu seu dedo mindinho ao do outro e passaram a cantarolar — “ Promessa do dedo mindinho... se eu estiver mentindo... terei que engolir mil agulhas... e cortarei meu dedinho...”
(...)
— Bons sonhos, Choromatsu. — Osomatsu disse, depositando um beijo na testa do outro.
Deixou Choromatsu na mesma posição em que se encontrava quando Osomatsu chegou ali: roncando de forma sonora enquanto dormia sobre um dos braços, o que faria o rapaz lamentar em dobro quando acordasse. Não poderia fazer mais, ou levantaria suspeitas dos irmãos de que esteve ali, ainda que tivesse dito que iria embora, quando fosse o outro dia.
Osomatsu deu uma risadinha, como tinha feito antes quando o viu daquela maneira, pois de certa forma aquele rosto dormindo era uma graça, ainda mais quando não tinha nenhum traço de desconforto em seu rosto, por causa do sonho que via no momento. Então, acabou por perder a expressão de divertimento ao imaginar as expressões que o outro faria ao descobrir a verdade completa daquela história que Osomatsu lhe apresentava.
Aquela promessa era de longe muito barata para os preços que ainda estavam por vir. Osomatsu, que já estava de pé em direção a saída, voltou a se sentar de frente a Choromatsu. Depois, tomou uma das mechas do cabelo do adormecido em sua mão sem muito cuidado, já que o feitiço ainda demoraria um pouco para passar, então, o outro rapaz não acordaria por qualquer coisa.
Choromatsu lhe lembrava de seu irmão dormindo. Até a expressão se fosse pensar mais um pouco, como se o mundo fosse um lugar muito cruel para que ele acordasse. Dessa forma, era melhor permanecer dormindo e, no caso de Ichimatsu, isso era por um tempo indeterminado. Osomatsu desceu a mão, fazendo com que descansasse sobre a bochecha de Choromatsu.
Ainda era muito cedo para que desistisse de suas intenções. Entretanto, aquele era um rapaz bem jovem para o potencial que tinha para ser um alvo seu. Segundo Todomatsu, Choromatsu nem ao menos teve uma namorada em seus 22 anos. Mundo injusto aquele. Afastou-se, então, disse em tom de advertência que ninguém além de si mesmo iria ouvir:
— Realmente, seria bem melhor para você se não nos víssemos de novo.
(...)
No dia seguinte, Choromatsu teria negado ter se encontrado com Osomatsu. E a expressão confusa que deu aos irmãos quando se viram de manhã teria sido o suficiente para que acreditassem em sua história, o que foi ótimo, porque ele nunca foi bom em mentir. A confusão, de fato, havia sido legítima, mesmo que por motivos diversos. Havia sido justamente por ter tido seu primeiro sonho em muito tempo.
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