Fear the Monster
15 XV
Notas iniciais
Ele entrou no quarto, achando-a esparramada na cama.
— Tudo bem...? – disse, fechando a porta.
— Na medida do possível.
— Por que está assim, então?
— Eu tenho alguma outra coisa pra fazer?
Calou-se.
Olhou-a mais uma vez, antes de entrar no banheiro para tomar banho.
Tirou suas roupas e entrou embaixo do chuveiro. Encostou sua testa na parede, deixando a água escorrer por suas costas. Seu dia fora cheio, e não via a hora de dormir, assim como não via a hora de ficar perto de Rey. Sentir seu cheiro e tocar sua pele lhe pareciam as melhores soluções momentaneamente para seus problemas. Hux falara na sua cabeça o dia todo, frisando o quanto precisava negociar pessoalmente as novas armas e constatar de que eram boas. Estranhava que seu general ainda não o tivesse questionado mais a fundo a respeito da última batalha, como era de costume quando o ruivo desconfiava de si. Tinha receio dessa atitude.
Precisava manter um pé atrás.
Após sair do banho, Rey continuava deitada na cama, apesar de que sentira novamente uma forte energia fluindo da garota, que logo se esvaiu.
— O que foi isso? – questionou-a.
— Isso o que?
— Já é a segunda vez que sinto essa energia em você. – ela tornou sua cabeça para ele. – Logo que sinto, ela some.
— Não sei do que você está falando.
— Como não?! Não é possível que você não sinta! Vem de você!
Ela olhou-o como quem pedisse para que ficasse quieto. Logo em seguida, um pequeno droid entrou pela porta, colocando duas bandejas sobre a mesa, e saindo.
— Duas? – disse, erguendo a cabeça da cama.
— Sim. Vou comer com você hoje.
Se olharam. Ela levantou da cama e seguiu para a mesa.
A refeição se passou silenciosa e sem grandes acontecimentos. Rey não soltara uma palavra que fosse, e ele entendia o porquê. Vivendo praticamente a vida toda em um lugar onde comida era algo disputado, uma pequena refeição feito aquela tornava-se um enorme e glorioso banquete. Sentia algo bom emanando dela quando ela comia: era sua alegria em poder comer sem ter que racionar para o dia seguinte. O brilho em seu olhar era cativante.
Após terminarem, levantou e pegou as duas bandejas, colocando do lado de fora do quarto, para que fossem recolhidas. Rey ainda se encontrava sentada à mesa. Nenhum dos dois sabia o que fazer, e um silêncio tímido tomou conta do ambiente. Lentamente, dirigiu-se para a poltrona e sentou-se, quase desmontando-se no estofado. Aquele olhos encantadores o fitavam, indicando sua vontade.
— Diga.
— Hm?
— Você quer dizer algo.
— Não exatamente. – abaixou a cabeça, encostando na mesa e mantendo seu olhar nele. – Só...
— Só...?
— O futuro.. Me parece incerto. – respirou fundo.
— Sinto o mesmo. – abaixou o olhar.
— Eu só... Queria voltar para casa.
— Jakku?! – ergueu o olhar novamente. – Por quê?!
— Não! – soltou um risinho. – Jakku não.
— Então que casa você teria?
— Casa não necessariamente é um lugar, podem ser pessoas... – seu tom de voz era suave e melancólico.
— Ah. Entendi. – ríspido, virou o rosto.
— Não entendo porque você reluta tanto.
— Podemos, por favor, não falar sobre isso? – estava visivelmente incomodado.
Silêncio.
Alguns minutos se passaram até que houvesse diálogo novamente.
— Amanhã faremos uma parada. Você se vira sozinha?
— Eu passo os dias sozinha, só você que não percebeu. – respondeu, ríspida. – No espaço ou num planeta, eu continuo trancada aqui.
— É necessário.
— Se você me deixasse ir...
— Mas que... Eu já pedi, podemos não falar sobre isso?!
— Não, não podemos. Vai me manter aqui até quando?
— Até quando eu quiser.
— Você é muito egoísta, Ben Solo.
— Sou. Sou mesmo. Se isso é necessário pra eu não te perder, então eu sou.
— De novo isso...?
— De novo o que?! – levantou-se, abrindo os braços, inconformado. – Não foi você quem quis falar disso? Vamos falar então. Eu já disse e digo quantas vezes você quiser ouvir que eu não vou te perder para aqueles imundos. Eu não vou ficar sem você novamente, não vou. – cega pela fúria, sua mente não contabilizou quando seus olhos a viram aproximando-se. – Só eu sei a angústia que eu sinto com aquelas pontes vindas do nada, com você aparecendo e sumindo e sem eu poder fazer nad... – o ar saiu bruscamente de seus pulmões ao sentir aqueles braços finos e macios circundando seu corpo.
— Eu já disse que você pode vir comigo. – sua voz era doce e carinhosa – Ai nunca mais vai me perder, nunca... Eu prometo.
Seus olhos encheram-se de água e seu corpo ardeu em chamas. No fundo, era aquilo que ele queria.
Respondeu ao abraço, acolhendo-a em seus braços. Uma onda de coisas boas tomou conta de seu coração, fazendo-o sentir-se completo e amado, de uma maneira extremamente tranquila.
— Você é a única coisa boa que existe na minha vida... – sussurrou, tímido, em meio às lágrimas. – Não aguento mais tanto sofrimento. Sem você, tudo volta a ser agonia e dor... – ela ergueu seu olhar, vendo-o chorar. – Por favor, não me deixe...
— As coisas vão acontecer do jeito que têm que acontecer. Só cabe a nós aceitarmos... – sentia seu coração aflito bater forte no peito.
Por instantes, ficaram ali, aproveitando aquele gesto que para ambos era reconfortante. Seus dois corações dividiam seus conflitos e se ajudavam mutuamente. Nada mais no mundo parecia ser melhor do que aquilo.
— Rey...?
— Diga...
— Posso dormir com você?
Algumas horas já haviam passado, mas ainda não conseguira dormir. Ele, ao contrário, desmaiara assim que seu corpo tocou o colchão. Seus braços fortes a rodeavam e a mantinham perto de si, num gesto de insegurança e clemência para que não fosse embora. Sabia que no fundo ele era apenas um menino assustado. O universo lhe empurrou muitas responsabilidades e cobranças quando menos suportava, resultando naquela figura negra e furiosa que todos na galáxia temiam. Sentia-se privilegiada de poder ver seu lado mais puro e inocente que, desorientado, aos poucos voltava ao seu lugar, tendo cada vez menos Kylo Ren aonde agora havia Ben Solo.
Observava suas feições enquanto dormia. Eram sérias, raivosas e tensas. Nem no momento em que mais se deveria relaxar, ele conseguia. O medo lhe fazia ficar alerta. Passou a mão suavemente por aquele rosto pálido, acariciando-o. Sentiria dor em deixá-lo, mas sabia que não seria por muito tempo. Tinha certeza que logo se reencontrariam.
Em uma mudança brusca, sua mente levou-a para outro lugar, deixando-a zonza. Fechou seus olhos para processar tudo com calma, apesar de não conseguir. Havia um lugar, cheio de árvores muito altas, formando uma mata densa. Mais adiante, havia uma construção. Haviam vozes, muitas vozes, e muitos passos. Não conseguia focar em nada, e isso lhe dava dor de cabeça. Exponencialmente, a rapidez com que as imagens passavam em sua mente aumentava, deixando-a confusa e em pânico, e com a mesma velocidade em que tudo aconteceu, tudo parou, focando como na outra vez: Finn. Sentia sua presença, seus sentimentos, sua energia. Era gratificante vê-lo ali.
Voltou para o quarto, envolvida por aqueles braços quentes. Lágrimas escorreram de seus olhos ao entender o que havia acontecido: a Força havia lhe mostrado o que tanto almejava.
Voltaria para seus amigos.
Suprimindo sua ansiedade, elaborou o plano em sua mente, repetindo várias vezes cada procedimento para que tudo ocorresse da melhor forma possível. O colocaria em prática assim que pousassem. Ele ficaria magoado, e talvez com raiva, mas era melhor assim.
Focou seu olhar nele.
Encostou seu rosto no dele, ainda acariciando-o. Fechou os olhos, deixando fluir seus sentimentos, aproveitando o pouco tempo que ainda teria com ele. Sentia sua mente, silenciosa e vazia, imersa em sono.
— Você também me faz bem. – sussurrou em sua mente. Pôde sentir suas feições relaxando após isso. Mesmo em sono, sua mente a escutava. – E eu juro, que você nunca vai estar sozinho enquanto eu viver. Existe amor em você, Ben... O meu amor por você.
Afastou seu rosto, vendo-o abrir os olhos lentamente, ainda com sono. Ele tentava focar seu olhar nela, não tendo muito sucesso.
— Eu... Ouvi.. Sua voz... – estava bêbado de cansaço, e vê-lo daquele jeito a fez rir timidamente.
Seu coração pulava no peito. Às vezes não conseguia acreditar no poder de suas conexões.
— Ben... – respirou fundo, olhando-o nos olhos. — Eu amo você.
Sonolento, ergueu a cabeça, demonstrando que havia compreendido o significado daquelas palavras. Com carinho e gentileza, ela beijou-o em uma das bochechas, sentindo seus sentidos esvaindo-se conforme se entregava novamente ao sono. Encostou sua testa na dele e pôs-se a chorar.
Um pedaço de seu coração estava partido.
Não temia mais o monstro. Amava-o, incondicionalmente.
Passou mais algum tempo em lágrimas, tentando acalmar seus sentimentos, e por fim, adormeceu.
Fale com o autor