Fear the Monster
5 V
Notas iniciais
Ataque, batalha e fuga. Esse fora resumidamente o resultado da noite anterior. Vários soldados feridos de ambos os lados, tiros em meio a chuva e por fim, a fuga rebelde em direção ao hiperespaço. Haviam falhado.
— Aparentemente, eles sabiam de nosso ataque, senhor. – Hux estava tão frustrado quanto seu líder.
Ela, obviamente.
— E quanto a rastreá-los? – Kylo Ren esperava alguma notícia boa.
— Não conseguimos, foram rápidos demais.
Sua vontade era socar aquela cara rosada. Mas sabia que o erro era seu: havia deixado que ela escutasse seus planos.
— O que faremos agora, Líder Supremo?
— Busque informações com nossos aliados. Precisamos de algum prumo para tomar as próximas decisões.
— Entendido, senhor.
Haveria um treinamento de soldados em breve, e Kylo Ren se dirigia para lá, acompanhado de Hux. Sentaram-se em seus lugares, e o treinamento teve seu início. Hux tecia vários comentários sobre novas armas e novos aliados em planeta x ou y. Seu líder fingia prestar atenção, quando queria mesmo era que ele calasse a boca.
— Senhor.. Permitiria que eu fizesse uma pergunta? – questionou o ruivo
— Faça.
— Como exatamente o Líd... Snoke morreu? O senhor disse que a garota o matou.
Seu olhar se fixou em Hux. Precisava responder com cuidado, caso contrário Hux desconfiaria de suas palavras. Não poderia deixá-lo saber quem fora o verdadeiro assassino de Snoke.
Nada vinha em sua mente. Nenhuma explicação, nenhuma desculpa, nada além da cena do sabre-de-luz azul obedecendo a seu chamado, partindo Snoke em dois. O jeito que Rey a olhara naquele momento, surpresa e aliviada. Os soldados, primeiramente em choque, posicionando-se para o ataque ao traidor. Não sobrara um para contar a história.
— Senhor...? – Hux o puxou de volta à realidade.
— Ela... é forte com a Força. – começou, buscando as demais palavras conforme completava a história. – Foi tudo muito rápido. Ela usou a força e acendeu o sabre de luz que estava ao lado de Snoke, cortando-o ao meio. Logo em seguida me apagou e... O resto você viu ao chegar ao quarto. – conseguira. Sua voz estava seca e ríspida.
— Entendo. Ela realmente é uma ameaça à Primeira Ordem.
— Sim.
— E.. O senhor não fez nada para impedi-la? – o olhar do general transparecia o prazer em aproveitar a brecha para atormentar seu líder.
— Acho que você não entendeu o quão forte ela é. – disse Ren, levantando sua mão lentamente, enquanto encarava Hux – Se quiser, posso demonstrar. – fechou-a, tirando o ar de seu general.
Este engoliu suas palavras, livrando-se das amarras da força impostas sobre sua garganta. Ainda estava curioso, algo não fazia sentido. Como a garota apagara alguém forte como Kylo Ren? Não entendia sobre a força, mas sabia que treinamento era preciso, e aquela catadora de lixo certamente não tinha isso. Olhou novamente para seu líder e viu uma gota de suor escorrer por sua cicatriz, enquanto ele encarava o treinamento que se seguia.
Como e quando ele decidira que estaria no comando no lugar de Snoke?
Deveria tê-lo matado enquanto pôde.
Estava em seus aposentos novamente. O treinamento havia sido satisfatório, e Hux havia parado de encher seu saco. Graças àquele ruivo idiota, as imagens iam e vinham. Sentia a mesma raiva que sentira naquele instante: quando Snoke cuspiu a verdade em cima de si. Quando cansou-se de ser chamado de fraco, não importando para Snoke o quanto demonstrasse sua força. Quando seu mestre torturava Rey, e algo dentro de si doía. Quando a mágoa e o ódio cresciam exponencialmente conforme o tempo passava. Quando a insistência de Rey em provocá-lo chegava a ser estranhamente prazerosa. Quando Snoke a pôs de joelhos em sua frente e ordenou sua execução. Quando encarou aquele olhar assustado e inocente, que clamava por piedade, e soube ali o que havia de ser feito.
Sentia a energia de Snoke. Sentia-o deleitar sua vitória antes que a mesma acontecesse. Sentia sua mente egoísta e nojenta pulsando em compasso com a sua, tomada pela adrenalina e o gosto amargo das palavras que ouvira pela última vez daquele que se denominara por muito tempo mestre, mas não passava de um parasita escroto.
Conduziu lentamente aquele sabre-de-luz conhecido seu, virando-o para Snoke. Ele ria, Rey chorava, e suas mãos tremiam. A luz vermelha encarava aquela doce figura à sua frente, enquanto a azul estava pronta para o abate.
Tudo era silêncio.
Snoke o olhava sem entender o que havia acontecido. Conseguia sentir a confusão dentro de sua mente, e sentiu-a calar-se quando o sabre atravessou seu corpo, indo em direção à Rey.
Aquela voz horrível e demoníaca saíra de sua cabeça. Era seu próprio guia a partir daquele momento.
O olhar de Rey vibrava. Sentia algo incrivelmente poderoso e animado irradiando dela. Sabia o que era aquele entusiasmo. Estavam em sincronia. Desejavam a mesma coisa, e ele havia feito. E assim agiram em sincronia, feito dois parceiros, dois amantes. Suas mentes eram uma, e aquele transe era maravilhoso. Não queria que aquilo acabasse nunca.
Quando seus pensamentos o cuspiram de volta à realidade, percebera que estava deitado em sua cama, largado, e rindo. Seus olhos brilhavam feito mil sóis. Seus lábios não continham a emoção e o êxtase de relembrar e sentir novamente tudo aquilo.
Ele matara Snoke, e graças a isso, teve Rey a seu lado como parceira por um momento que fosse. Isso era incrível.
Pôs-se de pé, sumindo com o sorriso de seus lábios. Estava a pensar nela mais uma vez. Acendeu seu sabre. Seu sangue fervia. Eram inimigos, não podia sentir isso por ela. Aquelas pontadas estavam voltando, lentamente. A cicatriz latejara, lembrando-o do que ela havia feito. Uma mistura de sentimentos tomou conta de si. Lentamente começou a andar, arrastando seu sabre-de-luz contra o chão, levantando fumaça. Parou no meio do quarto, desligou-o, e atirou contra um espelho, estilhaçando-o.
Nos cacos caídos, via a si mesmo, furioso. Se odiava e a odiava. Poderia tê-la matado se não fosse o grande poder que ela nutria dentro de si. Sabia que acabar com ela significava tirar uma forte arma da Resistência, abrindo brecha para sua queda. Mas algo bom dentro de si crescia. Algo confortante, que pedia ela ali, que implorava por sua presença, por sua voz e seu toque. Que sentia prazer em tê-la por perto. Poderia segurá-la pela mão e mostrar-lhe como a galáxia é vasta e bonita. Apresentar a ela tudo que a vidinha miserável em Jakku a impediu de conhecer. Poderia ser sua liberdade, mas também sua prisão. Poderia mantê-la consigo, treiná-la e torná-la uma aliada poderosa. Poderia colocá-la ao seu lado como também Líder Suprema e assim, tê-la quando quisesse em seus braços.
Sentou-se em uma poltrona próxima, jogando seu corpo contra o estofado.
Seu coração estava disparado.
Sentia uma atração estranha que não podia mais evitar. Não conseguira engolir o não que recebera dela, e cada dia mais a queria ali. Queria explorar seus poderes e convencê-la a ficar do lado certo dessa guerra, mas também queria pegá-la nos braços e fugir pra longe de tudo e todos, tendo ela, e tão somente ela, como sua fonte de vida e motivação.
Queria Rey. Precisava dela.
Não tinha mais como evitar.
O conflito dentro de si parecia se intensificar quando a imagem daquele rosto suave e inocente lhe vinha nos pensamentos.
Pôs a mão sobre os olhos. A claridade lhe incomodava.
Sabia que não podia fazê-la aceitar ficar ao seu lado com argumentos de guerra e promessas de poder. Mas algo dentro de si não permitia mais que a chantageasse ou invadisse cruelmente sua mente e a deturpasse, obrigando-a a ficar.
Tinha sentimentos demais evitando que fizesse bem a ela, e sentimentos demais impedindo-o de lhe fazer mal.
Ben e Kylo Ren dilaceravam sua mente em busca de uma solução para essa tortura, essa coisa horrível e indigesta que tomava conta de si desde que suas mãos se tocaram. Desde que ela negou ficar ao seu lado, e fugiu. Desde que o olhou com olhar de reprovação já a bordo da Millenium Falcon. Desde que ela se foi.
Era isso.
Se tudo começou quando ela se foi, a faria voltar. Ou iria até ela e a faria ficar.
Pôs-se de pé.
Já sabia o que fazer.
Instantes depois, enquanto banhava-se, pensava nos detalhes de como faria. Seu corpo estava em frenesi pois a ideia de tê-la ali se enchia de uma estranha e nova sensação que fazia seu corpo arrepiar.
O conflito dentro de si diminuíra, levando consigo aquela dor aguda que estava agarrada em seu peito.
Kylo Ren estava de volta. E ansiava vorazmente por Rey.
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