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13 Caindo o Último Neurônio


PALAVRAS DE LARA PACHECO

(Música: Phill Veras — Vício)

Mesmo diante de algumas discussões por causa das amizades de Douglas, e também depois do acontecido naquele dia, Doug e eu continuávamos nos entendendo do nosso jeito. Saíamos para trabalhar sempre pela manhã, e nos encontrávamos no flat no final do dia.

O serviço na livraria consistia em tirar exemplares das caixas, colocar nas estantes de acordo com as categorias, colocar preços, às vezes ficar no caixa e, raramente, servir cafezinho para o dono da livraria, o que eu achava meio fora do que havia sido combinado quanto ao serviço.

Naquele dia, meu celular tocou no meio do serviço. O número estava inibido, o que me fazia ficar mais curiosa para saber quem era, embora estivesse temendo que meu pai ou Sheila estivessem me procurando.

— Alô. — falei.

Não escutava nada do outro lado da linha, a não ser uma respiração muito ofegante, meio asmática. Lembrei-me imediatamente que meu pai poderia ter colocado alguém para rastrear a ligação e desliguei.

☺

PALAVRAS DE MÁRCIO FERRARI

Eu sentia ainda saudades dela. Desliguei o celular rapidamente quando ouvi sua voz pelo telefone.

Eu não sabia ainda o que estava acontecendo comigo. De repente, de uma hora para outra, subitamente, meu coração batia de outra forma quando pensava naquela garota.

O que era aquilo? Em toda a minha vida não tinha sentido nada igual.

— Márcio, o que você tá fazendo escondido aí? — Gabi e Valeska me encontraram sentado atrás do muro da cantina da escola. Como eu terminei a prova primeiro que elas, pude sair logo da sala de aula.

Escondi rapidamente o celular no bolso.

— Ei, o que é isso aí? — Gabi perguntou, vasculhando o bolso cujo eu acabara de mexer. — Hã? Você tá com celular?

Tomei o celular das mãos de Gabi e elas ficaram me encarando por algum tempo, até que eu abaixei a cabeça.

— Quer dizer que tá com segredinho pro lado das suas melhores amigas, né? Tá certo, Márcito QI. Se não queria mais falar seus segredos pra gente por que não avisou a mim e à Valeska?

Aquela pressão psicológica de Gabi Carvalho estava me deixando maluco.

— Por que eu não quis. — me sentei num banquinho que havia no local com o rosto apoiado em mãos.

— Beleza. Parece que você não tem consideração às suas amigas. — disse Gabi, num tom sério — Você está me saindo tão ingrato quanto a Lara. E não é de hoje, Márcio QI Ferrari.

— NÃO FALA DA LARA! — bradei. Em seguida, coloquei minha mochila nas costas e saí.

***

PALAVRAS DE GABI CARVALHO

Márcio QI ficou sem falar comigo pelo resto da semana e depois que acabaram as aulas, a recuperação (eu fiquei em Biologia e a Valeska não ficou) e entramos de férias ele simplesmente sumiu. Eu não entendi os chiliques dele. Eu sei que ele sempre foi fresco e tal, mas eu só queria saber o porquê de ele ter escondido um maldito celular de nós.

— Será que tem alguma coisa a ver com a Lara? Pode ser que ele tenha comprado um celular só pra falar com ela. — comentou Valeska, enquanto eu alisava com uma prancha os cabelos dela.

— Eita, agora senti o cheiro de queimado. Não sei se foi o seu cérebro que voltou a funcionar ou é o cheiro dos seus cabelos por causa da prancha. — brinquei — eu não tinha pensado nisso, mas pode ser, viu.

— Ou então, Gabi, pode ser que... Sabe, quando a gente vira moça... A gente...

— Sim, a gente fica bode, fica menstruada, o que é que tem?

— Será que o Márcio QI tá virando homem? Será que os meninos ficam “menstruados” também?

Bati fortemente com a prancha na cabeça da Valeska.

— AAAAAI, sua cachorra! Doeu, viu? — queixou-se.

— Mulherzinha, às vezes eu acho que tu não tem quase dezessete anos, sabia? Acho que o seu cérebro, Valeska, ficou lá na alfabetização e esqueceu de se desenvolver. É só ele começar a funcionar que ele pifa.

— Poxa, o que foi que eu fiz?

— Se menino menstruasse eles com certeza tratariam a gente melhor e saberiam também o que nós mulheres passamos. — falei.

— Espero que daqui a algum tempo eles possam ficar grávidos. Minha mãe sempre diz que a dor do parto é a dor da morte.

Eu ri.

— Valeska, mulher, tu tem uma imaginação tão fértil! Já pensou em ser escritora, nem que fosse no Nyah! Fanfiction?

***

(Música: I’ll Be Your Man – James Blunt)

Tiramos aquele dia para irmos à praia. Valeska foi só pra fazer charme e pegar um bronzeado, já que havia esticado os cabelos à força.

— Teu cabelo tá parecendo uma palha. — falei, enquanto estirava uma toalha na areia.

— Recalque seu, Gabi. Tá morrendo de inveja por não ter cabelo liso.

— Liso e falso?

Colocamos nossos óculos escuros e observamos a movimentação na praia. De repente, alguns caras saradões passaram na nossa frente. Eram jogadores de futebol que corriam em fila indiana pela orla seguindo as ordens de um treinador.

— Vamos, mocinhas! Vocês são homens ou ratos? — gritava o treinador.

Valeska se levantou e sentou rapidamente na areia ao observar um dos caras. Parece que ela já o conhecia de algum lugar.

— Gabi, acho que vou dar um mergulho... A água parece estar tão gostosa hoje...

Não falei nada. Valeska ficou de pé e saiu correndo em direção ao mar. Até que esbarrou de propósito em um dos bonitões. Antes que ela caísse, ele a segurou, deixando a garota bem próxima ao seu corpo (suado/sem camisa).

— Oh, sorry... — disse Valeska, envergonhada. Não, ela não é uma daquelas patricinhas que misturam o inglês com a nossa língua materna — mim não saber falar tua língua.

— Como não? — o jogador se espantou — Eu conheço você, daquele dia lá na academia. Você estava sendo assaltada e eu coloquei o ladrão pra correr.

A tonta foi pega na mentira.

— Sério que você se lembrou de mim? — ela sorriu, jogando mais charminho pra cima dele.

— Claro, como não me lembrar desse sorriso lindo?!

Os dois ficaram se olhando por um tempinho, até que o treinador apareceu e deu um belo cascudo no jogador.

— Isaac Sanches, sua anta! É só aparecer qualquer rabo de saia e você já vai logo perdendo o foco, né? Bora, rapaz, ou eu faço você correr por mais meia hora, e lá na areia quente.

Ele olhou para ela e acenou. Um “a gente se vê por aí” sem ter de usar palavras. Valeska voltou para onde eu estava, sem ter nem entrado na água.

— Ai, amiga... acho que encontrei o homem da minha vida! — suspirou. — Isaac... Isaac...

— Aff, mulher, se preserva! De onde tu conhece essa anta bombada?

— No dia que você e o Márcio QI me deixaram do lado de fora da academia, um cara veio tomar meu celular, mas esse príncipe apareceu e me salvou! — suspirou novamente — Ai, Gabi, e eu nem te conto! Eu acho que o ladrão era o João Paixão. Lembra dele?

E como não se lembrar do João Paixão? Ele era amigo do Douglas Loreto, aquele namoradinho que Lara teve quando estávamos no primário. O menininho já era mirim desde aquele tempo, quando foi acusado pela própria Lara de ter roubado o celular dela. Ele deixou a nossa escola no final daquele ano, quando não tivemos nem notícias dele e muito menos do tal Douglas.

— Valeska... Você se lembra daquele cara, muito amigo dele? O Douglas Loreto?

— Claro, aquele que tinha o cabelão! A professora disse que ele foi morar no Rio de Janeiro. Eu me lembro que a Lara ficou triste por uns dias por causa disso.

Subitamente as imagens de Lara e eu perdidas naquela estrada do Rio de Janeiro depois de sermos abandonadas pelo motorista do ônibus vieram à minha mente. O cara do Chevette preto que nos dera carona. O rosto dele nos era tão familiar! Cabelões, olhos tão negros, fundos... ERA ELE! “Anjo” era Douglas!

— VALESKA!!! Eu acho que tô pegando tua doença!

— Eu não tô gripada!

— Ai, ai... Amiga, eu sei com quem a Lara tá lá no Rio. É com o Douglas, criatura! Foi ele quem nos deu carona quando estávamos perdidas na estrada. Foi ele! Ai, como eu fui burra e não percebi que era ele! — bati na minha testa.

— Mas e o que a gente faz?

— Vamos procurar o Márcio QI e contar tudo a ele. Daí a gente aproveita e pede desculpas àquele fresco. Levanta o popozão seco daí e vem comigo.

Valeska se levantou, mas ficou olhando para onde Isaac tinha ido, esperando que ele voltasse.

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PALAVRAS DE MÁRCIO FERRARI

Minhas férias no final de 2011 se resumiam em passar o dia todo trancado no quarto fazendo fotossíntese. Tá, transformando oxigênio em gás carbônico ou, para os menos experientes, respirando.

O notebook estava ligado enquanto eu jogava Counter Strike. Havia alguns pacotes de salgadinhos jogados no chão, pratos e talheres também. Eu não costumava fazer aquilo, pois sabia que poderia criar uma colônia de bactérias e tal... Mas eu estava numa fossa só. E tudo por ter ouvido a voz da Lara pelo telefone e, claro, por ter brigado com a Gabi e com a Valeska.

Ouvi três batidinhas na porta. “Porra, esqueci de trancar com a chave”, pensei. Também pensei em estar pensando palavrões demais.

— Oi amigo!!! Que saudades de você! — Valeska e Gabi entraram no meu quarto, se jogaram na minha cama e me abraçaram.

— Poxa, gente! Cês vão quebrar meu notebook! — falei, me mordendo de ódio.

Valeska puxou o notebook para si e abriu a tampa. Quase caiu pra trás quando viu o papel de parede.

— Gente! Tô passada! Então você gosta mesmo da Lara, Márcio? A ponto de colocar a foto dela no papel de parede do seu notebook sagrado?!

Cobri-me com o lençol e falei:

— Vão embora. Não quero falar com vocês duas.

— Eu sei onde a sua queridinha está e com quem ela está. A gente pode trazer ela de volta pra Fortaleza. — disse Gabi, pegando meu notebook e logando na sua conta do Facebook.

— O que cê tá fazendo?

Ela ficou em silêncio, procurando por uma pessoa na caixa de busca da rede social.

— É ele! — ela me mostrou o computador. — Douglas Loreto, o mesmo que estudava com a gente no primário.

Gabi propôs que nos uníssemos à Sheila, que queria mais do que tudo trazer Lara de volta por algum motivo, para darmos o endereço de Douglas Loreto a ela. Fiquei desolado. Jogar sujo pra ter a Lara de novo?