Fazer Teu Próprio Amanhã.
1 Não Consigo Dormir.
Notas iniciais
Menino - Supercombo.
Estava numa cama de um hospital particular, essa não é bem o tipo de doença que se fica internado, mas minha mãe pediu pra que eu ficasse. Ela tinha muito medo que eu acabasse me machucando, provavelmente por causa dos sintomas que afetam os músculos. Eu já sabia que eu havia desenvolvido esclerose múltipla, só não sabia quanto tempo ainda tinha. Já era cerca de 00:30 mas eu não estava com sono. Olhei pra minha mãe, ela estava encostada num canto de parede, seus cabelos agora grisalhos porém continuavam longos, jogados por cima do ombro direito. Ela tentava esconder seu desespero pra não me preocupar, encarava meus exames como quem perguntava “por que logo você?”. Sentia como se estivesse em uma seção de acupuntura, mas dessa vez não era nada relaxante.
— Mãe... – Minha voz falhou um pouco por não ter usado ar suficiente pra projeta-la.
— Oi meu amor, ainda está acordada... – Ela tentou esconder os papéis em suas mãos.
— Não consigo dormir. – minha voz ainda estava falhando, sorri breve.
— Está se sentindo mal? – Ela parecia preocupada.
— Não, é que eu to lembrando das minhas aventuras com Anna – Finalmente minha voz voltou ao normal, ela sorriu aliviada.
— Quer me contar sobre vocês? – balancei a cabeça assim que ela terminou a frase.
— Você se lembra da minha infância ainda? – Dei espaço pra que ela se deitasse ao meu lado na cama estreita.
— Ohh, é claro que lembro... não lembro de tudo por causa da idade né, mas mesmo assim ainda lembro... – Soltou seu sorriso maravilhoso pra mim e então deitou ao meu lado.
— Me lembro bem do sol cinzento fazendo contraste com o mar cor de esgoto. Eu ainda não me conhecia bem, era um garotinho magro, pele muito clara, cabelos escuros e lisos como os seus, a única diferença era que os meus estavam na maioria do tempo bagunçados quase sempre esbarravam nos meus olhos castanhos escuros. Você tinha um rosto fino, um sorriso maravilhoso que não mudou nada, seus cabelos longos chegavam até a região da pélvis, seu tom de pele também era claro como o meu e por sinal ela também era bem magra, já meu pai, ele tinha cabelos escuros entre alguns grisalhos, olhos verdes, era um pouco pançudo e seu tom de pele era quase moreno, só vivíamos nós três no apartamento. Todo final de mês um homem batia na porta e discutia com meu pai, nunca consegui ver o rosto dele porque você sempre me puxava pra próximo de ti e me abraçava forte. Lembro que pai havia sido despedido do trabalho por não estar sendo mais tão produtivo, ele não comentava sobre o trabalho quando eu estava por perto mas falou um tempo antes sobre termos que ir pra casa da mãe dele.
Então tivemos que nos mudarmos pro interior, você dizia que precisava cuidar da minha avó, porque ela estava sozinha a um tempo, e que eu ia conhecer meus parentes do interior, sempre pensava que você queria dizer que eles estavam dentro de mim.
A casa da minha avó era enorme, totalmente cercada por árvores das mais diferentes espécies, cômodos grandes demais pra meu tamanho, tinha apenas seis anos, eu não sabia como as coisas funcionavam lá, nunca tinha vistos tantas animais. Então você me apresentou Anna, dizia ela ter a mesma idade, era uma garota meio morena, um marrom claro, um pouco mais alta que eu, seus cabelos cacheados caídos sobres os ombros e seus olhos diferentes de tudo que já tinha visto, próximo da pupila era verde, escurecendo ao castanho enquanto chegava a borda da íris, ela estava de frente pra mim quando sorriu mostrando o dente que faltava ao lado da presa, sorri também, exibindo que também me faltava o mesmo dente.
“Por que vocês não vão brincar?” Você falou enquanto eu e Anna nos olhávamos.
“Vem comigo!” Disse Anna puxando minha mão, me guiando até o gramado próximo à casa.
“Minha mãe falou que você é da cidade...” ela arregalou os olhos esperando minha resposta.
“Sim, lá é bem diferente daqui...” falei olhando em volta.
“Me segue!” ela gritou e saio correndo pro mato...
Corri em direção a ela, estava descalça mais ainda sim corria bem mais que eu, ela correu ao redor de uma árvore até que eu caí ralando o meu joelho e minha mão em umas pedrinhas que haviam espalhadas por todo o chão. Olhei pra ela com meu olhos cheios de lágrimas pronto pra soltar o berro quando ela tapou minha boca com uma goiaba.
“Por que você está usando chinelo?” ela perguntou indignada, como se não fosse comum usá-los.
“Você não sabe andar descalço?” Mais uma pergunta, ela sempre me enchia de perguntas, ela sempre quis saber sobre tudo.
“Eu não sei andar descalço, e aqui tem muita pedrinha, eu não quero furar meu pé.” Respondi ela enquanto ainda me levantava do chão. Foi quando ela começou a falar repetidamente “Menino da cidade não sabe andar descalço” e depois riu bem alto.
“De onde eu vim as pessoas vão passear de carro!” Estava com muita raiva, ela não precisava ter rido de mim daquele jeito, mas a tentativa foi falha, só fiz ela rir mais alto ainda...
— Vocês ficaram bem próximos não foi? – Estava olhando pra mim como se estivesse se culpando por tudo, parece que eu não consegui distrair ela, quebrei o silêncio relatando mais uma memória:
— Teve um dia que ela me levou no quarto da vovó, estava deitada, olhando pra cima, eu vi seus cabelos cinzas e ondulados, e todas as rugas, queria ter falado com ela antes dela ter ido...
— Ela já não falava mais quando a gente se mudou pra lá, ela praticamente só respirava. – Vi seus olhos enchendo de lágrimas até transbordarem. Mais uma vez tentei distraí-la com uma lembrança minha:
— Lembro de quando eu planejava dominar o mundo com meus colegas da escola, como sempre a Anna era a líder da rebelião, mas só até a diretora aparecer... – Ela largou mais um dos seus sorrisos pra mim, me senti aliviada por fazer ela se sentir melhor.
— Quero ouvir mais das suas aventuras com Anna! – Ainda esbanjava o sorriso.
— Vou contar todas enquanto eu lembrar. – Escolhi as palavras erradas, foi o suficiente para o sorriso se desfazer.
— Você fez bem deixando ele crescer, é lindo... – Passou a mão no meu cabelo.
— Eu tive uma boa progenitora não foi mesmo? – Falei enquanto eu acariciava o rosto dela, secando a lágrima que escorria, eu estava com um pouco de dificuldade pra fazer a simples ação por causa da doença, sentia meu braço direito fraco.
Naquela noite ela dormiu comigo, seus cabelos cinzentos entrelaçavam-se com os meus mostrando a diferença de cores, ficamos abraçadas na cama apertada do hospital, ela sempre esteve do meu lado pra tudo, o que eu menos queria era deixa-la triste, mas esse não é do tipo de problema que se resolve com palavras.
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