Fazendo Meu Filme 5 - O Casamento Da Fani
33 Capítulo 32 - Final
Notas iniciais
"O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver."
(Gabriel G. Marquez)
–x-
Leo
Dei uma olhada no salão, admirado com o ótimo trabalho da organizadora de festas.
Quase que de imediato, me lembrei da briga que foi de convencer a Fani a contratar alguém que cuidasse das festas de aniversário.
Depois do susto que passamos no aniversário de três anos da Mel, não queria mais que minha esposa se estressasse tanto assim na organização das futuras festas de aniversário.
No terceiro aniversário da Mel, fizemos uma festa grande, chamamos todos da escola dela, das nossas famílias e os nossos amigos. Na época, minha esposa já estava grávida da Emma.
Na véspera da festa, Fani, grávida de seis meses, não estava se sentindo bem, mas omitiu isso e continuou tentando resolver os problemas que haviam surgido. Quando chegamos em casa de noite, foi só para pegar os documentos e seguir direto para o hospital.
Minha esposa quase entrou em trabalho de parto prematuro por conta do estresse e precisou repousar pelo resto da gravidez.
Ela hesitou bastante em deixar a organização das futuras festas de nossas filhas nas mãos de outra pessoa, mas consegui convencê-la utilizando o argumento de que ela poderia aproveitar bem mais a festa se não precisasse ficar se preocupando se todos já haviam sido servidos.
Além do mais, também falei, caso qualquer problema ocorresse, a organizadora logo viria nos comunicar.
Nós podemos pagar, então não vi problema algum em deixar essa tarefa nas mãos de outra pessoa.
Convencida, mas ainda contrariada, Fani aceitou a ideia, e a festa de cinco anos da Mel e do Rafa foi organizada por uma moça chamada Laura e com experiência em festas infantis.
— Você não está nem aí para o que eu estou falando, não é? — reclamou o Alan, bebericando sua água.
Nós até procuramos por algo mais forte, mas minha esposa era totalmente contra bebidas alcoólicas em festas de criança e a Gabi também.
— Desculpa, cara. Eu estava em outro planeta. — me desculpei, bebendo um gole do suco que estava em meu copo.
Ao nosso lado, nossos amigos conversavam animadamente.
— Percebe-se. Mas você pelo menos se lembra do tópico da conversa?
Pensei um pouco.
— Alguma coisa sobre a sua teoria maluca de que a Fernanda está grávida. — arrisquei.
— Não é teoria, eu estou te dizendo. Ela está grávida, mas não sabe.
— Como ela pode não saber? É o corpo dela! — falei.
— Acredite em mim, a Fê só vê o que quer ver. Ela é bem teimosa.
— Digamos que ela estivesse, e então? Qual o próximo passo?
— O mais óbvio seria contar a ela, mas a Fê é, além de teimosa, advogada. Eu precisaria de provas, evidências.
— A julgar pela sua expressão, eu diria que você já as tem. — observei, apontando o sorriso ridículo que estava no rosto do meu amigo.
— Passei a semana prestando atenção em todos os movimentos dela, o que ela anda comendo, o quanto ela anda dormindo, se tem estado sensível... Consegui reunir as provas que precisava e comprei o bendito teste de farmácia. Está na minha gaveta, esperando o momento para ser usado. Por mim nem precisaria, mas ela vai querer uma fonte confiável.
— Você realmente pensou em tudo. — comentei, erguendo o meu copo — Meus parabéns, você vai ser papai.
— Obrigado. Cá entre nós, eu estou eufórico com a notícia. — confessou.
— E deveria. Uma criança é uma benção. — concluí, vendo minha filha mais velha se aproximar correndo.
— Papai! — gritou, abrindo os bracinhos para que eu a carregasse nos braços.
— Minha princesa! — a peguei nos braços, dando um beijo em sua bochecha.
– Hoje eu sou a Mulher Maravilha, papai! — reclamou, apontando com as mãozinhas para a fantasia que vestia.
— Eu sei, mas para mim será sempre uma princesa! — falei, depositando um beijo em seu nariz — E então, cadê a sua irmã?
— Eu queria brincar no pula-pula com ela, mas ela estava dormindo quando fui falar com a mamãe. — explicou, mostrando sua insatisfação em não brincar com a irmã mais nova no brinquedo favorito das duas.
— Quer ir lá ver se ela já acordou? — ofereci.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, antes de acrescentar:
— Mas eu quero ir nos seus ombros, papai!
— Não acha que está um pouco velha para isso? Já tem cinco anos agora... — brinquei, fazendo cócegas em sua barriga.
— Sem chance! Você ainda vai me carregar muito, papai.
— Tudo bem, vamos lá. — concordei, a segurando pelos braços e a colocando em meus ombros.
Pedi licença aos meus amigos, que riram assim que a Melissa bagunçou o cabelo de cada um deles enquanto passávamos.
— E então, onde está a mamãe? — perguntei, olhando para cima.
— Ali! — respondeu, apontando com o indicador a direção da mesa.
— Então vamos lá. — falei, começando a andar, enquanto a minha filha bagunçava meu cabelo e fazia minha cabeça de tambor.
—x-
Fani
Senti a barra do meu vestido ser puxada, o que me fez olhar para baixo, com impaciência.
Minha expressão impaciente se desfez em um sorriso quando vi minha filhota vestida de Mulher Maravilha me abrir um sorriso com a boca toda suja de sorvete.
— Mamãe!
— Oi, princesa! Está se divertindo? — perguntei, agarrando um guardanapo da bandeja de um garçom que passava e limpando a boca da Mel.
— Muito! Essa é a melhor festa de aniversário de todo o planeta! — falou, abrindo os bracinhos para dar ênfase ao que falava.
Eu ri, a envolvendo num abraço meio desajeitado, por conta da Bela Adormecida em meus braços.
Era a festa dupla de aniversário em comemoração aos cinco anos da Melissa e do Rafael, que nasceu uma semana depois da minha filha.
Eles escolheram super-heróis como tema, então a Mel estava de mulher maravilha e o Rafa de Batman.
Emma também queria se fantasiar, mas de Bela Adormecida. E os gêmeos queriam vir de marinheiro e roqueiro. Quando fomos ver, estávamos com nossos filhos todos fantasiados, cada um a seu gosto. Um verdadeiro carnaval.
— Emma já está dormindo? — perguntou, surpresa. Até um pouco chateada.
– A sua irmã ainda é pequena Mel, ela não tem toda essa energia. — expliquei, passando a mão pelas madeixas castanhas de seu cabelo.
— Ah, mas nós nem brincamos no pula-pula ainda! — reclamou, cruzando os braços e fazendo um bico.
— Quem sabe mais tarde ela não acorde e vocês brinquem? — tentei contornar a situação.
— Tudo bem, eu e o Rafa vamos brincar enquanto isso. — falou, arrastando o amigo, que passava por ali.
Ri sozinha, me dirigindo para a mesa onde as meninas estavam. Em todos os anos nós nos reunimos quando dá, e dessa vez foi no aniversário das crianças.
— Quer dizer que a Bela Adormecida apagou? — perguntou a Gabi, empurrando a cadeira com o pé para que eu sentasse, visto que segurava o pequeno Felipe nos braços.
— Pois é!
Dei uma olhada na mesa, onde todas as minhas amigas estavam sentadas ao redor, conversando.
Em outras mesas, nossas famílias conversavam alegremente, todos na mesma sintonia.
Tracy, Ana e Natália discutiam a criação de meninos, recebendo pitacos da Gabi e da Pri na conversa de vem em quando.
Eu, no momento, estava calada, percebendo o quão gratificante era ver todas as minhas amigas se darem tão bem. Nós éramos uma verdadeira família.
— O que você tanto olha? — perguntou a Tracy, me encarando.
— Nada, só estava pensando. — respondi.
— Mudando de assunto, alguém aí está conseguindo enxergar o Lucas? — perguntou a Nat, esticando o pescoço para tentar encontrá-lo em meio à multidão de crianças que corriam pelo espaço reservado para os brinquedos.
— Ah, achei! — exclamou a Ana, apostando com o dedo — Ali, na fila do castelo de bolinhas.
— Ah, obrigada.
— Por falar em crianças, — começou a Gabi — você não acha que já está na hora de um irmão ou uma irmã para o Lucas? Ele já tem sete anos.
Minha melhor amiga já estava em seu terceiro filho, o Felipe, que já tinha um ano.
— É verdade, amiga! — concordou a Pri — Mas se bem que a Gabi e o Victor parecem coelhos! Mal esperam nascer um e já emendam outro!
O resto da mesa também concordou, rindo, enquanto a Gabi nos encarava boquiaberta.
– Bem, eu não tinha planejado outro bebê, o Lucas era para ser filho único, mas o Alberto não descansou enquanto não colocou outro filho no meu útero. Estava esperando justamente alguém perguntar para dizer: eu estou grávida de novo!
— Ai, não acredito! Por que você sempre faz isso? — reclamei, depois de quase me engasgar com o suco e ter um acesso de tosse.
— Faço o que? — perguntou minha amiga.
— Dar a notícia assim, sem nenhum preparo! Eu quase morri afogada aqui! — reclamei, enquanto as meninas riam.
Todas nós a parabenizamos, enquanto o garçom trazia taças de suco para celebrarmos.
– Seu marido ainda conseguiu esperar por sete anos. A Mel fez três anos e eu já estava grávida da Emma! — observei.
— É, temos que concordar, o Leozinho é rápido no jogo! — brincou a Gabi.
— Mas não mais rápido que o meu Chris! — exclamou a Tracy.
— Ah, isso até eu tenho que concordar! — falei, rindo.
O Troy, segundo filho da Tracy, nasceu menos de um ano depois que o Thomas, numa gravidez tranquila e saudável. Ao contrário do irmão, que era um sapeca, o Troy era extremamente calmo.
— Em minha defesa, nós acabamos de mudar para o Canadá, então resolvemos esperar o Nicolas se acostumar antes de tentarmos introduzir mais um membro na família. Mas adotamos um cachorro! Isso conta? — a Pri disse, arracando gargalhadas de todas nós.
– Meu marido fez dois de uma vez, já para se livrar da responsabilidade! — brincou a Ana Elisa — Mas sim, eu penso em termos pelo menos mais um. Talvez uma menina.
— Bem, eu realmente não tenho planos de mais um filho. — disse a Gabi.
– Eu me sinto satisfeita com a Mel e a Emma. — concordei.
– Pretendo ter mais um, pelo menos. — falou a Pri.
– E vocês, Nanda? Algum plano de ter um bebê? — perguntou a Nat.
– Já expliquei a situação a vocês... Eu não acho que ter filhos é algo que tem muito a ver comigo. Não sei, só não estou interessada. — ela respondeu, dando de ombros e dando um sorriso sem graça.
– Bom, então essa mesa deve ser extremamente irritante para você. Só falamos de crianças até agora! — observou a Ana.
— Na verdade não, eu gosto de ouvir vocês falarem sobre seus filhos.
– Ah, que bom. Mas se em algum momento se sentir incomodada ou entediada, nos deixe saber, e aí mudaremos o tópico da conversa. — disse a Gabi, segurando a mão dela e lhe oferecendo um sorriso amigável, que foi correspondido à altura.
Senti a Emma se mexer em meu colo e voltei meus olhos para baixo, encarando seu rosto sonolento.
— Acordou, Bela Adormecida! — brinquei, passando o indicador pelo seu nariz.
– Mamãe, a festa já acabou? — perguntou, se sentando.
— Não, princesa. — respondi, vendo o rostinho dela se iluminar.
– Então posso brincar no pula-pula com a Mel? — perguntou, praticamente pulando no meu colo, totalmente desperta.
— Claro! Só tome cuidado e fique sempre com a sua irmã, tudo bem?
Exatamente nesse momento, meu marido passou, carregando a Melissa em seus ombros.
— Mel! — gritou Emma.
Melissa, assim que desceu dos ombros do pai, veio correndo para dar um abraço na irmã.
— Você acordou! Vamos pular no pula-pula?
— Vamos! — concordou a mais nova, antes de se afastarem da mesa e serem interceptadas pelo pai.
— Não ganho nem um beijinho? — perguntou o meu marido, se ajoelhando e ficando na altura delas.
Elas sorriram, cada uma indo para um lado e depositando um beijo na bochecha do pai. Depois, deram as mãos e saíram andando em direção ao brinquedo.
Eu olhava a cena apaixonada, preenchida por amor e felicidade. É gratificante ver essas situações e perceber que você está seguindo o caminho certo.
Quando nos tornamos pais, surgem milhares de dúvidas em nossas cabeças. Será que estamos fazendo isso certo?
A verdade é que, quando se é pai, você faz de tudo para dar ao seu filho a melhor educação que você pode oferecer, fazendo tudo que pode e dando o seu melhor para a formação moral e intelectual daquela pessoinha.
Sorri, ao ver meu marido vir em minha direção, com aquele sorriso que me mata.
– Olá, senhoras. Oi, amor. — cumprimentou, antes de se curvar e me beijar suavemente.
– Olá, querido.
– Vocês me deem licença, mas eu vou sequestrar a minha mulher um minutinho, ok? — informou às nossas amigas, que assentiram, rindo.
Nós dois deixamos a mesa e seguimos andando, desviando de crianças que porventura ali passavam.
Eu não fazia ideia para onde estava sendo levada, mas me deixei ser conduzida pelo meu marido, que de vez em quando olhava para trás e me lançava um sorriso lindo.
Paramos de caminhar quando nos afastamos do salão principal da propriedade onde acontecia a festa e nos aproximamos da saída lateral, que dava num jardim.
O Leo empurrou a porta que nos separava do ambiente, me guiando no caminho de pedras até o pátio, que era rodeado por vários bancos.
Honestamente, não achei o jardim grande coisa, ele provavelmente tinha mais a oferecer de dia.
– O que estamos fazendo aqui? — perguntei.
— Nada, só queria você para mim um pouquinho. — confessou.
— Você me tem completamente, para sempre. — falei, beijando seus lábios de maneira carinhosa e intensa.
— Sabe o que me convenceu a fazer a festa aqui?
— Não — respondi, curiosa com o rumo da conversa.
— Exatamente o lugar em que estamos agora.
Olhei em volta, tentando entender o que meu marido havia visto de tão especial naquele jardim.
— Bem, é um lugar bonito, mas você não acha que precisa de um pouco mais de iluminação? — perguntei.
— Tem um motivo pelo qual esse lugar não é iluminado, amor. — observou, me deixando intrigada.
Antes que eu pudesse perguntar, ele completou, sorrindo de uma maneira apaixonante:
— Pronta?
– Não sei o que você está aprontando, mas confio em você. Estou pronta.
– Olhe para cima. — pediu.
Perdi o ar ao fazer o que havia me pedido. O céu acima de nossas cabeças estava repleto de estrelas, realçadas pela falta de iluminação do local.
Pus as mãos na boca, sem palavras.
– Lindo, não é? — perguntou, me fazendo encará-lo.
— Absolutamente perfeito. — sorri, beijando-o com todo o meu amor — Eu te amo, Leo. Infinita e incondicionalmente.
— É totalmente recíproco, acredite.
Passamos mais alguns minutos ali, antes de retornarmos à festa. No caminho, o Leo me contou sobre a teoria do Alan de que sua esposa estava grávida.
– Eu acho que é bem possível, querido. — falei, recebendo um olhar engraçado dele — Mãe reconhece mãe. Mas eu acho que ele vai ter um problema ao tentar convencê-la. Antes de você chegar, ela tinha acabado de confessar que não achava que a maternidade combinava com ela.
– Isso não é bom, mas tenho certeza de que eles vão se resolver. — ele comentou, passando a mão pela minha cintura — Pelo que me lembro você também não se confiava em ser mãe.
— É verdade. — confirmei, ao passo que nos aproximávamos dos nossos amigos, que estavam todos de pé conversando — Acho que isso é normal com todo pai ou mãe de primeira viagem.
— Provavelmente. — concordou, parando ao lado do Alan, que sorriu assim que me viu.
– Fani! — cumprimentou meu amigo, e todos os outros fizeram o mesmo.
– Vocês sabem que têm uma mesa, não é? — perguntei, tentando entender porque eles estavam em pé.
— Nós sabemos, mas acabamos por ficar de pé mesmo. — me respondeu o Rô.
– Vocês são estranhos. De qualquer forma, — mudei de assunto, me virando para o Alan — que história é essa de você achar que a Nanda está grávida?
– Ah, cara! Você não consegue segurar nada? — reclamou o Alan para meu marido, que deu de ombros.
— Nós não temos segredos.
— E porque eu não poderia saber? Eu também sou sua amiga, ouviu?
— Eu sei, mas você poderia acabar soltando alguma coisa e eu preciso conversar com a Fê antes, ela é meio difícil quando o assunto é maternidade. — confessou.
— Desculpas aceitas. Te desejo toda a sorte do mundo, meu amigo! Você será um ótimo pai. — falei, sincera em cada palavra.
– Obrigada, espero que sim. — ele agradeceu, parecendo envergonhado.
Passei mais alguns minutos naquela rodinha, antes de retornar à mesa e terminar a noite ao lado das meninas.
–x-
Fernanda
Chegamos em casa cansados, cheios de lembrancinha e cheirando a algodão-doce. Um cheiro bem enjoativo, se me perguntarem.
Fui logo tomar banho e me livrar daquele cheiro nauseante, só descansei quando pus o meu vestido na lava-roupas.
– Fê, senta aqui um instante. — pediu meu marido, sentado no sofá. Ele também havia tomado banho, a julgar pelo seu cabelo molhado.
Sentei ao seu lado, mas virando meu corpo de frente para ele.
— O que foi, amor?
Olhando em seus olhos, pude perceber um pouco de nervosismo, mas ele também parecia feliz, então presumi que fossem boas notícias.
– Tem algo que você precisa saber, mas sei que será difícil de acreditar. — começou, correndo os dedos pelo emaranhado de fios negros.
— Ok, você está me deixando nervosa. — falei, segurando suas mãos — Só me conte.
— Fê, querida, você está grávida. — disse, olhando fundo em meus olhos.
De repente, eu não estava mais tão confortável assim. Tirei minhas mãos da dele, levantando do sofá em seguida, rindo nervosamente.
— Acho que eu saberia se estivesse, é o meu corpo. — contestei, sentindo minhas mãos tremerem um pouco.
Estava difícil respirar, eu não conseguia pensar direito. Não conseguia criar uma estratégia para sair dessa situação, muito menos reunir na minha memória fatos que comprovassem o contrário daquilo que meu marido me dizia.
— Por favor, se senta um pouco. Você está tremendo. — pediu, calmo, me segurando pelos braços e me sentando novamente.
– Eu sinto muito, Alan. Eu sei o quanto você gostaria de ter um filho, mas eu não estou grávida.
– Eu também achei que isso tudo era devaneio da minha mente, mas aí eu comecei a prestar atenção. Você tem dormido mais.
— Isso pode ser facilmente explicado pelo aumento do meu trabalho ou por uma noite mais quente entre nós. — contornei.
– Bem, sim. Mas você tem comido mais também. — acrescentou.
– Isso não quer dizer nada.
– Você passou mal e vomitou três vezes na última semana. E, não tente me enganar, agora há pouco você estava nauseada com o cheiro das nossas roupas. — comentou.
— Qualquer pessoa se enjoaria com aquele cheiro de algodão doce! Quanto ao mal estar, provavelmente algo que eu comi. — contornei, abrindo um sorriso satisfeito — Já acabou com os argumentos?
— Não, ainda tenho uma carta na manga: você tem estado sensível.
– O que? — exclamei, ultrajada. Eu sou durona!
– Não esse tipo de sensível! O que eu quis dizer é que seu corpo está sensível. Seus seios estão extremamente sensíveis, querida.
– TPM! — praticamente gritei.
– Esse é exatamente o meu ponto. Se você estava de TPM, quando foi a última vez que menstruou?
O sorriso sumiu de meu rosto. Tentei me lembrar a última vez em que comprei absorventes, qualquer coisa que me desse uma dica da minha última menstruação.
– Ai meu Deus. Eu estou grávida.
Finalmente recobrei a consciência, embora minha cabeça girasse e eu mal conseguisse respirar.
– Tem uma grande chance de você estar, querida. Eu sugiro que você faça o teste. — meu marido disse, com a voz branda, me estendendo uma caixinha com um teste de farmácia.
– E-Eu... — tentei formular uma frase.
– Eu entendo que é um choque para você e que não é isso que queria, mas aconteceu. Eu só não entendo porque, para você, é tão ruim estar grávida. É realmente um pesadelo gerar um filho meu? — perguntou, magoado.
– Não, Cristo, não! — exclamei, segurando seu rosto para que me encarasse — Eu adoraria ter um filho seu, eu só... Não acho que seria uma boa mãe.
– O que faz você pensar isso? Eu realmente acredito que você seria uma mãe maravilhosa.
– Eu nunca tive um exemplo. Quer dizer, você conheceu minha família. Eles só se preocupam com dinheiro e com o que se pode fazer com ele. Não tem amor naquela família, só ganância e interesse. Como eu posso ser uma boa mãe se nem um bom exemplo eu tive? É loucura arriscar o futuro de uma criança com alguém que nunca teve uma mínima demonstração de carinho da própria mãe! — confessei, sem segurar as lágrimas que molhavam minha face.
Eu odiava falar sobre minha família e sobre qualquer coisa que os envolvesse, era uma parte da minha vida que eu tentava esquecer todos os dias.
Lembrar da minha infância era doloroso, eu não era mais que um trófeu para meus pais, algo que eles fizeram mais por obrigação, para manter as aparências, que por amor.
– Fê, você me ama? — perguntou, segurando minhas mãos.
– É claro que sim. Mais que tudo.
– Bom, eu também te amo. Muito. — senti o contato entre nossas mãos e minha respiração começou a normalizar, embora eu ainda chorasse. Era incrível o poder do Alan de me acalmar com um simples toque. — O fato de nós nos amarmos significa que esse serzinho aqui crescerá rodeado por pais que farão de tudo para vê-lo feliz. Isso é amor, Fê. E é o que mais importa.
– Eu não sei... — hesitei, dando de ombros — Eu estou com medo.
– Eu também estou. Mas isso significa que nós nos importamos. E isso é suficiente para darmos o nosso melhor na criação desse serzinho que nós fizemos.
– Você está certo. — cedi, estendendo a mão e respirando fundo — Me dá logo esse palitinho!
Ele entregou e eu fui para o banheiro, segurando aquela coisa na minha mão como se fosse uma bomba.
Lá dentro, respirei fundo, ainda encostada à porta. Aquilo era uma grande mudança. Apesar de todo o meu medo, eu me sentia bem. Feliz, até.
Surpresa, me aproximei da pia, encarando meu sorriso leve refletido no espelho. Lavei o rosto e a nuca, li as instruções na caixa três vezes.
Determinada, fiz o teste. Na caixa dizia três minutos até que saísse o resultado, então esperei ali mesmo.
Minha imaginação tomou conta dos meus pensamentos e eu imaginei, pela primeira vez em minha vida toda, como seria ter um filho.
Me perguntei se ele ou ela teria o meu tom de ruivo nos cabelos, ou se seria mais parecido (ou parecida) com o pai.
Suspirei, ao imaginar um lindo garotinho exatamente igual ao meu marido. O pensamento me fazia imensamente feliz.
Pela primeira vez, a ideia de estar grávida me agradou. Eu queria estar grávida.
Dado o tempo necessário, peguei o palitinho, mas não me atrevi a olhar o resultado. Preferia fazê-lo ao lado do Alan.
No meio do caminho de volta para a sala, cruzou meu pensamento a possibilidade de eu não estar grávida.
Imaginar aquilo doeu muito mais do que eu esperava, especialmente ao imaginar as esperanças do meu marido serem reduzidas a nada.
Fiz o resto do caminho pedindo a Deus, ou quem quer que estivesse lá em cima, que nos ajudasse, qualquer que fosse o resultado.
Ao me ouvir entrar na sala, meu marido se virou em minha direção. Ele tentava disfarçar, mas eu via o quão ansioso ele estava.
– E então? — perguntou.
Estendi o teste para ele.
– Eu não queria olhar sem você. Não achei que seria justo. Não quando você reuniu evidências, me apresentou fatos e me convenceu de que isso pode ser algo bom. Eu quero o veredito, mas eu quero que você o diga. — respirei, apreciando a risada do meu marido pela minha analogia a um julgamento.
– Você sempre usa uma metáfora de julgamento em situações complicadas? — perguntou, segurando minha mão.
– Não. Agora olhe, pare de enrolar!
Ele fez o que eu pedi, ainda segurando minha mão.
Passamos alguns segundos em silêncio, talvez até um minuto. O aperto em minha mão afrouxou e o Alan sentou no sofá, cobrindo o rosto com a mão.
– Alan? — chamei, receosa, sentando ao seu lado.
– Me desculpe, eu... — ele disse, levantando a cabeça e me abraçando em seguida. De relance, pude perceber que seus olhos estavam marejados.
Meu coração se partiu ali mesmo. O que aquilo significava? Eu não estava grávida?
– Eu fiquei tão feliz que acabei me esquecendo que você também estava da expectativa. — explicou, desfazendo nosso abraço.
Espera, o que?
Arranquei o teste de suas mãos, encarando os dois tracinhos no visor.
– Ai! — meu marido reclamou do forte tapa que dei em seu ombro.
– Você me fez pensar que eu não estava grávida. Podia ter me poupado desse drama!
– Me desculpe, eu fiquei extasiado. Prometo que não faço mais isso. — explicou, acariciando meu rosto — Nós vamos ser pais!
– Eu sei. — respondi, sorrindo.
– Eu estou tão feliz, Fê. — confessou, com um sorriso bobo nos lábios.
– Eu também. — respondi, com a total certeza de que meu rosto era um reflexo do dele.
Eu iria ser mãe. E isso não era tão ruim assim, afinal de contas.
–x-
Fani
Mais tarde, depois de colocar as meninas na cama, passei alguns minutos na varanda do hotel, com os pés descalços no porcelanato frio e os cabelos soltos ao vento.
Como estava de olhos fechados aproveitando a brisa da noite, não percebi a presença do meu marido até sentir suas mãos em minha cintura e sua boca em meu pescoço, depositando beijos leves na minha pele.
— Você acha que eles se resolveram? — perguntou ele, cessando os beijos e apoiando o queixo no meu ombro, me abraçando por trás e olhando pensativo para a rua.
— Eu acho que sim. Tudo vai ficar bem no final, você vai ver. — respondi, ma virando para ele.
— Você fica ainda mais linda à luz da lua. — sussurrou no meu ouvido. Sorri.
– Acha mesmo? — perguntei, passando as mãos pelo seu pescoço.
– Com todo o meu coração. — disse ele, antes de me beijar.
Fui levantada e senti suas mãos em minhas pernas, enquanto ele nos levava para o quarto.
Senti meu corpo ser colocado na cama de maneira carinhosa. Quase que imediatamente, minha boca foi tomada em um beijo intenso.
Logo senti seus lábios em meu pescoço, clavículas e ombros, deixando uma trilha de beijos até o vale entre meus seios.
Antes de qualquer contato naquela região, o Leo ergueu seus olhos para mim.
— Vocé é perfeita. Eu te amo, com todo o meu ser.
Arfei ao ouvir aquelas palavras, combinadas com aquele olhar intenso sobre mim.
– Eu te amo. — respondi — Mais do que a mim mesma.
– Para sempre.
– Para sempre. — confirmei.
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