Fazendo Meu Filme 5 - O Casamento Da Fani
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Ana Elisa
– Experimenta essa também – Fani disse, alguns segundos antes de passar uma blusa azul marinho para mim pela brecha da porta do provador.
Estávamos no shopping (por insistência dela, é claro. Se fosse por mim, eu estaria chorando enquanto devorava um pote de sorvete e assistia comédias românticas) e decidimos experimentar algumas blusinhas só para passar o tempo, já que ainda não estávamos com fome, provavelmente porque dividimos um imenso balde de pipocas no cinema.
Avaliei a batinha azul marinho que me havia sido entregue. Era linda, mas acho que ficaria folgada. Mesmo assim, vesti para ver como ficava e mesmo um pouco folgada, achei linda a forma como ela ficou no meu corpo e o contraste com o tom da minha pele.
– E aí, posso ver? – ouvi sua voz perguntar do lado de fora do provador.
Resolvi sair para que ela desse uma olhada e a encontrei vestindo um lindo vestidinho verde que era a cara dela.
– E então, o que achou? – perguntei, dando uma voltinha.
– Lindo, a cor ficou maravilhosa em você!
– Você não acha que está um pouco folgado? – perguntei.
– Não, você pode precisar dela assim no futuro. Eu compraria se fosse você.
– O que você quis dizer com isso?
– Deixa para lá... – ela disse, dando um sorrisinho — Vai comprar ou não?
– Só se você levar o vestido!
– Feito! – ela concordou, rindo. Trocamos de roupa e seguimos para o caixa.
Confesso que passar um tempo com a Fani me fez esquecer por um momento a minha briga com o Dan, mas assim que sentamos para comer ela me volta à cabeça e sinto um peso no coração.
Fani percebe meu súbito desânimo e pergunta?
– Está pensando no Dan, não é? – apenas balanço a cabeça afirmativamente, ao que ela completa, segurando minhas mãos por cima da mesa – Vocês vão se resolver, eu tenho certeza.
– Ai, não sei, amiga! Dessa vez a coisa foi feia... – suspiro, passando a mão pelos meus cabelos num gesto nervoso.
– Sem querer culpar ninguém, mas já culpando, você também não ajuda não é, Aninha?
– Como assim? – pergunto
– Você tem que superar o Felipe, amiga! Eu não estou dizendo que é para esquecê-lo, eu sei que ele foi muito importante para você, mas ninguém merece namorar alguém que vive com um pé no passado! Você às vezes esquece que, embora o Felipe esteja morto, você está viva e tem uma vida inteira pela frente. Eu estou te dizendo isso com todo o meu coração, amiga, enterra esse teu passado ou você vai acabar perdendo uma das pessoas mais importantes para você e, consequentemente, sua chance de ser feliz com alguém, porque eu nunca vi ninguém olhar para você do jeito que o Dan te olha, nem mesmo o Felipe. Não desperdiça essa chance que a vida está te dando, Aninha!
Não sei em que ponto eu comecei a chorar, mas quando a minha amiga termina de falar, eu estou chorando copiosamente. Ótimo, além de ter engordado, também estou ficando louca! Só pode ser a maldita TPM de volta, penso, me lembrando que eu quase não entro na calça hoje de manhã.
Enquanto tento controlar minha respiração, Fani me envolve num abraço e me acalma.
– Melhor? – pergunta, sorrindo levemente.
– Sim. – respondo, respirando fundo.
– Você entende que eu só falei aquilo porque eu quero que você seja feliz, não é?
– Claro, e eu tenho que admitir que eu tenho minha parcela de culpa nessa briga, não facilitei as coisas pro Dan... — admito
– Que bom que você percebeu amiga, agora é só conversarem e se acertarem! – ela exclama, animada
– É... Isso se o Dan ainda quiser olhar na minha cara – suspirei
– É claro que vai, ele te ama e vocês vão se acertar, eu tenho certeza!
Passamos um bom tempo na praça de alimentação comendo e conversando. Eu conto a ela algumas de minhas aventuras com o Dan e ela me conta algumas histórias sobre a lua de mel.
Olhando para o relógio, percebo o quanto a hora passou rápido.
– Caramba, já são oito e meia!
– Sério? Vamos andando então! – ela responde, parecendo com pressa.
Apenas tenho tempo de levantar e agarrar as sacolas antes de ser puxada pelo braço pela Fani, que anda rapidamente pela praça de alimentação.
Fani
Fico feliz que a Aninha entendeu bem o que eu disse sobre superar o Felipe, já faz muito tempo e ela precisa pensar no futuro, vem algo importante por aí...
Conversávamos animadamente quando a Aninha me avisou do horário. Caramba, o Leo e o Dan já estavam para chegar!
Tentei disfarçar minha pressa, mas corri pra saída do shopping. Como havíamos estacionado na área alternativa, do outro lado da rua, teríamos que atravessar para chegarmos no carro.
Paramos na faixa para esperar o sinal fechar e eu aproveitei para checar se havia recebido alguma mensagem do Leo e desviei minha atenção da rua por um segundo.
Aconteceu tudo muito rapidamente: a Aninha provavelmente viu que o sinal fechou, mas ela não reparou que a faixa da direita é de retorno e, portanto, livre e avançou a faixa de pedestres. Quando levantei o olhar e percebi, tentei avisá-la chamando seu nome, mas um carro em alta velocidade tentou frear e não conseguiu reduzir a velocidade a tempo, atingindo toda a lateral do corpo da minha amiga.
Corri desesperada na direção de seu corpo desacordado, enquanto o motorista do carro descia do veículo falando ao telefone, provavelmente pedindo por uma ambulância. Pelo menos ele não fugiu, pensei.
Estava tão preocupada com o estado da Aninha que nem percebi quem era o tal motorista até ouvir sua voz me chamando.
– Fani?
Olhei para cima e dei de cara com o (pasmem!) Guilherme.
– Guilherme? – falei, parando de procurar ferimentos mais graves que os arranhões nos braços.
– Caramba, quanta coincidência. – ele falou, olhando para a Aninha – E que situação bizarra.
Como eu continuei olhando para ele, mais surpresa do que enfurecida, ele resolveu se explicar:
– Nossa, me desculpa pela sua amiga, eu vinha tão preocupado que não estava prestando atenção no trânsito. A minha esposa está grávida de nosso segundo filho, mas ela foi diagnosticada com pré-eclâmpsia¹ e tinha acabado de me mandar uma mensagem falando que não estava se sentindo muito bem, então eu dirigi o mais rápido possível para tentar chegar em casa.
– Tudo bem, a Aninha mora na Filadélfia e não está acostumada com as mudanças que foram feitas nessa área, a culpa foi de ambas as partes. – falei, avistando a ambulância.
Os paramédicos se aproximaram, conferindo os sinais vitais e transportando a minha amiga para uma maca. Eu segui na ambulância e o Guilherme, apesar de eu ter insistindo que não precisava, nos seguiu no carro.
Dentro do veículo, dei as informações básicas da Aninha, como o nome, o tipo sanguíneo, a idade e se tinha plano de saúde. Expliquei, ainda, como o acidente havia ocorrido e há quanto tempo ela estava desacordada. Além de tudo isso, ainda pedi que informassem ao hospital sobre as minhas suspeitas do estado da Aninha.
Chegamos rapidamente ao hospital e eles levaram a Aninha para uma bateria de exames e eu permaneci na recepção, preenchendo seus dados na ficha médica. Aproveitei para ligar para o Leo e avisá-los do ocorrido.
O Guilherme chegou logo depois, perguntando como a minha amiga estava.
– Eles ainda não me falaram nada. E a sua esposa, está bem?
– Está. Liguei para um amigo que mora próximo a nós, explique a situação e pedi que fosse lá ajudá-la;
– Ah, que bom! – falei, passando as mãos nos cabelos nervosamente.
– Já que vamos ter que esperar aqui por mais algum tempo antes que alguém dê notícias, que tal colocarmos o assunto em dia, para não ficarmos aqui pensando em mil coisas que podem ter acontecido? – sugeriu, apontando duas cadeiras na sala de espera bem em frente à porta do pronto-socorro.
– É uma boa ideia. – falei, me sentando em uma delas.
– E então, quem começa? – ele perguntou.
– Você. – eu disse, estava muito curiosa para saber por onde andou o Guilherme.
– Tudo bem. – ele riu, antes de começar a falar – Conheci a Rebecca na festa de um amigo. Ela era a cantora contratada e eu me encantei por sua voz. Depois da apresentação, conversamos e o clima ente nós dois foi instantâneo. Depois dali, foi só questão de tempo até que estivéssemos casados. A Rebs é maravilhosa e eu não poderia pedir por alguém melhor. Uns dois anos depois de termos casado, ela engravidou do Trevor, nosso primeiro filho. Ele tem três anos agora e é apaixonado por animais marinhos. A minha esposa está com seis meses de gravidez, mas descobrimos a pré-eclâmpsia quando ela ainda estava com quatro meses. É uma menina e nós ainda não decidimos o nome, mas ela gosta de Lily. Eu prefiro Samantha, mas ela diz que na hora certa nós vamos saber o nome da nossa princesinha.
Escuto tudo atentamente, não deixando de notar o carinho do Guilherme para com sua família, o que me faz sorrir.
– Tenho certeza que vai dar tudo certo, não se preocupe! – eu digo, sorrindo levemente.
– E você? – ele pergunta
– Bom, eu casei recentemente. Na verdade, acabei de voltar da lua de mel.
– Que bom! Deixa eu adivinhar: casou com o Leo?
– Sim! – sorri
– Era óbvio, vocês dois foram feitos um para o outro!
Agradeci, vendo um médico se aproximar.
– Desculpem a demora, a Ana Elisa passa bem e não se machucou gravemente, apenas torceu o tornozelo e precisará usar uma bota ortopédica por duas semanas. Fora isso, apenas leves escoriações no antebraço. O motivo dela ter passado tanto tempo desacordada foi a pancada na cabeça, mas não há danos cerebrais. Sobre o teste que você me pediu para fazer, o resultado foi positivo. Imagino que queira dar as boas notícias à paciente. – ele sorriu, indicando um caminho que provavelmente levará ao leito onde a Aninha se encontra
O Guilherme, parecendo mais aliviado, pede licença para fazer um telefonema, provavelmente para a esposa .
– Sim, eu quero. Ela já acordou, doutor?
– Sim, mas ainda está meio sonolenta por conta do remédio para dor. – ele informa
– Ótimo! – respondo, mas antes que eu pudesse ir dar uma olhada na minha amiga, o Leo e o Dan aparecem na recepção.
– Oi, baby – ele diz, me dando um selinho
– Oi, Fani, como a Aninha está? – o Dan me pergunta, enquanto me abraça.
– Oi, Dan. Está tudo bem, ela não teve nada grave, apenas torceu o tornozelo e se arranhou um pouco.
– Que bom! – Leo fala.
– Afinal o que aconteceu?
– A Aninha não viu que a faixa era livre e não obedecia ao semáforo e acabou atravessando. Eu estava checando se tinha alguma mensagem de vocês e não percebi. Ela acabou sendo atingida por um carro, mas o motorista freou e o impacto não foi tão forte como o esperando.
– Ela já acordou? – o Guilherme pergunta, se aproximando.
– Amor, você lembra do Guilherme, não é? – pergunto, me dirigindo ao Leo
– Claro. E aí, tudo bem?
– Sim – o Guilherme responde, apertando a mão do Leo, que está estendida.
– E esse é o Danilo, o namorado da Ana.
– Prazer, cara. – o Dan falou, apertando a mão do Guilherme.
– Fani, eu tenho que ir, a Rebs está sozinha em casa. Me liga depois com o valor da conta do hospital da Ana, ok? – ele me pediu, me entregando um cartão.
– Ok, obrigada pela ajuda. – falei, sorrindo.
– Por nada, era minha obrigação. – e saiu andando.
– Ele que atropelou a Aninha, Fani? – o Dan me perguntou, depois que o Guilherme saiu.
– Sim, mas em nenhum momento ele fugiu da responsabilidade, chamou a ambulância, acompanhou a gente, ficou aqui esperando e ainda vai pagar as despesas. Isso tudo mesmo com a esposa em casa se sentindo mal, o que é perigoso, já que ela está enfrentando uma gravidez de risco.
– Que bom que ainda existem pessoas assim no mundo. – o Dan disse – Ela já acordou, Fani?
– O médico disse que sim, eu estava indo vê-la quando vocês chegaram, vai lá.
O Danilo foi caminhando pelo corredor que eu indiquei, desaparecendo por uma porta logo em seguida.
Virei-me para o Leo, sorrindo.
– Eu estava certa. – falei, sentindo uma animação tomar conta de mim.
– Sobre o que? – ele perguntou, rindo da minha súbita animação.
– Sobre a Aninha estar grávida. – explico.
– Ah, então era isso que você queria me dizer ao telefone hoje cedo? – ele perguntou, me abraçando.
– Sim, — respondi, retribuindo seu carinho – eu percebi o aumento de peso e as variações de humor. Definitivamente grávida.
– Ela pode estar de... como é mesmo o nome daquilo? TDM, TMG... – o Leo opina
– TPM? – pergunto
– Isso, TPM.
– TPM pode até causar mudanças de humor, mas não engorda. – expliquei – A não ser que você coma igual a um leão, o que não rola com a Ana, já que ela é vegetariana e a maioria das coisas que ela come são folhas.
– Será mesmo, amor? – o Leo perguntou, beijando o topo de minha cabeça.
– Eu tenho certeza, o médico disse. – falei, erguendo o rosto e beijando o seu queixo.
– Ok, você venceu. Quer ir lá ver como a Ana está? – perguntou
– Sim, vamos lá. – eu disse, e nós dois seguimos pelo corredor. Se de uma coisa eu tenho certeza, é de que nosso grupo está prestes a aumentar.
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