Fazendo Meu Filme 5 - O Casamento Da Fani
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Leo
Acordamos cedo naquele nosso segundo dia de lua de mel, hoje faríamos um tour pela cidade, visitando os principais pontos. A Fani havia preparado um mini roteiro ontem à noite com base na internet, o que mostrava o quão ansiosa e feliz ela estava com tudo.
Tomamos um rápido café da manhã no hotel mesmo e seguimos em direção ao nosso primeiro destino: o museu Rijksmuseum. Decidimos ir de bonde, já que era meio longe para irmos a pé.
– O museu inteiro é composto por elementos góticos e renascentistas, caracterizando bem a época e o estilo em que foi construído. – falou o guia, em inglês — Durante a era de ouro das navegações, quando navios holandeses dominavam as rotas mercantes do globo, a crescente burguesia demandava inúmeros retratos e pinturas. Poucos países tiveram tamanha produção artística e com tal qualidade como a Holanda desse tempo.
Havíamos optado por um quando chegamos ao museu, pois nem eu nem a Fani entendíamos um pio de holandês. Assim, acompanhamos um grupo de turistas que também haviam optado por um guia que falasse inglês. Éramos dois americanos (Fani e eu), uma família de australianos e um grupo de amigos ingleses, além de um casal escocês, também em lua de mel.
Acabamos fazendo amizade com os escoceses e descobrimos que eles estavam hospedados no mesmo hotel que nós, o De L'Europe Amsterdam. Marcamos, então, de sairmos os quatro no dia seguinte.
A Fani acabou fazendo amizade, também, com a Adelaide, a mãe da família australiana, e elas passaram a conversar sobre bebês, enquanto a Fani praticamente babava na filhinha dela, Sophie, de três anos e nos gêmeos Trevor e Michael, de cinco anos, também filhos da Adelaide.
Devo confessar que ver a Fani interagir com as crianças me fez imaginar a nós dois com nossos próprios filhos. Na minha cabeça, era aquela coisa clichê que a gente vê em filme: uma casa grande, com um jardim grande e uma grama bem verde, a cerca branca demarcando o limite do nosso terreno no condomínio.
– Vocês planejam ter filhos? – Paul, o marido da Adelaide e pai das crianças, perguntou.
Fiquei um pouco sem jeito com a pergunta, afinal, Fani e eu nunca conversamos sobre filhos. Eu via o quanto ela gostava de crianças, ela amava passar um tempo com a Paloma. Mas filhos?
– Na verdade, nós nos casamos tem pouco tempo. Estamos em lua de mel. Filhos...hum, está muito cedo ainda.
– Oh, sim, claro! Me desculpe. – ele disse
– Sem problemas.
Terminada a nossa visita, aproveitamos a proximidade e demos uma passadinha no Museu Van Gogh. Depois, paramos em um restaurante tailandês (eles são bem comuns por aqui) e comemos o melhor pad thai de toda a minha vida, sem brincadeira.
– Então, — começou a Fani, enquanto caminhávamos de mãos dadas ao longo da praça Leidseplein – você não quer filhos?
Fani
Eu estava brincando com os filhos da Adê (olha a intimidade) quando ela perguntou:
– Vocês planejam ter filhos? Você parece gostar muito de crianças.
– Sim, eu gosto. E, bem, nós nunca discutimos isso, mas sim. – respondi, para cinco segundos depois, o Leo emendar, em sua conversa com o Paul um “Filhos...hum, está muito cedo ainda.”. Parecia que ele não queria filhos, era essa a sensação que a frase passou, e eu me senti uma boba.
Dei um sorriso sem graça e completei:
– Nós nos casamos tem alguns dias. Ainda há muito tempo.
– Claro. – ela disse, sorrindo complacente.
Terminamos o passeio e nos despedimos dos nossos recentes conhecidos e seguimos à procura de um lugar para comer. Acabamos almoçando um delicioso pad thai. O melhor que eu já comi.
Ao término do almoço, resolvemos dar um passeio na praça. Nós até conversamos um pouco durante o almoço, mas eu não consegui esquecer o que o Leo disse. Então, em vez de deixar para lá, resolvi questioná-lo. Não conseguiria descansar
– Então, você não quer filhos?
– O que? Claro que quero! De onde tirou isso, amor? – ele disse, parecia confuso.
– Bom, eu ouvi o que você estava conversando com o Paul e, bem, parecia que você não considerava ter filhos. Olha, eu não quero brigar por isso, a gente acabou de casar, não é como se eu quisesse ter um filho, tipo, amanhã. Mas só que me pareceu estranho, você sempre foi um cara tão relaxado com crianças, se dá bem com os gêmeos, com a Ju, a Palominha, mesmo pequena, já te adora. Eu não sei, achei que você os quisesse. – falei
– Mas eu quero! De verdade. Não sei porque aquela frase soou tão ruim para você. Eu quero, sim, ter filhos com você Fani. Muitos deles! Se fosse por mim, você já voltava daqui grávida!
– Jura? Não precisava falar isso apenas porque eu falei que queria. Se não quiser, não tem problemas... – comecei, mas fui interrompida.
O Leo havia parado de andar, me fazendo parar também. Agora ele estava na minha frente e suas mão estavam cada uma em um lado do meu rosto. Ele me encarava, olhando tão fundo nos meus olhos que eu jurava que podia ver a minha alma.
– Fani, eu te amo. Muito. E eu quero ter filhos com você. Muitos, o suficiente para precisarmos de um ônibus para sairmos de casa. – ele disse, e eu ri fraquinho – Eu quero tudo, os garotos para jogarem futebol comigo, as meninas para passarem o dia no salão com você e depois todos nós em casa para assistirmos a um filme bobo de criança. Eu quero ter que acordar de madrugada para trocar fralda ou apenas te fazer companhia enquanto você dá de mamar. Eu quero tudo, amor. Tudo. Mas o mais importante para mim, não é quantos teremos, adotados, nossos, eu não ligo. Só basta ser com você.
A essa altura eu já estava emocionada, então só bastou seu beijo e eu explodi em risadas e lágrimas, tudo ao mesmo tempo. Ele encostou sua testa na minha e ficamos assim, pertinho, por alguns segundos, talvez minutos.
Sussurrei um ‘eu te amo’, recebendo um ‘eu te amo mais’ em resposta. Voltamos a caminhar e depois fomos de bonde para a principal atração da lista que eu havia feito: A Casa de Anne Frank, onde a garota morou por vários meses, escondida com sua família do exército nazista.
Era um lugar simplesmente fantástico, mas ao mesmo tempo nostálgico e triste. Nem preciso dizer que me debulhei em lágrimas, não é? E chorei ainda mais quando lembrei das cenas do filme A Culpa é Das Estrelas no local.
A visita demorou mais que esperávamos e decidimos encerrar o dia por ali. Na volta, ainda paramos numa barraquinha na rua para provarmos o delicioso stroopwaffle, uma espécie de bolachão recheado de caramelo e o broodje, um sanduíche recheado de salmão defumado, rosbife e queijos da região.
Depois do rápido lanche, seguimos para o hotel, pois queríamos estar descansados para a famosa noite holandesa nos bares e baladas da cidade.
–x-
– Onde vamos primeiro, princesa? – Leo me perguntou
– Eu pensei em começarmos pela Heineken, que eu te falei mais cedo.
– Então, vamos. Você que manda!
– Não, podemos fazer outro roteiro, não precisamos seguir o meu. – falei
– Eu amo o seu roteiro – ele disse, depois de me dar um selinho -, vamos segui-lo.
– Tudo bem – eu sorri, ao mesmo tempo que erguia a mão para um táxi que passava.
Iniciamos a noite com a Heineken Experience. Além de conhecermos um pouco mais sobre a origem da cerveja, ganhamos dois chopes! O Leo estava no céu e eu, como boa esposa, ainda dei um dos meus para ele (não ia dar os dois que eu também queria, sou boazinha mas não sou boba). Foi uma experiência pra lá de bacana. Mas, a curtição durou pouco, pois o lugar fecha às 20h.
Decidimos seguir até De Pijp, um bairro bastante agitado, a apenas dois quarteirões de onde estávamos, o que nos possibilitou ir andando. Escolhemos o restaurante/café Hesp, tradicionalíssimo da cidade com seu cardápio de cervejas holandesas em uma charmosa casa do início do século 19. O lugar era simplesmente encantador!
Quando o relógio marcou umas onze horas, o Leo teve a audácia de me perguntar se poderíamos ir até a Red Light District. O ponto mais quente de toda Amsterdam. Com suas vitrines de mulheres fazendo jus à prostituição legalizada e dezenas de Cofee Shops em todos os cantos. Além do Museu do Sexo e inúmeros Sex Shops.
Eu não estava acreditando.
– Você quer o que, Leonardo?
– Ir, hm, para a, hm, Red-Light-District? – falou, rápido. Parecia mais uma pergunta que uma afirmação. Dei risada.
– Não vai rolar, Leo. – falei. Nunca que eu ia deixar meu marido ir para um lugar daquele, para ver mulher pelada!
– Por favor, amor! Eu juro que vai ser bem rapidinho!
Não é que eu achava que ele ia me trair, pelo amor de Deus, não! Só acho que não havia necessidade de irmos a um lugar assim.
– Quinze minutos. – cedi, depois de ter que aguentar uma sinfonia de por favor, e de por favorzinhos.
– Obrigado, obrigado, obrigado! Te amo! – falou, me dando um beijo.
– Me ama só porque te deixei ver as strippers, não é? Hm, alguém vai dormir no chão hoje! – brinquei.
– Eu durmo no sofá da antessala, não tem problema.
– Haha. Pode deixar que daqui para lá eu vou pensando uma maneira de ocupar o sofá também.
– Que ruindade! – ele exclamou.
Leo
– Sinceramente, não sei o que você vê nesse lugar. – Fani disse, enquanto caminhávamos em direção à Red (olha a intimidade).
– Amor, é um lugar onde a prostituição é uma coisa legalizada. – falei, para logo depois me arrepender.
– ‘Tá querendo arrumar uma prostituta, Leonardo? — se exaltou.
– Não! – quase gritei – Não é só isso que tem lá!
– E o que mais tem? – ela perguntou, sem paciência.
– Lá maconha também é legalizada... – comentei.
– ‘Tá querendo fumar maconha, Leonardo? – ela exclamou. Tu não dá uma dentro, né cara?, falei comigo mesmo.
– Olha, amor, eu não quero ver stripper nenhuma, juro! Eu só tenho curiosidade de conhecer um lugar assim, tão diferente. É o ponto mais alto da noite de Amsterdam, só fiquei curioso.
– Tudo bem, eu te entendo. É realmente um lugar bem diferente, até eu fiquei curiosa. Juro que vou parar de implicar, mas você tem que me prometer uma coisa. – propôs.
– O que?
– Jura que não vai olhar muito para nenhuma stripper? Eu não vou te proibir de olhar porque eu sei que não tem como, mas só promete que não vai babar em cima delas? – falou, com um biquinho lindo na boca.
– Amor, é claro que não vou ficar babando em cima delas. Se eu gostasse de stripper tinha casado com uma. – falei, e ela riu, me abraçando de lado. – Vai ser divertido, você vai ver.
–x-
O ambiente era escuro, mas não um total breu. A pouquíssima iluminação dava ao local um ar misterioso, sexy.
Havíamos escolhido aleatoriamente uma das casas noturnas na rua que nos encontrávamos e entramos, apenas para conhecer. Era proibido tirar fotos, então nos concentramos em absorver cada detalhe do lugar.
– Uau – a Fani exclamou, admirada.
Seguimos em direção ao bar, ela pediu uma margarita e eu fiquei no uísque. Estava rolando uma apresentação no pole dance e nós ficamos assistindo. Não era uma daquelas apresentações quem envolviam o strip-tease, mas ainda assim um grande público assistia.
– Por acaso a senhorita estaria interessada em uma dança particular? – um cara que eu julguei ser um dançarino perguntou para a Fani, em inglês.
Minha esposa parecia genuinamente surpresa e ria, quase não acreditando. Já eu, fervia de raiva.
– Eu? – ela perguntou, me olhando de soslaio.
– Sim
– Ahn, muito obrigada, mas eu estou acompanhada. – ela falou, envergonhada. Toma essa, babaca.
– Sem problemas, senhorita. – ele disse, sorrindo. Antes de se retirar, ainda teve a audácia de beijar a mão da minha esposa. Idiota.
– Vamos embora daqui — falei, me levantando e agarrando-a pela mão.
– O que? Por quê? Está tão legal aqui... – Fani falou, me provocando.
– Vamos! – falei.
– Ok, estressadinho. Mas antes deixa eu pegar o número dele! – ela falou, fazendo graça.
– Não é engraçado!
– É sim, você está com ciúmes. Isso é muito fofo! – disse, apertando minhas bochechas – Mudando de assunto, para onde vamos agora?
– Não sei, ‘tá afim de uma balada? – perguntei
– Claro.
Acabamos indo para o Paradiso, onde curtimos muito na balada eletrônica do local.
Chegamos no hotel às três da manhã, exaustos, mas felizes.
A Fani estava bêbada, mas não em um nível alarmante. Apenas o suficiente para descer até o chão no meio da boate, atraindo diversos olhares para ela e me fazendo ferver de raiva e ciúmes. Pensando bem, talvez um pouquinho alarmante.
Entramos no quarto aos tropeços, já que a Fani praticamente dormia em cima de mim.
– Vamos dorminhoca. – resmunguei, praticamente carregando a minha esposa.
Ela grunhiu alguma coisa fora de meu conhecimento, mas cooperou enquanto eu a despia e lhe enfiava numa camisola de seda que eu achei em sua mala. Coincidentemente, era a mesma do nosso primeiro dia, o que me fez rir. Quando coloquei-a na cama, ela já tinha apagado. Tomei uma ducha rápida e me juntei a ela, caindo num sono tranquilo e sem sonhos.
Fani
Acordei com uma dor de cabeça horrível e uma ânsia pior ainda. Mal deu tempo de acordar, só parti correndo em direção ao banheiro e vomitando tudo que havia em meu estômago. Que belo jeito de se começar um dia!
Não bastou dois minutos e o Leo já estava ali, segurando meu cabelo e fazendo um carinho em minhas costas, enquanto sussurrava algumas palavras de consolo, ou sei lá.
Ah, a ressaca. Quer coisa mais romântica do que seu marido segurar seu cabelo enquanto você põe as tripas para fora na privada?
– Leo, vai embora! – falei, ainda com a cabeça enfiada na privada, agora mais por vergonha do que por outra coisa, ao mesmo tempo que o empurrava debilmente.
– Não mesmo, essa é a nossa lua de mel, e além do mais, essa não é a sua primeira ressaca que eu acompanho.
Virei a cabeça para encara-lo.
– Não que eu esteja dizendo que você bebe muito – continuou, ao ver minha expressão de quem estava a fim de ser chamada de “Zé das pingas” -, pelo amor de Deus. Só estou dizendo que não é a primeira vez que faço isso, e do jeito que você bebeu ontem, estou surpreso de que não precisemos dar uma passadinha no hospital.
E o desgraçado ainda teve a audácia de rir! Eu ali, vomitando as minhas entranhas na privada e ele estava RINDO!
– Leo, você não devia ter me deixado beber tanto assim! O quão ruim foi? – perguntei, já sabendo que havia feito alguma coisa vergonhosa. Eu sempre as faço quando estou bêbada.
– Não foi tão ruim assim, você só desceu até o chão na frente de centenas de pessoas.
– O quê? – gritei. – Está brincando comigo, não é?
– Bem que eu queria.
Encostei a cabeça na privada, mais envergonhada impossível. Eu não acredi... Quer dizer, eu acredito sim que eu fiz aquilo. Eu faço loucuras quando bebo, por isso evito, além do que não sou lá uma grande fã do álcool, normalmente eu tomo vinho.
– Ai que vergonha – murmurei, me levantando e indo em direção á pia, para escovar os dentes.
– É para ter mesmo, muita gente ficou olhando. – meu marido (que sempre me apoia, diga-se de passagem) falou, ele mesmo escovando os dentes na pia do lado.
– E você não fez nada? – reclamei, secando o rosto com uma toalhinha.
– Fiz, te tirei de lá na hora! Eu que não ia deixar um monte de marmanjo olhar para minha mulher! – ele disse, e eu ri.
– E você ia fazer o que Leo, bater em todo mundo? – falei, me despindo e entrando no boxe.
– Se fosse preciso!
– Leo, você é o cara mais pacífico que eu conheço, leva tudo no papo. Não acho que você bateria em alguém... – desdenhei, mas sem intenção.
– Tá dizendo que eu não corajoso nem forte o suficiente? – perguntou, se aproximando perigosamente.
– Não sei... talvez... – entrei no seu jogo.
– Então deixa eu te mostrar quem é fraco aqui ele falou, me suspendendo. Eu o rodeei com as minhas pernas, enquanto ria.
– Mal posso esperar – sussurrei em seu ouvido.
Algumas dezenas de minutos depois, estávamos juntos na banheira, curtindo um ao outro e descansando.
– A gente perdeu o café da manhã – eu disse
– Sem problemas, podemos procurar algum café por aqui por perto.
– Para isso, precisamos sair daqui...
– Sério, por quê? Está tão bom aqui, nós dois abraçadinhos... – ele disse, manhoso.
– A água está esfriando e eu realmente estou com fome – falei, embora tudo que eu quisesse era ficar ali, para sempre, meu estômago dava loopings pedindo por comida e eu não estava mais aguentando.
– Tudo bem, vamos. – disse, se levantando e me estendendo a mão. Ainda deu tempo de admirar aquele corpo maravilhoso que me fazia delirar. – Gosta do que vê?
– Muito – eu disse, lhe dando minha mão e saindo da banheira.
– Bom saber, por que eu também gosto muito do que vejo – sussurrou em meu ouvido, depois de me olhar de cima a baixo descaradamente.
Trocamos de roupa e seguimos para o café, embora já fosse quase hora do almoço. Estava um lindo dia e eu e o Leo não poderíamos estar mais felizes. Fizemos nossos pedidos e ficamos conversando amenidades, lembrando de momentos da noite passada. Certamente teríamos muitas histórias para quando voltássemos de Amsterdam.
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