Fault of Boys- Cameron
3 Cinderela de all-stars e a metáfora do chiclete
Notas iniciais
Há momentos na vida de uma menina que ela simplesmente não vai esquecer nunca. Quando tem o seu primeiro período, quando briga com a melhor amigo, quando o primeiro veterano repara nela, sua primeira paixão platônica ou seu primeiro beijo. Para mim, o sentido da palavra inesquecível é simplesmente supervalorizado, por que, no meu caso, o inesquecível se tornou algo doloroso.
O passado pode ser um bastardo grudento as vezes, como chiclete mastigado, que cola em toda parte, e, mesmo que você tente se livrar dele, ele continua lá, incomodando.
Isso é exatamente a descrição do que estou vivendo.
É como se o meu all-star preferido tivesse chiclete colado na sola e eu não conseguisse tirar. E, para o caso de não ter entendido a metáfora, Cameron era o all-star, e o nosso passado o chiclete.
Antes de tudo que aconteceu ontem, eu tinha decidido dar uma chance para o Steven, tentar esquecer o Cameron e tudo sobre ele. Sua presença na minha vida era como um vírus, contagiante e possivelmente fatal. Eu não precisava estar mais que cinco minutos com ele para me sentir infectada. Esse era o tamanho do seu efeito em mim, na verdade, o dia inteiro foi uma amostra disso.
Ele não precisava de mais de um dia para diluir todas as minhas convicções e me fazer duvidar de todas as coisas que eu sabia; e agora, tendo ele pacificamente dormindo com seus braços a minha volta e o peito contra minhas costas, eu não conseguia silenciar o barulho da minha mente e parar de pensar no que tinha acontecido com a gente por tempo o suficiente para cair no sono.
Eu sempre adorei ler romances. Desde que eu os descobri, aos doze anos de idade, eu passava horas e horas lendo na varanda de casa. Achava intrigante todas as situações de conflito, os dramas dos protagonistas apaixonados. Um dos meus romances preferidos era uma releitura moderna e menos trágica de Romeu e Julieta. O casal se encontrava em uma cabana abandonada, escondido de seus amigos, pois pertenciam a grupos rivais. Pode parecer bobo, mas eu achava emocionante, deva friozinho na barriga a possibilidade de eles serem pegos.
Veja, eu não sou como a maioria das meninas, não vivia pelos cantos sonhando com o príncipe encantado que viria para acabar com a minha vida tediosa e miserável. Minha vida nunca foi chata, longe disso, eu cresci com os meninos Henley, e se tem uma coisa que eles sabem fazer, é manter as coisas interessantes. Eu tinha os seis maiores problemas que cada garota de Jackson Falls queria ter.
Pelo amor de Deus, Max Henley é o meu melhor amigo! Isso é significativo.
Eu também nunca tive a ilusão do homem perfeito, bonito e gentil. Se Mark Henley tinha defeitos, então todo mundo tinha. Aos quinze anos eu já sabia com certeza absoluta que seria o tipo de garota que se apaixona pelo complicado e irritante badboy. E, cara, eu tinha seis bons exemplos disso morando na porta ao lado, o que mantinha minhas expectativas bem altas.
Dessa forma, eu não tinha ideia de em que momento a minha vida tinha virado esse drama surrealístico que é hoje. Eu conseguia contar os fatos e elenca-los em sequência, no entanto. Fato número um: Eu me apaixonei pelo Cameron.
Mesmo que eu seja uma garota mais realista que sonhadora, acredito em amor à primeira vista, assim como em amor a milésima vista, como acho que aconteceu comigo. Olhando para trás hoje, eu posso dizer que sempre tive uma inclinação diferente para o Cameron. Conheço ele a vida inteira, mas houve um momento especifico, um estalo, um dia em que eu olhei para ele e pensei “droga, eu realmente gosto dele”, com direito a calafrios e borboletas no estomago. Nada de especial, realmente. Cameron estava na minha sala de casa, o que era bastante comum desde que ele trabalhava com o meu pai, e ele estava sorrindo, me provocando, como sempre. Eu tenho certeza de que foi aquele maldito sorriso cafajeste que me fez uma idiota quando o assunto era ele.
Fato número dois: Cameron e shots de Jell-o não faziam muito bem para a minha cabeça.
Digamos que eu achava os copinhos com gelatina colorida fascinantes demais, eles eram pequenos e docinhos, o que me fez esquecer rapidamente que eles também continham vodka. E, bem, considerando que qualquer tipo de bebida me deixa mais falante do que eu já sou, eu acabei falando demais naquele dia, naquela maldita festa mais ou menos na casa dos Kahn; e feliz ou infelizmente, Cameron era o único que eu queria para me ouvir. Não foi o meu melhor momento, mas depois de chama-lo de “provocação maldita”, eu acabei admitindo para ele que eu tinha algum tipo de sentimento acontecendo por ele.
Claro, eu não me lembro realmente o que aconteceu, vodka tem um jeito especial de deixar a minha cabeça nublada, mas Cameron fez questão de me contar com detalhes excepcionais no dia seguinte. E, bem, enfrenta-lo bêbada era um bocado mais fácil do que de ressaca, mas ele não pareceu entender quando veio na minha casa no outro dia exigindo saber sobre meus delírios embriagados e o quanto de verdade continha neles. Eu podia ter negado, mas não fiz, qual era o ponto? Eu não estava fazendo nada errado.
O que nos leva ao fato de número três: Cameron era um idiota.
Ele gostava de mim também, e isso ele fez questão de deixar bem claro quando me empurrou na parede mais próxima e me beijou até que eu estava sem folego, e, Jesus, o homem podia beijar. Seriamente. Mas ele também tinha uma coisa em admitir a nossa relação. Ele achava que por termos crescido juntos, as pessoas iriam achar errado o fato de estarmos em um relacionamento. O que podia ou não ser verdade.
Quer dizer, Jackson Falls não é uma cidade enorme, e as pessoas não tem muito o que fazer por aqui, então, eles iriam falar, principalmente porque os meninos Henley realmente agiam como meus irmãos desde sempre. Mas, porra, tenho certeza que eles iriam superar também, porque, afinal de contas, eles não eram realmente da minha família, o que nos leva ao ponto quatro:
Filhas únicas não têm irmãos.
Apenas.
Então, o Cameron resolveu que deveríamos nos ver escondidos por um tempo, e eu concordei, porque eu sou realmente estupida quando o assunto é ele; e, digamos que namorar escondido não é tão emocionante quanto nos livros. Principalmente se o seu namorado tem o histórico de um prostituto.
Cada garota que passava por essa cidade se achava no dever de dar em cima do meu namorado. Cada. Uma. Delas.
E o que eu podia fazer? Nada, realmente.
Eu assistia e revirava os olhos, esperando o momento que Cameron iria dispensa-las. O que na prática, deveria ser fácil, mas não era, porque Cameron não costumava dizer não as investidas das meninas, as pessoas começaram a achar estranho e ele foi ficando cada vez mais paranoico com isso.
Até então, eu não tinha me preocupado com o fato de que as garotas caiam em cima dele até formar uma pilha, não muito. Eu dei toda minha confiança a ele, porque eu nunca tive o que desconfiar. Talvez por isso o choque tenha sido tão grande: minha confiança cega.
Eu me senti tão idiota, tão humilhada.
Nenhuma única vez uma vez eu desconfiei dele, mas eu deveria ter.
De fato, era muito estranho que o maior jogador da cidade — depois do Cage, que era insuperável — iria desistir de ter todas as garotas, para ter somente a mim. Quem está acostumado a ter quinze à disposição, nunca ficaria feliz com uma única garota, ficaria?
Eu vinha tendo a mesma discussão com ele a semanas, pedindo que parássemos de nos esconder como se tivéssemos fazendo uma coisa terrivelmente errada, e ele continuava respondendo a mesma coisa:
— Baby, não é a hora ainda.
E o inferno que não era.
Na verdade, nunca teve um bom motivo para toda essa besteira, ou eu achava que não tinha. Até eu encontrar ele beijando o inferno fora da Megan Hynes, com ela pressionada contra a parede, do mesmo jeito que ele tinha feito comigo um milhão de vezes, na porra da lateral da minha casa. Aí eu descobri o porquê de toda a merda sobre “as pessoas vão falar, e eu não quero isso para você”.
Porque, por “as pessoas vão falar”, ele não queria dizer sobre sermos criados como irmãos, mas sobre eu ser idiota por achar que Cameron Henley se aposentaria dos seus dias de vadiagem por minha causa.
Eu era apenas uma no catálogo, uma que ele se importava o suficiente para ser discreto sobre, mas só.
Nada mudou além disso.
No fim das contas, eu era uma daquelas meninas de romance, que se ilude com o cara por quem se apaixonou. Eu sinceramente acreditei que estávamos construindo algo, quando, na verdade, eu era a única que acreditava na monogamia do nosso relacionamento.
E eu continuava a ser uma idiota, aparentemente, porque, veja só onde eu vim parar: quase nua, num hotel, com ele, depois de uma longa recaída em um momento ruim.
Eu sabia que iria me apaixonar pelo badboy, mas eu me achava esperta demais para deixar ele me machucar. Besteira. Eu não sou nem um pouco esperta, porque eu estava prestes a deixar acontecer novamente.
Eu viva pensando sobre como seria a sensação de ter um amor complicado e tortuoso, daqueles que pautam os bons livros, e vou te dizer a que conclusão eu cheguei: É horrível. Machuca como nada mais faz, e, diferente do usual, que é você de afastar do que está lhe causando dor, você vai se ver querendo mais e mais. Porque apesar de doer pra caralho, os momentos bons totalmente ofuscam os ruins.
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