Fault of Boys- Asher
4 Explicações para o inexplicável.
Notas iniciais
— Eu sinto muito Sargento. Foi apenas um grande erro do sistema. Vamos notificar a família do outro oficial. O resto corpo que nós recuperamos estava quase inteiramente destruído, uma bomba detonou por perto e isso o matou. Qualquer teste de DNA foi inconclusivo, mas achamos a placa de identificação parcialmente destruída por perto.
O oficial mais velho diz, enquanto marcha atrás de sua mesa. Ele parece desconfortável com a situação, e isso faz dois de nós.
— Na verdade, faltava apenas alguns números, mas o final era idêntico a sua. Seu esquadrão era suposto estar trabalhando naquela área, mas foram requeridos para uma missão especial secreta, e nenhuma informação estava autorizada. O soldado morto era seu substituto. Depois que tiraram seu esquadrão do local original para e deslocaram para o novo, mandaram outros cinco homens disfarçados para a área a fim de substituir vocês e não levantar suspeitas, a inteligência ficou sem informações de seus homens. — Ele passa as mãos pelo rosto de maneira frustrada. — Uma grande bagunça. — Indica, antes de continuar. — Como você sabe, ficaram isolados e sem comunicação exterior por uma ano e meio. Permitir que vocês entrassem em contato com quem quer que seja do lado de fora era um risco, não só a suas próprias cabeças, como a de seus remetentes. A verdade é que não sabíamos ao certo onde vocês estavam, e se estavam vivos. Tínhamos que esperar a data marcada para extração e rezar para que desse certo. E deu, exceto por esse erro.
O nome do cara que morreu era Delvin Frederick. Era para eu ter estado naquele local quando ele morreu. Precisamente, era para ser eu. Mas alguns meses depois que eu fui reportado para a missão, um oficial de alta patente do governo foi ao encontro do meu esquadrão. Ele nos disse que o nosso esquadrão foi indicado pelos SEAL’s¹ para uma missão a longo prazo sobre tráfico de menores. Nenhum de nós cinco foi capaz de dizer não quando ouvimos falar dos horrores que estavam acontecendo por lá, eu só não esperava que não reportassem as nossas famílias. Os caras que perseguimos eram esguios, quase nunca deixavam rastros e quando deixavam era apenas para nos fazer andar em círculos. Foi difícil, por que não apenas estávamos caçando, estávamos sendo caçados também. Todo cuidado era pouco.
De qualquer forma, quando abandonamos a missão original, outros homens foram mandados no local. Alguns dias depois de termos saído, esses homens foram emboscados e mortos por um grupo Talibã. Como minha nova missão não era exatamente dos SEAL’s¹, a inteligência não tinha nenhuma ideia de onde estávamos. E por isso o erro. Minha família sofreu por todo esse tempo, mas outra família vai sofrer agora com isso. Foda.
(N/T: 1- Os SEALs são uma das principais forças de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos)
Eu me sentei calmamente e ouvi todas as desculpas que tinham a me dar pelo grandessíssimo mal-entendido. Mas eu me revoltava, por que ‘eu sinto muito’ não ia trazer minha vida de volta.
Não é que estivesse arrependido do que eu fiz, não estava, isso salvou muitas pessoas inocentes, mas eu estava puto pela quantidade de danos que essa maldita falta de planejamento causou.
Eu saí do escritório principal da mesma maneira que eu entrei: com raiva.
— Tão ruim assim? — Cage pergunta assim que olha minha cara ao sair do prédio.
— Eles disseram que foi um erro. — Ri de indignação — Um fodido erro que virou a minha vida 180º. Me ofereceram uma série de maravilhosos benefícios, nenhum que vá trazer minha antiga vida de volta.
— O que você vai fazer daqui para a frente? Desde que não dá para começar por onde parou... — Ele questiona quando entramos no carro e damos a partida de volta para casa.
— Não tenho nem sequer uma fodida ideia, — respondo sinceramente.
Ele sacode a cabeça em afirmação. Só isso. Eu tenho plena consciência de que ele só perguntou para me fazer pensar no assunto, então minha resposta vaga está bem para ele.
Quando estamos a alguns quarteirões do prédio da marinha, a tela do celular dele ascende ao mesmo tempo em que o toque se faz audível. A foto de Lena Cole preenche pisca para mim, de onde o aparelho está, no painel do carro.
Eu assisto quando meu irmão suspira pesarosamente olhando para a tela, e encosta o carro para atender.
— Achei que ela estivesse saindo com o Mark. — Digo, e isso foi em tom de ‘que porra é essa?’ da minha parte. Mark estava farejando o rabo bonito dessa garota pelos últimos meses pelo que me contaram. Por isso eu me pergunto o que ela poderia querer com o Cage.
— Ela está. — É a única resposta dele antes de atender. — Lena?
Ele ouve, e ouve por um longo tempo antes de xingar baixinho. — Ele não pode ter feito isso...
O que quer que seja que Lena tenha respondido, ele não gostou, pois, a maldição saiu mais alta agora. — Certo. Ela está bem? .... Okay, estamos indo.
Eu esperei apenas o momento em que ele apertou o botão de desligar antes de perguntar: — O que aconteceu?
Cage colocou o caro de volta na estrada, e sem tirar os olhos dela, me respondeu: — Bray aconteceu.
— O quê?
— Ele pediu Nox em casamento. Na fodida sorveteria, e com uma plateia.
Eu fecho os olhos por um momento, meu coração prestes a explodir com a quantidade de emoções que ele está tendo que lidar. Eu não pergunto o desfecho dessa história, com medo demais de saber a resposta, mas Cage me diz mesmo assim.
— Ela disse que não poderia fazer isso, — sussurra suavemente.
Se isso alivia meus sentimentos? Um pouco. Eu gostaria de saber se ela teria dito a mesma coisa uma semana atrás. Eu não sei como me sentir quanto a isso, a ela ter seguido em frente.
— Como foi? — Pergunto.
— Lena estava com Jess na sorveteria na hora. Ela falou que Bray distribuiu alguns socos pelo lugar quando Nox disse não, antes de tentar entrar no carro e sair dirigindo como um psicopata. Jess o interceptou a tempo de fazer ele deixar ela dirigir, mas Bray ainda parecia irado quando saíram. Nox saiu correndo depois disso, também. Lena foi atrás dela, que estava uma bagunça chorona.
— Para onde ela foi?
— Para o cemitério.
. ♥ .
Ela estava distante. Seu cabelo loiro voa com o vento gélido de fim de tarde, mas ela não parece estar com frio. As flores ainda estão frescas em cima do que deveria ser minha lápide. Nox está encolhida, e sentada na grama, fita o mármore esculpido como se o mesmo fosse ditar a ela todas as repostas para os seus problemas. Cage me disse que é o local onde ela costuma vir para pensar. O lugar onde ela achava que estaria mais próxima de mim.
Lena a observa de longe, e eu de mais longe ainda.
— Você não vai lá? — Cage pergunta.
— Eu não sei se deveria. — Ou se ela ficaria feliz com isso, quis acrescentar. Toda essa questão ‘Nox-Bray-Eu’ tem um senso caótico de certo ou errado.
— Quer uma opinião? — Ele pergunta. É uma estranha pergunta, mas Cage me oferece a possibilidade de agir sem interferência. No entanto, parece que eu preciso de uma neste momento, pois estou perdido.
— Diga-me o que fazer, Cage. Diga-me como resolver isso... — imploro.
— Não resolva. E somente faça aquilo para que se sente inclinado a fazer. — Eu devo ter olhado para ele com o olhar mais confuso, pois ele suspira pesarosamente. — Quer ouvir dela o porquê de ela ter corrido para cá?
Eu meneio, concordando.
— Então vá e pergunte a ela.
— Mas, e quanto ao resto, — questiono. — Quanto ao Bray, o que é suposto que eu faça?
Ele resmunga: — Essa é uma pergunta difícil. — Como se eu já não soubesse! — É suposto que você fique com raiva. Que grite, que odeie por um tempo. — Ele ri. — Pelo menos é o que eu espero que você faça. Mas convenhamos, nós dois sabemos que você não é exatamente de fazer isso. — Brinca, arrancando de mim uma meia risada.
Então seu rosto se torna solene.
— Não, sério, dê a ela tempo, dê a Bray tempo. Se dê tempo. É tudo que eu posso te aconselhar a fazer, pois eu sei, e você também sabe, que nenhum dos três teve culpa.
Sim, no fundo eu sabia que não tinha a quem culpar.
Me aproximei de Nox, passo a passo, e lentamente. Gostaria de entender o porquê de ela ter dito não, de saber o que ela sentiu. Infernos, eu estaria sendo hipócrita se eu não dissesse que apenas queria ouvir a voz dela, estar por perto.
Lena me viu antes que me aproximasse muito, e veio andando em minha direção. Não disse nada, mas estendeu a mão e me entregou uma chave de carro.
— O que é isso? — Pergunto confuso.
— A chave do meu carro, isso foi como chegamos todo caminho até aqui. — Ela explica. — Fique com ele, tenho certeza de que Cage não se importa de me dar uma carona para casa. Vocês precisam de um tempo sozinhos. — Aponta para mim e depois para onde Nox está sentada.
— Você acha que é uma boa ideia?
— Asher, eu posso não conhecer muito de vocês dois, desde que eu estou por aqui há pouco tempo, mas eu a vi hoje. Observei sua reação, e ouvi o que ela tinha a dizer antes que se fechasse em suas próprias lembranças, como está agora. — Lena diz olhando em direção a Nox, que permanece alheia a movimentação em suas costas. — Eu ouvi mais do que eu precisava para saber que vocês têm muito o que entender, e entender juntos. — Ela me olha quando diz a última parte, para se certificar de que eu entendi. — Vá até ela.
Eu irei.
— Obrigada, Lena. Darei um jeito de entregar seu carro amanhã. — Despeço-me.
— Não se incomode, tenho certeza de que Mark pode levar para mim. Você tem preocupações maiores. — Ela sorri, e eu posso ver porque meu irmão mais novo anda tão caído por esta garota. — Boa sorte!
Sim, sorte. Irei precisar dela...
. ♥ .
A observo por um momento antes de me sentar ao seu lado. Se ela nota minha presença, não diz nada. Eu também não digo. Apenas deixo o silencio nos unir por um pouco de tempo. Nox tem alguma coisa pressionada na palma de uma de suas mãos, percebo, e, seja qual for o objeto, ela segura como se fosse sua tabua de salvação. Seu olhar permanece fixo num ponto, então, sem mais o que fazer, olho para o mesmo local.
“ Sargento Asher Mason Henley
Honroso cidadão, filho, namorado e amigo. ”
Era o que dizia a minha epigrafe.
— É uma bonita lápide. — São minhas primeiras – e estupidas – palavras.
Ela concorda com a cabeças e me responde, mesmo que seus olhos não mudem de direção. — Sim, é. Sua mãe a escolheu. — Continuo a encarar a lápide quando seus olhos finalmente se mudam para mim, e ela troca o objeto que está segurando de mãos.
— O que é? — Pergunto.
— O que é o quê?
— A coisa que você está segurando como se precisasse de apoio, e isso fosse a sua única salvação.
Ela olha para o objeto por um momento, antes de estendê-lo para mim. Eu o pego, notado o quão pequeno é agora. Um pequeno pedaço de aço queimado e retorcido. Eu estou em choque quando percebo que é um pedaço do que uma vez foi uma Tag² de identificação.
(2- Dog Tag = Plaqueta de Identificação que soldados usam.)
— É o que estava no corpo. —Afirmo, sem mesmo precisar questionar.
Ela assente.
—Sim, — responde, mesmo que eu não tenha perguntado. — A parte mais inteira que acharam de você.
— Por que você carrega isso?
— Foi a última coisa que você tinha tocado. — Ela diz com a voz tremulante. — Eu não sei Ash... por muito tempo foi reconfortante saber que isso tinha estado com você quando eu não estive.
Eu aperto na minha mão o pequeno pedacinho de metal, ainda quente das mãos dela.
— Por que carrega ele agora?
— Se tornou um hábito.
Assinto em compreensão.
— Não significa mais nada agora, querida.
Eu não penso muito antes de estender minha mão e segurar a dela. Minha carne, bem viva, tomando o lugar onde o metal retorcido costumava ficar escondido. Ela não tinha necessidade de se segurar a uma memória, quando eu ainda estava aqui.
Sua mão aperta a minha de volta, e por um longo tempo ficamos em silencio. Unidos por um pequeno pedaço de pele, que queima com o contado um do outro.
— O nome dele era Delvin. — Digo olhando para o metal em minha outra mão. — Eu estou pensando em ir ver sua família, e sua esposa. Ele tem um filho que nunca conheceu.... Não moram muito longe daqui.
— Posso ir com você? — Ela pergunta com a voz suave.
— Por que? — Pergunto, genuinamente curioso.
Eu, finalmente, olho para ela, que tem lágrimas não derramadas no rosto.
— Eu estive onde ela está. — Responde quando a primeira lágrima escapa pelo canto do seu olho. — Mas parece que eu recebi outra chance...
Eu suspiro.
— Você pode ir a onde quiser comigo, Nox. — Em mais de um sentido.... Digo-lhe com sinceridade.
Fale com o autor