Fatídicas noites
5 Reflexo adorável e colchão macio
[MITSASHI TENTEN]
O cheiro delicioso de carne penetrava o meu quartinho por todas as frestas existentes; a minha barriga roncou mais uma vez em resposta, ansiosa para ser preenchida. Fazia algumas horas que eu estava acordada, mas sem coragem nenhuma de sair da cama. Os moradores do goshiwon não costumavam cozinhar muito, entretanto o cheiro estava de matar e me fazia salivar como um cachorro.
— Tenten... — meu nome foi chamado com calma e sentei no mesmo instante, jogando as pernas para o lado e abrindo a porta na mesma velocidade. Toda a minha preguiça sendo substituída pela curiosidade (e fome também). Neji sorriu assim que entrou em meu campo de visão. — Boa tarde! Dormiu bem?
— Boa tarde, dormi sim e você? — a sua animação começava a me contagiar. Eu não entendia o tipo de feitiço que havia caído em nós, contudo não reclamaria.
— Dormi muito bem. — deu um passo para o lado e sai do quarto, entendendo o que ele queria. Parei então no meio do corredor e na sua frente. O cheiro ainda mais convidativo do lado de fora. Era ele quem estava cozinhando? — Resolvi preparar algo diferente, espero que goste.
— Você sabe que eu amo carne, obrigada por isso. — comentei assim que sentamos na mesa. Desde a toalha nova e bordada até os pratos cheios de comida… Tudo parecia ter saído diretamente de algum filme. Estava lindo. Realmente lindo.
Não fazia ideia de onde ele havia arranjado todos aqueles enfeites e acessórios chiques, todavia estava feliz pelo progresso que estávamos fazendo.
Os seus claros olhos observavam cada movimento meu. Eu podia sentir tudo queimar sob seus olhos críticos e tentava não fugir dali, como antes faria.
Enfiei o primeiro pedaço fumegante na boca e não consegui conter o gemido de satisfação. Estava divino, como algo feito por um chefe de cozinha muito profissional e experiente. Neji sorriu contente e continuou a comer com mais avidez.
Por alguns minutos apenas a paz e o barulho que fazíamos para comer preencheram o ambiente. Era como se tudo estivesse voltando à normalidade, como se não existisse um passado conturbado ou um sentimento ardente dentro de mim. Bom, talvez nem tudo fosse realmente normal como antes.
Era inegável o que sentia. Era inegável o desejo. Era inegável o amor. Mas, por mais óbvio que às vezes possa parecer, é preciso “colocar os pingos nos i’s”. Se o Hyuuga comilão à minha frente não demonstrava querer algo comigo, eu precisava seguir em frente. Eu sabia que podia conviver com esse amor unilateral e superá-lo o quanto antes.
Pelo menos eu achava que conseguia. Tanto pelo meu bem quanto pelo bem da nossa renovada amizade. Não podíamos deixar que alguma pendência colocasse em risco – mais uma vez – o que estávamos tentando reconstruir.
E se voltássemos com o constrangimento e o silêncio, Uzumaki Naruto com certeza nos mataria.
— Por que você me beijou? — peguei-me fazendo aquela pergunta entre um pedaço de carne com alface e um gole de soju. Escapuliu!
— Oh… A-Acho… — pigarreou e tossiu umas três vezes antes de continuar. A ansiedade fazendo as pontas dos meus dedos formigarem. — Foi do momento, pareceu ce-certo. Eu me sinto na obrigação de pedir desculpa… Não, perdão! Eu preciso pedir perdão por ter feito tudo isso com a nossa amizade. A culpa foi minha e eu sinto muito por isso.
É, aquilo doeu. Tudo doeu mais do que deveria.
O seu olhar perdido no chão da cozinha, suas mãos inquietas em cima de mesa e a sua culpa doeram. Os beijos não aconteceram sozinhos ou ele não se lembrava que eu havia retribuído? Não uma vez, porém diversas.
Eu havia tirado a sua roupa, arranhado as suas costas largas e entrelaçado minhas pernas em volta do seu corpo quente. Havíamos feito em conjunto, ninguém havia sido obrigado a nada.
— A culpa foi minha também, Neji. Acho que nós dois estávamos bem errados, ainda mais por passar tanto tempo fugindo desse assunto.
O rosto dele estava tão contorcido que perdeu a feição, então decidi não insistir no tópico. O pedido de desculpa foi convincente e esclarecedor o suficiente. Vamos seguir em frente, nós dois. O passado é passado.
— Acontece, não é? Assim como Naruto disse: “a amizade e o amor de vocês é mais forte do que isso, blá-blá-blá”. — brincou, afinando a voz e gesticulando de um modo exagerado. Acompanhei sua risada, no entanto de um jeito mais nervoso. O ambiente não parecia mais tão leve quanto antes e eu me forçava a superar o constrangimento. — É muito bom poder conversar com você de novo. Você é a minha melhor amiga e não quero te perder.
Eu sabia que havia prometido seguir em frente, no entanto eu não estava preparada para o impacto daquela frase.
Sim, somos melhores amigos e não queremos nos perder. Mas uma vozinha insistente na minha cabeça se sentia infeliz por sermos “apenas” isso.
— Digo o mesmo. Você é o melhor amigo que qualquer ser humano poderia querer.
Neji sorriu de um jeito estranho e evitou me olhar quando levantou da cadeira para retirar os pratos da mesa. Seria um sorriso de nervoso também?
— Quer convidar a Hinata e o Naruto?
Alguns assuntos banais e algumas risadas sinceras mais tarde, estávamos sentados na pequena cama do quarto dele, decidindo o que fazer.
— Eles devem estar estudando ou dormindo, duvido que venham.
— Vamos sair então? — indagou Neji apoiado na parede. Seu olhar relanceou até a tela do seu celular e depois voltou para mim. Uma de suas mãos pousada em minha perna fazendo leves carinhos e eu jurava que a qualquer momento o meu corpo entraria em combustão espontânea. — Estou pensando em sair daqui a pouco.
— Hoje é quarta, eu tenho aula amanhã cedo. Você também.
— Não, não quero ir à uma balada. Nem deve ter nada aberto a essa hora. — riu baixo e acompanhei com um sorriso. Tão lindo. — Eu achei que você… Sei lá… Talvez pudéssemos sair para andar por aí sem rumo, assim como fazíamos antes. Explorar as partes da Coreia do Sul que ainda não foram exploradas.
— Perfeito! Vou me trocar.
Voei até o meu pequeno quarto e entrei no banheirinho, me despindo no meio do caminho e deixando as roupas todas espalhadas pela cama. O sorriso permanecia no meu rosto, mesmo que um pouco abatido pelas esperanças falsas que eu havia criado e haviam sido pisoteadas. Eu sobreviveria.
Saí do banho rápido, animada pelos velhos – não tão velhos – tempos que reviveríamos e evitando me afundar em algum tipo de pensamento que me deixasse esquisita. Corri até o armário e escolhi o conjunto de roupas mais confortável e leve possível, logo enfiando os tênis no pé e me enchendo de perfume.
Estava dedicando um pouco mais de cuidado e capricho na frente do espelho, para um penteado bonito em meus cabelos, quando Hyuuga Neji apareceu atrás de mim. Sorri um pouco mais, mexendo as sobrancelhas para cima e para baixo.
Essa era a vantagem e desvantagem de nós quatro termos as mesmas senhas nas portas.
— Posso ser sincero?
— Sempre deve ser. Diga… — respondi um tanto curiosa fazendo menção de virar em sua direção, porém suas mãos me seguraram firme no lugar.
— Eu acho que prefiro ficar aqui hoje. — segredou-me sorridente, passando então o braço por minhas costas e aproximando nossos corpos. Ficamos lado a lado, grudados e nos observando pelo pequeno espelho. Ele estava diferente, eu não sabia apontar o que ou o por que, mas eu sentia que estava. Talvez fosse pelo contato repentino ou a conexão intensa dos nossos olhos.
Não demorou muito para que eu entendesse o quê estava diferente. Em questão de segundos toda a situação mudou, me bagunçando ainda mais, de todas as formas possíveis.
E era uma bagunça maravilhosa.
— Eu cansei de fugir, então… Você vai ficar brava se eu te beijar de novo? — sussurrou no meu ouvido e arregalei os olhos, virando o pescoço para encará-lo diretamente. Meus lábios foram capturados pelos seus assim que teve a chance, depois que eu sinalizei negativamente com a cabeça. Suspirei afobada, ajeitando-me melhor e levando as mãos até a barra de seu moletom. Eu não sabia o que estava acontecendo e não queria entender. Se aquilo era uma retribuição dos meus sentimentos por ele, eu não poderia estar mais feliz e realizada.
Nossas bocas se chocavam com desespero e agitação, focadas apenas em aproveitar o máximo de contato possível, mesmo que o beijo não estivesse tão sincronizado como deveria estar. Hyuuga começou a caminhar para o lado, saindo do banheiro e parando ao lado da minha cama. Desgrudamos nossos lábios e Neji me manteve entre seus braços, ofegante.
— Eu não quero mais fingir que não sinto nada. Você é… Você é perfeita. Eu preciso de você, Tenten.
— Eu não vou te impedir. — retruquei firme, me jogando contra seu rosto mais uma vez. Minha língua explorou sua boca sem pressa, aproveitando cada segundo daquela união. Puxei um pedaço do seu moletom fazendo menção de puxá-lo para cima; logo ele estava voando pelo quartinho e se perdendo no meio da bagunça. As mãos em minhas costas fizeram mais pressão e assim nossos corpos estavam colados, sentindo cada centímetro um do outro. Dentro de mim eu já sabia que não seriam apenas beijos naquele momento; nós passaríamos dos "limites" mais uma vez e nenhum dos dois parecia hesitante com a constatação, apenas felizes com a ideia.
As dúvidas e perguntas que antes insistiam em rodar a minha mente, haviam se explodido; o moreno parecia certo e confiante sobre o que fazia, eu também.
Desviei meu foco para o ar que começava a faltar em meus pulmões. Afastei minha boca e aproximei meus lábios do seu pescoço, deixando uma trilha de mordidas até o seu ombro descoberto. Neji tremeu levemente.
— Essa blusa é minha. — comentou entre uma lufada profunda de ar e outra, segurando a barra da minha camiseta preta do Jack Chan. Senti minha pele arrepiar com o frio do quarto, ao mesmo tempo em que minhas costas se mantinham quentes pelas mãos que ali estavam. Sorri. — Mas acho que combina mais com o chão.
Subi as mordidas até o seu lóbulo esquerdo e suguei-o com calma. Neji gemeu baixo e levou uma das mãos até a minha bunda, apertando-a com vontade. Respondi ao ato com uma mordida mais forte. Aproveitei o seu momento de distração e empurrei-o para que caísse na minha cama. Ele me olhou com mais seriedade e tirei alguns segundos para observar o conjunto daquela obra.
O quarto ainda estava escuro e pouca iluminação vinha da janela fechada, contudo os mínimos raios solares fracos que conseguiam passar pelas frestas da madeira tingiam o corpo de Neji com perfeição. Os cabelos compridos e bagunçados cobriam parte de sua testa enrugada em expectativa, e os lábios vermelhos apertavam-se ansiosos. Sua língua os umedecia desejosamente enquanto a mão direita segurava a minha própria, fazendo carinhos circulares e quentes.
Se alguém perguntasse um momento que eu gostaria de eternizar na memória, eu responderia sem hesitação que seria esse, como uma idiota apaixonada.
Hyuuga Neji tão entregue e ansioso por mim.
Antes que eu, porém, pudesse me inclinar para fazer algo, ele segurou a minha cintura e inverteu as nossas posições.
— Eu quero compensar por ter sido um idiota esses últimos tempos. Você merece só o melhor e eu quero te fazer bem.
Sorri extasiada, puxando-o novamente até que nossas bocas se chocassem. Neji partiu o beijo aos poucos e capturou um pedaço do meu pescoço exposto, sugando-o. Em seguida desceu mais os beijos, chegando até a minha barriga e em seguida até as coxas.
Por um momento nossos olhos ficaram conectados absorvendo todo a situação e admirando todos os sentimentos que passavam através deles. Depois não fui capaz de mantê-los abertos, incapaz de processar com clareza todos os choques e explosões por cada parte do meu corpo.
Era um sensação indescritível; os seus toques, os seus beijos e o seu calor mais uma vez em contato comigo. Eu me sentia cuidada, eu me sentia amada.
Os sons escapavam sem que eu me desse conta, uma reação natural ao prazer que eu estava sentindo. Era quase inacreditável que a situação estivesse se repetindo – um ano depois –, mas naquele momento algo era diferente: a certeza do que fazíamos e os sentimentos expostos.
Diferente da primeira vez, um sabia da intenção verdadeira do outro. Um tinha certeza da vontade do outro.
E estávamos dispostos a fazer melhor daquela vez.
Neji parou o que fazia ofegante e abri os meus olhos mais uma vez, buscando pelos dele. Um brilho sutil brincava em seus olhos claros, refletindo o mesmo brilho que com certeza havia nos meus. Algumas gotas de suor molhavam sua testa e seu peito, mais uma vez fiquei encantada com a vista.
Sentei no colchão e a cama rangeu embaixo de mim. Não contive o sorriso malicioso ao imaginar que ouviria aquele barulho mais vezes naquela tarde. Neji ajeitou-se melhor e tomou a minha posição, me puxando para acomodar-me em seu colo, o que fiz sem hesitar.
— Minha vez. — comentei antes de fazer um caminho sinuoso com a mão até a sua calça apertada.
E nos beijamos com vontade mais uma vez, sem arrependimentos.
E nos entregamos de corpo e alma, sem lamentações.
E fizemos juras de amor verdadeiras, sem pesares.
Ali só me importavam Hyuuga Neji, nossos corpos suados e o pequeno colchão macio.
Sem mais nenhuma fatídica noite entre nós.
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