Fatídicas noites
3 Programa tenso e meias-verdades
[MITSASHI TENTEN]
Quando Hinata nos convidou para jantar em seu quartinho ao final do corredor no dia seguinte, eu já podia imaginar que falaríamos sobre o maldito programa. E mesmo com os meus constantes protestos ao telefone, fui ignorada por ela.
Claro que Naruto saiu de sua aula mais cedo e ficou esperando como uma estátua na porta da escola de idiomas. Claro que ele deveria estar presente naquela noite tão importante. Claro que ele não poderia ficar de fora.
A viagem de metrô no começo foi silenciosa, o que não me espantava, contudo incomodava o Uzumaki mais do que deveria. Durante o trajeto ele tentava a todo custo nos fazer conversar baixinho, mas eu estava irritada demais e o Hyuuga parecia perdido em um mundo paralelo. Toda essa situação estranha só nos deixou mais calados e desconfortáveis durante o resto do trajeto.
Hinata já havia comentado comigo mais de mil vezes sobre o programa e até buscou histórias passadas para me mostrar, no entanto eu sempre fugia disso. Sentia que uma exposição dessa proporção apenas pioraria o nosso silêncio.
E por um momento me arrependi de todas as vezes que ri dos participantes do programa; das vezes em que eles não responderam as perguntas dos apresentadores ou não compareceram no dia. Como alguém, em sã consciência, aceita se expor e expor o seu problema daquela forma?
Eu sabia que não poderia contar em rede nacional coreana e conservadora os belos amassos que havia dado no meu (antes) melhor amigo e no sexo casual, então de que adiantaria ir até lá para contar metade da história? O que eu falaria?
Para fazê-la desistir da ideia simplesmente usava a mesma desculpa de que "acontece, não conseguimos mais conversar e está tudo bem".
Não, não estava tudo bem. Hinata sabia disso, eu sabia disso, Naruto sabia disso e Neji também sabia disso. Estava na cara que a situação estava saturada e ninguém mais aguentava nosso constrangimento. Estávamos estragando os nossos planos e o sonho de quatro amigos na Coreia do Sul.
O que podíamos fazer? Eu não sei.
Buda me ajude!
— Eles convivem o dia todo juntos e não conseguem conversar. Eles simplesmente não conversam e nem conseguem se olhar! — repetiu Naruto, cada vez mais exasperado. Contive um bufar de tédio com seu jeito desprendido. Ele amava ser o centro da atenções e com toda certeza estava amando a ideia de aparecer na televisão para uma grande parte dos telespectadores coreanos.
A mulher sorriu em entendimento e acenou, voltando a olhar para mim. Estávamos no estúdio da KBS há duas horas e eu não via a hora de ir embora. Quando fui delicadamente forçada a escrever a minha situação para o programa, eles me contataram em pouquíssimos dias e pareciam interessados demais em todos os meus problemas, porque fizeram perguntas até sobre os meus avós.
Porém, desde o dia em que retornaram dizendo que participaríamos do Hello Counselor, Hyuuga Neji afastou-se ainda mais de mim.
Ele poderia estar se sentindo culpado ou irritado. Eu não podia dizer com certeza o que o seu silêncio e distância significavam naquele momento, assim como não podia dizer com certeza o que o seu silêncio e distância significaram depois daquela fatídica noite.
Eu sentia que precisávamos conversar de verdade agora, estabelecer até que parte contaríamos e o que cada um sentia com isso. Mas eu não era capaz de olhar em seu rosto ou ficar ao seu lado quando os sentimentos dentro de mim me atropelavam desimpedidos. Eu não queria conversar apenas sobre o programa, eu queria entender o que havia acontecido naquela noite e por que tentávamos fugir tanto dela.
Eu queria entender o que ele sentiu e o que ele sentia. Eu queria saber se havia se arrependido ou se havia sido tão horrível assim. Eu queria saber se ele havia sentido o coração bater mais forte e os pés flutuarem em uma imensidão agradável, como eu senti. Eu queria saber tudo e ao mesmo tempo não queria porque se ele falasse, eu também teria que falar.
Talvez eu não estivesse tão preparada assim para expor meus pensamentos e desejos...
— E há algo mais que deseja contar? — perguntou a produtora terminando de escrever algumas coisas em uma pilha de papéis. Os olhos curiosos dela mais uma vez estavam grudados em mim, analisando cada reação minha.
Olhei assustada para o meu amigo, nem sequer por um segundo ponderando que deveria contar algo a mais; eu havia dito o básico e o necessário. Ele devolveu o meu olhar, mas parecia confuso. Sorri e neguei com a cabeça, respondendo um “não” baixo para a mulher.
Ficamos sozinhos novamente e meu pensamento voou até a sala ao lado, onde eu sabia que Hyuuga Neji estava sentado com a prima, tão ou mais tenso quanto eu.
— O próximo problema foi enviado por uma garota muito frustrada, vamos lá! — a apresentadora Youngja sempre fôra a minha preferida, no entanto naquele momento ela só me deixava mais aflita, e ouvi-la me deixava quase sem ar. Eu sabia que seria a nossa vez de aparecer e que não tinha mais saída; eu e Neji seríamos julgados por centenas de telespectadores por um problema que ninguém saberia como resolver a não ser nós dois. A mulher sorridente pegou a ficha e começou a ler com uma voz fina enquanto eu esperava nos bastidores para aparecer. — “Olá, meu nome é Mitsashi Tenten, tenho 22 anos e sou japonesa. Vim para a Coreia junto com os meus três melhores amigos para terminarmos os nossos respectivos cursos e estudar melhor o idioma. Tudo parecia perfeito, até que um dos meus melhores amigos, Hyuuga Neji, começou a me evitar. Não conseguimos mais ficar no mesmo lugar juntos, não conversamos mais e isso tudo está atrapalhando a amizade do nosso grupo. Temos muitas aulas juntos, contudo nos esquivamos tentando sempre sair em horários diferentes para nos evitarmos no metrô e nos corredores. Eu queria que vivêssemos uma experiência maravilhosa enquanto estudamos aqui na Coreia do Sul, mas não sei mais o que fazer para que voltemos a ser como antes. Nos ajudem, por favor!”.
A platéia aplaudiu e as minhas mãos começaram a suar.
— Vamos receber com alegria a nossa garota frustrada: Mitsashi Tenten. — com altos gritos e uma alta música, caminhei com a cabeça baixa até o escorregador e desci. Meu coração pulava no peito e eu sentia meu rosto pegar fogo.
Sentei no centro do palco após fazer uma reverência rápida para todos. Meus olhos, instintivamente, varreram a audiência a minha volta e depois encarei os meus amigos sorrindo para mim.
Bom, Naruto e Hinata sorriam.
Hyuuga Neji não.
Ele me encarava de volta com seriedade, como se o seu olhar me cravasse com várias lanças. Aquilo só piorou minha situação.
Naquele momento começou a cair a minha ficha que aquele programa, antes o meu preferido da Coreia, mais atrapalhava do que ajudava os casos.
— Vocês realmente não conversam? — perguntou Youngja me arrancando daquela troca de olhares estranha bem a tempo, antes que eu desistisse de tudo e fugisse dali.
— Bem pouco. — respondi um tanto baixo. Ela concordou, simpática.
— O que aconteceu?
— Eu não sei. De repente paramos de conversar e senti que não éramos mais os mesmos de antes. — uma meia-verdade que pareceu deixar todo mundo satisfeito.
Havia acontecido algo? Sim.
Eu tinha 98% de certeza de que era culpa da noite cheia de beijos na qual havíamos nos entregado um para o outro. E os 2% restantes não importavam muito porque variavam entre: Neji foi substituído ou é um super agente secreto em uma missão ou um príncipe de um reino distante que precisa convencer os pais de que sou a plebéia certa para ele.
A minha mente criativa ajudava muito a não me deixar mais louca.
— Por que vocês quatro moram juntos? Queriam dividir os gastos? Estudavam juntos?
— Na verdade dividimos o mesmo goshiwon e algumas contas importantes, como de internet e de comida. Nós quatro sempre fomos muito unidos, tínhamos o sonho de viajar juntos, e a bolsa de estudos para a Coreia encaixou perfeitamente com os nossos interesses.
— Deve ter sido divertido poder dividir mais tempo com os seus melhores amigos.
— Sinceramente, foi como um sonho realizado quando começamos a escolher um lugar agradável e próximo da universidade. Nós queríamos mais independência e conseguimos isso juntos. — os apresentadores fizeram barulhos de entendimento e sorriram. Eu estava sendo sincera. Muito sincera nessa parte. Eu deixava as palavras fluírem como se estivesse com amigos, como se tudo estivesse bem e como se eu não estivesse falando sobre algo que me incomodava até na alma.
Não ousei olhar para meus amigos novamente porque poderia perder a coragem momentânea.
— Vocês estudam o quê? — indagou Chanwoo.
— Eu estou estudando Relações Internacionais. — em seguida apontei para os três na platéia conforme ia falando, ainda sem olha-los diretamente. — Hinata e Naruto estudam Biologia do Mar. Neji faz Ciência da Computação.
Conforme o tempo passava, eu era bombardeada por perguntas, mas respondia com muita tranquilidade, por um momento esquecendo que não queria estar ali desde o começo e havia fugido de todas as investidas de Naruto para enviar o problema ao programa. É algum tipo de mágica? Estou drogada? Bêbada?
Talvez seja a falta de conversar com alguém sobre o problema ou a vontade imensa de mudar a situação sem saber como. Qualquer conselho serviria naquela hora e já que estava afundando, que fosse ouvindo algo útil.
— E o que mais te irrita nele? — Dongyup bateu em meu ombro delicadamente, fazendo com que eu o encarasse. A questão tinha muitas respostas possíveis, entretanto poucas delas poderiam ser ditas no programa. Antes que eu pudesse responder, o apresentar me interrompeu com um sorriso. — Oh, você é muito bonita! Tem certeza de que ele não se apaixonou por você e tem medo de contar?
Puxei o ar para dentro com tanta força que acabei engasgando. A platéia dividia os olhos entre mim e ele, mas muito mais no show que eu havia acabado de dar. Youngja afagou as minhas costas com carinho, tentando me passar força enquanto eu recuperava o fôlego e me preparava para a resposta que viria.
— Obrigada, mas não acho que seja o caso. — retruquei constrangida e incerta. No meu caso, era isso: bobamente apaixonada e covardemente fugindo de uma confissão amorosa. No caso dele, não tinha certeza de nada. — Quando nossa amizade ficou estranha ele começou a me evitar, fez novas amigos e nunca está por perto. Sempre está em baladas e festas. Isso nos afastou cada vez mais, eu acho.
— Ah, quando você coloca assim parece ser bem chato. Você não acha que está apenas com ciúmes dos novos amigos dele? — brincou Youngja e eu só consegui rir de nervoso. Neji provavelmente não sabia o quão incomodada eu estava com as suas aventuras noturnas.
— Não, definitivamente não. Todos temos outros amigos além do nosso grupo, em sua maioria outros japoneses e bolsistas. Mas essas novas amizades dele não parecem combinar muito com o seu estilo, entende? Não o reconheço quando está com eles.
— Com certeza entendemos. É como se vocês não fossem melhores amigos há anos e ele fosse outra pessoa, deixando vocês dois ainda mais distantes. Você pode ter mudado também e só saberemos o que está acontecendo se conversarmos. — completou Taegyun abrindo os braços e em seguida olhou para a platéia. — Algo deve ter acontecido e estamos aqui hoje para discutir sem medo. Vamos conhecer e escutar a outra parte da história. Hyuuga Neji, nos dê um “olá” e explique o que se passa no seu coração!
Ok, tudo estava indo razoavelmente bem e com aquele conjunto de frases eu pude sentir todo o medo voltar; não queria que cavássemos a própria cova da nossa falida amizade em rede nacional, eu queria apenas uma faísca de esperança para nós.
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