Fator Gama
2 Capítulo 01
Notas iniciais
Um feixe de luz veio em minha direção atordoando meus sentidos e machucando meus olhos instantaneamente. Desviei o olhar e tentei me recompor. Precisava ficar calma. Tinha acordado no meio do deserto, encontrei uma cidade fantasma versão moderna e fui perseguida por projetos de cachorros mutantes. Então fui salva a tiros por um homem pouco amigável. Depois de fazer todas as minhas perguntas sobre o que estava acontecendo e não conseguir nenhuma resposta, fui dopada e agora acordava presa a uma cadeira. Quando acordei estava tudo escudo de modo que não pude enxergar nada. A cadeira em que estava amarrada era lisa e frio, logo deduzi ser feita de ferro. Pronunciei alguma coisa tentando descobrir se estava sozinha no escuro. Então jogaram a luz no meu rosto. Tão forte que parecia um holofote e fez meus olhos doerem.
— Quem é você? — Escutei uma voz pronunciar de trás da luz.
— Onde estou? — Perguntei.
— Quem é você? O que fazia na superfície? De onde você veio?
— Na superfície...? — Estranhei. — Meu nome é Susanna... eu acho. Sou policial. O que aconteceu naquela cidade? Onde eu estava? Onde estou?
— Policial? —O homem que me perguntava riu. — Isso não existe mais garota. De que vila você veio?
— Eu não sei.
— Fale logo. É a vila Sob a Torre ou a Cidadela de Manesly? São os únicos locais próximos o suficiente para você conseguir chegar tão longe.
— Não conheço nenhum desses lugares. Olhe, eu não me lembro de nada do que aconteceu. Ontem eu estava prendendo um ladrão e hoje eu acordei no meio do deserto. Que cidade era aquela toda destruída? O que aconteceu?
— Como seu eu fosse acreditar nessa história absurda...
Ouvi um click e voz parou por alguns minutos. Achei que tinham deixado o lugar e me abandonado lá com o holofote no rosto. Quase meia hora depois pude ouvir outra voz sair do microfone.
— Olá, Susanna. Eu sou Carl Lavrov. Disseram-me que você foi encontrada no meio do deserto lá fora. Isso confere? — Essa era uma voz mais amigável, mais velha. Imaginei estar falando com um homem de 40 ou 50 anos talvez, porém era fria e ríspida ainda assim.
— Sim. Vocês poderiam tirar essa luz do meu rosto por favor. Meus olhos doem.
— Logo você ficará mais confortável, porém preciso que responda algumas perguntas antes. O que sabe do Dia da Grande Luz?
— Grande luz? Não sei do que está falando.
— Como foi parar naquela cidade?
— Eu já disse centenas de vezes, acordei no meio do deserto.
— Em que ano estamos?
— Ano? Eu... Não me lembro muito bem. 4004 se não me engano.
Ouvi novamente o click. Agora já reconhecia como um microfone sendo desligado. A luz do holofote diminuiu e desviou-se do meu rosto. Pude então ver melhor a sala. Era um lugar escuro e pequeno, com o espaço não maior do que um quadrado de quatro metros e quatro paredes de ferro. Havia uma mesa no canto da sala, longe do meu alcance. Uma porta a esquerda se abriu e três homens entraram na sala. O ambiente era tão pequeno que nós quatro deixávamos a sala cheia. Reconheci um deles como o homem que me encontrou no deserto. Sem o manto de proteção que usava lá fora, eu pude ver melhor sua fisionomia. Tinha um rosto triangular, com um queixo acentuado, olhos duros e uma barba por fazer. O cabelo era raspado até a careca, mas, mesmo na primeira impressão, ele parecia ficar bem assim. O corpo era musculoso quase como de um atleta. Devia estar de lentes pois seu olho esquerdo tinha a íris cinza, o que aliás era um tanto intimidador. Os outros dois eram pessoas mais comuns. Ambos aparentavam uns 40 anos. Um estava calmo e sério, o outro parecia irritado comigo. Todos usavam roupas surradas e sujas de areia ou pó.
— Desculpe senhorita Susanna. — Disse o homem calmo. Era a mesma voz mais amigável que eu tinha escutado pelo microfone. — Espero que nos perdoe pela recepção grosseira e que possamos ter uma boa relação. Você vai entender que o que fizemos até agora foi estritamente necessário devido as atuais circunstancias. Ofereço a estadia em nossa cidade se isso puder compensar.
Não soube o que dizer, nem tive muito tempo para conversar. Logo os dois homens saíram da sala me deixando com o protótipo de soldado modelo. Ele me desamarrou e arrastou a mesa para que pudéssemos conversar. Pegou um cantil de alumínio e me ofereceu.
— Estou com sede demais para tomar bebidas alcoólicas. Obrigada. — Recusei.
— É água.
— Jura? Quem coloca água em um cantil desses.
— Você não se lembra mesmo de nada que aconteceu nos últimos cinco anos?
— Cinco anos? — Peguei e bebi. Beber alguma coisa depois de horas no deserto com o sol escaldante era maravilhoso, mas eu precisava de mais água do que tinha ali.
— Certo. Cinco anos atrás, ninguém sabe como ou porque, mas os governos do mundo todo provocaram uma série de bombardeios com as bombas que possuíam. A radiação tomou conta do planeta e tornando-o inabitável. Aquilo que você encontrou lá em cima quando acordou foi o que restou do planeta.
— O que? — Engasguei.
Levantei e meus olhos correram rapidamente pela sala até a porta.
— Fique calma. Nem todos morreram no evento. As pessoas que sobreviveram se refugiaram em minas abaixo da terraa, oonnddee aaa rrraaddiaaaççããão...
Minha respiração estava forte. Não conseguia mais entender o que aquele homem falava, sua boca se movia muito devagar e as palavras pareciam ser pronunciadas em câmera lenta. A luz do holofote começava a piscar várias vezes rapidamente. Minhas mãos tremiam, meu coração pulsava forte. Uma mistura de ansiedade e angustia tomaram conta do meu corpo e eu não aguentei mais. Saí correndo daquele lugar. Sai em um corredor, sem prestar atenção para onde ia. Desviava de todas as pessoas o quanto podia, mas acabei esbarrando e derrubando algumas. Corri e só parei quando o caminho acabou. Quando cheguei ao fim do túnel e me deparei com um precipício e uma cidade lá embaixo.
O ataque de pânico acabava, tentei ficar mais calma. Olhava para o céu, mas só via um teto metálico escuro. O sol não existia, em seu lugar, uma série de lâmpadas brancas de alta intensidade. Lá em baixo estava a cidade, com blocos de cimento como casas. Era um lugar frio e sem vida, um ambiente artificial cheio de terra e poeira. Meu ataque de pânico passava e ofegante sentei no chão. A beira do precipício, me encolhi.
— Não é verdade, não pode ser verdade...
— Sinto muito. — O homem que me resgatara sentou ao meu lado. Estava irritado, esse não era um assunto que gostava muito de falar. — Parece que faz tanto tempo que aconteceu... Não falamos mais sobre isso, não lembramos de como a superfície era mais.
— O que aconteceu?
— A radiação. Ela matou tudo em questão de algumas horas. Poucos sobreviveram em refúgios. Menos ainda conseguiram suportar os primeiros meses. Os que conseguiram se juntar, formaram comunidades, construíram cidades embaixo da terra. Essa é uma delas, Pânico.
— Por que Pânico?
— Porque era como todos estávamos quando a construímos. Por que ela era nosso quarto de pânico para mais 300 pessoas.
— Mas eu estava lá fora. Não morri.
— Não morreu. Os níveis de radiação diminuíram rapidamente pelo menos depois dos primeiros meses. Conseguíamos sair em trajes de proteção sem morrer em algumas horas, mas os que tentaram não duraram nada mais que uma semana. Agora, cinco anos depois, podemos até sair sem os trajes, mas aguentamos apenas seis horas lá fora.
— Eu não tinha nenhuma roupa de proteção quando acordei, então eu estava a menos de seis horas lá fora?
— Sim. Provavelmente. Chegamos os níveis de contaminação em você e não estava acima da taxa de risco, então você provavelmente estava a menos de seis horas lá fora. Quanto tempo passou desde que acordou?
— Duas ou três horas.
— Não demoramos muito tempo voltando o que quer que tenha acontecido para você ir para lá, foi em menos de três horas. — Ele se levantou. — Venha. Vou mostrar o quarto em que você vai ficar.
— Qual seu nome?
— Nickolas. — Ele estendeu sua mão para mim.
Eu segurei.
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