Father's Day

1 Single Chapter — Blend of Feelings


Notas iniciais
Não tenho muito o que dizer, mas amei escrever essa fic. ✊❤

Father's Day

By: Archie-sama

Single Chapter — Blend of Feelings

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Capítulo Único — Mistura de sentimentos



Em Liberio existia uma data especial comemorada todos os anos. Um dia escolhido unicamente para homenagear os pais dos pequenos guerreiros de Marley — aquelas crianças que estavam sendo preparadas para a guerra, cujos pais eram devotos à nação.

Na primeira vez que Zeke pensou em comemorar esse dia, ele tinha seis anos de idade. O garoto observava, de maneira discreta e um tanto maravilhada, os pais indo buscar seus filhos nos campos de treinamento. Ele não entendeu por qual motivo seu pai não apareceu para buscá-lo também, embora tivesse esperado por ele quase toda a tarde. E, apesar de as outras crianças zombarem dele sem nenhum remorso — porque ele, um eldiano, não merecia comemorar sequer um dia de sua existência —, ele estava tão empolgado que esse pensamento logo desapareceu de sua mente.

Queria ver seu pai o quanto antes. Queria abraçá-lo e desejar que ele pudesse ficar ao seu lado para sempre. Então, assim que depositou suas armas de volta no arsenal e se livrou de todos aqueles equipamentos desnecessários, Zeke correu em disparada em direção a sua casa.

— Pai, mãe, estou em casa! — ele exclamou com euforia ao abrir a porta da frente. E, como era de praxe, Grisha Jaeger e Dina Fritz não se encontravam na sala de estar, fazendo o menino ir atrás deles onde costumavam ficar: no quarto de estudos. Era o lugar que usavam para discutir as ideias que Zeke ainda não entendia muito bem.

— Chegou cedo, querido… — sua mãe disse assim que o viu, abrindo um sorriso pequeno. Ela estava de pé ao lado do marido que, sentado à mesa, apontava-lhe alguma coisa em um livro qualquer.

— Como foi o treinamento? — Foi a primeira coisa que seu pai questionou, virando-se para ele tranquilamente e sorrindo.

O semblante de Zeke murchou sem que ele ao menos percebesse, e seus olhos miraram diretamente o chão.

— Foi só… um pouco difícil — ele respondeu com uma meia-verdade, um tanto sem graça. Aquilo já havia virado um hábito, simplesmente porque ele não queria decepcionar seus pais tanto quanto parecia decepcionar seu instrutor. Zeke não queria se tornar um guerreiro, ele não gostava de armas e muito menos dos treinos aos quais era submetido. Além do mais, havia um ponto crucial: ele era péssimo nisso.

Mas o que uma criança não faria pelo amor e atenção dos pais que tanto admirava?

O garoto queria obter de seus pais o mesmo respeito que tinha por eles; entretanto, acima de tudo, ele desejava carinho. Desejava divertir-se com eles, compartilhar do seu calor e receber os olhares de ternura — embora só tivesse mesmo as altas expectativas que lhe sufocavam. Mas era por isso que, mesmo quando Zeke lembrava da constante humilhação que sofria nas horas de treino árduo, e mesmo quando sentia que não tinha nenhuma utilidade, seu coração se aquecia quando Grisha falava:

— Entendo… Mas eu sei que você vai conseguir se tornar um guerreiro. Você é nosso filho, afinal de contas.

E essas palavras eram tudo que ele possuía. Eram tudo aquilo que alimentava o amor que sentia pelos pais e o que supria sua carência de afeto. Ele era especial de alguma forma, não era?

— Sim… — Zeke assentiu, o rosto levemente corado de animação. Contudo, lá em seu íntimo, aquilo ainda não era o suficiente. Ele precisava de mais,precisava da presença deles e de um sentimento que o fizesse se sentir realmente em casa. Até que se lembrou do motivo de ter sido liberado antes do anoitecer. — Ah! — Ele começou a mexer na pequena bolsa transversal que carregava e retirou uma folha dobrada de lá. Estendendo-a em direção a Grisha, que o fitou com curiosidade, o menino enrubesceu ainda mais. —F-Feliz dia dos pais…

E, de olhos levemente arregalados, o pai pegou o papel das mãos do filho e o desdobrou, encarando seu conteúdo analiticamente. Era um exame teórico avaliado com nota máxima. Zeke havia respondido corretamente todas as questões referentes à nação de Marley e suas estratégias de campo. A inteligência dele era a única coisa que não podia ser contestada pelas outras pessoas. O garoto pensava que assim poderia fazer seu pai se orgulhar ao menos um pouco... Ele próprio estava satisfeito com seu desempenho.

Mas Grisha colocou o papel de lado, deixando-o sobre a mesa de estudos, e suspirou audivelmente. Parecia chateado, deixando Zeke extremamente surpreso ao notar que as sobrancelhas negras se franziram.

— Nós não comemoramos tal coisa, Zeke! — o progenitor afirmou com veemência, erguendo-se da cadeira e dando um passo à frente. Ele capturou os ombros do filho com suas mãos pesadas e ficou cara a cara com ele. — Não enquanto estivermos presos neste lugar como gado. — Os olhos de Zeke encheram-se de lágrimas enquanto encaravam a expressão vidrada de seu pai. Uma expressão determinada que exalava fúria. — Nós somos eldianos em busca de liberdade, filho. Não se esqueça do seu propósito — disse duramente, encarando o menino pelo que pareceu ser uma eternidade.

O ódio dele não era direcionado à criança, tampouco à data comemorativa que, na verdade, pouco parecia lhe importar. Ainda assim, quando Zeke sentiu seu coração apertar no peito, ele tinha certeza de que as palavras de seu pai nunca mais lhe abandonariam. Mas ele não ousou chorar, e as lágrimas permaneceram retidas nos cantos de seus olhos. Grisha o soltou em seguida, dando-lhe as costas.

— Parabéns pela nota — ele ainda proferiu, esfregando as têmporas em sinal de dor, mas nem de longe aquilo parecia uma felicitação. Pelo contrário, a voz dele continha… um quê de decepção.Havia um tom forte de desgosto que penetrou como uma flecha no coração do pequeno Jaeger. E aquele tratamento era algo que o garoto, que era sempre tão carente de aprovação, jamais poderia suportar.

Então Zeke, totalmente chocado, lançou um olhar para a mãe em busca de consolo. Em busca de um sinal que denotasse que ela estavado seu lado.Ela retribuiu o olhar, parecendo um tanto preocupada, mas não falou nada. Dina não moveu um músculo em favor do filho que, inconformado, saiu correndo para o quarto com os olhos cerrados. Ele se trancou lá, mas não sem antes ouvi-la discutir, sem alterar a voz, com o marido:

— Precisava falar assim? Ele só queria te agradar…

— Isso é para o bem dele, Dina. Um dia ele vai entender. Um dia… — o homem retrucou com certo desespero, e Dina Fritz, por julgar entendê-lo, balançou a cabeça em concordância.

Foi o pior dia dos pais da vida de Zeke.

* * *

Na segunda vez, Zeke tinha sete anos. Todos haviam sido liberados do treino e se organizavam para ir embora com os pais; ele, no entanto, não tinha ninguém à sua espera.

— Agiliza, Charles! Nossos pais estão esperando! — um dos garotos gritou de longe para o amigo, que tentava desmuniciar sua arma bem ao lado de Zeke.

— Já estou indo! — Charles gritou de volta.

Zeke, olhando-o de soslaio, percebeu a dificuldade dele em manusear aquela arma de cano longo.

— Posso… mostrar como se faz? — questionou o loiro, solidário e um tanto tímido. Não era como se gostasse de fazer aquilo e, como o garoto também parecia não gostar, identificou-se com ele logo de cara.

Percebendo que Charles não era de falar muito, uma vez que ele apenas deu de ombros — ou talvez ele simplesmente não quisesse gastar saliva com um inútil —, Zeke pegou a arma da mão dele e fez o procedimento correto.

— Pronto. — Entregou a arma de volta ao menino, que o encarou em dúvida. Porém, antes que ele pudesse agradecer a pequena ajuda, o amigo dele veio para perto acompanhado de mais três garotos.

— Por que tanta demora, Charles? — indagou o outro, que se chamava Pavan, cruzando os braços. — O que está fazendo com esse demônio eldiano? — ele questionou com uma sobrancelha arqueada, lançando um olhar de puro desdém para Zeke, que se sentiu subitamente julgado por todos.

O Jaeger engoliu em seco, abaixando a cabeça e ficando estático. Ele nunca sabia como revidar as agressões verbais, mas entendia que, no dia em que revidasse, as coisas não terminariam bem. Ele certamente apanharia… Então, por via das dúvidas, preferia evitar. Já se sentia suficientemente humilhado, não precisava rebaixar-se ainda mais.

— Vai virar amigo dele agora? Você não se lembra que ele é filho dos traidores?! — atacou outro menino, fazendo Zeke se encolher e sua mente ser bombardeada por milhares de lembranças de seus pais. Você não se lembra que ele é filho dos traidores?!

Lembra que ele é filho dos traidores?!

Ele é filho dos traidores!

Traidores…

Aquelas palavras ecoavam na cabeça de Zeke quase como uma maldição, espezinhando-o de forma lenta e excruciante. Prendendo a respiração, ele apertou os olhos e balançou a cabeça em negação, atormentado pelos fantasmas que insistiam em assombrá-lo. Era como se seus pais fizessem questão, principalmente Grisha, de puni-lo por conta de suas más ações. A memória deles ainda era bem vívida em sua mente, principalmente as expressões que mesclavam incredulidade e decepção no dia em que foram delatados ao governo. Um filho, sangue de seu sangue, os apunhalara pelas costas.

— Eu não estava fazendo nada. — Charles encarou o Jaeger por alguns segundos, inexpressivo. — Vamos embora — ordenou, empurrando dois dos amigos pelas costas. No fundo, no fundo, seus pensamentos eram iguais aos de todos os marleyanos. Eldianos eram demônios que massacraram seus antepassados e por isso eram indignos de pena, empatia ou qualquer que fosse o sentimento minimamente positivo. E não era como se as crianças, que eram tão fortemente doutrinadas nessa ideologia, pudessem se desprender daqueles ensinamentos com facilidade.

Charles e os outros decidiram retirar-se, mas Pavan permaneceu na sala, intimidando Zeke ao passo que o rodeava em círculos.

— Eu já disse antes, mas parece que você esqueceu… Você é só um eldiano imundo, nunca se tornará um verdadeiro guerreiro de Marley! — dito isto, o garoto cuspiu no chão aos pés do loiro, indo embora com muita raiva no olhar. Para ele, Zeke não passava de um filhote de traidores que não deveria ter permissão para sair da zona interna de Liberio.

Mas o Jaeger estava acostumado com o tratamento, de modo que respirou fundo e, terminando de organizar suas coisas, apenas foi embora. Os pensamentos, todavia, continuavam como um turbilhão em sua mente infantil. Filho de traidores… Mas ele não era um também; nem ele, nem seu avós. Então, por qual motivo as pessoas não pareciam acreditar nele…? Ah, sim, porque ele era um eldiano. Não importava se ele havia apoiado Marley, sempre seria taxado pelo sangue que corria em suas veias. O que o levava a um pensamento óbvio: o povo de Marley sentia satisfação em subjugar outras raças, o que os tornava iguais àqueles que um dia foram seus opressores. Um ciclo de ódio.

Zeke cerrou os punhos, mas segurou na garganta a vontade de chorar. Não queria que seus avós o vissem daquela maneira vergonhosa, entretanto era inevitável questionar se não teria sido melhor morrer com os pais em vez de entregá-los.

Lembrou-se de Dina e seu sorriso delicado, lamentando por não poder mais vê-la e ouvir sua fala mansa. Ao mesmo tempo ele pensava em sua avó, Norma, e sabia que recebia dela muito mais do que sua mãe um dia lhe ofereceu. Tinha o aconchego dos braços frágeis por conta da idade, tinha toda a gentileza e as refeições quentinhas, coisas que a mãe raramente estava por perto para lhe proporcionar. E era impossível pensar nela sem que se lembrasse automaticamente do avô, Faust. Diferente de seu pai, que estava sempre tentando controlá-lo com ideias mirabolantes de conspiração e depositando em suas costas uma carga com a qual não podia lidar, o idoso respeitava seus sentimentos. O avô nunca o forçava em situações desagradáveis ou o desmerecia por não ser bom o suficiente.

E também havia o senhor Xaver… O adulto continuava a apoiá-lo mesmo quando o instrutor o desmoralizava na frente de todos; continuava ensinando-lhe sobre suas pesquisas com os titãs e ainda jogava bola com ele sempre que tinha tempo livre… Ele dizia que ninguém precisava ser um guerreiro para ter algo de especial, e Zeke acreditava nele. O menino percebeu, pela primeira vez, que alguém o enxergava de verdade.

Era inevitável sentir-se um pouco arrependido pelo que fizera com os pais, mas o fato era que Zeke não conseguia não concordar com aquilo. E ele só havia levado adiante justamente porque foi Xaver, a pessoa em quem mais confiava, que o aconselhara a isso.

O coração de Zeke estava indeciso entre a culpa de ter feito algo horrível com os pais e a aceitação de que aquilo havia sido por um bem maior.Porque nem ele e nem seus avós mereciam ser castigados por algo de que não tinham culpa. Além disso, a mágoa que enraizara no peito do garoto sempre sobrepujava quaisquer lampejos de consciência que pudessem surgir em sua mente. Porque ele era só uma criança que queria ser amada…Mas depositaram nele, em vez disso, um fardo pesado que se converteu em uma sucessão de fracassos. No fim, ele não conseguia perdoá-los.

Quando o loiro chegou em casa naquela tarde quente de verão, cumprimentou os avós com os ombros caídos e um desânimo atípico que não passou despercebido. Mas ninguém se pronunciou sobre sua evidente tristeza, e ele também não passou tanto tempo remoendo os acontecimentos desagradáveis do dia. Ele finalmente iria jogar bola com o senhor Xaver!E essa era a parte preferida do dia dele desde que haviam se conhecido. O momento em que podia ser seu verdadeiro "eu", sem medo de julgamentos ou repressões.

Zeke deixou suas coisas no quarto e, depois de um banho, saiu em direção ao local onde eles costumavam jogar. Mas, para sua surpresa, Xaver não estava lá como o habitual. Ele ainda ficou esperando por um bom tempo; o pesquisador, contudo, não apareceu, deixando-o preocupado, triste e decepcionado. Porque seu dia já havia sido ruim o suficiente… E ter isso prolongado só fazia com que se sentisse ainda mais rejeitado. Indesejado.

E foi com essa mesma sensação que ele novamente voltou para casa, aproveitando que seu avô não estava no momento e se trancando no quarto logo após dispensar o jantar feito por sua avó. A sensação de abandono, mesmo sabendo que Xaver jamais seria capaz de deixá-lo como Grisha havia feito, não deixou que sentisse nenhuma fome.

* * *

— Estou em casa — Faust disse assim que chegou, avistando a esposa sentada sozinha na sala e lendo um livro. A senhora levantou os olhos e cumprimentou o marido com um sorriso. — Onde está o Zeke? — ele indagou, procurando o menino com os olhos.

Norma suspirou, um pouco triste.

— Ele se trancou no quarto e nem jantou — ela respondeu, preocupada. — Tentei fazê-lo sair de lá e me dizer o que está acontecendo… Mas você sabe como é o Zeke.

O senhor esfregou a nuca, resfolegando. Sabia como o neto se sentia desde que os pais foram condenados a viver como titãs irracionais na ilha dos demônios, mas nunca soube exatamente o que dizer ou fazer para tirar ao menos um pouco daqueles sentimentos ruins de dentro dele.

— Vou falar com ele. — E assim ele fez, dirigiu-se até a porta do quarto de Zeke e bateu de leve algumas vezes.

O loiro estava deitado em sua cama, todo embrulhado com um lençol e encolhido exatamente como uma criança que sofre com a rejeição do mundo. Ele chorava baixinho, sem querer incomodar seus avós, e fungava de vez em quando, limpando o nariz que escorria na manga da camisa.

— Zeke — chamou o avô —, por favor, abra a porta.

— E-Eu estou bem, vovô… — ele respondeu tentando disfarçar, sem sucesso, a voz embargada.

— Eu só quero conversar com você, prometo que não vou demorar… — o idoso pediu, aguardando por alguns segundos em silêncio.

Zeke se arrastou para fora da cama e abriu a porta, voltando a sentar-se, ainda coberto. Ele ergueu os olhos vermelhos para o avô e se encolheu, abraçando os joelhos. O senhor de idade sentou-se ao lado do neto e o abraçou pelos ombros, esfregando o braço dele devagar, tentando acalentá-lo.

— Por que está tão triste? — o mais velho perguntou suavemente, evitando encará-lo muito para que ele não se sentisse envergonhado. — Foi algo que eu fiz?

— É claro que não, vovô! — ele negou no mesmo instante. — Você nunca fez nada para me deixar triste.

— O que é, então?

Esse dia… — Zeke sussurrou, sentindo-se meio patético.

Foi aí que Faust se deu conta, levemente surpreso. Era o dia dos pais… Ele mesmo já estivera triste e abatido pela manhã ao lembrar-se de seu querido filho Grisha. Pensar que nunca mais poderia vê-lo era extremamente doloroso… Uma consequência inevitável para atos de rebelião. Porém, ao contrário de Zeke que não tinha nenhuma culpa, ele era o culpado por não ter sido um pai bom o suficiente para Grisha e Faye. Ele havia falhado em protegê-los, em ensinar-lhes corretamente sobre o mundo em que viviam. Concluiu, então, que deveria fazer o máximo que pudesse para não negligenciar o neto também.

— Sente falta do seu pai, não é? — A voz de Faust saiu quase inaudível.

— Não. Eu… — Zeke se encolheu ainda mais — não sinto falta dele como deveria.

— Entendo… Você está com raiva — afirmou o sr. Jaeger, fazendo o garoto arregalar um pouco os olhos. Mas ele não desmentiu, em vez disso seu lábio inferior começou a tremer, e ele o mordeu a fim de se controlar.

— Por que ele teve que me deixar? — Zeke inquiriu, o rancor extremamente presente no seu tom de fala. — Por que ele… Por que ele insistiu naquela ideia mesmo quando eu pedi para esquecer? Por que a minha opinião ou o que eu queria nunca fez diferença? Ele… Ele… — Sua voz foi sumindo no ar, tornando-se ainda mais abafada.

— Seu pai era egoísta, Zeke. E sua mãe não ficava muito atrás. A causa pela qual lutavam lhes subiu à cabeça. — Mas essa resposta não era o bastante para abrandar a mágoa do garoto.

— Eu não entendo! Mesmo que eu pense nisso por horas, nada faz sentido na minha cabeça. Por que Eldia era mais importante… do que eu? Eu só queria… s-só queria ser tratado como filho dele, não como um boneco idiota! E agora… — As lágrimas voltaram a cair sem que ele pudesse freá-las. — Nunca vai haver uma chance de provar que ele estava errado, que eu não sou um fracasso… Agora eu não tenho mais um pai.

— Como assim você não tem mais um pai? — O avô arqueou uma sobrancelha, apertando-o num abraço de lado e abrindo um sorriso simples. Seus olhos também estavam marejados, todavia não se permitiu chorar na frente do neto. Já havia esgotado suas lágrimas quando saíra de casa mais cedo. — Não seja ingrato — ele brincou. — Eu estou aqui, não estou? E você não é um fracasso.

A ficha de Zeke pareceu cair na hora. De olhos arregalados, ele fungou e encarou o avô.

— Feliz dia dos pais, vovô! — Como um pedido de desculpas, ele avançou para um abraço apertado na barriga do velho Jaeger, que riu levemente da afobação do menino e agradeceu a lembrança.

— Ouça bem, Zeke… — ele pediu depois de um tempo, prendendo a atenção do garoto. — Não se limite àquilo que está na sua frente. Olhe ao seu redor, preste atenção nos detalhes…

— O que quer dizer? — Zeke o olhou confuso.

— Me diga uma coisa… Por que Grisha era seu pai?

O loiro pensou por alguns instantes.

— Porque… nós tínhamos o mesmo sangue? — respondeu em dúvida.

— Correto. — Faust sorriu pela resposta lógica do menino. — Mas a paternidade não está apenas nisso. Família não se define somente por vínculo sanguíneo, meu neto. O laço mais importante está aqui. — Ele levou a mão até o peito de Zeke e tocou o lado esquerdo, onde estava o coração, com o dedo indicador. Os olhos do garoto brilharam de fascinação. — Está nos sentimentos que você nutre pelas pessoas que considera especiais. Então escute o seu avô… Seu pai ficou cego pelo desejo de vingança contra Marley, e isso não significa que ele não te amava, mas… deixe-o ir. Aqui ainda existem pessoas que se importam com você, só tem que abrir os olhos e enxergar.

Depois de outro abraço apertado, Zeke foi deixado sozinho para refletir. E, de tudo que sua memória poderia reviver durante aqueles instantes, Xaver era a única pessoa que aparecia em sua mente. Nada de Grisha Jaeger nem suas constantes reprimendas e ensinamentos sobre Eldia, nada de humilhações ou indiferença. Apenas Xaver, com seus óculos engraçados, sorrisos gentis e palavras reconfortantes.

E o garoto lembrou daquele dia.

— Quer dizer, então… que seu pai ficou decepcionado? — Xaver questionou, enquanto pegava a bola que Zeke jogou para ele. Foi a primeira vez que o menino o viu com um semblante tão indecifrável. — Por quê? Você não teve a nota máxima?

— Ele não quer comemorar um dia feito para marleyanos. Isso o ofende — o Jaeger esclareceu, dando de ombros e fingindo não se importar mesmo quando Xaver já o conhecia bem o suficiente para saber que ele estava arrasado.

— Mas ele é seu pai… Por que ser marleyano ou eldiano importa? — Xaver indagou, franzindo as sobrancelhas e jogando a bola de volta. Não conseguia compreender a lógica de Grisha Jaeger. Ele era realmente tão egoísta a ponto de não se importar com o próprio filho?

— Eu também não sei… — Zeke sorriu para disfarçar o desconforto, segurando a bola por mais tempo do que o necessário. Mas Xaver sabia que ele estava realmente abatido; apesar de tudo, aquela situação desagradável havia acontecido no dia anterior. Ainda era muito recente para que uma criança de seis anos deixasse de lado.

— Que tal um passeio? — O pesquisador mudou de assunto drasticamente, abrindo um sorriso alegre que deixou o menino bem surpreso. Se fosse para fazer aquela criança feliz, Xaver poderia facilmente esconder a tristeza e dor que havia em seu coração.

— C-Comigo? — o loirinho questionou, apontando para si mesmo em dúvida. Mas o rosto corado de entusiasmo deixava as suas expectativas bem claras.

— Mas é claro! Com quem mais seria? — Xaver riu. — Depois dos titãs, para mim você é a pessoa mais interessante por aqui. Talvez eu até tente te dissecar um dia — brincou, observando as diferentes reações que causava no Jaeger.

— Isso não é engraçado, sr. Xaver — o garoto disse respeitosamente, mas sua risada afirmava totalmente o contrário. Era a primeira vez que ele ria desde o outro dia…

Xaver já havia percebido antes, não era preciso muito para agradar Zeke. Ele só necessitava de… atenção. Preocupação. Um olhar mais solícito para as suas vontades. Ele só queria ser uma criança que fazia coisas de criança. Queria uma vida normal, comum, onde pudesse arranjar amigos para brincar e fazer isso até tarde sem se importar com armas, guerras ou força bruta.

— Vamos? — ele chamou, então, e estendeu a mão livre para o garoto com um sorriso paternal.

Os olhos de Zeke se arregalaram e seu coração acelerou como nunca antes, e ele se aproximou apressadamente do amigo adulto, agarrando a mão dele. Era uma mão grande e calorosa… Como ele imaginava que a mão de um pai deveria ser.

— Vamos! — Sorriu de uma maneira que Xaver nunca havia visto até então: de orelha a orelha. E eles seguiram para o centro comercial de Liberio, onde ninguém poderia destratar Zeke por ser eldiano, já que ele estava acompanhado de um oficial do exército de Marley, mais precisamente o portador do Titã Bestial.

Naquele dia, para compensar os fatos desagradáveis que haviam ocorrido no dia dos pais, Xaver tratou Zeke com toda a paciência, gentileza e alegria que Grisha não parecia ter tido. E a parte mais memorável para ambos foi aquela: comprar dois sorvetes de casquinha que derreteram facilmente no calor insuportável do verão em Liberio. As mãos deles ficaram todas sujas, mas a felicidade, por mais simples que fosse, não os abandonou em nenhum segundo.

Zeke ergueu-se da cama, enxugando os olhos. Seu avô estava certo, era hora de superar. Ele não iria mais deixar que as lembranças de Grisha interferissem na maneira como se sentia sobre os outros e sobre si mesmo. Foi com esse pensamento que ele pegou algumas moedas em sua escrivaninha e saiu correndo porta afora.

— Aonde vai, Zeke?! — Norma questionou em voz alta, vendo-o passar correndo pela sala de estar. Ela ainda estava preocupada.

— Tenho que falar com alguém! — ele gritou de volta, fazendo a idosa sorrir um pouco. Ela suspirou aliviada e lançou um olhar cúmplice para o marido. Desde que Zeke havia entregado os próprios pais às autoridades, ela estava preocupada com a saúde mental dele. Mas seu neto era forte; ele era, sim, uma criança especial e diferente das outras. Só não havia descoberto isso ainda.

O pequeno Jaeger correu para o centro comercial, foi hostilizado como em quase todas as vezes que aparecia ali, comprou o que desejava com muito custo — para marleyanos, receber dinheiro de eldianos era como atrair uma maldição para o próprio comércio — e seguiu até uma casa simples perto dos campos de treinamento. As paredes da frente estavam desgastadas e a porta de madeira maciça não estava em melhor estado, mas o ambiente em si parecia limpo. Zeke engoliu em seco por um instante, até que respirou fundo e ergueu a mão para dar algumas batidas na porta.

Ninguém veio atender. Ele pensou em desistir, dar meia volta e retornar para o cubículo que era o seu quarto… Mas pensou melhor. Aquele homem não havia desistido dele. Ele foi seu porto-seguro quando ninguém estava lá para ampará-lo em relação aos seus maiores medos: receber algum tipo de castigo divino por entregar os pais; continuar sendo maltratado sem nenhuma razão; sentir-se um eterno fracasso; ficar sozinho para sempre...

Xaver era seu maior apoio. Ele era tudo aquilo que seu pai nunca havia sido.

Então, ele insistiu.

— Senhor Xaver? — Bateu mais algumas vezes, um pouco mais forte. — É o Zeke… — Sua voz não continha tanta segurança quanto as batidas de seus dedos na porta, mas foi o suficiente para que o pesquisador aparecesse.

— Zeke? — Ele parecia bem surpreso depois de abrir a porta, mas não tanto quanto o próprio Zeke. Xaver parecia adoentado. O semblante dele estava totalmente abatido, havia olheiras bem escuras embaixo de seus olhos e seus lábios estavam um pouco rachados. — O que faz… aqui? — perguntou com a voz arrastada de desânimo.

Zeke ergueu a mão, que já começava a ficar suja pelo sorvete que derretia. O pesquisador arregalou e piscou os olhos algumas vezes, meio confuso. O garoto, envergonhado, apenas abaixou a cabeça.

— E-Eu só… queria dizer… obrigado. — Ele continuou olhando para o chão, sem ver que Xaver estava completamente estarrecido. — Por ter ficado ao meu lado e… Por ser diferente dele. — A essa altura Xaver já havia pegado o sorvete da mão dele, olhando-o emocionado. — Feliz dia dos pais, senhor Xaver.

E, sem nem mesmo ter essa intenção, Zeke salvou o portador do Titã Bestial de um dia inteiro de martírio. De lembranças que só causavam dor e solidão. Então, de olhos marejados e um alívio que ele não sabia que era capaz de sentir, Xaver abraçou o menino apertado.

— Obrigado! Obrigado, Zeke… Você não tem ideia do quanto isso me faz feliz.

O dia dos pais nunca mais seria motivo de tristeza e isolamento.

* * *

Quando decidiu que aquele seria seu último dia dos pais, Zeke Jaeger tinha dezessete anos. Sentado sobre uma rocha qualquer, em meio ao gramado das colinas de Liberio, ele observava o nascer do sol com um objeto especial em mãos: os óculos redondos de Xaver.

O pesquisador já não estava mais entre os vivos, e pensar nisso trazia uma mistura inexplicável de sentimentos ao peito do rapaz. As lágrimas escorriam em seu rosto abundantemente, sem que tivesse chances de secar.

Seu pai estava morto. Morto pela maldição de Ymir, morto pelo egoísmo de Marley e, mais ainda, morto pelo próprio filho. Aquilo havia sido para um bem maior, Zeke se convencia. Costumava pensar assim desde que seus pais biológicos cometeram traição. E Xaver não parecia pensar diferente… Ele estava feliz por poder repassar o Titã Bestial para seu filho.

A partir do momento em que contou para Zeke sobre a esposa e filho que perdera há muito tempo — e justamente por isso o dia dos pais era uma data que só lhe trazia sofrimento —, ele já não carregava mais consigo a imensa dor da solidão. Xaver já não tinha muito tempo de vida, era verdade; mas, apesar das imposições do governo de Marley, ele estava fazendo aquilo porque queria.

Tom Xaver desejava liberdade, depois de tudo. E só poderia partir aliviado se tivesse a certeza de que Zeke ficaria bem sozinho. E o rapaz estava bem, na medida do possível. Ele finalmente havia terminado o penoso treinamento para se tornar guerreiro e, embora fosse o mais velho, era o melhor. E tudo havia sido graças ao apoio de seu pai. Era pelo sonho dele que Zeke estava disposto a arriscar toda sua vida. Porque, se eles nunca houvessem nascido, não teriam que passar por todo aquele sofrimento. Então, para que nenhum outro eldiano tivesse de enfrentar os males daquele mundo caótico, Zeke seria a salvação de todos eles.

Porque a verdadeira liberdade estava em nunca pertencer a este mundo.

Ainda chorando, o Jaeger tentou levantar-se de onde estava, porém suas pernas falharam. As lembranças de alguns dias atrás formaram um nó em seu estômago, e a bile lhe subiu pela garganta. O sorriso de Xaver enquanto o assistia ser condecorado pelo exército; os olhos gentis dizendo-lhe "você foi bem"; as lágrimas de dor após a percepção de que nunca mais se veriam depois disso… E o "obrigado, pai", aquelas palavras sussurradas que Xaver com certeza não podia ouvir de onde estava. Aquele era o momento da despedida. Zeke foi colocado de joelhos e sentiu a agulha da seringa adentrando sua pele. Então, com uma explosão, ele se tornou um titã irracional depois de ser deixado fora do alcance das outras pessoas.

Ele não conseguia se lembrar de tudo que havia acontecido enquanto estava naquela forma, mas sentia. Sentia o pavor estampado nos olhos outrora amáveis de seu pai. Não precisa ser assim,seu raciocínio gritara. Mas seus instintos claramente resistiram a isso, fazendo-o segurar seu pai pelo tronco, apertando-o e fazendo um caminho com ele até sua boca. Não, eu não quero isso. Sua face estava molhada pelas lágrimas num último clarão de consciência, entretanto, era tarde demais. Carne, sangue e ossos. Seu pai deveria ter gritado de horror até que não sobrasse mais vida nele... E, em seguida, o corpo dilacerado deveria ter atravessado sua garganta até o grande estômago. Aquele era realmente o fim.

E agora Zeke era o portador do Titã Bestial.

Ele caiu de joelhos no chão, sua última refeição fazendo o caminho de volta através de sua garganta. Vomitou tudo que podia, sentindo a acidez incomodar a laringe e o péssimo gosto perdurar em sua língua. Mas, embora fosse a coisa mais dolorosa que já havia lhe acontecido, ele não se deixou abater. Depois de tossir um pouco, ergueu-se do chão e limpou a boca com as costas da mão. Enquanto encarava a aquarela em tons de laranja, vermelho e amarelo que surgia no horizonte, suas lágrimas secaram com o vento. Os óculos de seu pai agora estavam em seu rosto, simbolizando o começo de uma nova era.

Zeke não comemoraria mais o dia dos pais, pois ele tinha uma missão a cumprir.

E não iria falhar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!