Father Figure
1 A tempestade de prata e rubro
Notas iniciais

O CÉU DE TAMARAN amanheceu encoberto por nuvens arroxeadas espessas, pesadas como ferro, que deixavam passar apenas fragmentos da luz alaranjada do sol nascente. O vento frio atravessava os campos de treinamento, carregando consigo o cheiro de poeira e metal.
No centro da arena principal, o choque das lâminas ressoava como trovões de ferro. Dois jovens, um ruivo e um moreno, os dois de olhos verdes intensos, feito esmeraldas, giravam em círculos, testando forças e reflexos. O morena, que era mais alto, abriu o duelo com um ataque direto, espada avançando em linha reta. O outro recuou, olhos fixos, aguardando.
O primeiro intensificou o ritmo em um ataque composto: fintas rápidas, golpes que buscavam confundir, até quase tocar o ombro do adversário. O ruivo e mais baixo desviou por pouco, o peito arfando, o suor escorrendo pela testa alaranjada em meio aos reflexos de luz.
Então veio a explosão — uma flèche. O corpo do moreno se lançou em corrida, a lâmina atravessando o espaço como uma flecha. O impacto forçou o ruivo a recuar, quase tombando sobre a areia. Por um instante, parecia que o duelo já estava decidido.
Entretanto, o ruivo não recuou por completo. Com um giro firme, desferiu uma batida na lâmina, afastando a arma inimiga com um estalo seco. Em seguida, uma finta veloz, chamando a guarda do oponente para o lado errado. No instante da abertura, projetou-se em uma investida perfeita, a ponta de sua espada encontrando o peito do irmão com precisão.
O mais alto, surpreso, tentou resistir, mas foi desarmado: sua espada voou longe, cravando-se na areia, derrotada junto de seu dono.
O silêncio da arena durou um sopro. Então, o moreno riu, rendido, mas orgulhoso:
— Esse é o meu garoto! Meu irmãozinho está se tornando um ágil soldado. Que orgulho, Galfore!
Galfore limpou o suor da testa, ofegante, mas com o sorriso vitorioso.
— Aprendi com o melhor. Sabe, um dia, quero ser como você, Rhaznor. Ou melhor… quero ser digno do título de capitão do exército tamaraneano!
Rhaznor se aproximou e pousou a mão firme sobre o ombro do irmão.
— Se continuar assim, Galfore, não há dúvidas de que vai superar até mesmo a mim. Persistência é a chama que mantém vivo o guerreiro. Segure-se a ela, e você irá mais longe do que imagina.
— Você acha que, se o pai e a mãe ainda estivessem... vivos... eles teriam orgulho de mim...?
— Tenho certeza absoluta disso, Gal. E eu sempre estarei aqui por você, espero que saiba disso. — Rhaznor afirmou. — Como estão Dianer e Sarinder?
— Elas vão bem, Sarinder começou a voar seus primeiros metros essa manhã. Estamos muito orgulhosos dela.
— Nossos pais ficariam orgulhosos pela família que você construiu.
— Sim. — Galfore sentiu seus olhos se encherem de lágrimas de novo. Espero um comentário maldoso vindo do irmão, mas ele se encontrava da mesma forma.
— Então — Rhaznor limpou os olhos —, chega de melancolia, está a fim de mais uma hora de treinamento, antes do café da manhã?
— Eu nasci pronto! — Galfore aceitou, passando o braço até o ombro direito do irmão.
Um momento de silêncio se instalou, quebrado apenas pelo vento que atravessava os campos de cristal. Mas antes que pudessem trocar mais palavras, o alarme de guerra ecoou por toda a fortaleza — um som grave, metálico, que fazia o coração de qualquer soldado disparar.
— Invasão Gordaniana! Todos os soldados a postos, na entrada da arena de combate, em rumo ao castelo real. Repito: invasão Gordaniana. Repito: invasão Gordaniana. Protejam a família real! — A voz robótica e feminina ressoou. De longe, Galfore era capaz de ouvir os soldados se preparando, correndo e pegando suas espadas.
As torres e o chão estremeceram quando o céu se abriu em clarões. Imensas naves de guerra, colossais como montanhas de aço, surgiram além da linha das nuvens, avançando lentamente. Atrás delas, enxames de pequenas naves roxas e ágeis, deslizavam em formação cerrada, descendo em velocidade.
O estrondo veio logo em seguida: as menores mergulharam contra a fortaleza, disparando rajadas de energia incandescente, da cor azul. Os tiros ricocheteavam contra a muralha, abrindo crateras de pedra e cristal. Cada impacto lançava chamas azuis pelo ar, iluminando os rostos tensos dos guerreiros.
— O que significa isso?! Eles não tinham aceitado nosso tratado de paz?!!! — Galfore exclamou, os olhos dobrando de tamanho quando viu a primeira torre cair. — Como eles conseguiram ultrapassar as Grandes Barreiras da camada de ozônio?
— Parece que Vorlax não é um réptil de palavra! — Rhaznor engoliu em seco, empunhando sua espada. — Está na hora de colocar suas habilidades em prática, irmão. Tamaran precisa de nós! Em direção ao castelo!
Os irmãos avançavam pelo corredor principal da arena, que os levava para seus aposentos e para a entrada escondida do Castelo real, cada passo ecoando contra o piso polido de mármore que refletia tons de branco, rosa claro e vermelho. As paredes eram adornadas com laminados dourados e esculturas intrincadas. Tapeçarias ricas, bordadas com fios de prata e carmesim, contavam batalhas antigas e feitos de ancestrais, enquanto lustres de cristal pendiam do teto, lançando reflexos cintilantes que dançavam sobre os corredores.
Soldados passavam correndo na direção oposta, rostos pálidos, olhos arregalados, alguns quase tropeçando nos próprios pés, espalhando o clima de medo contido que permeava o castelo. Ainda assim, cada um deles tentava manter a postura, lembrando-se do juramento de proteger a família real.
Os irmãos chegaram rapidamente aos aposentos privativos, portas altas com entalhes de dragões e brasões antigos se abrindo com rangidos solenes. Lá dentro, os quartos refletiam o mesmo cuidado e ostentação: paredes em tons suaves de rosa e branco, móveis em madeira vermelha polida e armaduras ornamentais cuidadosamente dispostas em suportes, como se aguardassem a ocasião exata para a batalha.
Com pressa, pegaram suas melhores armas — espadas de lâminas afiadas e capacetes prateados; e vestiram suas armaduras.
Ao saírem novamente pelo corredor real, Galfore ficou boquiaberto ao ver o cenário através da grande janela do corredor de espelho unidirecional.
A capital estava em ruínas, fumaça subindo dos campos de cristal, naves inimigas ainda cortando os céus, e a extensão da batalha iminente se desenrolando diante dele. A grandiosidade e a tragédia se misturavam, e por um instante, o tempo parecia suspenso, enquanto ele absorvia a magnitude do que precisavam enfrentar.
— Rápido, Galfore! Para o castelo! O General Tharion exige nossa presença na linha de frente. É hora de proteger a coroa ou morrer tentando!
— Proteger a coroa ou morrer tentando! — repetiu Galfore, a respiração curta, o coração disparado dentro do peito.
Das muralhas, grupos de soldados se erguiam em resposta, mas o que primeiro cortou os céus foi o brilho das guerreiras: mulheres tamaraneanas alçavam voo em formações precisas, seus corpos banhados pela luz incandescente de seus poderes.
Explosões de azul, rosa e verde rasgavam as nuvens, cada disparo abrindo crateras flamejantes nos cascos das pequenas naves inimigas. Por um instante fugaz, as cores dançavam no firmamento como fogos de artifício, belas demais para uma cena de guerra — mas logo engolidas pelo rugido ensurdecedor dos motores e pelo cheiro de cinzas.
No solo, a tropa terrestre se organizava em fileiras firmes. Homens tamaraneanos, cobertos por armaduras pesadas e empunhando lanças energéticas, batiam os pés em uníssono, fazendo o chão tremer como um tambor de guerra. Do alto de uma plataforma de pedra, o General Tharion erguia a voz, poderosa e incisiva, cortando o alvoroço como uma lâmina. Suas ordens ecoavam rápidas, diretas, reunindo as forças dispersas sob um único propósito. O ar vibrava com a tensão da iminente batalha, mas também com uma bravura que parecia incendiar cada coração presente.
— Rápido! Canhões a postos, armas erguidas! — trovejou Tharion. — Não deixem que esses vermes profanem o castelo! Lembrem-se: proteger a coroa… ou morrer tentando!
Agora realocados na linha de frente, os irmãos se ajustavam, lado a lado. Os dedos se firmavam nos cabos das espadas afiadas, os olhares se encontravam em silêncio.
— Não se preocupe. — Rhaznor tocou seu ombro. — Eles ficaram bem, estão protegidas pelas nossas melhores guerreiras no Cálice de Tamaran. Logo, você vai poder abraçá-las de novo, mas antes, vamos matar esses lagartos desgraçados.
— Vamos matar esses lagartos desgraçados! Boa sorte na batalha, irmão! — Galfore foi o primeiro a irromper o silêncio.
Viu Rhaznor sorrir.
— Boa sorte para você, também, irmão.
O som das naves gordanianas parecia ser quase ensurdecedor. Galfore conseguia se sentir suando debaixo da armadura. Olhou ao redor e pensou que todos ali deveriam estar na mesma situação que ele.
Tamaran, seu lar, ardia em chamas, sua cidade reluzente devorada pelo fogo. O céu, antes roxo e sereno, agora se tingia de vermelho, marcado pelo sangue e pelas explosões. Guerreiros tamaraneanos se lançaram contra a invasão com a ferocidade de quem não conhece a rendição. Mas os gordanianos, fria e implacável, avançava sem piedade.
Braços e pernas decepados. Pescoços decapitados. Mortes dolorosas, de ambos os lados.
Duas explosões ecoaram contra o imenso portão do Castelo. A estrutura metálica rangeu, estremeceu. Um murmúrio atravessava o ar, os alienígenas trocavam palavras em uma língua indecifrável, quase melódica.
Galfore lançou um último olhar ao irmão, pouco antes de o portão ruir e mais de duzentos soldados da linha de frente abandonarem suas posições, partindo para o ataque — rumo ao próprio exício.
O jovem soldado avançava com a espada em mãos, movendo-se como se dançasse com a lâmina. Investia contra os guerreiros reptilianos de grossa pele esverdeada e de presas afiadas. Gal fazia o aço deslizar no ar, cruzando sua espada contra as dos inimigos. Mirava sempre nos pontos vitais — cabeça, pescoço, peito — com golpes rápidos, sem se deixar prender por um único adversário. Lembrava-se do conselho do irmão: focar em apenas um inimigo era perigoso, pois focar em um único inimigo significava ficar distraído, o que abriria espaço para que outro surgisse da névoa da batalha e cravasse uma lâmina em suas costas.
O ar tinha um cheiro de queimado sufocante. Gal evitava olhar ao redor, mas não conseguia ignorar os corpos caídos, soldados feridos, alguns já sem vida. Os gordanianos atacavam até mesmo com suas presas, dilacerando guerreiros tamaraneanos.
Conseguia ouvir as ordens do general Tharion, cuja voz ecoava ao longe, comandando-os a empurrar os “vermes” o mais longe possível das muralhas do castelo. Galfore, porém, temia que todo aquele esforço fosse inútil. Nem mesmo os canhões mais poderosos pareciam capazes de deter a colossal nave-mãe gordaniana.
Num único movimento, ele conseguiu decepar uma presa e a mão de dois inimigos que avançaram juntos contra si, mas não previu o terceiro. O soldado azul lançou-se sobre ele, esmagando-o contra o chão. Gal sentiu o hálito pútrido, com cheiro de peixe podre, atingir seu rosto, junto com respingos de saliva que lhe queimaram a pele de nojo.
Seu estômago se revirou. Ele quase vomitou.
— Galfore! — Alguém o chamou. Era a voz de Rhaznor.
Rhaznor avançou brandindo a espada, protegendo Galfore enquanto se defendia e, num golpe certeiro, cravou a lâmina no peito do gordaniano.
— Você está bem? — Rhaznor perguntou, estendendo sua mão, ajudando o irmão a se levantar.
— Sim, ele me pegou de surpresa...
— Não deixe que isso aconteça de novo! — afirmou, cutucando com o indicador o peito do mais novo. — Uma distração, por mais pequena que seja, pode realmente custar a sua vida.
— Eu sei. Não sei o que aconteceu comigo... Mas não vai se repetir.
— Venha, o General Tharion nos quer nos aposentos reais, para proteger a família real. Acha que pode dar conta do recado?
— Claro. Estou preparado. Não cometerei mais erros.
Rhaznor puxou-o pelo pulso. Ambos empunhavam as espadas, prontos para cortar inimigos com golpes rápidos e precisos. Seguiram até o terceiro arbusto em linha reta, agacharam-se e abriram uma portinhola oculta. Sempre se certificando que ninguém os perseguia. Ao atravessá-la, encontraram um corredor baixo e estreito. Engatinharam até emergir no corredor principal que levava aos aposentos reais. O silêncio ali era estranho, quase sufocante.
— Vou na frente para averiguar. Me dê cobertura — pediu Rhaznor em voz baixa.
Avançaram alguns passos e verificaram o primeiro quarto, pertencente ao filho caçula do casal real. Estava vazio. Seguiram para o segundo. Antes de abrir a porta, Galfore ergueu os olhos e percebeu um ponto negro aproximando-se velozmente do telhado de vidro.
— Essa não... cuidado!
Ele gritou, puxando o irmão para trás. O vidro se estilhaçou em mil fragmentos, e dois soldados despencaram no chão: um gordaniano e um tamaraneano. Este último tinha a vasta cabeleira negro-azulada, olhos arroxeados, longa barbicha e queixo afilado — traços impossíveis de confundir.
— É o general Tharion…! — Galfore exclamou.
— Rápido, ele precisa de ajuda! — Rhaznor gritou, indo até o general, com cuidado.
Três linhas grossas de sangue escorriam por sua boca, que tossia com dificuldade. O gordaniano ao seu lado, encontrava-se com a boca aberta e com os olhos negro abertos, mas sem vida. Galfore sentiu um arrepiou gelado subir pela espinha.
— General, o senhor está bem? — perguntou Rhaznor, preocupado.
— Vou buscar reforços e atendimento para o senhor! — disse Galfore, já se preparando para partir.
— Creio que não será necessário... não se preocupem comigo! — ordenou o General, com firmeza suficiente para fazer Galfore recuar.
— Mas, senhor...?
— Protejam a coroa! — o General quase gritou. — Eles atacam o rei Myand’r... fiz tudo o que pude, mas fui atingido e arremessado lá de cima. A princesa Komand’r... eles a capturaram. Por favor... eles vão atrás da rainha Luand’r, da princesa Koriand’r e do príncipe Ryand’r. Vocês precisam encontrá-los antes que seja tarde demais... para que o nosso sacrifício não seja em vão. — As palavras saíam entrecortadas por tosse e pela dor que latejava em seu corpo.
— Nós vamos protegê-los, General! — prometeu Rhaznor.
— Proteger a coroa... ou morrer tentando! — repetiu o General, lentamente, antes que sua cabeça tombasse de lado. Os olhos, arregalados, perderam pouco a pouco o brilho roxo que ainda os iluminava.
Rhaznor, em silêncio, abaixou a cabeça e fechou com cuidado os olhos do General, sussurando:
— Que os sussurros do Véu te guiem para a prosperidade, General Tharion!
— E agora? O que faremos? — indagou Galfore, aflito.
— Você ouviu o General: temos que proteger a coroa!
— Mas se nem ele, com anos de treinamento e ao lado dos soldados mais habilidosos da tropa, conseguiu detê-lo... por que nós conseguiríamos?! isso é suicidio!
— Cale-se, Galfore! — retrucou Rhaznor, severo. — Não seja tolo a ponto de questionar uma ordem direta. Nossa rainha e seus herdeiros precisam de nós. — Levantou-se, com a postura ereta. — Se for necessário dar nossas vidas para protegê-los, daremos!
— Mas é que...
— Chega de blasfêmias, Galfore! Levante-se e lute!
Galfore apenas balançou a cabeça, resignado, ao ver o irmão empunhar a espada e dar-lhe as costas. Então, num único movimento, Rhaznor decapitou o corpo já morto do soldado gordaniano.
— Pelo General Tharion! — rugiu, cuspindo em seguida sobre a carcaça reptiliana.
Sem mais palavras, seguiram pelo atalho oculto entre as paredes da sala de jantar principal do palácio.
Galfore respirava com dificuldade, o ar entrando em seus pulmões em ofegos curtos, enquanto suas mãos geladas tremiam contra o cabo da espada. Seu coração martelava no peito, frenético, como se quisesse rasgar-lhe as costelas para fugir. Parte de si gritava para correr dali — fugir o mais longe possível — e arrastar o irmão junto. Afinal, naquela altura, a rainha e as crianças provavelmente já estariam mortas. Como duas crianças com menos de cinco anos poderiam se proteger, se nem o rei nem o General Tharion resistiram?
Mas não podia. Não podia confessar essas dúvidas a Rhaznor. O irmão chamaria aquilo de blasfêmia, diria que era ingratidão, que Galfore estava renunciando às crenças que carregava desde menino. “Proteger a coroa ou morrer tentando!” A frase ecoava na mente dele como um juramento e uma sentença.
Ainda assim, uma voz incômoda sussurrava em seu íntimo, questionando os motivos da invasão gordaniana. E se o próprio rei Myand’r tivesse alguma culpa nisso? Ele jamais aceitou o fim da última guerra... nem o que Tamaran perdeu nela.
Galfore apertou os olhos, tentando silenciar aquele pensamento profano. Não era hora de questionar. Agora, ele precisava ser o soldado — não o duvidoso. Precisava calar a voz blasfema que corroía sua mente.
— Chegamos! — anunciou Rhaznor, interrompendo suas reflexões, quando pararam diante de um corredor estreito, escuro e impregnado de um cheiro pútrido. — Estes são os aposentos reais.
— Parece que não há ninguém aqui — disse Galfore em voz baixa, tentando conter a respiração. — Devem estar sendo feitos reféns pelos gordanianos. Ali é o quarto do rei... vamos verificar se a rainha Luand’r está lá com as crianças.
— Não acho uma boa ideia — retrucou, hesitante. — Devíamos chamar reforços.
— Até o reforço chegar, eles já terão sido mortos! — rebateu Rhaznor com firmeza. — E você acha mesmo que alguém virá? Depois de toda aquela carnificina lá fora? Não, Galfore... estamos sozinhos.
Ele ergueu a espada e encarou o irmão, os olhos queimando de convicção.
— Temos que nos virar. Temos que ser heróis! Colocar em prática todos os anos de treinamento que essa família abençoada nos deu e financiou. É hora de retribuir o favor que fizeram aos nossos pais... depois que eles se foram.
— Eles não se foram, Rhaznor... — Galfore respondeu, com amargura na voz. — Eles morreram em batalha. Uma batalha como esta, a mando da realeza…
O moreno fez careta, entretanto não respondeu nada.
Rhaznor empurrou lentamente a porta pesada dos aposentos reais. As dobradiças rangeram baixo, como um lamento. Galfore, colado atrás dele, sentia a respiração presa no peito, o suor frio escorrendo pelas têmporas.
Lá dentro, a escuridão era quase absoluta. Era inegável a presença do cheiro metálico e forte, que denunciava o que havia acontecido. Em meio ao silêncio, conseguiam ouvir os gritos, choros e súplicas da guerra do lado de fora do palácio. Quando seus olhos se acostumaram, conseguiram distinguir marcas escuras no chão polido.
— Galfore... ilumine o ambiente — ordenou Rhaznor.
O irmão assentiu com dificuldade e ergueu a mão trêmula. Um estalo de energia surgiu e, em seguida, uma esfera de luz esverdeada — um starbolt — brilhou em volta de sua mão esquerda, banhando o quarto com um clarão fantasmagórico.
E então, se revelou a verdade: trilhas de sangue, arrastadas, conduzindo até a cama real.
Sobre a cama, imóvel como uma estátua esquecida, jazia a rainha Luand’r. O pescoço, aberto de lado a lado, tingia os lençóis dourados com um vermelho grotesco. Os olhos, ainda escancarados, pareciam mirar o vazio, como se suplicassem por piedade. O fino vestido de seda estava rasgado, deixando seu íntimo a mostra e os cabelos, em desalinho, mostravam falhas onde tufos haviam sido arrancados.
Galfore recuou um passo, boquiaberto. O medo agora queimava sua pele mais do que sua chama. Tudo em seu corpo gritava para fugir, tentou se concentrar nas batidas de seu coração e então percebeu sussurros, como se juntos formassem uma forma ritmada, quase como se fosse uma canção sussurrada.
Engoliu em seco.
Era assim que soava a comunicação entre os gordanianos!
Mas antes que pudesse reagir, o choque foi rompido pelo clangor metálico das armaduras. Das sombras, surgiram os soldados gordanianos, seus olhos irradiando um vermelho incandescente. Uivando de fúria, exibindo suas presas.
— Em posição! — gritou Rhaznor, erguendo a espada.
As lâminas se chocaram contra o aço inimigo, enchendo o quarto com o estrondo metálico das espadas. Rhaznor lutava com fúria e destreza contra um gordaniano de estatura mediana, distraindo-o com facilidade antes de cravar seu raio laser esverdeado dos olhos no peito inimigo, finalizando-o sem hesitar. Odiava recorrer aos seus poderes em um combate corpo a corpo — aos olhos dos comandantes da arena, era um ato desprezível —, mas não sentia vergonha de usá-los ali, não depois do que haviam feito à sua rainha.
Então, um outro gordaniano surgiu. Gigantesco, mais alto e largo que qualquer outro, avançou diante dele com brutalidade. Num movimento rápido, desarmou Rhaznor, arrancando-lhe a espada das mãos com uma força aterradora.
— Rhaznor! — Galfore gritou, desferindo um chute poderoso em seu adversário antes de correr até o irmão. Com precisão, cravou sua espada no braço gigantesco do inimigo, impedindo-o de esmagar a cabeça de Rhaznor. Do golpe, escorreu um líquido estranho, branco e azul escuro, semelhante a pus. Galfore recuou, tenso, ao perceber o verme encarando-o com olhos vermelhos profundos, cheios de fúria.
O soldado gigantesco não pareceu se abater. Agarrou Galfore com ambas as mãos e o ergueu no ar, apertando brutalmente a região dos antebraços. Num movimento rápido e cruel, Galfore urrou de dor e foi lançado ao chão.
O primeiro soldado que ele havia enfrentado não perdeu tempo e tentou desferir um segundo golpe. Mesmo machucado, Galfore reagiu com rapidez, desviando por um fio de lâmina. Por milímetros, outro ataque quase lhe atingiu o rosto, o aço da bainha raspando bem rente ao seu olho.
— Desgraçado! — praguejou.
Antes que o inimigo pudesse atacar novamente, Galfore concentrou seus poderes. Raios de energia em forma de starbolt irromperam de suas mãos. Ignorando a dor, ele ergueu os braços e mirou com precisão a cabeça do gordaniano. Um instante depois, o inimigo caiu morto ao chão, o impacto ecoando pelo aposento.
— Galfore! — Rhaznor gritou quando o soldado gigantesco voltou a atacar. Com dificuldade, pegou sua espada e avançou para protegê-lo, atingindo o braço e o pescoço do inimigo.
— Rhaznor, cuidado! Não! — Galfore gritou, mas era tarde demais. Um golpe certeiro atingiu o peito do irmão mais velho. Ainda assim, antes de ceder, Rhaznor canalizou toda a energia de seu corpo e disparou de seus olhos um raio laser na cabeça do inimigo. O impacto fez o crânio do réptil se fragmentar em vários pedaços, espalhando carne e sangue azedo pelo chão.
Rhaznor cambaleou, tossindo sangue que escorria abundantemente de seu peito. Os olhos de Galfore se encheram de lágrimas. Mesmo assim, Rhaznor conseguiu dar um último sorriso — aquele raro sorriso que só surgia quando sentia orgulho de Galfore — antes de cair, inerte, no chão.
Galfore queria chorar e gritar, mas seus pulmões doíam demais, assim como seus braços quebrados. Com esforço agonizante, tentou se arrastar pelo chão áspero até o irmão, chamando o irmão baixinho pelo nome, sem obter resposta. Cada movimento provocava dores em centímetros de lugares que nem sabia que existiam em seu corpo.
Mesmo assim, conseguiu alcançar Rhaznor. Encostou sua testa suada na dele e sentiu seu corpo vacilar, o gosto metálico do sangue se espalhando de forma gradual pela boca. Ele sabia que poderia partir naquele instante, como um herói, ao lado do irmão. Muitas vidas haviam sido ceifadas do lado de fora, e a culpa por não ter protegido a coroa o consumia. Aceitaria qualquer punição divina que viesse no pós-vida.
Então, estreitou os olhos ao perceber uma luz esverdeada no fundo do quarto, atrás de um dos enormes closets da rainha Luand’r. Sua visão turva captou uma figura distante, imóvel entre as sombras: cabelos ruivos presos em rabo de cavalo, rosto salpicado de pequenas sardas, olhos verdes brilhando como brasas silenciosas, fixos nele.
E, então, a escuridão e a exaustão o engoliram por completo.
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