Fate: A Certain War
1 I — Prólogo de uma Guerra Santa
O céu noturno não ostentava a tonalidade profunda de azul-marinho costumeira, parecia um tapete do mais puro ônix. As estrelas haviam se escondido e a lua lançava um brilho tímido e hesitante. Era como se o firmamento estivesse em luto.
Apesar da falta de chuva já há muito tempo no Maranhão, os ventos cortantes eram responsáveis por carregar o frio pelos quatro cantos. As pequenas frestas nas portas e buracos na janela da velha construção outrora considerada sagrada faziam com que a passagem das brisas desse origem a um uivo, um gemido agonizante da igreja a chorar não pelo seu estado deplorável, mas por aquilo que era discutido dentro dela.
— Como ousa contar tal mentira na casa do Senhor?! — O sacerdote gritava com o rapaz mais novo.
— Mas... Padre... Apenas me ouça. — Seu tom era cauteloso. — Vossa mercê sabe bem mais que eu, certamente essas histórias em algum momento já chegaram a seus ouvidos e não adianta negar. — Ele suspirou. — O próprio Cálice do Santo Graal anuncia isto, senhor!
O ancião, de aparência asiática, sentou-se em um dos bancos, pois a sua idade não permitia mais que ficasse muito tempo em pé, e começou a coçar os poucos fios grisalhos de cabelo que ainda lhe restavam. Seu coração estava acelerado, as mãos tremiam conforme as cenas surgiam em sua mente, pois ele, diferente do outro que estava ali, havia visto com seus próprios olhos toda atrocidade causada por aquela peleja sangrenta ocorrida há dez anos na cidade japonesa de Fuyuki.
Seus olhos, que naquela época eram mais jovens e conseguiam enxergar melhor do que atualmente, contemplaram uma das mais catastróficas guerra que o mundo mágico já acompanhou, deixando uma parte da cidade em chamas e centenas de pessoas inocentes mortas. Oh, como foi duro para ele acompanhar aquilo e não poder fazer nada, um débil incapaz de ajudar. O pior, acima de tudo, era que as pessoas morriam sem saber do acontecimento daquela guerra, para as famílias dos mortos, seus entes queridos haviam morrido por conta de uma grave explosão que se alastrou por todo aquele local.
Yata, o asiático, respirou fundo e ainda com seus olhos fechados, continuou lembrando dos detalhes daquilo.
Sete indivíduos, sete servos, um cálice. Ah, a ambição. O desejo guiava os atos inconsequentes dos jovens que eram inseridos naquele tabuleiro.
Poder, lealdade, luxúria, medo, destruição, ruínas e sangue. Muito sangue derramado. A vida de uns chegava ao fim junto da inocência de outros e era uma questão de tempo ate que o festim escarlate banhasse o chão, tingindo-o e marcando-o pela eternidade.
O adolescente fitou o senhor com curiosidade.
— Por quê? Por que aqui, padre? Esses demônios não eram apenas invocados no Japão?
O senhor de idade deixou um riso tão seco quanto as próprias terras daquela cidadezinha nordestina.
— Ah, Manoel... Como eu gostaria que fossem, infelizmente, o Cálice deve ter enjoado daquela cidade asiática e encontrou no Brasil um lugar melhor para sediar o seu banho de sangue. Como se aqui já não houvessem problemas suficientes e agora temos mais um. — Ele finalmente disse, admitindo que sabia sobre aquela guerra.
Ele se colocou de pé e fitou o coroinha. Estava longe de ser considerado "pronto", mas a guerra era um carrasco cruel e implacável. Padre Yata ajustou os óculos com o dedo médio e logo tocou o crucifixo que pendia em seu peito com as pontas dos dedos.
— E agora, o que vamos fazer? — O rapaz indagou.
— O que sempre fizemos, Manoel. Ajudar aqueles que nos procurarem... — Ele dirigiu-se até a porta de entrada da igreja, com intenção de abri-lá, mas antes, o seu companheiro perguntou.
— Padre, caso realmente haja uma guerra, preciso que você me conte tudo o que sabe! Não posso ajudar sem saber porque de tanta preocupação.
— É uma história longa que eu não sei explicar direito, Manoel, mas tentarei resumir em poucas palavras. Há algum tempo atrás as primeiras famílias de magos trabalharam juntas para invocar um cálice sagrado: o Santo Graal, que como conhecemos, foi onde Jesus tomou o último vinho antes de sua crucificação e que hoje tem o poder de realizar qualquer desejo da pessoa… — dizia Yata, com calma e seriedade. — Porém, o artefato só era capaz de ouvir apenas uma oração e foi assim que começou essa guerra sangrenta… Ou como chamamos: A Guerra pelo Santo Graal.
— E sobre os servos? Li algo sobre em um livro, porém, estava em outro idioma e não fui capaz de entender nada. — desabafou Manoel.
— O Cálice do Santo Graal escolhe sete magos para tal guerra, meu caro, porém ela não começa quando todos sabem que estão participando e sim quando os mesmos invocam os seus servos, que são poderosos espíritos heroicos que se tornaram lendas para lutarem a seus lados. Cada um desses servos pertence a uma classe, Manoel e elas não podem se repetir. As suas descrições eu não me lembro de cabeça e sinto por isso, só lembro do Archer, que como o próprio nome diz são experts com armas a distância e também faz parte de uma das três classes mais poderosas de todas. — Yata continuou caminhando até a porta de entrada e ignorou qualquer outra pergunta que o seu aprendiz fazia, pois sabia que hora ou outra as respostas seriam respondidas de outras maneiras. Suspirou pela milésima vez naquele dia e com um pouco de esforço, abriu a porta.
O cenário estava longe de ser considerado desolador. Era uma cidade tranquila, acolhedora e coberta em um manto de ignorância, inocência a respeito da tragédia que estava por vir.
— E rezar para que Deus nos ajude. — disse Yata.
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