Fate

10 Começando os Serviços


Notas iniciais
Agora vamos para as consequências do que aconteceu. Acho (tenho certeza, eu que escrevi, dã) que elas não serão tão simples assim... https://youtu.be/PsO6ZnUZI0g

"Now that that don't kill me can only make me stronger

I need you to hurry up now cause I can't wait much longer"

Acordei diante de um lindo sábado de manhã, com pássaros cantando e o cheirinho de café da manhã no ar...

Claro que não.

Na verdade, nem dormir direito eu dormi. Quem aquele idiota pensa que é? Beija depois fala pra desbeijar? Poupe-me! E agora fica aí com essa cara de indiferente me encarando enquanto eu ajudo Kagami a preparar alguma coisa pra comer.

Pois é, a situação ali estava me incomodando muito. Depois do que Aomine falou ontem à noite, eu comecei a nutrir uma raiva tamanha desse ser, ainda mais depois que acordamos e ele me tratou como se nada tivesse acontecido mesmo, mal me dirigindo a palavra. Convencido do caramba.

Mas não deixei que isso transparecesse, afinal não tinha nada a ver com os outros três que ainda estavam ali. Apenas tive que retribuir a frieza do moreno, e o pior, nem sabia o motivo direito.

Era meio para o final da tarde e eu me despedia dos meninos, no batente da porta de entrada.

– Tem certeza que não quer ir com a gente? – Kuroko perguntou

Eles estavam indo jogar numa quadra e depois lanchar, convidaram bastante gente até para fechar uma rodada de jogos bem empolgantes em times improvisados. Que eu tinha conhecimento era o capitão, Izuki e Kyoshi da Seirin, além de Kagami e Kuroko, claro; Kise e seu capitão da Kaijo; Midorima e Takao de Shutoku; Mursakibara e Himuro da Yosen; e Aomine da Touo.

Confesso que o último integrante me desanimou bastante, mas o motivo principal para não ir era que eu tinha ordens estritas do que podia e não podia fazer hoje, e com certeza não incluía ficar saracoteando por aí. Eu precisava entrar de cabeça nesse negócio de joelho, queria acertar dessa vez.

– Tenho sim. Eu preciso colocar umas coisas em ordem e descansar bem, ordens do padrinho. – sorri, de modo a deixa-los despreocupados em relação ao assunto.

– Qualquer coisa me liga – Kagami dizia, tentando não ser super protetor, sem sucesso – O número está nos favoritos por uma razão, tá?

– Fica tranquilo, irmãozinho. – sorri, contagiando a ele também

– Pera, o Kagamicchi está nos favoritos e eu não? Que história é essa? – Kise indagou, começando uma discussão com o ruivo.

Olhei para a situação gargalhando, assim como Kuroko, que já tomava a frente rumo à rua, me dirigindo um aceno final. Os dois brigões o seguiram e por último Aomine.

– Até. – o moreno disse indiferente

Não me dei o trabalho de responder, apenas o fitei visivelmente irritada enquanto ele passava os olhos rapidamente por mim, mas não tive nenhuma reação em resposta. Ele se virou e acompanhou os amigos, que aos poucos se afastavam.

Eu não estava pra gracinha. Na verdade, eu reparei que diversas vezes perdia a cabeça rapidamente, passando para uma postura agressiva por qualquer coisa. Era algo automático, como se fosse uma reação de defesa, uma zona de conforto.

Depois do acontecimento daquela noite eu fiquei bem explosiva quando o assunto era Aomine, mas não sabia ao certo o motivo.

Eu já tinha beijado outros dois amigos, e isso não causou problema algum. Nas outras vezes era sempre claro para os dois que não era nada de mais, mas ali com todo aquele clima diferente, de seriedade, me fez ficar irritada com a indiferença dele.

Será que esse sentimentalismo todo estava na minha cabeça?

Claro que o fato de que em breve estaria incapaz fisicamente me proporcionava grande parte dessa frustração também, de não poder continuar meu processo de independência e fortalecimento de mim. Mas pelo menos seria algo breve e voltado pra uma melhoria em longo prazo.

O restante do sábado passou rápido, fiquei na maioria do tempo terminando de organizar a bagunça que os meninos haviam deixado. Sorri com a lembrança da presença deles mas o sorriso se desfez ao lembrar daquele garoto em específico. Eu não estava odiando ele no momento, eu acho, mas estava extremamente irritada com o modo que ele agiu.

No dia seguinte, acordei e já saí de casa. Fiquei na casa do padrinho desde domingo cedo, passando o dia todo sem movimentos bruscos ou que exigissem demais do meu preparo físico. Resumindo, um tédio.

Na segunda, o padrinho reservou um horário pra mim de manhã, Riko chegou a faltar as primeiras aulas para ajuda-lo. O procedimento em si foi rápido e eu estava sob efeito de um tranquilizante forte, mas, mesmo assim, no momento que forçaram meu joelho para a posição certa eu senti um desconforto terrível, que seria facilmente composto pela dor se não fosse pela anestesia local.

Me deram algum calmante para dormir até a noite.

Acordei aos poucos, olhando ao redor um pouco tonta pelo remédio forte. Olhei para minha perna, estava enfaixada e a pele que podia ser vista estava inchada e vermelha. O remédio estava perdendo o efeito e as dores iniciaram abruptamente. Confesso que um arrepio percorreu meu corpo e fiquei desesperada com aquilo.

E se não desse certo? E se eu não pudesse voltar a andar? Nada disso tinha me passado antes, mas era uma possibilidade. Comecei a chamar por alguém na casa, e logo alguns passos apressados soaram pelo corredor.

– Ina, você acordou!

Riko apareceu pela porta, sorridente, trajando o uniforme da escola. Minha visão estava meio turva pelos resquícios do remédio, mas pude ver um par de sombras paradas do lado de fora do corredor. Isso ficou em segundo plano, já que a dor começou a se espalhar por todo meu membro rapidamente, uma espécie de formigamento, só que com agulhas.

– Faz parar...! – consegui pronunciar por pouco

Soltei um grito de dor e agonia, fazendo o sorriso da treinadora desaparecer. Ela correu até mim, checando meus batimentos e depois desenfaixando a perna.

Suei frio ao ver o que vi.

Se antes eu achava minha perna vermelha, agora que tinha a visão completa percebi que a dor era condizente com meu estado físico. O joelho estava todo roxo, com alguns hematomas mais acentuados que outros, além de estar do tamanho de um melão.

As duas sombras finalmente entraram, mostrando um rosto branco de medo Kagami e uma feição de horror de Kuroko. Antes que eles pudessem falar qualquer coisa, o pai de Riko entrou correndo, se debruçando sobre minha cama.

– Não era pra estar sem anestesia já... – ele parecia ter sido pego de surpresa – O metabolismo dela está absorvendo muito rápido.

Ele parecia mais falar consigo mesmo do que com Riko, visto que definitivamente não falava comigo ou com os outros dois, considerando que eu estava urrando de dor e Kagami e Kuroko pareciam duas estátuas.

Riko mantinha a calma, assim como seu pai, o auxiliando no que fosse pedido. Observei ela correr para um armário próximo e voltar com uma agulha gigantesca em mãos, me fazendo ficar desesperada.

– Vocês estão loucos? – esbravejei, segurando os braços da menina – Isso não vai entrar no meu joelho, é tortura!

– Não é o ideal, mas o tranquilizante não vai fazer efeito rápido o suficiente. Precisamos reaplicar a anestesia local, só assim a dor vai passar, Ina!

O padrinho tentava me acalmar, mas não parou de mexer em sua caixa de medicamentos nem por um segundo. Pegou a agulha das mãos de sua filha e a encheu de um líquido claro, olhando-me sério em seguida. Parecia ponderar como iria encurralar um animal indefeso, a diferença é que eu era um pouco maior que isso e nem um pouco indefesa.

– Kagami, Kuroko, ajudem a segurá-la, agora! – Riko ordenou

Os dois não tiveram escolha frente a situação que estavam.

O ruivo foi colocado pra me segurar no tórax e nos braços, impedindo que eu levantasse ou atrapalhasse o procedimento, e Kuroko posicionou-se em meus pés, fixando-os firmemente na ponta da cama. Eu os olhava com um misto de traição e agonia, diante da dor que não freava por nada.

Riko por sua vez preparou determinado ponto de meu joelho, procurando por uma brecha na parte óssea para que fosse aplicada a agulha gigantesca.

Minha respiração ficou ofegante e meus olhos percorriam todo o lugar freneticamente. Em alguns segundos, senti um formigamento sobrepor toda minha ansiedade, minhas pálpebras ficaram pesadas. Abri a boca e fiz força para que algum som saísse

– O que... Acontecendo...?

– O remédio forte que você tomou pra dormir ainda estava fazendo efeito, mas foi colocado em segundo plano por causa da anestesia que acabou antes da hora. Agora ele deve voltar a te fazer dormir por mais umas horas.

Dito isso, o padrinho passou a mão pelo seu rosto, parecia exausto. Ou seria preocupação? De qualquer modo, ele se retirou logo em seguida falando alguma coisa para Riko que eu não consegui entender, já estava voltando a ficar dopada.

Meu olhar pesado passou pelo azulado que me fitava calmamente, procurando me tranquilizar, mas sua respiração descompassada entregava seu nervosismo acentuado. Riko voltou a mexer em alguma coisa ao lado da minha cama, acho que estava medindo minha pressão e refazendo a faixa do meu joelho.

O ruivo estava parado do meu lado, olhando para tudo aquilo boquiaberto, sem nem tentar esconder seu desespero. Ele segurava minha mão com toda a sua força, o que me faria reclamar se não estivesse nos segundos finais de consciência.

– T-Tai... ga... – chamei-o, na medida do possível, recebendo sua atenção imediata.

– Vai dar tudo certo, Ina – respondeu, surpreso com a minha fala direcionada a ele, mas expondo uma tristeza enorme em seus olhos.

Foi a última coisa que me lembro antes de voltar a dormir.

Acordei algumas vezes durante a madrugada, com o padrinho ou Riko me checando, mas nada de agulhas depois daquilo. O efeito do remédio só foi passar por inteiro de manhã cedo, umas 5h e pouco.

Sentindo a plena consciência, abri os olhos, logo voltando o foco para o joelho. A última vez que havia olhado estava assustadoramente macabro, retorcido e machucado, mas dessa vez ele não estava tão horrível assim.

Meu corpo retomava as forças aos poucos, e não senti nenhuma dor insuportável, apenas um desconforto na perna. Sentei na cama, colocando as mãos ao lado do quadril e organizando os pensamentos.

– Está se sentindo melhor, querida? – padrinho perguntou, entrando no quarto

Ele estava com olheiras e portava duas bebidas em suas mãos.

– Graças a você – sorri fracamente, recebendo um dos copos

– Isso é vitamina, imaginei que estivesse de barriga vazia mesmo – ele sorriu ao ouvir minha barriga roncar

– E então, como está meu joelho?

– Bom, até demais! – ele gargalhou um pouco, retomando a postura séria depois – Eu sinto muito por ontem a noite, não esperava uma absorção tão intensa.

– Se isso te faz melhor, eu não me lembro direito de ontem... Só de alguns pedaços, como se fosse um sonho – o rosto branco de Kagami me veio como um flash – Ou um pesadelo.

Voltei-me para o meu copo, com a intensão de mudar de assunto. Ele então se aproximou da minha perna, encostando em alguns pontos específicos e observando minha reação frente a isso. Eu estava indiferente.

– Não dói?

– Não

– Nada? – ele parecia indignado

– Só um pequeno latejar, mas só – respondi, apreensiva

Isso seria bom? Ou seria um sinal de que eu estava saindo da anestesia de novo? Comecei a franzir a sobrancelha sem perceber, mas parei ao momento que vi a reação aliviada do homem que estava ali.

– Ina, isso é muito bom! – disse, me dando um abraço apertado – Quer dizer que você tem uma regeneração extremamente eficaz, o que eu desconfiei depois do remédio ter diluído tão rápido...

– E então...?

– Eu não achei que isso fosse acontecer tão cedo, mas creio que já posso te reinstalar de volta à sua casa. Isso, claro, se você se comprometer em seguir à risca minhas instruções.

Assenti sorridente. Era o que eu mais queria! Voltar para o meu espaço, minhas coisas e meu ambiente, longe daquele quarto que mais parecia leito de hospital. Além do mais, isso significava que tudo estava dando certo e eu ficaria boa logo!

Padrinho me levou pra casa de carro. Chegando lá, me calibrou um par de muletas, já que eu me recusei a usar cadeira de rodas, instruindo quando e como eu poderia me dar o luxo de andar nos próximos dias.

Ele adequou todos os ambientes para que eu pudesse me locomover com facilidade. Colocou uma cadeira baixa dentro da banheira no box do banheiro, disse que eu não poderia ficar em pé o tempo todo e nem deitar por completo, já que não teria ninguém pra me ajudar a sair. Deixou outra banqueta na área da cozinha para um descanso rápido em caso de dor inesperada e recomendou que eu colocasse o celular no bolso para que pudesse alcança-lo imediatamente numa emergência.

Como mimo, me deixou algumas comidas compradas pré-cozidas, facilitando minha sobrevivência alimentar. Também me informou que contratou um táxi para me buscar na quinta cedo e levar até a escola, mas disse que se eu fosse acompanhada até em casa poderia voltar caminhando mesmo. Ele me conhecia bem, sabia que eu não gostaria de depender de luxos ainda que debilitada.

– Obrigada por tudo, padrinho – sorri, abraçando-o carinhosamente

– E não se esqueça, aulas só quinta feira e treinos nem pensar! Vou ver o que posso fazer pra você manter a forma nesses dias, mas nada antes de semana que vem. – ele me segurava pelo ombro, fitando meus olhos seriamente – Os remédios são fundamentais pra sua melhora, não deixe de toma-los.

Apenas sorri e assenti a todas as outras recomendações que ele deixou. Fitei-o sair pela porta e acenei uma última vez quando ele saiu com o carro.

Eu poderia não ter contato nenhum com meus pais, mas tudo o que aquele cara fazia por mim era a melhor referência de cuidado paterno que eu tinha.

Passei o resto do dia de molho, escutando músicas e fuçando no computador. Recebi algumas mensagens dos meninos, mas escolhi não responde-las. Na verdade, nem sabia o que responder. No final do dia, Riko me ligou.

– Como está a paciente? – perguntou, e pude ouvir um barulho de vozes ao fundo.

– Melhorando – respondi fitando meu joelho enfaixado

– Que bom! Escuta, eu estou aqui na quadra e pensei em terminar o treino mais cedo para que pudéssemos ir aí te visitar!

– “Pudéssemos”?

– O time todo está doido pra te ver.

– Olha, Riko – suspirei, ponderando – Desculpa, mas eu não tô muito afim de socializar...

– Mas...

– Eu só... Quero ficar sozinha até quinta-feira, por favor – supliquei

– Se mudar de ideia é só avisar

Agradeci e nos despedimos. Não foi o melhor jeito de contar, mas pelo menos Riko iria comunicar aos outros que eu não estava muito pra conversa. Na verdade, eu tinha medo de duas coisas.

A primeira é de me tratarem com pena, como se eu fosse uma inválida. Claro que no momento eu era, mas isso não dá o direito pra eles me diminuírem, mesmo que sem a intenção.

A segunda é a minha raiva. Se eles fizessem isso, o que eu tinha quase certeza que fariam, eu não conseguiria controlar minhas atitudes e provavelmente deixaria alguém magoado, sendo a última coisa que eu queria.

Sendo assim, só me restou ficar sozinha por esses dois dias, tentando retomar a calma sem descontar em ninguém um problema que é meu. Afinal de contas, eu precisava me fortalecer internamente, precisava estar mais forte para acontecimentos futuros, já que minha vida estava repleta de desventuras em série.

Aos poucos, as mensagens pararam de chegar, para meu alívio. Pelo visto a notícia do meu isolamento havia se espalhado rápido. Porém, uma única pessoa não havia entrado em contato comigo, não que eu estivesse esperando. Ok, talvez um pouco.

Aquele inconsequente do Aomine não deu as caras, nem virtuais, desde o final de semana. Primeiro ele briga comigo, depois me beija, depois finge que nada aconteceu. Qual era a desse garoto? Sinceramente, eu não estava com paciência para descobrir. Talvez fosse melhor assim.

E assim o dia se passou.

Na quarta à noite, padrinho e Riko vieram até minha casa para checar meu estado. Boatos que eu e meu corpitcho estávamos arrasando na regeneração, ou seja, logo logo já poderia encarar uma quadra. Claro que não com a intensidade de antes, iria demorar até recuperar toda a minha força e depois teria que aumenta-la para dar conta do meu novo membro.

Mas, pra quem estava com cara de limão azedo, isso já foi o suficiente para adoçar meu humor um pouco e me proporcionar uma boa noite de sono.

Notas finais
Espero que tenham gostado, muito obrigada a quem está lendo, de verdade mesmo! :) https://youtu.be/PsO6ZnUZI0g Essa música até me surpreendeu, não sei de onde me veio Kanye West hahahaha