Fate
7 Between love and dream
Notas iniciais
A biblioteca encontrava-se escura. O vento passava pelas enormes prateleiras do local provocando ruídos altos e amedrontadores. Lenalee encontrava-se deitada no chão frio e rodeada por diversos livros jogados por todos os lados, naquele mesmo local onde escutara cada palavra que transmitira a dor, o medo, e também os sentimentos escondidos daquele futuro Bookman.
— Lenalee... – A chinesa escutou a voz sussurrando e aos poucos se aproximando.
Ela ouviu, porém não se virou para ver quem era. Não havia reconhecido a voz, contudo também não tinha forças para olhar para a pessoa que chegava cada vez mais perto.
— Ei... Vai acabar pegando um resfriado...
Ela escutou aquela voz novamente e percebeu o tom preocupado. Porém não conseguia agir de forma diferente. Sentia como se sua energia tivesse sido drenada. Tinha consciência de que estava causando preocupações, mas não conseguia encarar a realidade. E muito menos sorrir.
— Vamos para o quarto. Aqui está muito frio. – E a garota finalmente pôde ver Allen a sua frente, erguendo seu corpo e a tirando dali.
Os corredores pareciam sempre os mesmos, intermináveis e desertos. Os olhos, apesar de abertos, pareciam não a fazer enxergar o que estava a sua frente. E ela não soube afirmar com certeza quando pegara no sono; Sua alma parecia estar desacordada há muito tempo.
xXxXxXx
O dia amanheceu dentro daquele quarto que há muito tempo não via a luz do Sol. Com os olhos inchados ardendo de forma quase insuportável, Lenalee foi obrigada a se levantar. Ao seu lado, Mia ajeitava as cortinas ao lado da janela e abria os vidros fazendo uma suave brisa adentrar aquele ambiente abafado.
— Bom dia. Há quanto tempo não abre esta janela? – Perguntou a de cabelos rosados tossindo um pouco por causa do ar viciado daquele local.
A chinesa fitou com dificuldade a abertura por onde o ar e a claridade entravam e permaneceu em silêncio. Nem mesmo ela sabia a resposta. Não lembrava há quanto tempo estava se sentindo daquele jeito, sem forças e nem perspectivas.
— Vai fazer uma semana não é? – Mia comentou respondendo a própria pergunta.
— ... Eu não sei. – Lenalee respondeu com a voz rouca e perdida, que não saía há muito tempo.
— Foi ele mesmo quem decidiu assim, não foi? – Ela tentou falar num tom terno, mas que soava insegurança — Se continuar desse jeito vai acabar consigo mesma...
— ... Eu só estou me sentindo um pouco perdida... – A mais nova revelou.
Mia compreendia aquelas palavras muito melhor do que a amiga podia imaginar. Assim como Lenalee, a britânica também se sentira perdida muitas vezes, mas possuía alguém que a ajudava nessas horas de dúvidas e hesitação. Apesar de mais novo, Allen já havia provado há muito tempo saber usar as palavras certas na hora certa; E aos poucos a moça recordou-se da conversa que tivera com ele na mesma noite em que chegara a Ordem Negra.
*Flashback*
— Desculpe, eu te acordei? – Perguntou Allen que havia acabado de colocar a outra na cama e agora a cobria.
Mia olhava para a pessoa ao seu lado e depois para o ambiente em que se encontrava, deixando evidente a sua confusão. O corpo doía como nunca antes sentira e ela quase não conseguia se movimentar. Levantar-se parecia fora de cogitação.
— Você está no seu quarto; No seu novo quarto. – O mais novo explicou – Lembra-se de como chegou aqui?
Ela tentou recordar-se, forçando ao máximo a memória, mas sua última lembrança era a de Lavi gritando seu nome em meio a uma luta violenta. Depois disso, sua mente parecia em branco. Não se lembrava de como chegara àquele local.
— Lavi deve ter comentado algo sobre a Ordem Negra, não?
— Sim... – Ela respondeu depois de ouvir um nome que lhe era conhecido — Ele disse que precisávamos chegar a este local porque eu era uma compatível.
Allen assentiu com a cabeça.
— Sou um dos exorcistas da Ordem. Allen Walker. – E ele sorriu graciosamente — Muito prazer.
— Mia, muito prazer. – E ela sorriu de volta; Dois sorrisos muito parecidos em se tratando de amabilidade.
— Ainda é madrugada então tente descansar bem até amanhã.
Ele deu dois passos em direção à porta quando escutou seu nome sendo chamado.
— Allen-kun!
Mia levou uma das mãos à boca. Tinha mania de chamar as pessoas pelo primeiro nome e junto daquele sufixo. Mas neste momento lembrou-se de que havia acabado de conhecer o garoto à sua frente e de que não possuía intimidade nenhuma com ele.
– M-Me desculpe.
— Tudo bem, pode me chamar assim. – E ele novamente fez aquela expressão amável.
— E-Eu só... Queria saber se você o conhece há muito tempo... O Lavi.
— O Lavi? – Ele ficou alguns segundos pensativo – Faz algum tempo sim... – Ele respondeu não entendendo o porquê da pergunta.
— Sabe há quanto tempo ele está aqui? – Ela perguntou deixando evidente o seu interesse.
— Não... Quando me tornei um exorcista ele já estava aqui...
Os olhos que brilhavam com expectativas de repente apagaram-se.
— Sei... – Ela suspirou desanimada.
— Já conhecia o Lavi? – Perguntou Allen inocentemente, sem raciocinar muito sobre as perguntas que recebera.
Mia hesitou. Não sabia se poderia contar a verdade para ele. Mas uma parte dela sentia-se cativada pelo jeito do outro e desejava confiar naquela pessoa; Uma parte que predominou sobre ela.
— Eu não sei se conheço. Não sei se é a mesma pessoa que eu acredito ser. Mas... – Ela parecia não somente confusa, como também com vergonha de tocar neste assunto.
Allen lembrou-se de que Lenalee certa vez comentara que Lavi estava na Ordem há mais ou menos dois anos. Era apenas um dos incontáveis comentários que ela costumava fazer sobre o ruivo. Mas o de cabelos grisalhos não disse nada sobre isto à moça a sua frente.
— Era uma pessoa especial? – Ele enfim perguntou vendo o rosto dela tornar-se cada vez mais rubro. Sobre este assunto pode-se dizer que Allen entendia bem melhor do que vários outros; Um assunto sobre algo que ele também sentia e por isso compreendia.
Mas a outra não precisou responder verbalmente; Na verdade nem conseguia. O rosto muito vermelho já respondia por ela.
— Por que não fala com ele? – O garoto sugeriu.
— E se não for ele?
— Só vai ter certeza depois que perguntar, não é? – E ele sorriu como das vezes anteriores.
No meio da madrugada, Allen, que havia juntado aqueles diversos fatos após a conversa, ainda iria encontrar-se com Lenalee e alertá-la sobre algumas coisas já pressentidas por ele. Nas concepções de Allen, Lavi tinha alguma relação com aquela nova exorcista e certamente faria a chinesa ficar tão confusa quanto ele já estava. Mas na “hora H”, não foi o nome de Mia o pronunciado. Ao perceber a presença de uma pessoa andando em direção ao local onde ele e Lenalee se encontravam, um sentimento que era fruto de um amor inquieto o fez dizer o nome daquele que se aproximava.
“É melhor tomar cuidado com o Lavi”
*Fim do flashback*
— Tente se levantar. – Mia sorriu encorajando a outra – Você pode ter certeza de que ainda tem pessoas que podem te ajudar quando você fraquejar. – E ela estendeu a mão para a chinesa.
Lenalee olhou para a amiga e com um movimento lento segurou a mão que lhe era estendida, que a puxou até que ela estivesse sentada na beirada da cama.
— Eu tenho medo... – A mais nova confessou com um sussurro. – Ele disse que jamais se esqueceria de mim, mas... O principal problema não é esse... Há algumas coisas que são... De valor inestimável para ele... “A única coisa que importava” para ele...
— Coisas que podem ser vistas como rivais? – Mia perguntou lembrando-se da tal “decisão” de que Lavi um dia fez referência.
— Não... – Um longo suspiro foi solto por ela, como se tentasse conter as lágrimas que pareciam querer voltar. – Mas... Eu gostaria que fosse algo com o qual eu pudesse disputar... – E ela deu um sorriso amargo.
— E porque não pode? – A mais velha perguntou tentando animar a outra exorcista.
— Né, Mia... O que você faria se tivesse que escolher entre um amor e um objetivo... Que poderia ser chamado de sonho?
Os olhos da britânica abriram-se em surpresa. A boca, porém, continuou imóvel, ainda que seus pensamentos tentassem manifestar uma resposta.
— Eu não quero “aprisionar” mais ninguém. Não quero que ele tenha que sacrificar seu futuro como o meu irmão sacrificou o dele por mim... – Ela abaixou o rosto sentindo as lágrimas presas no canto dos olhos caírem — Por mais que eu pense, não consigo achar a resposta... Não seria egoísmo da minha parte ficar ao lado dele e fazê-lo ter que desistir de tudo aquilo que ele conquistou até hoje?
Lenalee olhou para a britânica que parecia perceber agora a real dor da chinesa; Uma dor que envolvia não só o presente. Parecia misturar-se a um passado marcado por decisões e abdicações por parte de Lavi e por um forte sentimento de culpa por parte de Lenalee. E também a um futuro que parecia traçado de forma que os dois jamais se encontrariam.
— Mas... – Mia começou com um pouco de receio depois de tudo o que ouvira. — Eu ainda acredito que você deve olhar para frente. Eu também tenho medo. Tive medo quando perdi minha família, tive medo de reencontrar o Lavi, medo de saber a verdade e de descobrir o que eu estava sentindo... Mas não precisa sofrer sozinha para achar a resposta... Eu também encontrei as minhas com a ajuda de outras pessoas.
Lenalee levantou o rosto. Os olhos ainda doíam com a luz do dia, mas pareciam aos poucos tentarem voltar a enxergar o futuro incerto de que Allen falara.
xXxXxXx
O garoto de cabelos grisalhos abria a porta de seu quarto ainda arrumando algumas mechas que teimavam em cair-lhe sobre os olhos, quando se deparou com Mia, que aparentemente o esperava do lado de fora.
— Falou com ela? – Ele perguntou.
— Falei. – Ela respondeu desviando o olhar dele.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer. Eu iria de qualquer forma, ainda que você não tivesse me pedido...
— E quanto a sua conversa com o Lavi aquele dia?
Ela soltou um longo suspiro.
— Cheguei a usar algumas palavras que você disse para mim. – A britânica fez uma pequena pausa recordando-se de momentos em que Allen havia a escutado e amparado e depois completou – “Uma trilha é algo que você cria enquanto anda” não é? – E ela mostrou uma expressão alegre.
A segunda vez em que Allen a amparou foi marcada por palavras que Mia nunca mais esqueceria. O momento em que Lavi mentira a ela e deixara-a confusa quanto a tudo aquilo que ela acreditava – ou pelo menos tentava acreditar. Uma noite em que o mais novo recuperou as esperanças dela com aquelas poucas palavras.
— Será que todos aqueles que passam a fazer parte desse lugar sofrem com esse tal de “destino”? – Allen suspirou com um sorriso irônico no rosto, muito diferente de todos os outros que já havia mostrado.
Os dois mantiveram-se em silêncio diante daquela indagação. “Destino” devia ser uma das palavras mais temidas por todos aqueles exorcistas; E agora também pelo Bookman Junior.
— Eu não entendo até agora porque o Lavi-kun decidiu assim. — Ela confessou.
Allen pôde ver nos olhos de Mia sua confusão e tristeza. Provavelmente porque nem mesmo ela acreditava que Lavi pudesse partir deixando aquela impressão de fuga.
— Se eu soubesse que ele ia terminar fazendo isso, eu teria... – Mas ele não completou a frase e virou o rosto para o lado.
Mas ela pareceu compreender o que ele tentava dizer.
— Por que não disse que gostava dela quando teve a chance?
— Talvez porque também não imaginava que o idiota fosse agir da forma que agiu. – Allen respondeu demonstrando uma ponta de raiva. Porém não sabia se era esta a verdadeira razão de sua hesitação – Nada disso estaria acontecendo se ele não tivesse desaparecido assim.
— Acho que teria sido melhor se você tivesse ido falar com o Lavi aquele dia.
E o garoto logo percebeu a expressão de culpa dela.
— Não sei se teria mudado muita coisa. A única diferença é que ele teria partido com um olho roxo.
Mia deixou escapar um pequeno riso. Não era sempre que o outro deixava escapar uma frase como aquela. Ela sabia que Allen gostava de Lenalee e que muito provavelmente muitas coisas mudariam caso ele confessasse a verdade. A chinesa era sem dúvidas uma pessoa muito próxima a ele e com certeza acabaria se sentindo confusa com uma confissão vinda de alguém tão ligado a ela.
Com a partida de Lavi, Allen teria mais chances de consolá-la e ser correspondido. Mas ainda assim ele mantinha-se em silêncio, respeitando aquele momento de sentimentos instáveis. Um fato que de certa forma fazia a britânica simpatizar com o mais novo.
— Pode não parecer, mas às vezes você é mais difícil de lidar do que o Lavi sabia? – E ela riu.
— É mesmo? – E ele soltou um riso enquanto começava a andar como se fugisse da pessoa que o fazia corar de forma inconsciente.
Sem pensar muito, a garota correu para alcançá-lo. A presença de Allen a fazia sentir-se segura. Aquele sentimento, que num primeiro momento causou medo e hesitação para ser compreendido, aos poucos ia ficando evidente para Mia, que tentava abrir um novo caminho desvencilhando-se do seu passado que parecia conter apenas uma pessoa: Lavi.
xXxXxXx
A neve caía incessantemente. Ao olhar para o horizonte, Lenalee observava a paisagem quase totalmente branca, tomada por aquele gelo que parecia ter um alcance tão infinito quanto o céu.
O primeiro reencontro aconteceu após três anos durante uma missão no norte do Alasca. Era uma tarde fria e totalmente nublada durante um inverno rigoroso. A neve que caía do céu sem vida parecia congelar tudo aquilo que tocava. E ironicamente Lavi encontrava-se coberto com esse gelo.
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