Fate
5 A cage called fate
Notas iniciais
Allen bateu na porta do quarto de Lenalee e esta de repente abriu-se sozinha. Hesitante, ele entrou vagarosamente no cômodo escuro e abafado. Próximo à janela por onde a pouca luz do final de dia nublado que entrava, encontrava-se a cama onde a garota repousava com o semblante notavelmente esgotado. Com passos silenciosos, ele aproximou-se da outra e fitou seus olhos inchados.
— Allen-kun?
Ele assustou-se com o sussurro e logo viu aqueles olhos se abrirem.
— Estava acordada?
— Estava sim. – Ela sorriu tentando disfarçar o cansaço e sentou-se na beirada da cama.
— Desculpe ter entrado assim...
— Tudo bem.
— Seus olhos estão inchados.
Ela desviou o olhar dele.
— Eu dormi mal nas noites passadas. – Lenalee disse tentando justificar-se.
Allen passou a olhar para fora da janela e viu que a lua já se encontrava visível no céu, fazendo-o lembrar de um cenário parecido visto com a chinesa alguns dias antes em Londres. Enormes nuvens cobriam o céu exatamente como daquela vez, mas não impediam que a luz da lua refletisse sobre os olhos dele.
— Por causa daquelas “feridas”?
A chinesa apenas abriu um sorriso triste, mas que surgia inconscientemente perante a compreensão do companheiro para com suas palavras.
— Talvez seja sim. – Ela sentiu uma pequena pontada no peito – É como se quanto mais eu pensasse sobre isso, mais feridas surgissem.
— Sobre aquilo que você me disse em Londres... – O garoto começo sem rodeios — ... Eu não vejo o fato do seu irmão estar hoje aqui, ao seu lado, como um aprisionamento. Ele veio até você por vontade própria não foi? Para estar perto de uma pessoa importante e viver ao seu lado.
Os olhos dela claramente refletiram a surpresa sentida ao escutá-lo e ela teve que se esforçar para não olhar para o outro e deixar transparecer sua dor.
— Mas não é somente ele... Parece que quanto mais importante uma pessoa é para mim, mais eu o aprisiono... É como se eu roubasse o futuro deles... Por causa desse destino que não me dá alternativas a não ser seguir em frente como uma exorcista...
Os dois ficaram em silêncio e duas lágrimas escorreram pelo rosto de Lenalee.
— Um dia eu também cheguei a pensar que o meu destino estava traçado. Mas agora... Eu acredito que o futuro é incerto para todos e é isso que faz com que nós tenhamos chance de mudá-lo.
Mais lágrimas brotaram dos olhos dela, mas desta vez não pararam mais. E a garota abraçou-o com força, agradecendo com aquele gesto pela falta de forças para transmitir em palavras tudo aquilo que ela sentia naquele momento.
Allen correspondeu ao abraço e, enquanto confortava Lenalee, escutou o barulho de uma porta ao longe abrir-se. Pelos passos, percebeu que se tratava de duas pessoas. E logo em seguida a porta fechou-se, fazendo o silêncio voltar a preencher aquele corredor.
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Lavi recordava-se da manhã daquele dia, quando, após um descuido de sua parte, acabou por ceder a um desejo que controlara durante muito tempo. Enquanto tentava espantar uma pergunta que o atormentava há algum tempo, sentia uma parte de si deixar escapar a realidade: a inexistência de arrependimento.
A pessoa que ele seguia subitamente parou e o fez voltar a realidade.
— Por que me trouxe até o seu quarto? – Lavi perguntou num tom sério e deixando transparecer certa irritação por estar com pressa.
— O corredor não era um bom lugar para falar sobre isso. E você divide o seu quarto com o Bookman, então aqui é o lugar mais nos garante privacidade no momento. – Repondeu Mia.
— O que você queria falar?
— Está tão consumido assim pelo ciúme por ela não ter aparecido no refeitório e Allen também não?
— Não enche. – Ele respondeu sem jeito e com o rosto corado que o denunciava.
— Se ela é tão importante assim porque não pode ser sincero e dizer isto para ela?
Ele hesitou um pouco, mas logo soltou:
— Não é tão simples quanto parece.
— O que te impede?
— A mesma coisa que me impediu de te contar a verdade.
— E provavelmente a mesma coisa que te faz me evitar.
Ele fechou os punhos com força.
— Eu fiquei muito feliz quando você veio me dizer a verdade em Londres... E tenho certeza que ela ficaria também ao ouvir a verdade sobre o que você sente.
— Eu tomei uma decisão há muito tempo. E com ela, há uma série de obrigações que me impedem de dizer e fazer muitas coisas. Foi uma escolha que automaticamente traçou meu destino.
Ao escutar aquilo, o olhar dela automaticamente mudou.
— No dia em que você me disse não ser a pessoa de dez anos atrás... Eu chorei porque senti como se tudo aquilo que eu acreditava tivesse se tornado uma grande ruína. Eu acreditava que o destino havia feito com que nos encontrássemos novamente e por isso também não me havia me permitido te esquecer...
Mia começou a sentir uma terna sensação que parecia vir junto com suas memórias.
— ... Mas naquele mesmo dia... Uma pessoa me disse que uma trilha é algo que você cria enquanto anda. O chão onde você pisa torna-se estável e isso é o que forma seu caminho; Um caminho que só você pode abrir e que não há nada que possa fazer isso por você. Nem mesmo o destino.
Lavi olhava para a moça, que agora tinha uma meiga expressão no rosto que lhe transmitia tranqüilidade. Aos poucos ele foi sentindo-se calmo e mais disposto a conversar com aquela pessoa que estava agora a sua frente e se dispondo a ajudá-lo.
— Então o que teria feito nós nos encontrarmos novamente? – Ele perguntou.
— A minha vontade de reencontrá-lo. – Ela afirmou com certeza.
Ele deixou um pequeno riso brotar dos lábios.
— Obrigado – Agradeceu ele pelas palavras que tentavam apoiá-lo — Você está melhor?
— Ah... Você se refere aqueles ferimentos? Sim, estou praticamente recuperada! – Ela respondeu com um sorriso inocente que fez o ruivo se sentir culpado – ...O que foi? – Mia perguntou percebendo a expressão do outro mudar rapidamente.
Ele a abraçou para não ter que encará-la e desta forma tentar conter as lágrimas de culpa que se formavam no canto dos olhos.
— Me desculpe.
— Ei. O fato de eu ter me machucado não foi culpa sua. O inimigo era muito forte, apenas aconteceu... – Ela falava um pouco assustada com aqueles braços que agora a envolviam.
Lavi hesitou. Sentiu-se covarde. E logo soltou aqueles pensamentos que ecoavam em sua mente e que, consumidos pelo medo da resposta, até agora não haviam se transformado em palavras.
— O que você faria se soubesse que eu não lutei com tudo aquele dia? E que, se não fosse por isso, você não teria se ferido tanto?
Ele esperou pela resposta que tanto temia. Ou talvez pela reação que transmitiria tudo o que Mia deveria ter sentido ao ouvir aquilo. Tinha medo, mas ao mesmo tempo se convencia a cada instante de que mereceria cada gesto e cada palavra de ódio e incompreensão vindos dela.
— Eu... Me perguntaria o que fez você ter que agir deste modo.
Ela já não conseguia mais segurar as lágrimas. Ele se surpreendeu com o que ouvira, mas ainda assim sabia que não podia revelar tudo, o que o fazia se sentir pior ainda.
— A decisão que tomei há muito tempo atrás... Foi isto que me obrigou a agir assim.
— E o que é mais importante para você? Essa sua decisão... Ou aquilo que você sente?
Lavi sentiu como se um tiro tivesse sido disparado contra seu peito. No fundo, aquela era a pergunta que sua consciência vinha fazendo para ele há muito tempo. Mas o choque de vê-la transformada em palavras soou para seus ouvidos como algo novo; como uma indagação surpreendente e nunca antes feita. Uma frase que ele temia por saber que ela significava ter que optar por duas coisas igualmente importantes para ele e por simbolizar certo egoísmo de sua parte por desejar os dois para si.
Mia tentava, mas não o compreendia. Entretanto, também não conseguia sentir raiva. Talvez porque um dia sentira algo pelo rapaz que ultrapassava a compreensão. E, de algum modo, também sabia que não receberia uma resposta revelando a verdade por trás de tal decisão. Ela retribuiu o abraço que parecia aos poucos sumir, consumido por uma mistura de temor e culpa.
— Prometa que vai dizer a verdade... Não para mim... Mas pelo menos para ela.
Ele tinha plena consciência de que não podia prometer aquilo. Contudo, maior do que o efeito daquele pedido sobre ele foi sua própria vontade de querer revelar a verdade para a chinesa. Maior até mesmo que a sua consciência sobre o sigilo dos assuntos que diziam respeito aos Bookmen.
— ... Prometo.
Algo de repente pareceu começar a ruir. Um ruído que começava ao longe e parecia estar se aproximando rapidamente. Um som que só Lavi conseguiu ouvir.
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