Fastio

29 A culpa que o consome


Notas iniciais
Pleitear: discutir, argumentar, exigir algo.

Estou equilibrando uma bandeja com chá à porta do quarto quando escuto a voz de Hao pleitear:

— Como pôde trair ela, otouto?! – Há raiva em seu tom e o calor que sai pela fresta da porta entreaberta é o prólogo para um desastre.

— Eu não planejei isso. Nunca quis magoá-la. – Estou prestes a intervir na discussão, quando Hao prossegue:

— Mas magoou. E abandonou o seu filho. Tudo porque achou que o mundo precisava mais de você. Que aquelas pessoas precisavam mais. Eu sou o maldito Shaman King. Não você.

Hao respira fundo e a temperatura no quarto cai.

— Gomene, nii-chan. – Yoh parece um cachorro abandonado e ferido. – Sei que está sobrecarregado. Sei que sozinho é difícil.

— Isso está em você, Yoh. Essa culpa. – Hao aponta para ele. – Escolheu abandoná-la e sua família por uma paixão qualquer. Por um mundo que não pode ser salvo. Os humanos o condenaram.

— Para tudo há um jeito. – Yoh sorri. — Cuide bem dela, nii-chan.

Engulo em seco, sentindo as mãos trêmulas quando Yoh ergue os olhos em minha direção, cheios de lágrimas e culpa.

“Eu sinto muito.”

Aquela memória me atravessa como uma espada. Eu não entro no quarto

com o chá.

Notas finais
Caramba, esse foi o capítulo mais difícil de todos para mim. Primeiro, porque eu pensei em narrar ele da perspectiva do Hao, e teria sido infinitamente mais fácil. Mas depois eu pensei que não faria sentido, porque o Hao não é o protagonista. A Anna é. E eu não queria deixar subjetivo o que ela iria sentir a respeito desta discussão. O negócio é que Yoh escolheu o mundo ao invés dela. Ele a amava - a ama - mas simplesmente não pode suportar que o mundo esteja sendo destruído sem fazer nada por isso. Hao é o Shaman King, onipresente e onipotente, mas o que Yoh sabe é que o irmão não pode intervir em tudo. Ele é um observador. Infelizmente, se tornar o Shaman King não significa que você pode mudar completamente o mundo. O livre arbítrio dos humanos ainda persevera. E Hao os odeia por ver o que escolhem fazer com o mundo. Eu não sei se a imagem que escolhi é um fanart, eu acho que sim. Mas ela é maravilhosa. Tem uma cena em Osorezan Que Yoh faz a mesma coisa. Ele coloca seus fones de ouvido sobre as orelhas de Anna quando ela está fora de controle e deixa a música do Bob (seu artista favorito) rodar. E isso abafa o som dos pensamentos e das pessoas. Eu acho que é uma das memórias mais lindas dos dois. E eu gosto de imaginar que Yoh a ama apesar de tudo. Mas que os dois não são compatíveis por seus ideais. O amor de Anna por Yoh é incondicional, e vice-versa. Mas os dois não podem ser felizes juntos. É mais ou menos da forma que eu vejo as coisas. Eu vejo Hao amando a Anna. Inicialmente, aquele desejo insano de tê-la como sua rainha por conta da força dela. Mas eu o vejo amando ela. Até porque, Yoh e Hao não deixam de ser a mesma pessoa. Os dois dividem o mesmo espírito. Como não sentir? Isso fica claro em algumas passagens do mangá pra mim. Enfim, se for uma fanart e alguém souber de quem é, eu dou os créditos. A culpa sempre consumirá Yoh, mas ele continua achando que Hao cuidará melhor da Anna. Pelo menos na minha fic. Essa memória eu quis colocar como uma forma de o Yoh demonstrar o carinho que sente pela Anna. Estamos chegando ao fim e eu me apeguei tanto com essa fic. Ela foi meu retorno para o mundo das fics aqui no Nyah, porque tem muito tempo que eu só trabalho no meu projeto de Arrow. Mas estou bastante satisfeita com a proporção e o resultado dela, mesmo sabendo que quase ninguém vai ler ou comentar. Só posso agradecer por aqueles que fazem isso. Me deixa muito feliz mesmo. Enfim. Até o próximo, mais perto do fim!