Fashion And Diamonds.
33 Capítulo 32 - Almost Christmas Part 3
Notas iniciais
–Flashback: Edmure, 7 anos atrás.-
Os gritos do papai ficaram mais altos na sala de estar, e eu pude ouvi-los com clareza de dentro do quarto de Albert. Devia ser a centésima vez que eles brigavam naquela semana, e ainda era quarta-feira.
Albert gritou alguma coisa de volta, e eu fechei minha expressão, abraçando os joelhos contra meu peito, sentado em sua cama. Bufei, do jeito que mamãe não gostava que eu fazia, mas nem liguei porque ela não ia ouvir. O quarto tinha o cheiro do perfume do meu irmão, e mais alguma coisa que eu não sabia definir, mas não era um aroma agradável. Talvez fosse o cigarro que ele fumava, ou outra coisa.
Papai não era um homem irritado, quase sempre ele era gentil e educado com todo mundo, e eu nunca o tinha visto irritado, porque mesmo quando ele “explodia” daquele jeito, nunca era na minha frente nem na dos pequenos. E agora estava se tornando muito comum ele explodir, Albert estava ultrapassando demais os limites nos últimos tempos. Eu tinha um medo gigantesco quando ouvia gritos do pai porque era assustador, aquela voz de trovão retumbando pelos corredores. Chris normalmente chorava mesmo sem entender, ou pelo menos eu achava que ele não entendia muito o que acontecia. Bryan não entendia nada mesmo, porque apesar de se assustar com os gritos, não falava nenhuma palavra, apenas olhava confuso pra todos, esperando alguma explicação.
Desde que Albert entrara na adolescência, pelo que papai dizia, ele se tornara um jovem problemático. Era teimoso, rebelde, irritadiço, gastão, bebia, fumava, e arranjava tantos problemas pro meu pai que eu entendia que ele era o errado. Estava sempre brigando, sumia por dias sem avisar ninguém e depois voltava estranho, tinha um péssimo gênio. Começou a beber aos 13 anos e com 15 assumiu que gostava de meninas e meninos, o que deixou a família de pernas pro ar, e demorei um bom tempo pra entender que ele ainda era o meu irmão mais velho, independente de quem ele namorava. Meus pais foram ainda piores, mas agora eles entendiam.
O verdadeiro problema do Albert era não parar nunca com aquelas atitudes idiotas.
“Por que fazer isso se sabe que vai irritar o papai...” Eu pensei quando ouvi ele gritar e não consegui compreender as palavras.
— NÃO DEIXE A SALA ENQUANTO ESTAMOS CONVERSANDO! — A voz de papai me atingiu, ainda mais forte que o normal, e eu estremeci. Provavelmente, Albert saíra da sala e eles estavam no corredor agora, por isso seria possível escutar melhor.
— ME DEIXA EM PAZ SEU VELHO SOVINA! — Albert respondeu de volta, no mesmo tom, e eu trinquei meus dentes. Não sabia o que sovina queria dizer, mas devia ser uma ofensa. Percebi que ele continuou a caminhar e estava próximo do quarto, porque quando meu pai o respondeu, sua voz tinha um tom baixo, ainda que feroz.
— Você vai se explicar. Albert, eu dou dois mil dólares por mês para você gastar com suas porcarias, o que é muito mais que o necessário para um jovem de dezessete anos, e você me gasta oito mil em uma semana. E não é a primeira vez, todo mês você gasta mais do que o...
— Cala a boca! Pelo amor de Deus, não aja como se oito mil fizessem falta pra essa família, nós somos milionários e você quer forçar todos a terem essa sua falsa humildade pra preservar a imagem de figurão simpático. Tenha dó, você nunca foi pobre e não tem direito de me negar esse dinheiro.
— Não fui, mas meu pai foi e me educou a valorizar as coisas. Agora com você eu falhei pelo jeito. O caso não é a quantia do dinheiro, é o que você fez com esse dinheiro.
Eu cobri minha boca com as mãos, surpreso. Oito mil dólares. Era muito dinheiro. Papai me dava sempre quinhentos dólares por mês, e eu nunca gastava mais de trezentos mesmo comprando tudo o que queria, guardando o resto. Mil já era uma quantia absurda.
— Comprei o meu caixão e paguei meu velório. Porque aí quando eu morrer você não precisa nem se preocupar com essas coisas, apenas comemorar de vez. Tenho pena dos meninos que ainda vão ter de passar por isso, mas se eles forem mais inteligentes eles vão morar com o vovô, pelo menos ele nos quer na família, e não...
Um estalo muito alto ecoou, e a voz de meu irmão cessou. Arregalei meus olhos, e mordi o lábio, percebendo que papai tinha dado um tapa em Albert. Meus olhos se encheram de lágrimas, e mordi meu lábio com mais força para não chorar, sem entender porque, e com raiva de não entender nada do que acontecia de verdade. Albert queria morrer? Eu não queria que ele morresse, só que parasse de agir daquela forma, não precisava morrer... Eu queria ajudar de alguma forma a resolver aquilo tudo também.
O silêncio após o estalo foi um pouco comprido, até eu ouvir um riso baixo, seguido de um grunhido.
— É a primeira vez que você bate em um de seus filhos... — Albert resmungou em tom de desafio, e ouvi ele fungar. Queria sair do quarto e vê-lo, e pedir que parassem, mas estava assustado.
— Nunca mais diga algo assim, ou verá a segunda vez. Vá pro seu quarto e não saia até que eu mande. Vai ficar sem dinheiro até começar a valorizar o que você tem nessa sua vida.
— Não vai me impedir de fazer o que eu quiser.
— Então tente passar um cartão bloqueado na próxima vez que for comprar algo. — Papai respondeu, e então ouvi Albert rir de forma curta e teimosa novamente. — Vá pro seu quarto.
Eu estremeci com a última fala, e nem mesmo Albert conseguiu ir contra ela. Eu saltei da cama, e enxuguei as lágrimas que quase caíram dos meus olhos, tentando parecer firme.
A porta abriu de forma violenta, e meu irmão entrou, batendo-a com um estrondo que doeu meus ouvidos. Eu me encolhi um pouco, assustado, e vi Albert de costas pra mim dar um soco com muita força na madeira da porta, encostando a testa nela em seguida, e choramingando.
— Velho desgraçado... — Falou, e percebi que ele estava chorando, o que me deu vontade de chorar também, mas engoli as lágrimas. Ergui uma mão trêmula com cuidado, e me aproximei dele com passos lentos, enquanto ele resmungava choroso coisas incompreensíveis.
Todo mundo dizia que eu e o Al éramos parecidos. Eu não achava. Ele era tão grandão, forte, com aquele rosto barbado e os olhos azuis. Eu era um magrelo baixo ainda, mal chegava na cintura dele, apesar dele dizer sempre que eu ia crescer logo e ficar maior que ele e tão forte quanto, não dava pra acreditar. Apoiado ali na porta, suas costas largas e tencionadas me faziam ter menos esperanças ainda de parecer com ele.
Coloquei minha mão em suas costas com cuidado e delicadeza, tentando passar confiança.
Eu não diria que o Albert era o meu irmão favorito, porque mamãe dizia que eu devia amar meus irmãos igualmente, e isso seria injusto com os pequenos. Mas Al era especial sim. Chris e Bryan ainda eram muito novos e não sabiam brincar de nada, só chorar e reclamar, então Al era o único que brincava comigo, apesar dele também ser muito próximo dos pequenos. Também depois que Chris nasceu, mamãe e papai tiveram menos tempo pra me dar atenção, eu entendia já que eles depois tiveram mais o Bryan e ele ainda era bebê, então era o Albert quem costumava ser o adulto que mais me dava atenção.
Eu ficava muito triste com todas aquelas brigas dele com o papai. Mas gostava muito dele, ainda que ele fosse o errado na maior parte do tempo.
— Ah, você está aqui anjinho. — Albert fungou e se virou quando o toquei, enxugando as lágrimas com as mãos fortes. Sua voz estava embargada, mas um sorriso gentil surgiu no rosto úmido. — O que foi hein? Já disse que não deve ficar invadindo meu quarto.
Ele dizia mesmo, mas nunca ficava realmente irritado. Todos os dias que eu via ele chegar, corria pro seu quarto para vê-lo, ainda mais com todas essas brigas que ele tinha com papai. Al podia fingir, mas também ficava triste quando brigava.
— Eu ouvi você e o papai. — Falei simplesmente, enquanto ele sorria pra mim, com as faces avermelhadas pelo choro e a pancada. Fingi não perceber que ele tinha chorado.
— Ouviu é? E o que você ouviu, hein? — Ele caminhou até sua cama e se sentou, batendo a mão ao seu lado pra que eu me sentasse. Antigamente, ele me pegava no colo, mas agora dizia que eu estava “grande demais” pra isso. Eu sentia falta.
— Você gastou dinheiro demais de novo. — Falei em tom sério, enquanto me sentava do seu lado. Albert sorriu e passou o braço em torno da minha cintura, me colando ao lado dele e puxando minha cabeça pro seu peito, onde ele a abraçou com cuidado, beijando o meu cabelo. Fiquei um pouco sem jeito, mas abracei sua cintura. — Oito mil é muito dinheiro. — Resmunguei.
Tentei soar o menos irritado possível, porque até comigo o Albert se irritava quando eu queria dar alguma bronca nele, e eu não queria deixa-lo mais irritado.
— Oito mil não é nada. Quando você tiver a minha idade, vai ver que gasta muito mais que isso. — Ele falou sério, e acabou me liberando, mas deitando minha cabeça no seu colo. Estiquei-me na cama e ergui o rosto pro dele, inclinado sobre o meu. Sua bochecha estava realmente vermelha pelo tapa.
— Com o que? Não gasto nem o dinheiro que o papai me dá. — Respondi, enquanto ele passava os dedos no meu cabelo, e me encarava com um sorriso. Não aqueles sorrisos felizes, mais um sorriso doído.
— Só pra você saber, eu gastei em festas. — Albert sorriu. — É difícil segurar dinheiro quando você é milionário.
— Deve ter sido uma grande festa. — Eu sorri, realmente admirado, daquela forma inocente e infantil. — Mas não vou gastar tanto assim quando for grande. Não quero que o papai brigue comigo.
— Não estávamos brigando, anjo. Só testando o nível de paciência do papai. — Albert sorriu, com os olhos marejados. — Não é muito dinheiro.
— O papai te bateu. — Respondi, e coloquei minha mão no seu rosto, sentindo vontade de chorar. — Eu não gosto que vocês briguem. O Chris e o Bryan também não, e a mamãe só chora...
E então, eu estava chorando. Droga, como eu era criança!
— Ei, ei, calma... — Albert abriu um sorriso tranquilo e limpou minhas lágrimas com aquela mão grande. Por que eu não podia ser grande também e limpar as lágrimas dele, e falar com ele sem chorar e resolver aqueles problemas? — Não fica assim, eu logo vou fazer 18 anos e então vou morar sozinho e as coisas vão se acertar... Aí vou trabalhar e ter meu próprio dinheiro e não vou brigar tanto com o papai.
— Mas eu não quero que você vá embora! Eu quero ajudar a resolver isso, pra gente voltar a brincar todo mundo e o papai parar de se irritar e você... — Falei alto, parando ao soluçar e chorando mais, e ele riu, voltando a limpar minhas lágrimas enquanto eu fazia uma careta de choro.
— Calma... Eu já não falei que você não pode chorar por qualquer coisa? Como vai cuidar dos pequeninos assim? — Ele passou a mão nos meus cabelos, e eu solucei, chorando mais. — Edmure, olha pra mim.
Abri meus olhos, mordendo o lábio para não choramingar. Droga, eu não queria parecer um fracote na frente do Al, nem sabia por que estava chorando daquele jeito.
— Sabe, eu sempre achei os olhos violetas do papai muito bonitos. — Ele acariciou meus cabelos. — Você tem os mesmos olhos. Então pare de chorar, e deixa eu olhar pra eles.
Mas eu acabei por chorar ainda mais com aquela fala.
—
–Atualidade-
— O que você está pensando? — Cotter sussurrou ao meu lado, e senti seu braço passar por meu peito, num abraço. — Tá sorrindo bobo.
Percebi que estava totalmente absorto naquela lembrança do passado, olhando pro teto do quarto de forma meio abobada. Mas era inevitável.
— Nada, lembrando do meu irmão quando éramos novos. — Sorri, me virando para ele na cama. Cotter estava com a cabeça sobre o meu braço esquerdo, de lado, e eu coloquei minha mão livre em sua cintura, ficando com nossos rostos separados por centímetros. A única iluminação vinha da janela que tinha as cortinas abertas, e deixava a iluminação do jardim entrar de leve, formando uma penumbra no quarto.
— Vocês parecem estar se dando muito bem de novo. É bom que tenham feito as pazes. — Ele bocejou, cansado, parecendo um felino. Eu sorri.
Jamais teria acreditado que Albert realmente queria acertar as coisas comigo em outra situação. Não confiava nele e sequer tinha a mínima esperança de ele voltar a ser meu irmão mais velho querido depois de tudo que acontecera e tudo que ele me falou. Mas aquilo tinha sido diferente. Era a primeira vez que ele assumia estar errado, e era a primeira vez que ele admitia que Henry era errado. Podia não parecer, mas era muito diferente.
E eu precisava acreditar que ele ia voltar um dia, não podia passar o resto de minha vida com medo do meu irmão. Além disso, tudo parecia estar dando tão certo depois daquilo. Vínhamos pouco a pouco nos relacionando melhor, mesmo com tão pouco tempo desde as desculpas, ele estava realmente agindo diferente dessa vez. E parecia um sinal que isso acontecesse agora, que eu sabia ser bissexual também. Era como alguma força superior me dizendo que eu não precisava ter medo, que agora eu poderia esquecer aquele passado e me reaproximar do meu irmão. Além de o Cotter também ter repentinamente aparecido pra aquela nossa viagem, algo que eu não esperava. Até mesmo coisas menores pareciam caminhar certas, por exemplo o quarto de hóspedes que Cotter devia ficar aquela noite ter acabado ocupado por todas nossas malas já que elas seriam enviadas num avião separado durante a manhã, e meu namorado acabar tendo de vir pro meu quarto.
Eram coisas pequenas, e algum canto da minha mente parecia dizer que eu estava sendo muito precipitado. Mas me pareciam, de certa forma, um sinal.
“Vai tudo dar certo agora, com o Cotter.” O sinal parecia me dizer. Como se aquele baixinho ali, nos meus braços, com aquele rosto bonito, fosse a solução de tudo. Como se eu devesse sair e gritar que estávamos juntos, e acabar com toda a homofobia do mundo.
— Estamos mesmo nos dando bem. — Puxei ele mais pra perto, colando nossos corpos. Aquela proximidade me passava alguma segurança, e fazia meu corpo exigir mais contato.— Obrigado por não dar uma crise por eu nunca ter falado dele antes.
Cotter revirou os olhos, e se moveu de leve, acertando o corpo para colocar a mão no meu rosto com leveza. Seus olhos brilhavam de forma divertida.
— Eu confio em você. — Sorriu, e acariciou minha barba de leve. Estava um pouco comprida, e eu teria de cortar logo. — Acho que vou pro meu colchão. Estou morrendo de sono, e se alguém entrar aqui...
— Eu tranquei a porta. Eu sempre tranco a porta pra dormir. — Falei, mantendo o tom baixo para não chamar atenção, colando mais nossos corpos para não deixa-lo sair. — Você não sabe a vontade que eu estou de abusar de você agora. — Brinquei, e ele fechou a cara, ficando sério.
— Nem pense nisso. Eu podia chamar a polícia só por essa sua fala. — Sem muita delicadeza, ele puxou de leve minha barba, e eu fiz uma careta de dor. — Não é hora pra isso, se fizermos barulho ou ficarmos parecendo muito cansados amanhã com certeza...
Eu interrompi a falação, claro, beijando-o. Às vezes, parecia que o Cotter pedia por aquilo.
Foi aquele beijo que não poderia jamais ser melhor. Que eu roubava quando o Cotter parecia muito teimoso, e ele retribuía tão automático que apenas mostrava que no fundo ele só estava dando uma de difícil.
Perdi-me naquele mar de sensações, que sempre fazia minha mente rodopiar, mas sem perder nenhum detalhe, nenhum toque, gemido contido, arranhão que ele me dava, a sua pele macia sob meus dedos, os músculos discretos sob ela, o sabor de pasta de dente na boca recém escovada, o cheiro do seu perfume, sua ereção sob o shorts largo do pijama. Tudo.
E claro que se intensificou totalmente quando eu acabei por cima dele, com os cobertores bagunçados em cima de nós, ofegando enquanto o encarava, e masturbávamos um ao outro por cima das roupas leves do pijama. Deixei meus olhos se perderem nos dele, e por algum tempo apenas o som de nossas respirações rápidas ressoavam no quarto enquanto mantínhamos o mesmo ritmo com as mãos, lento e provocante.
— Você não disse que não era hora pra isso? — Brinquei num sussurro, sorrindo torto. Cotter revirou os olhos para mim, e apertou mais os dedos em minha ereção.
— Isso é abuso sexual. — Ele sussurrou, enquanto eu fechava os olhos e jogava a cabeça para trás sentindo ele enfiar a mão por dentro do meu shorts e apertar minha ereção sem obstáculos. — Não faça barulhos.
Eu me joguei em cima dele, e mordi seu pescoço, ouvindo o pequeno arfar com a sensação. Nos últimos dias, eu andava meio descontrolado com a força desses toques.
— Vai depender de você, Cotter. — Sussurrei em seu ouvido.
E apesar de termos uma das melhores transas da minha vida, conseguimos passar sem acordar ninguém durante a noite.
—
— Eu juro que eu vou te matar. — Cotter resmungou enquanto caminhávamos pro carro parado na frente de casa, carregando as malas, as últimas que faltavam serem colocadas no carro para irem pro aeroporto, já que eu deixara pra guardar algumas coisas naquela manhã depois de Cotter ter dado uma bronca pela falta de elegância da minha bagagem. Eu levava duas malas grandes, com roupas o bastante pra não precisar me preocupar, e ele levava a mesma quantidade, mas suas malas Louis Vuitton eram bem maiores. Devia carregar pra ele, como cavalheirismo, mas Cotter realmente estava irritado e não ia aceitar.
— Já pedi desculpas! — Rosnei também em tom baixo, mas tentei não estressar. Apesar de minha orelha estar queimando pelo beliscão que meu namorado me dera há alguns minutos, e no frio parecia arder ainda mais. Cotter moveu os ombros desconfortável, fazendo o cachecol elegantemente enrolado em seu pescoço mover. Elegantemente enrolado para poder enrolar minha família.
— Desculpas. Desculpas. — Continuou a resmungar, satirizando de forma irritante. Ele ficava muito ácido quando estava irritado. — Desculpas não vão arrancar esse hematoma do meu pescoço. Era melhor não ter feito ao invés de macular meu pescoço no dia da viagem e depois se arrepender.
— Você não reclamou ontem de noite e... Ai! — Acabei gritando, ao sentir sua mala bater com força na minha coxa. Não doeu muito. — Ei!
— Desculpas. — Ele provocou, com um sorriso maligno, e baixou as malas ao lado do carro, no mesmo tempo que eu chutei um pequeno monte de neve na direção dele, atingindo sua perna. Ele se virou na minha direção, parecendo irritado. — Ah, pelo amor de Deus! — Ele colocou as mãos na cintura.
Mostrei minha língua pra ele e coloquei as malas no chão.
— Não seja chato. Ninguém vai ver, está frio mesmo, então você esconde com o cachecol. — Eu falei, e em seguida me aproximei e abaixei o cachecol para analisar o chupão que deixara no pescoço dele. — Bom, desculpe mesmo por isso.
Eram desculpas merecidas. Se antes eu nunca deixara nenhuma marca em Cotter, dessa vez eu tinha passado um pouco dos limites, deixando uma mancha rocha na curva do pescoço, com um rastro avermelhado e comprido do caminho onde raspei meus dentes em volta.
— Você escolheu um dia maravilhoso pra tentar furar minha artéria com os dentes, seu... Ai! — Ele gritou, fazendo uma careta e dando um safanão forte na minha mão quando por curiosidade eu pressionei o hematoma com um dedo. — Seu idiota, você não sabe que hematomas doem? — Rosnou, cobrindo novamente o pescoço com a peça de tecido verde, enquanto eu fazia uma careta de desculpas. Não achei que fosse doer.
— Desculpa! — Falei, mas recebi um soco forte no braço, enquanto Cotter me encarava com o rosto vermelho. Exclamei de dor e o encarei, sentindo certa irritação também.
— Se você fizer menos merda, não vai precisar pedir tanta desculpa! — Ele gritou, acertando mais um soco no meu peito, graças a Deus batendo de leve e não de forma séria. Mesmo assim, doeu um pouco, o Cotter parecia saber onde acertar para machucar sem precisar de força.
Abri minha boca pra responder, indignado com aquela agressão, mas a porta de casa se abriu com um estrondo e eu vi todos saindo lá de dentro, numa barulheira típica da minha família quando íamos viajar.
— Chega de gritaria, antes que eu corte a língua de vocês dois. — Ouvi meu pai exclamar, enquanto Chris e Bryan pareciam brigar sobre alguma coisa boba. Eles brigavam muito, coisa normal naquela idade.
Era estranho ver meu pai vestido com certa casualidade, ele praticamente vivia nas roupas do escritório, mas agora parecia muito mais um simples pai de família de meia idade do que um grande empresário. Tinha colocado tênis esportivos, calça jeans, uma enorme jaqueta marrom para se proteger do frio e um gorro de inverno daqueles que cobriam as orelhas. Estava engraçado, apesar de não feio, era muito difícil se vestir assim. Mamãe também estava agasalhada, mas não muito fora de seus padrões de vestimenta.
— Edmure, você vai com o Cotter no seu carro. — Ela anunciou, andando pelo calçamento e segurando na mão de Denna. — Eu e seu pai vamos levar a Denna e os gêmeos, o Albert vai com o Dacey e essas duas pestes! — Ela gritou, fazendo meus irmãos se calarem enquanto seguiam meu pai de forma apressada, apesar de não estarmos atrasados. Mas meus pais eram desesperados mesmo com essas viagens.
Ela passou por nós rapidamente, indo pro carro do meu pai, e dando um beliscão na minha cintura quando passou ao meu lado.
—Mãe! — Eu exclamei, saltando pro lado assustado. No frio, aqueles beliscos pareciam doer mais que o normal. — O que eu fiz?
— Cotter, não sei o que ele fez, mas vi você dar um tapa no cabeção, então já reforço que não deixe ele te encher. — Ela me ignorou completamente, mas se virou em minha direção, e deu um peteleco na minha testa, me fazendo exclamar novamente. — E você, seja bonzinho.
Eu arregalei os olhos, e não sabia se eu devia xingar ou rir quando ouvi meu namorado rir baixinho.
— Pode deixar Martha, o Edmure vai ficar bonzinho. — Respondeu, e minha mãe riu, toda feliz. Palhaça.
—Eia, nos vemos no aeroporto então! — Meu pai anunciou, enquanto passava por nós, acenando. Devolvemos o cumprimento, gritando despedidas pras crianças. Albert e Dacey saíram pela porta de casa, parecendo animados, enquanto o loiro carregava a gaiola onde levaríamos o Café, que latia feliz.
— Leve pelo menos o seu cachorro, já que eu vou levar os dois diabos da tasmânia no meu carro. — Albert disse sério enquanto Chris e Bryan iam pro lado dele, e eu fiz uma careta, pegando a gaiola das mãos de Dacey.
— Ignore seu irmão, ele sempre se estressa com viagens. — Dacey brincou com um sorriso doce, e eu retribuí o sorriso.
— Não estresso não, é que vocês enrolam demais. — Albert ajeitou seu casaco em volta do corpo, e também usava um cachecol. Perguntei-me se escondia algum chupão embaixo dele. — Está com tudo certo aí?
— Tá sim. — Cotter respondeu com um sorriso, e eu gostei de Albert sorrir de volta. Realmente, era a melhor hora pra colocar uma pedra sobre o nosso passado e começar do zero, assim como eu fiz com o Cotter, colocando uma pedra sobre nossas brigas e me apaixonando. Ia demorar um tempo, mas voltaria tudo a ser como era.
— Então ótimo, nos vemos no aeroporto. — Meu irmão me puxou pelo ombro e beijou minha testa, e em seguida fez o mesmo com Cotter, que corou. Ainda estranhava esses contatos, mas me lembrava dos tempos em que éramos muito próximos.— Tome cuidado na estrada.
— Vocês também. — Respondi, e em seguida me despedi dos pequenos e de Dacey.
Por fim, logo eu estava no carro com Cotter e Café, saindo pelos portões da mansão.
— Pronto pra isso? — Eu perguntei com um sorriso para a rua, colocando minha mão na coxa de Cotter. Ele soltou um suspiro.
— Não. — Respondeu, mas em seguida senti sua mão sobre a minha, num aperto carinhoso que aumentou meu sorriso. — Mas a gente dá um jeito.
— Foi mal mesmo pelo roxo. — Pedi mais uma vez, com sinceridade. Ia dar algum trabalho esconder aquilo.
— Ah Edmure, cala essa boca. — Cotter falou irritado e apertou minha mão com mais força, de forma repreensiva. Eu apenas ri.
Aquele seria um final de ano muito agitado.
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