Fase Experimental
26 Capítulo 26 - Yuri
—Acho que finalmente estamos completos. -disse ainda meio sonolento sentado na cama.
—Pelo visto sim. -Louise conseguia estar linda mesmo tendo acabado de acordar. -Será que algo diferente vai acontecer hoje? -ela parecia tão animada para essa hora.
—É quem sabe o jogo não fica mais emocionante, ou ganhamos novos níveis de dificuldade. -Lou fechou a cara para o meu sarcasmo. -Ei, também não precisa ficar assim. Vamos ver quem é o novato.
—Diria que é a novata. Já conversei com ela, a menina acordou cedão. -por isso ela estava tão bem, já estava acordada há algum tempo. -O nome dela é Diana, uma Argentina.
Era legal ver a casa cheia. Agora tínhamos metade do mundo aqui. Nesse período chegou gente da Índia, Egito, Suécia e agora Argentina. Tantos costumes diferentes e todos vindo pelos mesmos motivos. Acho que ser adolescente rebelde pode acontecer em qualquer país não? Eu e Lou tentamos ao máximo integrar a todos e mostrar como um time, mas nem sempre é fácil.
Christer, o sueco teve por exemplo sérios problemas ao chegar aqui. Digamos que o garoto é um tanto quanto preconceituoso. Não queria nem chegar perto de quem não fosse totalmente branco igual a ele. Não tinha sobrado muita gente pra ele interagir. Isso só melhorou no dia seguinte quando durante o desafio do dia ou andava com Dave ou perdia e seu espírito competidor era muito alto, o suficiente pra deixar seus preconceitos de lado e descobrir que não é porque alguém não é branco que significa que não é uma boa pessoa. Nesse dia imaginei se escolhessem um líder intolerante. No mínimo ia dar merda.
A mesa para o café da manhã estava completa e a comida vinha com mais facilidade. Boa parte do serviço pesado só aconteceu enquanto eu estava sozinho. Devia ser algo específico pra mim sabe? Algo como, um lider deve saber se virar em qualquer situação, o que não foi exatamente o que aconteceu, eu sofri bastante no início. Serviu mais para que eu perdesse peso por preguiça de comer. Agora nós tínhamos pão, uma vaca lá fora para tirar leite (inclusive reza a lenda que se você deixa o leite na pia no dia seguinte ele virou algum queijo), achocolatado em pó, requeijão na geladeira e um espremedor de frutas para fazer sucos mais fácil.
Porém nem tudo era mágico e fácil. A comida em si ainda tinha que ser conseguida. Dia sim dia não nossa tarefa do dia era conseguir mantimentos. Nos dividíamos de acordo com nossa habilidades. Enquanto alguns iam caçar animais silvestres, outros pescavam, outros colhiam, outros plantavam e outros pegavam água. Eu desde o início me dei bem com a pesca. Agora porém não precisava mais mergulhar no rio e pegar com as minhas próprias mãos. Nós colocávamos uma rede e esperávamos eles entrarem. Depois era só recolher e claro aproveitar um pouquinho o rio. Costumava ir com a Louise e esse era um momento onde podíamos estar só nos dois, o que fazia disso uma das melhores partes do dia.
A maior dificuldade que encontramos quanto a comida foi com Month, o egípcio, ele era vegano. Metade das coisas que comíamos ele rejeitava, nem mesmo o queijo servia. Tudo que usava tinha que ter certeza de não ter sido testado em animais e mesmo sua roupa não podia ter nem resquício de couro. Apesar de tudo o garoto era gente boa.
Hoje quando estávamos todos já prontos para nossa tarefa encontrei um bilhete na pedra de sempre. Minha cara de decepção foi óbvia. Íamos ter que trocar as tarefas de cada um e montar novas duplas/grupos. Fui escolhido para ir caçar com a novata da Argentina. Ela era uma menina bem bonita. Tinha cabelos loiros de praia, olhos azuis e pele queimada de sol. Engraçado é que não me lembro de ter praia na Argentina para ela ter tal visual, mas nunca fui bom em geografia.
—Hã... Onde você mora tem praia? -perguntei tentando puxar assunto.
—Claro, eu moro perto da praia de Miramar. Por quê? -acho que eu precisava fazer uns reforços nessa matéria.
—Você tem cara de ir muito a praia, sei lá. -como sempre eu me mostrava ótimo em conversas.
—Eu surfo, mas meus pais disseram que só surfar e sair de noite pra beber não vai me dar futuro. Tentei fugir de casa uma vez com meu namorado, mas não deu certo, meus pais viram a bolsa que eu estava fazendo e me puseram de castigo. -a garota era bem aberta às conversas e dei graças a Deus por isso, pelo menos o clima não ia ficar estranho. -Então, fiquei sabendo que você tá namorando com aquela garota.
—A Louise? -perguntei rápido demais.
—É, essa mesma a francesa né? -perguntou ela de uma forma desinteressada.
—Foi ela quem te disse isso? -eu definitivamente precisava saber esconder melhor minhas emoções, estava feliz demais.
—Não, mas ela só me falou de você. E disse que vocês estavam ficando, aí sei lá conclui que parecem namorados. Vocês são fofos. -ela deu de ombros. -É uma droga que eu já tenha um, tem uns garotos aqui que são bem pegáveis, mas bem meu namorado nunca vai ficar sabendo se eu pegar um deles.
—Ah... -a decepção na minha voz era clara. -Mas quem são os garotos? -perguntei tentando ir de vez para esse assunto, Louise tinha a obrigação de ter contado, não só ter comentado.
—Acho que um se chama Hunter, e o outro Diego. -a resposta era bem óbvia.
—O que esse Diego tem de demais? -ela não era a primeira a achar ele bonito, já tinha conversado com Hitomi uma vez e ela havia me confessado. Hunter é bonito pra qualquer um, até pra mim, mas o Diego eu não via nada mesmo.
—Não sei também, mas de certa forma ele é sexy. Algumas pessoas tem isso, diferente de você. -ela ri e logo para ao ver minha expressão. -Ei! Não fica assim, foi só uma brincadeira. Como a Louise te aguenta? Ela parece ser tão down to earth e você todo certinho.
—Pois fique sabendo que hoje fiz uma brincadeira e ela não gostou. -quem era ela pra dizer que eu era certinho demais?
—Claro, deve ter sido idiota e ela reprovou seu senso de humor. Eu faria o mesmo menino certinho.
Que absurdo essa menina chegar aqui já falando que eu era certinho. Tudo bem que outros já tinham me dito isso, mas ela me conhecia há o que? Três horas? O mais engraçado disso é que na minha escola sempre fui o engraçado e um pouco errado. Ou o pessoal da minha escola era chato demais ou eu precisava realmente voltar as minhas origens. Ia tentar pensar menos na hora de falar. Não quero ser o chato disso aqui.
Encontramos um grande cervo a nossa frente. Eu carregava uma faca e ela um arco e flecha. Mandei que atirasse por ser mais fácil de acertá-lo com uma flecha sem ele ver. Digamos que isso demorou um pouco. Primeiro tive que a convencer que não íamos o matar por maldade enquanto ela se recusava terminantemente a matar o cervinho fofinho. Foi uma longa conversa em sussurros para não espantá-lo.
Depois de muita enrolação a convenci de atirar. O resultado não podia ter sido pior. Depois de conseguir por a flecha no lugar ela puxou a corda e soltou. A flecha por sua vez caiu quase que nos pés dela. Eu tentando ser uma pessoa legal sorri e disse que tentasse de novo. Ótimo! A flecha tinha ido uns 20 centímetros mais a frente. Depois dessa eu cai na real. Era seu primeiro dia e não tinha tido nenhum tipo de treinamento. Se eu não jogasse a faca não teríamos comida.
Meu lançamento foi certeiro no olho dele. Não podia ter sido melhor. Até por que eu tinha mirado na cabeça e já que foi no olho eu estava no lucro. Claro que para a garota disse que meu alvo sempre foi o olho porque a carne fica mais macia e tal. Mentira é claro.
—Um dia eu vou conseguir atirar alguma coisa bem também? -perguntou ela fazendo biquinho e me abraçando. Cheguei à conclusão que ela era meio grudenta e me perguntei como seu namorado aguentava.
—Quem sabe? -eu não fazia ideia de quanto tempo essa nova leva passaria aqui antes de partimos de verdade para a ação. Claro que uns pegam mais rápido que outros, mas do grupo antigo ainda tinham aqueles que não dominavam as habilidades 100% imagina esse grupo se formos em uma semana ou menos. Tanto Turmalina, a menina Indiana quanto Hunter tinham noção de luta e tiro. Por outro lado Month, Christer e Diana eram péssimos. Mal podia esperar minha próxima conversar com o superior pra saber o que fazer, cada dia me sentia mais perdido.
Já era tarde quando todos nos sentamos em frente à televisão. Liguei-a num canal aleatório e mal pude acreditar no que estava passando. Pelo menos isso me fez descobrir que eu já estava aqui faziam quase seis meses! Fiquei em choque com a informação. Saí de casa dia 27 de dezembro e agora era maio e estava passando o Eurovision.
Vi que Louise e Christer também tinham se animado, era a competição mais famosa da Europa e todos queriam torcer pelo seu país. Os outros pareceram não entender nada, mas assistiram mesmo assim. Um pensamento engraçado me passou pela cabeça. Eu não tinha mais 16 anos, tinha feito aniversário mês passado e nem fiquei sabendo.
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