Fascínio
38 Você não!
Notas iniciais
Como era estranho observar minha casa e não se sentir bem-vinda a ela. Não havia vontade alguma de entrar lá, entrar no meu quarto ou tocar meu piano. A única coisa que me deixou receosa foi a respeito de ver como meu pai estava.
Era noite, todos dormiam há tempo. Eu poderia entrar sem ser vista com facilidade. Porém quando tentei entrar na casa era como se houvesse uma parede invisível que eu não conseguia passar.
Eu ri todo o caminho até a janela do quarto do meu pai. Eu teria que ser convidada para entrar naquela casa, na minha casa!
Escalei com facilidade até a janela do quarto de Henry e o vi deitado na cama. Ele não dormia como eu esperava. Ele encarava o teto sem piscar e se não fosse pelo leve movimento em seu peito eu diria que ele estava morto.
Ao menos não parecia doente. Parecia triste, perturbado, solitário e vazio...
Agora eu seguia para a cabana dos empregados, onde Finn morava. Sempre olhando para todos os lados caso uma daquelas vampiras surgissem e estragassem a festa.
Ouvi movimentos na mata que cercava a cabana e me escondi. Observei com atenção redobrada cada movimento e escutei cada ruído. Lá adiante estava Finn socando uma árvore. Toda vez que ele chutava ou socava a árvore ficava um bom tempo reclamando da dor antes de dar o próximo golpe. Seria engraçado se ele não estivesse com muita raiva e todo machucado. O que havia acontecido com ele? Parecia que havia tomado uma grande surra, principalmente no rosto onde havia cortes e hematomas.
Eu saí de onde me escondia e fui até ele. Assim que Finnick me viu puxou algo do bolso que eu não havia reparado antes. Uma arma! Ele apontou para mim e atirou. Escondi-me atrás de uma árvore bem a tempo.
– Finn! Sou eu! Anne!
– Monstro mentiroso... – Ele resmungou.
– Não... Por favor... – Mantive-me atrás da árvore com a testa escorada no tronco. Tenho certeza que se eu pudesse estaria chorando agora. – Por favor... Você é a única coisa que me restou.
Fechei os olhos esperando pela reação dele e por um tempo pude escutar o ruído do vento e os galhos se curvando ao seu sopro. Escutei a respiração de Finn e gotas de chuva que começavam a cair. Eram pingos fracos e espaçados.
– Anne. – Finn finalmente disse após um suspiro.
Eu saí devagar detrás da árvore com as mãos erguidas em sinal de rendição. Ele abaixou lentamente a arma ainda desconfiado. Aquela distância entre nós era esmagadora.
Não me sentia confiante por isso corri até ele antes que puxasse a arma novamente. Eu ainda não sabia controlar estas coisas. Em um piscar de olhos eu estava o abraçando, nossos peitos bateram com tanta força que quase o derrubei. O abracei enterrando meu rosto em seu peito, sentindo seu cheiro que me deixava com sede, mas ainda podia suportar. Sentindo seu calor acolhedor e seu coração batendo. Sorri quando ele correspondeu ao abraço. Ele também me envolveu com os braços e me apertou com toda força.
– Pensei que havia te perdido Anne. Eu juro que tentei impedir que ele te levasse, que você se tornasse um monstro... Mas não pude sozinho.
– Está tudo bem. – Me afastei para lhe mostrar um sorriso. Permanecemos com os braços enlaçados.
– Ele só te transformou e te largou solta no mundo?
– Quem me dera... Eu tive que fugir. Aquelas vampiras estão atrás de mim, é por isso que estou aqui. Preciso da sua ajuda para escapar da cidade.
Ele riu.
– Como vou ajudá-la?
– Bem... Vou precisar que entre na minha casa e pegue algumas coisas... Roupas, joias...
– E por que você não entra?
Apertei os ombros dele que ainda segurava.
– Ai! Me machucou! – Ele me empurrou me afastando um passo. – Você não mudou nada...
– Acha que se eu pudesse entrar lá eu já não teria feito? Primeiro não posso ser vista e, segundo, não posso entrar na casa dos outros sem ser convidada pelo dono, o que nos leva à questão de que não posso ser vista.
Finn revirou os olhos. – Por que você não hipnotiza seu pai...
– Não faria isso com ele! – Aquilo me ofendeu. – E eu não sei como isso funciona.
– Claro... Se soubesse você faria...
– Finn!
– Eu te ajudo! Mas o que eu ganho com isso?
– Sério? Vai mesmo negociar isso?
– Anne... Se você está fugindo significa que eles sabem que você está aqui. Logo eles vão chegar e não só eu corro risco de vida. Sem contar que quando descobrirem que fui eu que entrei no seu quarto e furtei suas coisas...
– Quer um seguro? – Chutei.
– Não. – Ele deu as costas para mim. Estava indo embora e sem muita escolha eu o segui.
– O que quer então?
– Que você me prometa algo. – Ele continuou andando. Sabia que ele queria que eu perguntasse o que era. Revirei os olhos (Finn e seu dramatismo!).
– O quê?
– Então você topa?
– Diga logo o que é. Não queira me ver sem paciência.
– Eu quero que você me transforme e me leve contigo.
Ri! Que idiota...
– Diga logo o que você quer!
Ele parou de repente. Disse ainda de costas para mim:
– Eu estou falando sério. Já que você não se tornou um monstro sem vontade própria, significa que eu tenho chances... E eu quero uma oportunidade de vencer aquele cara, mas como humano não tenho isso.
Ele estava mesmo falando sério!
– Finn... Eu não sei se...
– Quando você estava... Morta. O duque e eu fomos ao jazigo da sua família para matá-la antes que você se transformasse. Mas deu tudo errado... O conde apareceu, matou o duque e só não me matou porque... Bem, acho que estava com pressa. Mas desde então eu não consigo deixar de pensar que, se eu fosse um pouco mais forte, eu teria me levantado depois de todos aqueles golpes e continuado a briga ao invés de desmaiar como um idiota.
– O duque... Está morto?
Fechei os olhos absorvendo a informação. Agora era minha mãe, Kate e Alan. Se eu não tomasse providencias os próximos seriam meu pai e Finn. Finn já estava todo machucado, pois havia lutado com o conde.
– Sinto muito Finn... Não posso fazer isso com você. Mas eu posso lhe garantir outra coisa.
Ele se virou para mim e uniu as sobrancelhas. – O quê?
– Eu vou matá-lo. Vou por um fim nisso e vingar todos aqueles que ele já feriu. É uma promessa.
Finn pensou por um longo tempo até que assentiu. Foi um quase imperceptível aceno de cabeça.
– Ele a pegou não foi? – Me perguntou.
– Pegou quem?
– Katharine.
Arregalei os olhos. Será que eu devia contar a ele que ela estava morta por minha causa? Tudo aquilo era por minha causa! Alan, mamãe... – assenti, não podendo mais olhá-lo nos olhos.
– Eu vou pegar suas coisas para você. – Ele sorriu.
– Obrigada... – Sussurrei.
Finn se virou na direção da mansão. Já estava indo quando o chamei de volta:
– Espera! – Ele me olhou. – É verdade que meu pai está doente?
O sorriso de Finn desfez-se.
– Não precisa dizer nada. – Respondi por ele.
– // -
Finn escalou a árvore que ficava bem próxima à janela do meu quarto e entrou sem problemas. Eu subi na árvore após ele. Fiquei próxima à janela para ver o que ele fazia. Lhe dei instruções: onde ficava a mala, algumas roupas simples, e as joias – eu precisaria delas para ter dinheiro.
Enquanto ele pegava tudo e jogava dentro da mala encontrou algo que lhe chamou atenção: um cordão com um pingente de madeira talhado à mão.
Ele me olhou, nós dois pensávamos a mesma coisa. Lembrávamo-nos do dia em que ele me entregou aquilo. Nem desconfiávamos o que viveríamos depois...
– Tudo era tão simples quanto este cordão. – Ele falou.
– Me dê ele aqui. – Ele veio até a janela onde eu esperava. Coloquei o cordão assim que ele me entregou. – Agora nunca me esquecerei de você. – Sorri.
– Você vai mesmo tentar destruí-lo? Sabe que pode acabar morrendo. – A voz dele falhou na última palavra.
– É... Mas se der certo vou poder voltar a ser humana. Tudo vai ficar bem.
Ele assentiu. Uma lágrima escapou pelo seu rosto enquanto se inclinava para fora da janela e me beijava. Segurei seu rosto junto ao meu. Eu não precisava de um cordão para me lembrar de Finn, eu jamais o esqueceria, nem se quisesse.
Fale com o autor