Fascínio
17 Um amigo indesejado
Notas iniciais
Após o chute de Finn que não doeu tanto quanto eu esperava voltei para casa. Minha tristeza se multiplicou em mil quando eu vi Alan. Sinceramente, eu aceitaria ver qualquer um, menos ele. Meu pai e Alan estavam no meio de uma conversa animada quando entrei na sala. Alan se levantou quando me viu, mas eu o deixei de lado e fui para o estúdio sem dizer uma palavra. Após a discussão que meu pai e eu tivemos ele abriu o estúdio. Decidiu que me deixaria em paz por um tempo.
Não estava muito inspirada para tocar. Comecei tocando uma música que minha mãe me ensinara, sem me dar conta que a melodia ia ficando cada vez mais intensa, mais rápida e dramática então parei. Fechei os olhos para me concentrar e recomecei a tocar. Desta vez prestando atenção nas teclas que selecionava. Lembrando o som que cada uma fazia, a combinação perfeita. Então comecei a inventar notas, experimentando como seria juntar o som de duas teclas, três e até quatro. Cada som era puro e me envolvia em uma corrente aconchegante.
Como aquele idiota do Finnick e aquela garota feia pensaram que poderiam fazer aquilo comigo e eu ficaria quieta? Não vou me entregar a meu pai, mas vou encontrar uma maneira de me vingar. Também vou descobrir como que minha mãe havia... Aquela não era minha mãe, não podia ser.
O que mais me magoava no momento era que Finnick não acreditara em mim. Eu nunca esperei isto dele. Eu acreditaria nele!
Comecei a bater nas teclas do piano com punhos fechados tentando descontar minha frustação. Desisti de tocar e escorei meus braços sobre o piano onde escondi meu rosto para poder chorar. Tudo estava tão errado...
Não sei quanto tempo fiquei ali, aos poucos a sala escureceu até a penumbra ser total. Uma voz vinda das sombras me assustou fazendo-me sentar ereta:
– Um belo lugar para se esconder. – O conde observou.
Virei-me para encará-lo, vi sua silhueta escorada na parede perto da porta. Ele estava com os braços cruzados e sabia que se pudesse ver seu rosto sua expressão seria um sorriso petulante que se encaixava perfeitamente com seus olhos irritantemente belos. Mas não estava com ânimo para aturar cantadas naquele dia.
– Vá embora. – Disse.
Ao invés de sair ele se aproximou de mim, até que a luz da noite tocou seu rosto.
– Quando minha esposa morreu não tive tempo para ficar de luto. – Começou a contar. – Eu fiquei tão arrasado, com tanto medo que fui procurar ajuda com um amigo e meu “amigo”, bem ele... Ele me traiu. Não vou lhe explicar sua traição, mas foi bem desagradável. Porém serviu para me distrair o suficiente para eu não ficar triste e sim com raiva.
– Você a amava. – Tive a necessidade de dizer. A forma como ele falava dela... Por um instante senti inveja daquela mulher.
– Sim. Mas não foi por isso que lhe contei isto. Só acho que não devia ficar com raiva. Quando estamos nervosos fazemos coisas estúpidas, muitas vezes irreversíveis.
– Não estou com raiva. – Voltei meu olhar para as teclas do piano.
– Você mente muito mal.
– É só que... – Queria contar a ele o que estava acontecendo comigo, mas ele me acharia uma louca e uma vagabunda. – Muita coisa aconteceu depois que ela morreu. E algumas são difíceis de suportar. Não estou preparada para nada disso.
– Eu sei... – Sua voz era bondosa, isso não combinava com ele.
Sorri para ele ainda assim. Mesmo no escuro podia ver que ele estava mesmo triste por mim.
– Se você... – Ele pigarreou. – Se quiser alguém para desabafar, um ombro para chorar, ou apenas a companhia de um amigo. Pode me procurar sempre que sentir vontade.
O encarei procurando uma ponta de maldade naquela proposta, mas ele ainda me olhava com compaixão. Então assenti.
– Obrigada. – Não era o amigo que eu esperava, mas era o que eu tinha agora. Parecia que todos no universo haviam virado as costas para mim.
O conde assentiu e antes que saísse lhe perguntei:
– Como ela era?
Ele olhou para mim por um longo tempo até decidir o que dizer:
– Indescritível. – Me deu um sorriso triste e saiu deixando-me sozinha. Respirei fundo.
Voltei a tocar o piano no escuro só então sentido meu coração acelerado. A presença do conde sempre me deixava nervosa e eu sempre me dava conta disso quando ele já estava se afastando.
– // -
À noite, acordei suando por causa dos pesadelos. Meus sonhos haviam se fundido com o terror que eu passara no cemitério. Agora, além de sonhar que estava me afogando, eu sempre via minha mãe/demônio nadando na minha direção, sorrindo e pronta para rasgar minha garganta com os dentes.
Fiquei um tempo acordada, olhando para o teto. Se minha mãe verdadeira estivesse viva eu poderia dormir com ela e assim deixaria de ter pesadelos por aquela noite. Pensei no conde e em sua proposta. Agora eu entendia que era uma proposta falsa, ele dissera aquilo para fazer eu me sentir melhor. Naquela hora eu queria tanto um amigo que realmente a considerei...
Escutei o som de portas batendo muito forte. Eram as portas do galpão que mesmo distante da mansão, o som chegava ali. Quem deveria ser? Finnick? Ou alguém as esqueceu abertas e o vento agora as batia. Como não queria ficar na cama arrumei isso como desculpa para sair.
Fui até os estábulos, acreditando que o foco do som era lá. Enquanto me aproximava ouvia os relinchar e o som de cascos batendo com força no chão. Os cavalos estavam agitados. Corri e abri as portas agora fechadas com dificuldade. Lá dentro estava escuro, tudo que enxergava era o brilho dos olhos dos animais. O som que eles faziam estava machucando meus ouvidos.
Vi algo se mover nas sombras. Os pelos de minha nuca se arrepiaram.
– Que... Quem está aí? – Gaguejei.
A criatura deu um passo saindo das sombras. A frente de seu vestido estava ensanguentada, a mulher arrastava um corpo sem cabeça pela gola da camisa. Ela sorriu mostrando os dentes pontudos, sua boca suja de sangue.
A escuridão tomou conta da minha mente e quando voltei a enxergar novamente estava em meu quarto deitada na cama. Mais uma vez havia sonhado com minha mãe/demônio.
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